Notas iniciais
Não importa quanto dinheiro tem no bolso, mas por acaso sabe atirar? Eu espero que sim, pois vou te matar.

Renata acordou na manhã seguinte se perguntando se aquilo foi ou não um sonho. Após ficar alguns minutos sentada sobre os lençóis de sua cama chegou a uma conclusão, que não conseguiria pensar de estômago vazio, então se levantou e foi para a cozinha, ao chegar lá deparou-se com uma mala cinzenta e em cima dela havia um bilhete. Na mala havia muito dinheiro, no total havia cem mil reais em ouro, dólar e euro, talvez até mais do que isso. O bilhete que acompanhava a mala dizia:

Para: Mamãe

Eu não sou de prometer e não cumprir minhas promessas.

Use o dinheiro da mala para quitar suas dívidas. Os números das contas e os cartões são das contas que abri para as gêmeas. O número do telefone é de um médico estrangeiro perito no assunto, eu pedi e já paguei para ele tratar de minha irmãzinha que tive o prazer de conhecer ontem, detalhe ELE NÃO COBRARÁ NADA, nem um copo d’água ele pode te tirar.

Beijos:

Sua princesinha

P.S: Ainda há uma 2° conta com R$500.000 para você. Gaste esse dinheiro com o que você quiser, talvez outra casa e mobília, eu sempre achei essa casa muito pequena.

Ao ler aquele bilhete, uma sensação alastrou por Renata, não sabia ao certo se era medo, tristeza ou alegria. Ela sempre sentiu que sua filha não havia morrido, agora tinha certeza disso. Era impossível dizer o que havia acontecido com ela ou até mesmo saber onde estava, mas ela sentia, e depois da noite passada, sabia que sua filha não estava morta.

Através de seus contatos, Evening descobriu quem havia matado seu pai, era um agiota que basicamente mandava na cidade, ele andava pelas ruas da cidade com um ar de rei, mais um motivo para Evening corta-lhe fora a cabeça.

Ela sabia jogar, sabia e conhecia todas as técnicas e macetes para ganhar milhões numa noite, mas estava ali para perder, não só um pouco de dinheiro, mas sim uma fortuna, que viria do bolso daquele que Evening queria tanto conhecer. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde ela iria conhecer, para isso não precisava esforço, sabia muito bem o que a ganância e a cobiça são capazes de fazer.

Ela jogou a noite inteira, ganhava quinhentos reais por exemplo, e logo em seguida perdia o triplo, recuperava esse dinheiro, ganhava três mil logo em seguida, e depois perdia o quádruplo, jogou assim a noite toda, os seguranças vieram lhe perguntar pela manhã quando ela iria pagar, ela disse que em três dias teria o dinheiro e foi embora, parecia tão bem vestida e tinha o ar de ser tão rica que por esse motivo eles a deixaram ir embora facilmente.

Durante o dia ela se preparou, pediu a alguém de confiança que dissesse à “sua próxima vitima” que iria embora da cidade de madrugada, ela havia descoberto que o nome do agiota era Juan. Evening já havia pensado mil maneiras de dar fim àquele agiota, até que por volta das oito horas da noite os seguranças vieram buscá-la, ninguém da recepção tentou ao menos impedir a entrada deles, já que sabiam que aqueles homens eram perigosos, por que deveriam? Voltando a Evening, ela exalava bebida, falava e parecia até pensar como uma bêbada, vestia um casaco enorme, luvas ao seu gosto e calças um tanto grossas. Colocaram-na no banco detrás do carro onde os seguranças haviam vindo, para que ela não visse nem falasse nada, tamparam seus olhos colocando uma venda e fecharam sua boca com fita isolante. Ela sabia exatamente onde estava, já havia analisado cada mapa daquela cidade durante os dias em que chegou ao Brasil, é importante sempre ter uma rota de fuga.

A casa ou escritório do agiota ficava fora da cidade, uns 20 ou 30 quilômetros, seria fácil voltar correndo, assim pensava ela, falando nisso, ela estava bêbada (fingia). Os seguranças a carregaram até uma sala no terraço de um prédio de três andares, sabia que era no terceiro andar, pois podia sentir que o segurança pisava nos degraus de uma longa escada. Quando chegou ao terraço tiraram a venda, a fita e a jogaram no chão. Um homem com estatura mediana, mais anéis do que dedos, correntes de ouro e terno cinza lhe dirigiu a palavra:

— Seja bem vinda minha senhorita, me chamo...

—Juan?! Estou certa?

— Bem, sim você está certa.

O agiota e Evening jogaram um pouco de conversa fora, até que ele realmente falou sobre a questão que queria tratar com aquela mulher.

— Então, quando vai me pagar?

— Em dois dias.

—Mentira, um passarinho me contou que você iria embora da cidade esta noite.

— Você disse pagar? Disse ela sentando-se no enorme sofá a sua frente.

— Isso mesmo, pagar! Eu lhe emprestei o dinheiro, agora o quero de volta. Ela pegou um resto de dose de whisky que estava ao lado do sofá.

— Perdão, estava com a garganta seca. Voltando a nosso assunto, NÃO VOU LHE PAGAR!

—O que? Disse ele incrédulo — Além de bêbada ainda é doida, sabia que eu posso te matar agora mesmo?

— Duvido muito.

Juan estralou os dedos e um de seus capangas colocou uma faca em sua garganta, Evening apenas olhou para cima.

— E agora?! Ainda vai continuar com essa ingratidão?

— Não sou ingrata... Só não vou pagar.

— Chega!! Ele estralou novamente os dedos e o mesmo capanga retirou a faca e apontou uma arma para a cabeça de Evening – Sabe, tenho muita paciência, mas você está conseguindo me fazer perder ela todinha... Paga logo que eu te deixo ir sem demora.

— Não vou pagar... Quer saber por quê? O capanga estava agora com arma sobre a cabeça de Evening, apenas há alguns centímetros dela, calmamente ela apenas reclinou-se um pouco.

Juan sentou-se em sua cadeira, colocou a mão sobre o rosto, suspirou forte e falou:

— Ah, fala sua bêbada... Por que você não vai pagar? Fale logo, antes que eu perca o que me resta de paciência.

— Que bom que perguntou... Disse ela com seu típico sorriso sádico no rosto.

Evening saiu do rumo da arma, o capanga atirou no sofá atrás dela, ela puxou o capanga contra ela, meteu-lhe o joelho na boca do estômago, esse caiu sobre o sofá com falta de ar. Ela tomou a arma para si, atirou num dos capangas que estava à sua frente, este não teve tempo nem de tirar sua arma, Evening abaixou detrás do sofá, outro capanga atirou sobre ela quatro disparos, no susto ele acabou com todas suas balas que tinha e ficou estático tremendo, ela levantou-se e meteu-lhe uma bala bem no meio da cabeça.

O agiota caiu da cadeira onde estava sentado com todo aquele susto, escondeu-se debaixo da mesa, começou a tremer e a rezar para qualquer um que pudesse ajudá-lo. Evening jogou a arma no chão, não havia perigo de pegarem suas digitais, usava uma das luvas brancas de seda da sua coleção de trabalho, tão fina e sedosa que pareciam uma segunda pele, assim que jogou a arma no chão, pegou a que estava no coldre do capanga à sua frente e foi andando calmamente em direção ao agiota debaixo da mesa.

Caminhava vagarosamente, cantarolava uma musiquinha típica daquelas que se ouvem em um filme de terror, sabia que o agiota estava morrendo de medo, é divertido brincar com alguém que senti tanto medo assim, aquela canção deixou o homem mais assustado ainda. Evening sentou-se na cadeira de frente para aquele gato escaldado que um dia ou há alguns minutos mesmo foi um homem e disse rindo sarcasticamente:

— Hum... Sobre a pergunta, você quer realmente saber?... É só porque, quem me deve é você. E atirou em seu peito logo em seguida.

Evening ia saindo da sala quando viu o capanga que havia apontado a arma para a cabeça dela, estava tentando arrastar-se e pegar a arma, ela foi andando em direção a ele, abaixou- se a certa distância dele e disse:

— Sem testemunhas.

Ela atirou nele a queima roupa, parte do sangue do agiota e seu capanga estavam em sua roupa e rosto, ela desceu todas as escadas, viu uma lata de lixo, jogou suas roupas nela e ateou fogo, por baixo tinha uma roupa mais fina e uma sapatilha leve que escondia dentro do casaco enorme que usava, limpou o seu rosto com lenços que também estavam em seu casaco, os queimou e foi embora.

— Capangas mais imprestáveis, nem ao menos me revistaram.

Não poderia voltar para o hotel onde estava aquela noite. Então, depois de uma corrida de 26 quilômetros chegou à cidade e achou o hotel mais perto que conseguiu, apesar de simples, tinha o básico e iria servir.

Assim que chegou ao quarto do hotel, foi tomar banho. No banho sua cabeça não parava de girar, era a primeira vez que não acendia uma vela para o morto, mas dessa vez não era trabalho, era vingança.

No resto que lhe restava de noite não conseguiu dormir, não parava de pensar em seu pai ou sua mãe, ficar tão perto de ambos e não poder ao menos visitá-los decentemente era uma tortura para ela, por esse motivo não havia voltado a sua terra natal quando teve oportunidade, sempre recusava trabalhos no Brasil, pois sabia que sentiria esse desejo e não poderia realizá-lo, família era algo que ela nunca poderia ter, era uma regra de sua escolha feita há muito tempo atrás. O sol já batia sobre as cortinas do quarto quando se lembrou de uma conversa que tivera com um de seus informantes, este havia comentado consigo sobre uma proposta de serviço, era perfeito, seria o mesmo que matar não dois, mas seis coelhos de uma vez.