Good Night Forever
6 A bandida cega
Notas iniciais
Era um daqueles dias frios onde a única vontade que sentimos é ficar em casa e dormir mais um pouco. Mesmo com aquele frio o centro da cidade estava movimentado, uma moça entra no confessionário da igreja vestida de branco da cabeça aos pés e chorando muito, engana-se quem disse que era uma noiva.
— Padre, eu não sou católica, mas preciso de vossa palavra, estou desesperada. A mulher desabou em lágrimas, e o padre comovido respondeu:
— Acalme-se minha filha. O que houve minha filha, por que tanto choro e tristeza?
— Foi um homem, padre!
— Como assim, o que esse homem fez?
— Não é isso padre... Padre, eu matei um homem! O padre nada disse, depois de alguns segundos ela continuou — Eu matei um homem que fez coisas terríveis.
— O que ele fez? O padre finalmente conseguiu falar algo.
— Coisas horríveis, coisas terríveis e asquerosas.
— Ele lhe fez algum mal?
— Para mim ele não fez nada... Mas ele fez mal a pessoas inocentes... Ele fez mal a dez crianças... Padre, ele abusou, matou e enterrou essas crianças.
O padre engoliu em seco, aquilo tudo começou a lhe parecer esquisito.
— mas com... Por que voc.. Ele foi incapaz de juntar palavras e formar frases.
— O pior de tudo é que ele enterrou essas pobres criançinhas aqui, no cemitério desta igreja.
— Mas isso é terrível! O padre tentou sair de lá despercebidamente, mas não conseguiu algo tampava sua entrada.
— Padre, Eu matei... Eu matei... Eu matei...
— Você matou quem? Ele perguntou nervoso por ela gritar incessantemente aquilo, então ela fez o que se esperava, atirou nele sem dó nem piedade.
— Eu matei você! Disse Evening rindo baixo e sarcasticamente.
O sino havia tocado quando ela atirou e a igreja estava vazia, ninguém a ouviu. Ela colocou um papel na mão dele, eram todas as provas do que ele havia feito. Quem havia contratado Evening para matá-lo não queria apenas isso, queria vingança, queria sujar o nome daquele padre visto como um homem quase Santo na comunidade. O homem que contratou Evening havia contratado antes um detetive para descobrir onde estava sua querida e adorada filha, de início o pai não acreditou no que escutou. Como aquele homem admirado e respeitado por todos poderia ser um assassino? Ou melhor, como um homem que rezou para que pudessem encontrar sua filha foi capaz de matá-la e não sentir a mínima culpa?
Depois daquela triste notícia o homem, um pai sentindo-se lesado e enganado decidiu gastar até o último centavo para que pudesse ver aquele lobo vestido de cordeiro morto. Evening entendia bem a dor que aquele homem sentia, aliás, havia perdido seu pai há pouco tempo, então viu no padre uma desculpa para ganhar dinheiro e acender uma vela para seu pai.
Naquele dia Evening acendeu seis velas, uma para seu pai, outra para o padre nada santo e o resto, mesmo com um amargo sentimento, para aqueles que mataram seu pai. Minutos depois ela ouviu um grito de uma voz aguda e estridente, ela não queria saber de onde vinha, sabia que aquela era sua deixa para ir embora.
Ao sair da igreja sentiu a sensação de estar sendo observada, olhou em todas as direções e não viu nada, apenas viu que um alvoroço começara a se formar dentro da igreja, foi embora sem olhar para trás.
Evening foi embora aquela noite mesmo, foi muito estressante voltar às suas origens, não aguentava ficar lá nem mais um dia, mas mesmo assim ela partiu com um aperto no coração, não sabia se iria voltar, mas pelo menos havia reencontrado sua mãe novamente, e isso foi o suficiente para valer toda viagem e problemas.
Em menos de uma semana ela havia arrumado um novo serviço, foi para a Europa, nossa assassina estava agora em Milão. Marciel, um dos maiores empresários da cidade havia contratado ela para um serviço sujo, não importava como, mas ele queria sua esposa morta. Marciel sempre amou sua esposa July, eles eram casados há muitos anos, mas após anos de casamento, este se encantou por uma cigana loira. A mulher queria Marciel só para si e sabia que ele nunca a largaria por conta própria, então convenceu ele de que ela era muito melhor e que sua mulher não faria a menor falta se morresse, pelo contrário, seria até melhor, porque ele não teria que lhe pagar mais nada, nem deveria nada para ela.
Após meses de insistência a cigana conseguiu fazer o homem chegar ao ponto que ela queria, e é nesta parte que Evening entra graciosamente. Marciel só queria que July morresse, não ligava como, para ele quanto mais rápido melhor, Evening sempre adorou um teatro, sempre viu seu trabalho como uma arte, uma arte bela e complexa aos seus olhos.
— Por que ser rápido e indolor, o que faz com que a polícia possa descobrir mais rápido, se pode ser lento, e doloroso?
— Não quero que ela sofra.
— Mas ela não vai morrer de todo jeito? Então eu posso pelo menos colocar você nessa história como um marido amoroso e dedicado.
— Diga seu preço.
— Meu preço? Assim você me ofende... Meu preço é o que você ganha em três meses de trabalho, sem contar o que você rouba por fora e um carro alugado enquanto eu estiver na cidade, mas tem que ser bom.
— Mas é muito dinheiro.
— Por isso mesmo, sei que não ganha pouco. Aceita?
— Sim, aceito
— Ah, antes que eu me esqueça... Sei que você tem um dedinho na corrupção, sei todo seu histórico bancário e suas contas no exterior. Não tente me enganar querido.
Evening estava planejando sequestrar July, deixar ela presa em cativeiro por duas semanas (tempo suficiente para Marciel mandar seu pagamento para uma conta no exterior) e pedir um 1/3 de seu pagamento no resgate, ela pegaria o resgate e depois mataria July, não era simples, nem prático, mas era a combinação perfeita do tipo de trabalho que Evening amava fazer e repetir.
No dia combinado algo deu muito errado, alguém havia denunciado ela para a polícia. Ela estava em uma van preta esperando pela mulher que estava fazendo compras no andar de cima, quando ela viu July voltando para seu carro no estacionamento pôs seu capuz e foi andando na direção de July. Quando ia se aproximando ela viu uma viatura da polícia parando bem na sua frente, um policial desceu do carro apontando uma arma para ela e ainda havia outro dentro da viatura, ela não pensou duas vezes, saiu correndo.
Não que os policiais fossem um perigo para ela, mas se fizesse isso a mulher fugiria e provavelmente viria seu rosto, o que seria um problema já que estava sem disfarce.
Em pouco tempo ela saiu do estacionamento, mas quando saiu do estacionamento viu que havia mais três viaturas paradas na rua, era uma cilada, alguém realmente a havia delatado. Os policiais atiraram em suas costas, ela sentiu o impacto, mas não se feriu, pois estava de colete à prova de balas. Evening saiu por entre ruas estreitas perto do shopping, onde era impossível carro algum passar, quando conseguiu despistar os policiais, ela trocou de roupa, ou melhor, de personagem. Agora estava com peruca loira e olhos brancos como uma cega, ela trocou de casaco e guardou tudo numa mochila negra que usava.
Como se nada houvesse acontecido, saiu andando normalmente como se fosse uma cega de verdade. Algumas quadras adiante ela viu uma viatura, não a reconheceram, mas era ariscado ficar por lá, assim que a viatura passou ela arrumou um jeito de fugir daquele lugar. Evening viu um moto taxi que estava parado no sinal, pronto! Já tinha um plano de fuga.
Ela subiu na garupa da moto, o homem que a dirigia olhou para ela.
— Você pode me dar um carona?
— Moça, estou trabalhando, tenho que pegar um cliente.
— Eu não mordo, sabia? Disse ela abraçando o motorista.
— Moça! Ele se livrando-se dos braços dela – Eu já disse, eu não posso.
— É só uma carona.
— Vou repetir pela ultima vez, EU NÃO POS... Ela colocou uma arma sobre suas costas, ele calou-se.
— Se não vai por bem... Então tenho que ser mais radical. Passa a moto e o colete também.
— Pensando bem, quero os óculos e o capacete também.
Evening pegou a moto e foi para bem longe da cidade, ligou para seus contatos e não descobriu nada sobre o acontecido, não foi Marciel quem a delatou, mas se não foi ele, então quem foi?
— Não me importo com o tempo, ache o infeliz que me delatou. Gritava Evening.
— Mas eu já disse que não sei?
— Horas, você não tem acesso aos telefonemas da polícia?
— Sim... mas...
— Mas o que? Você não sabe fazer seu trabalho direito?
— Não é isso, o telefonema foi feito por um telefone descartável francês. É impossível eu rastrear.
— Tá bom, mas ache ele, demore o tempo que for.
Ela tentou achar o culpado a tarde inteira, não conseguiu nada, quando deu seis da tarde ela voltou para a cidade, deixou a moto em uma rua bem movimentada e voltou a pé para o hotel onde estava. Chegando lá ligou para Marciel:
— O que deu errado?
— Não sei.
— Aquele carro era o que te paguei?
— Não, lembra-se que disse que queria um carro bom. Quando disse carro bom, quis dizer um carro mesmo, não uma van.
— O que você vai fazer agora?
— Ainda não sei, deixe me pensar um pouco, não estou desistindo, quero apenas pensar.
“Espero seriamente que você não tenha me delatado Marciel, caso contrário... Eu juro que te mato, e mato essa sua ciganinha de meia tigela também.” Pensava Evening ainda muito nervosa pelo que havia acontecido.
Durante a noite ela acalmou-se e pensou em um novo jeito de pegar seu pagamento, era um plano ainda mais ousado. Haveria um baile de gala em menos de um mês, ela iria fingir um falso adultério como pano de fundo. Drogaria a mulher, ligaria para Marciel e ele veria July com um modelo (que já havia contratado antes) este fingiria ser o “amante” de July. Mesmo sem entender nada ela não teria como se defender das acusações, Marciel iria pedir o divórcio alguns dias depois. Para finalizar Evening iria simular um falso suicídio causado pala “vergonha do acontecido”, receberia seu dinheiro e partiria para outra. Se Evening não fosse assassina, talvez fosse atriz, adorava o teatro, era realmente uma paixão de criança. Transformar um assassinato em uma peça teatral era uma das melhores sensações que Evening podia sentir. Parece idiota e nada convencional, mas ela faria todo aquele teatro parecer real.
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