Good Gone Girl
5 Capítulo 5 - Voz de Chinchila.
Notas iniciais
CAPÍTULO 5 – VOZ DE CHINCHILA.
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Tequila é uma coisa muito louca.
Primeiro, é muito ruim. Você vira o copo como se não houvesse amanhã e mal sente o gosto da bebida, porém, no fundo de sua garganta, você sente alguma coisa nauseante. Fico enjoada logo depois que eu viro o copo, porém, depois que eu mordo o limão, algo mágico acontece. O enjoo passa e, mesmo sendo limão, você não sente o gosto amargo da fruta. Parece que tequila e limão foram feitos um para o outro.
Quase um casamento perfeito.
Um arrepio percorre a minha espinha, mas não sei bem o porquê: por que limão é azedo? Por que o álcool da bebida é forte? Não sei. Só sei que é muito bom. Eu até lambo a boca, tentando sentir mais o gosto da fruta. Talvez eu gostasse de limão e nem soubesse.
— Eu não acredito que você conseguiu virar – Ellie diz impressionada.
Eu me encolho, mas percebo que Sasha e Alex também estão surpresos. Por algum motivo, isso não me incomoda tanto quanto deveria. Há alguma coisa libertadora em não fazer o que esperam de você. Uma sensação boa que eu nunca havia experimentado.
— Eu não me sinto bêbada – digo à eles, um pouco desapontada.
Pela primeira vez, acho que seria interessante eu ficar bêbada para saber como é que é. E então eu penso em todas as coisas que poderiam acontecer se eu ficasse embreagada e dou graças a Deus que não estou.
— Mas não é pra sentir – Sasha responde, pegando uma das três cervejas que Alex trouxera.
Ela me dá uma garrafa também e (como Ellie também bebe uma) deduzi que não deveria ter problema. Sasha brindou conosco e tomou dois grandes goles, eu só consegui dar um. Cerveja era muito ruim. Mal consigo conter a minha careta, mesmo querendo que ninguém perceba.
— Pouca gente gosta de cerveja na primeira vez – Alex me diz.
— Isso tem gosto de terra – eu respondo.
É um gosto amargo e horrível que parece impregnar minha garganta e o meu nariz. Ele parece achar minha reação engraçada, mas não chega a rir.
— Se você quiser, tem outras coisas melhores no bar – ele avisa, muito prestativo. – Sasha trouxe cerveja para você porque era mais barato... E ela é uma universitária pobre.
A ruiva lhe dá uma cotovelada nas costelas.
— Não fale isso depois de eu dar uma tequila para a garota – ela protesta. – Você não precisa beber se não quiser, Bell. Sobra mais para mim.
Não tenho certeza se posso deixar mesmo a bebida, ou se ela só está tentando ser gentil. Todavia, penso: estamos falando de Sasha. Desde que a conheci, ela não demonstra muita vontade em ser gentil... A menos que isso combine com seus interesses. De fato, se eu não bebesse cerveja, ela certamente a tomaria por mim.
— Por que você não vai lá com o Alex? – a ruiva sugere. – Ele é tipo um sommelier dos drinks e você ainda ganha um desconto.
Ellie ri e eu olho para o ruivo. Ele dá de ombros e pergunta:
— Quer ir no bar?
Tenho dúvidas se devo aceitar ou não, mas há uma pequena parte de mim que está curiosa para conhecer os drinks que servem em bares. Essa pequena parte me faz concordar com a cabeça e o seguir até o outro lado do pub.
Andando perto dele, no meio de tantas outras pessoas em pé, eu percebo o como Alex é alto. Temos uma cabeça de diferença. Ele também é magro e esguio como um cantor de punk. Seus cabelos acobreados são naturais, sua pele muito branca contrasta com as tatuagens escuras, que consigo observar bem quando ele se debruça para falar com o barman. Não consigo ver sua tatuagem na lateral do pescoço porque seus cabelos cobrem parte dela.
Mas consigo ver que todo o seu antebraço é fechado com várias imagens: flores, punhais, animais selvagens, palavras e espirais. Parece que eram tatuagens espaçadas até ele decidir juntá-las por meio dessas espirais negras. De algum modo, elas realçavam a forma de seus músculos. Ele parece malhado, mesmo que não seja um "monstro de academia".
Estou identificando uma flor (acho que é uma orquídea) no seu antebraço quando ele se vira para mim e me pega no meio da análise. Tento não corar enquanto ele me passa para o cardápio com um sorriso de canto bem divertido. É um sorriso meio "se achando", meio convencido, como se ele tivesse orgulho das tatuagens que tem. É um sorriso bem bonito, na verdade.
— Quem é a sua amiga, Alex? – O barman pergunta.
Ele é um rapaz jeitoso e cheio de personalidade, provavelmente alguns anos mais velho que eu. Sua pele é morena com longos dread locks nos cabelos. Seus traços também eram exóticos e bonitos: boca cheia de larga com olhos amendoados e escuros.
— É a Bell — o ruivo responde, meu apelido soa estranho com o seu sotaque. — Dizem que é uma amiga de Sasha... Eu já tenho minhas dúvidas.
Eu franzo o cenho, perguntando-me porque ele tinha dúvidas se eu era mesmo amiga de Sasha. Se eu não sou amiga dela, então o que eu seria? Eu só não respondo, porque eu também não sei, ao certo, o que sou para Sasha e Ellie. Amizade ia muito além de chamar para sair ou dar o aturar seu choro porque você terminou com o namorado, não ia?
— Por que eu não seria amiga dela? — eu pergunto ao ruivo.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Vocês são muito diferentes — ele responde.
Eu mordo o lábio inferior, mas não respondo porque sei que é verdade... E porque o barman está me olhando de cima a baixo e isso me deixa muito incomodada. Tento fingir que não reparo o olhar do rapaz moreno, porque estou lendo os nomes estranhos no cardápio. Drinks tinham cada nome... "Beijo do vampiro", "Daiquiri", "Cosmopolitan", "Sex on the beach", "blood mary", parecia que eu estava lendo nome de cores de esmalte.
— Alex, você não está embebedando garotinhas, está? – o homem atrás do balcão diz em tom provocador. – Ela ao menos é maior de idade?
Eu fico vermelha, mas Alex dá um soco no braço do homem atrás do balcão.
— Eu tenho cara de quem faz uma coisa dessas? – Ele responde, até parece irritado. Então ele se vira para mim e pergunta: – Você é maior de idade, não é, Bell?
— Claro! – Eu respondo.
Até parece que eu teria coragem de entrar num bar se eu fosse menor de idade. Eu era “certinha” demais. Me sentiria culpada, tensa e uma delinquente se eu desobedecesse essa lei. Mesmo sabendo que muita gente da minha escola fazia isso.
O barman ri e meneia com a cabeça.
— Não basta a garota ser pequena... Escuta só essa vozinha de chinchila perdida – ele diz enquanto ri de mim. Alex está olhando tão feio para ele, fazendo-o perceber o quanto está sendo inconveniente. – Desculpe, é que você é muito fofa. Dá vontade de apertar.
Não sei ao certo se estou sendo elogiada ou zoada, mas eu sorrio.
— Deixa ele para lá. Ele acha tudo engraçado – o ruivo diz antes de me perguntar, apontando para o cardápio: — Então, você já sabe o que vai querer?
— Eu não sei bem... – admito.
Penso que ele vai me dar um soco porque não estou facilitando a sua vida, mas ele está paciente como se tivesse todo o tempo do mundo. Na verdade, ele parecia uma pessoa bem calma, e isso me lembrou quando Ellie disse que “era o tipo de pessoa que você não conhece de verdade”. Era isso o que ela queria dizer? Que havia algo misterioso na seriedade de Alex.
Para mim, há algo de reconfortante no como ele age: como se tivesse todo o tempo do mundo. Como se aquela noite nunca fosse acabar. Mesmo que seu jeito taciturno, me deixe pressionada a falar alguma coisa o tempo todo.
Vejo-o se virar para o barman e mandar:
— Dá para você trazer umas pequenas doses de cada bebida para ela experimentar?
O homem do outro lado do balcão sorri e assente com a cabeça, como se fosse uma ordem inquestionável, e se afasta para preparar o que o Alex mandou. Aquilo me surpreende completamente, pois nunca vi acontecer nada parecido. Pelo pouco que eu havia entendido (com as insinuações de Sasha) eu acho que o ruivo manda ali, mas fico constrangida demais para lhe perguntar diretamente. Como perguntar isso sem parecer indiscreto ou interesseira?
— Eu gostei da tequila – eu digo, ao invés.
Ele arqueia uma sobrancelha. Nossa, ele fica muito bonito fazendo isso.
Há algo nos seus olhos estreitos e muito claros, que me deixa um pouco inquieta. De um jeito que se torna muito desconcertante encarar quando ele está lhe olhando. É quase a mesma sensação de estar nua na frente dele.
— Sério? A maioria das pessoas não gostam de primeira – ele responde, apoiando o queixo no punho. Consigo ver tão bem a tatuagem no dorso de sua mão: há uma cruz reta, simples e preta, no espaço entre seu dedão e o indicador. Do outro lado (perto do mindinho) há outra que não consigo ver direito. – E você não pode ir tomando uma tequila depois da outra porque vai acabar vomitando.
— Hum – eu respondo, refletindo sobre o que ele disse.
— Acho que tequila é muito trabalho para ficar bêbado. Cerveja é mais barato e bem mais simples – ele comenta, tomando um gole da sua.
Eu concordo com a cabeça, pois realmente devia ser mais prático. Porém, só de me lembrar do gosto de terra dessa bebida, já faço uma careta. Como as pessoas gostavam dela? Eca.
Nós dois ficamos em silêncio e isso me deixa inquieta. Meu coração não para de pular. Parece estar mandando: “você deixou a conversa morrer, diga alguma coisa! Mesmo que ele seja inquietante... E que vocês não tenham muito em comum...”. É verdade, que tipo de conversa eu, Isabelle Sem-Sal, poderia ter com o cara todo tatuado, Alex.
— Você é de onde? Estados Unidos? – Ele pergunta.
Eu confirmo com a cabeça.
— Sou de Washington – respondo. – E você?
Estou começando a ficar constrangida com a minha total falta de habilidade social. Era óbvio que ele era da Inglaterra só pelo seu sotaque, que se assemelhava muito a um gatinho ronronando. Sotaques ingleses eram apaixonantes, eu já percebi.
— Daqui de Nottingham – ele responde.
E então a conversa morre mais uma vez.
Mordo o lábio inferior, pensando em algo para perguntar.
— Você... Estuda na Univesity of Nottingham? – Eu pergunto.
Não tenho coragem de olhar para ele quando pergunto porque não quero que ele perceba o esforço que estou fazendo para manter a conversa. Tudo o que eu consigo pensar é: “perdoe a pergunta estúpida e não desiste de mim. ” e eu espero que ele seja capaz de ler a minha mente. Tudo o que eu quero é que o amigo da Sasha goste de mim, ou que ao menos me ache simpática.
— Sim, eu faço medicina veterinária – ele responde. – Você estuda lá?
Eu fico surpresa, de alguma forma, pois nunca o vi por lá. Mesmo recentemente me mudando para o lado do prédio da área de saúde. Eu acho que me lembraria se o tivesse visto por lá. Não que eu preste atenção em todo rapaz bonito que estuda na UoN, mas Alex não é o tipo de cara que passa despercebido.
— Eu estudo literatura – eu respondo.
Ele abre a boca para me perguntar alguma coisa, mas o barman volta com três pequenas doses em suas mãos. Por algum motivo, ele tem um sorriso simpático e divertido enquanto vai colocando um por um na minha frente. Acho que ele gostou de mim, mesmo me zoando, isso é o suficiente para que eu goste dele também.
— Esses são os três drinks que as garotas mais pedem aqui: Blood Mary, Sex on the Beach e Martini rosé com Limão. As doses estão puras porque não dá para pôr gelo num copo desse tamanho, mas não acho que isso mude alguma coisa – ele avisa.
Não sei qual a diferença de uma bebida “pura” para uma “impura”, mas não vejo problema. Pego o primeiro copo, uma mistura vermelho-sangue e Alex me diz que é “Blood Mary”. Experimento e sinto um gosto forte de tomate descendo pela minha garganta. E eu faço uma careta. Odeio tomate.
— Eca – eu solto, fazendo Alex e o barman rirem. – Odeio tomate.
— É doce, por isso muita gente gosta – o ruivo explica, afastando o copinho.
— Gostar de doce, tudo bem, eu gosto. Mas tomate... Eca. Eca. Eca.
Aí você se pergunta como pode haver uma bebida que fique boa com extrato de tomate? A resposta é: simplesmente não existe. Eca. Eu teria que desinfetar minha boca com álcool... Com o perdão do trocadilho não intencional (já que na própria bebida tinha álcool).
O barman ri e me empurra o outro copo pequeno.
— Experimenta esse Martini rosé com limão. É um gosto bem suave, mas você pode achar bem forte – ele explica.
Há um líquido levemente rosado dentro do copo que me lembra a um remédio para febre que eu adorava. De fato, tem um gosto suave de cereja com um pequeno gosto de limão no fundo. É muito agradável, na verdade. Se tem álcool, não consigo sentir. Não dá para sentir nem aquele fundo metálico.
— Esse é bom – eu digo.
— Mas experimenta esse aqui – o ruivo sugere, me passando um copo com bebida laranja. – É Sex on The Beach. É feito com suco de laranja, vodca, xarope de groselha e licor de pêssego.
Eu tomo um gole porque ele sugere. O sabor é uma mistura enjoativa de gostos doces um querendo se sobrepor ao outro. Parece o tipo de bebida que garotinhas de cinco anos adorariam, só que sem o álcool, por favor.
— Preferi o Martini – eu respondo.
Pela primeira vez, vejo Alex dar um sorriso verdadeiramente entretido, mesmo que tenha tentado cobri-lo com a mão. Ele faz um gesto para que o barman faça a bebida que eu preferi. O homem moreno está rindo e eu não sei porque. Por experiência própria, digo que a pessoa zoada sempre é a última a saber da zoação.
Entregando o copo para mim (bonitinho até, com bebida rosa e umas duas rodelas de limão no fundo), ele alerta o ruivo:
— Fica de olho nessa menina, por favor.
— Eu acho que ela sabe se cuidar, Dylan – Alex responde.
— Mas ela é pequena. Gente pequena fica bêbada rápido – Dylan, o barman, responde. Então ele me diz: — Você tem um gosto bem diferente para uma garota pequena e fofa com voz de chinchila.
— Se eu for muito doce, posso ficar enjoativa – eu respondo, com um espírito que não sei de onde veio. – Que nem o nosso amigo Sex on the Beach ali.
Ele dá uma risada estrondosa e Alex somente se engasga com o riso.
— Eu não teria pensando numa resposta melhor — Alex diz.
Eu sorrio, por que, de um jeito estranho, me sinto aprovada.
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