Good Nightmare
6 Leis de Newton
Notas iniciais
Eu acho que já disse várias vezes que preciso pelo menos ganhar uns musculosinhos pra me defender, porque tá tenso.
Lá estava uma figura franzina sendo carregada no ombro de um armário de cabelos ruivos até uma BMW preta.
Vai por mim, é uma das piores coisas que existe, a menos que você goste de mostrar sua bunda para meio mundo.
– Desnecessário isso, Eric. Desnecessário... – Minha bunda virada para o meio da rua e meu rosto batendo nas costas dele. William ainda me observava se afastar encostado em sua porta com um sorriso nos lábios.
Cretino odioso.
Vamos às explicações.
William abriu a porta e vimos que era Eric, todos nós nos sentamos para tomar um chá delicioso e assistir um ótimo programa no domingo.
HAHAHAHAHAHA no.
Eric me viu com as roupas de William, quase enfiou uma porta nele, invadiu a casa dele, pegou minhas roupas e me colocou com delicadeza extrema em seu ombro aproveitando para se despedir de William com um empurrão no peito. Tudo isso com leves pitadas de xingamentos.
Fui jogada no banco do passageiro e rapidamente ele deu à volta no carro logo dando a partida.
Eu acho que o meu professorzinho nem mesmo se preocupou com toda a história.
Mas enfim.
– Por que inferno você foi parar ali?! – Gritou um ruivinho enlouquecido.
– Eu desmaiei no meio da festa, idiota! – respondi-o no mesmo tom – se não estivesse tão ocupado com aquelazinha teria me achado!
Bati o punho com força no apoio para braço.
Ai!
Terceira lei de Newton: ação e reação.
Por um momento ele se acalmou e conseguiu respirar direito.
Alguns segundos depois, ele perguntou.
– Mas vocês... Não... – Ele não conseguiu terminar a sua pergunta.
Virei o rosto lentamente para olhá-lo esperando que continuasse.
Ele parou no semáforo e senti que ele achou que eu tinha entendido a pergunta. Alguns segundos passaram e notei seus dedos apertando o volante cada vez com mais força.
Nós...?
Hm...
AH! Saquei...
O QUE?!?!
– NÃO! – Ele relaxou no banco.
O resto do percurso inteiro foi feito em silencio.
As pessoas acham que sou muito inocente ou muito puta mesmo.
Assim que chegamos a minha casa, Eric me acompanhou até a porta.
Peguei a chave debaixo do tapete e ele me olhou com uma sobrancelha arqueada.
– Acho que já sei onde assaltar quando precisar de dinheiro. – Disse sorrindo.
– Vai acabar gastando mais dinheiro com a gasolina para chegar aqui do que o dinheiro que vai encontrar. – Eu já ia fechando a porta na cara dele quando me lembrei de um pequeno detalhe – como sabia onde me encontrar?
– Um amigo meu falou que tinha visto ele com uma garota no mesmo perfil que o seu. Como eu não te achei aqui na sua casa sabia que estava lá com ele.
– Ok. Adeus. – E então encerrei nossa conversa.
Subi as escadas sem me preocupar em ser vista, já que nessa casa cheia de preguiçosos, ninguém levantaria sete horas da manhã.
Arranquei as roupas de William e joguei em algum lugar. Coloquei minhas roupas para lavar e vesti meus pijamas.
Estiquei-me em minha cama e li as mensagens de Brenda. Coloquei o celular para me despertar lá pelas dez horas já que os meus domingos sempre são animadassos e me deitei confortavelmente para dormir.
Meu cérebro voltou a funcionar normalmente depois de todos aqueles momentos, e bom, Eric havia vindo aqui em casa. Provavelmente meu pai ou meu irmão não devem ter estranhado um cara como ele aparecer aqui em casa me procurando e não me achar quando nenhum deles sabia onde eu estava.
...
Vish.
...
To fudida.
[...]
Passei o dia inteiro trancafiada em meu quarto, dando umas escapadinhas para pegar algo para comer e beber. Meu pai e meu irmão já haviam dito o meu castigo da semana em umas três línguas. Não, isso não é um exagero.
Durante o dia inteiro eu copiei as minhas tarefas de algum site da internet – por isso eu amo a internet, terráqueos – e fiz uma coisa muito perigosa.
Eu comecei a ler o livro do meu professor de matemática.
Me julguem.
Eu queria muito ler esse livro e ninguém tinha ele para me emprestar. E eu sou muito rica para comprá-lo que tive dó.
E esse foi o meu dia maravilhoso.
[...]
Mais uma vez levei Ian para o atraso comigo.
Corria pelos corredores intermináveis para alcançar minha sala que parecia que ficava no cu do inferno.
Por impulso, abri a porta da minha sala com tudo.
A porta se abriu, todos me olharam assustados.
Primeira lei de Newton: inércia. Todo corpo tende a permanecer em movimento ou em repouso a não ser que uma força atue sobre ele.
Abri a porta com toda força do mundo. Ela se abriu, bateu na parede e voltou com a mesma intensidade na minha cara.
[...]
Acordei sentindo uma forte dor em minha cabeça. Brenda me olhava preocupada segurando alguma coisa extremamente gelada em minha cabeça.
Não demorou muito para eu racionar onde estava e como fui parar nesse local.
Lembro-me de chegar atrasada, fazer uma beldade na porta e ela se vingar de mim. Reconheci estar na enfermaria do colégio. Logo deduzi que alguém havia me levado para esse lugar.
Parabéns, Olivia, merece um biscoito.
Assim que olhei para Ian, vi o quanto ele estava segurando uma risada enquanto Brenda o triturava com o olhar.
– Mas você é mesmo uma anta guria. – E com essas belas palavras capazes de motivar o dia de um virgem de cinquenta anos Brenda me motivou.
– Não foi culpa minha, foi da porta. – A respondi sentando-me na cama e segurando o gelo em minha testa.
– O que seria de um mundo sem você, Olivia? – Perguntou Ian sorrindo.
– Normal... – Disse. Depois de alguns segundos nos entreolhando, comecei a imaginar a cena. Provavelmente todos teriam rido e depois que perceberam que eu continuava deitada no chão, certamente me acharam uma idiota.
Meus risinhos bobos começaram a preencher o local.
[Five seconds later]
Nós três já não nos aguentávamos em pé de tanto rir.
Depois de um longo tempo lágrimas já escorriam em meu rosto, minhas bochechas e minha barriga doíam – assim como a minha testa também.
A enfermeira me liberou para a aula, visto que eu estava bem já – infelizmente, eu deveria ter entrado com mais força ainda para ficar desmaiada do dia inteiro.
As três primeiras aulas passaram entediantemente devagar. Alguns ainda riam de mim, mas não ligava.
Pedia ajuda a alguns nerdões sobre determinadas coisas e em alguns momentos da aula, eu simplesmente dormia.
Assim que o sinal do intervalo tocou, observei a namorada de Ian se aproximando da nossa bolha.
Essa garota me causa ânsias.
Menininha fútil.
Ela passou boa parte do tempo conosco, na verdade, com Ian porque a nossa presença não afetava o sexo que ambos faziam com a língua.
Estávamos no meio do pátio.
Ian encostado com as costas em alguma árvore conversando empolgantemente com Brenda enquanto eu boiava deitada com a cabeça nas pernas do meu melhor amigo prestado toda a minha atenção nas pequenas nuvens que haviam se formado hoje.
A namoradinha de Ian lançava flechas sobre mim. Era uma intimidade que ela nunca teria com ele. Morra sua plasma de micróbio de bactéria reprodutora.
Rapidamente meus olhos foram desviados a outra figura um pouco, talvez muito, mais intimidante.
Lá estava o educador responsável por ensinar matemática aos alunos do ensino médio, encostado na janela bebendo seu café matinal enquanto seus olhos me queimavam.
Pisquei várias vezes e me sentei. Pausei minha música e arrastei meu olhar de volta à janela do terceiro andar.
A cortina havia se fechado.
Bater a cabeça hoje fez alguma coisa muito grave com o meu cérebro.
Voltei à minha posição inicial e aumentei minha música para me desviar de qualquer coisa. Fechei os olhos para aproveitar a música.
Não demorou muito para uma sombra surgir escurecendo a minha visão.
Abri meus olhos e dei de cara com um William vestindo uma camiseta preta que continha uma frase que não identifiquei, e claro, com o seu famoso sorriso nos lábios.
Ian o olhou desconfiado enquanto Brenda o olhou chocada.
– Posso roubar essa criatura maravilhosa de vocês?
Os dois confirmaram com um sim meio duvidoso. Levantei ajeitando meu cabelo e o acompanhei.
Motivo: curiosidade em excesso.
Caminhamos em silencio até a minha sala. Ele a abriu e ficou me encarando.
– Pega a sua mochila. – O obedeci entrando e jogando tudo dentro da coitada já desgastada pelo terceiro ano de uso. Comprei-a no nono ano e desde então virou minha queridinha. Era uma das únicas meninas a usar mochila ainda. Coloquei sua alça sobre um de meus ombros e voltei para William.
– Preciso daqueles exercícios. – Meu cérebro sofreu um leve pane e depois minhas engrenagens voltaram a girar. Procurei a pasta branca dentro da minha mochila e o entreguei.
– Espera – continuei procurando e entreguei em suas mãos a roupa que havia me emprestado.
Ele segurou com indiferença e voltou a me olhar, rapidamente começou a rir do calo que havia se formado mais cedo.
– Haviam me contado, mas ao vivo é bem melhor! – Ele voltou-se para mim – amanhã terá uma reunião, você vai ter que estar aqui seis horas da manhã.
– Nossa Hoffman, como você está comédia hoje. – Fingi um riso.
Assim que parei de rir, percebi sua mandíbula trincada e seu olhar sério.
– Você está falando sério?
– Foi fácil me xingar na frente de uma sala de aula inteira, não? – Perguntou sarcástico se afastando.
Maldito.
Não te xinguei, só mandei você se foder.
– Aonde você vai? – Perguntei observando suas costas enquanto ele se movia.
– Para casa, ainda tenho mais hoje para me recuperar.
– Recuperar do que? – Gritei.
Ele parou de caminhar. Percebi os músculos das suas costas se enrijecerem.
Ele me olhou de uma maneira que nunca havia olhado. Eu senti algo por ele que nunca havia sentido.
– Eu estou em luto, Olivia.
Ele virou no corredor sumindo de minha visão.
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