Good Gone Girl
6 Capítulo 6 – Banho de Gato.
Notas iniciais
CAPÍTULO 6 – BANHO DE GATO.
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O ambiente parece estar um pouco mais cheio quando caminhamos até a mesa em que estávamos. As pessoas se esbarravam em mim com facilidade e Alex estava tão perto que eu quase conseguia sentir o calor do seu corpo. Devia ser por volta das dez horas e acho que as pessoas estavam começando a entrar. Percebi que a banda havia mudado também, para uma um pouco mais agitada e que tocava músicas mais conhecidas.
Quando voltamos para a mesa, Ellie estava acompanhada de um cara. Pelo modo como ela joga os cabelos loiros enquanto fala, percebo que eles estão flertando e isso me deixa inquieta, mas não tanto quanto preocupada pelo sumiço de Sasha.
Alex é quem pergunta pela ruiva, poupando-me desse constrangimento.
— Ela foi lá fora fumar com uns conhecidos – a loira responde com a maior tranquilidade. – O que você pediu, Bell?
— Um Martini Rosé com Limão – eu respondo, mostrando o copo para ela.
Ellie olha para Alex com uma sobrancelha arqueada, mas o ruivo apenas dá de ombros e cumprimenta o rapaz ao lado dela, que também é seu conhecido. É um moço alto e loiro, de olhos castanhos e pele corada. Ele parece bem fofo, daqueles que dá um sorriso e você sente vontade de apertar.
Novamente, eu me vejo naquele dilema de cumprimentar ou não. Há algo agitado dentro de mim que diz que talvez eu devesse me apresentar, afinal, não quero que ele pense que eu sou grosseira... Mas também não quero que ele pense que eu sou intrometida por ir me apresentando assim. Perdida no meio dessa confusão de etiquetas, eu dou um gole na minha bebida e fico quieta no meu canto.
Eu sou tão ruim em interagir com outras pessoas.
Fico nervosa só de pensar.
— Já está rolando aquela promoção, Alex? – O loiro pergunta apontando para mim com a cabeça. – Garotas bonitas que deem em cima de você ganham bebidas de graça?
Eu me engasgo com o gole e pareceu que o álcool entrou pelo meu nariz.
— Eu não compro garotas com bebida, como você, Barnaby – o ruivo responde com um sorriso de canto que parecia muito maldoso para estar ali.
O garoto loiro ri e me diz:
— Desculpa, não tenho nada contra você. Só que irritar o Alex é um hobby. A propósito, eu me chamo Graves, Barnaby Graves.
Ele estende a mão para me cumprimentar.
— Isabelle – eu respondo cumprimentando-o. – E eu sempre pago minhas bebidas.
A última frase simplesmente pulou da minha boca e eu nem percebi o como ela pareceu grossa até Ellie e Alex rirem. Mas Barnaby riu também e isso foi o suficiente para fazer com que a culpa de ser grossa, diminuísse um pouco. Eu não pretendia ofender, só fiz uma constatação. Eu não deixava nem mesmo Michael pagar as coisas para mim.
— Ora, temos uma mulher independente aqui – ele responde brincando.
— Mas é isso mesmo – Ellie diz, passando o braço por meus ombros. – Bell e eu somos duas mulheres fortes e independentes que não precisam de macho para ficar bancando bebida à noite toda.
O loiro arqueou uma sobrancelha para ela.
— Mas eu acabei de te oferecer uma bebida e você aceitou.
— Porque meus pais me deram educação e disseram que é uma ofensa rejeitar presentes – Ellie responde com um brilho esperto no olhar e um sorriso malicioso. – Vamos lá no bar, falando nisso. Antes que fique tão cheio que a gente mal consiga andar. – Para nós, ela diz: — Já voltamos.
Ela sai no meio das pessoas arrastando o loiro pela mão. Pergunto-me se ele é tipo um namorado dela, ou apenas um amigo, ou um “pau-amigo”, mas eu não saberia diferenciar. Então eu apenas observo e penso, por um nano segundo (meio contra a minha vontade) em Michael. E quase quero dar um soco em mim mesma por isso: estar no meio de um lugar agitado, tão cheio de pessoas novas, e estar pensando no ex-namorado.
Eu devia aproveitar para conhecer pessoas novas, me envolver com elas... Não para pensar nas pessoas que me traíram... Já me sinto um pouco triste só de pensar no nome Michael. E em pensar nele se beijando com Lauren.
Sou trazida de volta à realidade quando alguém empurra Alex e ele se esbarra em mim, sem querer. Quase dou graças a Deus por ser puxada de pensamentos tristes.
— Desculpa – o ruivo pede.
Ele é realmente muito alto. Sua tatuagem no pescoço fica bem na minha linha de visão. É uma data em letras góticas: 08/17/1991.
— Hum, tudo bem – eu respondo.
E ficamos em silêncio.
Eu bebendo meu drink. Ele bebendo sua cerveja.
Novamente, sinto aquela pressão em começar uma conversa, mas não sei bem o que dizer. Então, pela primeira vez na vida, digo a primeira coisa que me vem à cabeça:
— Suas tatuagens são legais.
Ele parece surpreso, mas então olha para o antebraço e diz:
— Obrigado.
— Posso tocar? – Eu peço.
Eu sei.
Também não acredito que eu pedi para tocar as tatuagens dele.
Tudo bem que eu sempre tive essa curiosidade de tocar numa pele tatuada porque, quando você para e pensa no como elas são feitas (você fere a camada superficial da pele e injeta tinta), você se pergunta: “então elas são cicatrizes?”, “então elas são feridas?”, “será que dá para senti-las em relevo quando as toca?”, “será que elas têm uma textura diferente da pele sem tatuagem?”... Mas eu não acredito que eu pedi na cara dura.
Estou perguntando aonde meu filtro e minha timidez foram parar, quando ele solta aquele som que parece uma risada controlada e estende o antebraço para mim. Meio constrangida, eu toco primeiro o dorso, onde tem aquela cruz e aquele desenho na lateral (descobri que era uma chave). A textura é a mesma de uma pele normal. Toco também no punhal tatuado no interior do seu antebraço, depois na orquídea do outro lado... É a mesma textura de uma pele normal. Parte de mim está surpresa com isso.
— Você tem quantas? – Eu pergunto com curiosidade.
— Várias. Perdi a conta – ele responde. – Da última vez que eu contei eram onze.
— Uau – eu digo, soltando o seu braço
— Você já pensou em fazer alguma? – Ele pergunta.
Eu nego com a cabeça.
— Eu sempre penso no como pode ficar quando eu envelhecer, penso também no quanto deve doer, penso nas doenças que posso pegar se eu não fizer num local limpo... Ai eu prefiro não fazer – eu respondo.
— Ah sim – ele responde, mas sinto que ele ficou inquieto com minha resposta.
Nós ficamos em silêncio novamente, pela trilésima vez desse que ficamos sozinhos. Estou começando a pensar que realmente não temos nada em comum e por isso caímos nisso que eu vou começar a chamar de “silêncio mais constrangedor da minha vida”. Também, o que Isabelle, a sem-sal, teria a ver com Alex, o gostoso tatuado?
Dou mais um gole na minha bebida, que para a minha surpresa já está acabando, e presto atenção no ambiente e na música conhecida que a banda está tocando. Mexo minha cabeça no ritmo frenético cheio de solos de guitarra e bateria agitada e começo a cantar:
— Marching forward hypocritic and
Hypnotic computers
You depend on our protection
Yet you feed us lies from the tablecloth
Como o som é muito alto, nem eu consigo ouvir a minha voz, mas Alex ouve. E está me olhando como se eu fosse uma maluca, apertando os lábios como se quisesse rir. Isso faz com que eu me encolha um pouco, mas não me impede de tentar imitar, em falsete, o “La la la la la la la la la la Uhhh”.
Ele dá um sorriso divertido e também canta:
— Everybody’s going to the party have a real good time.
Com o seu sotaque inglês, é possível ler perfeitamente as palavras que ele diz.
O ruivo se aproxima tanto que seu corpo roça o meu e eu consigo sentir o seu calor subir por mim. Alex pega a minha mão e me gira, eu entro em sua dança porque ela me parece irresistível. Ele me para de costas para si e envolve meu corpo com seus braços. Ele canta bem perto do meu ouvido:
— Dancing in the desert blowing up the Sunshine.
Há um momento breve em que me sinto muito tentada a virar e lhe dar um beijo. Ainda mais quando sinto seu rosto tão perto da minha orelha e eu lhe olho por sobre o ombro. Em minha defesa, Alex é muito bonito e ele pelo menos não me abandonou ali como as minhas duas companhias.
Graças a Deus, os motivos para não fazer eram bem maiores: ele era amigo de Sasha, eu não o conhecia direito, ele podia me rejeitar (o que me deixaria mortificada), eu pensei em Michael tem nem meia hora... E um rapaz bateu no ombro do ruivo, chamando a atenção dele. E então ele se afasta para se virar.
Obrigada, senhor. Acredito em intervenção divina.
— E aí, Alex? – O cara diz.
— Oliver – o ruivo responde, dando um toque na mão do rapaz.
É um homem tão ou mais tatuado quanto Alex e quase do mesmo tamanho, porém seus cabelos são escuros e os olhos são de um verde misturado com azul. Tem uma barba por fazer bem charmosa e os cabelos estão todos jogados para um lado. Há algo muito charmoso e misterioso nele, assim como no ruivo. Penso, por um instante, que eles são irmãos, mas não há tantas semelhanças físicas que indique isso.
Quando ele me olha, eu fico muito constrangida e volto meu olhar para a minha bebida. E percebo que quanto mais o gelo derrete, mais suave fica o gosto do Martini. Não gosto de sentir o gelo derretendo.
— Ah, essa é a Bell. É uma amiga – Alex diz, apontando para mim. – Bell, esse é o Oliver. Ele é quase o meu amigo de infância. Ele é o vocalista e guitarrista da “Petshop Boys” que vai tocar hoje.
O moreno estende a mão para mim e eu a aperto. Há um sorriso simpático em seus lábios finos que me faz sorrir também. Pergunto-me se ele é o cara da Sasha. Espero que seja porque ele parece bem legal.
— Eu não queria atrapalhar vocês, mas o Alex disse que tinha que falar comigo – ele comenta. Então ele diz em tom de provocação: – É a primeira vez que eu vejo alguém dançando System of a Down tão juntinho.
— Eu adoro inventar coreografias novas, e daí? – o ruivo responde dando de ombros. – É um ótimo jeito de passar o tempo já que você gosta de aparecer em cima da hora. Só espero que toda a sua banda esteja aí.
O moreno olha para ele com uma expressão de desdém.
— Claro que estão – ele responde. Então diz em tom de total eficiência. – Na verdade, está tudo pronto, só falta essa bandinha se despedir... Eu só passei aqui porque você disse que queria muito me apresentar a alguém.
Ele olha para mim e eu olho de volta porque não sei o porquê ele está me olhando.
— Não é ela! – O ruivo exclama, tenso. Não entendo o porquê. Então ele me pergunta: – Hum... Tudo bem você ficar aqui um instantinho, Bell? Vou apresentar a Sasha à ele. Eu já volto, prometo.
Ele fala como se sua obrigação fosse não me deixar sozinha e eu começo a pensar as piores coisas como “ele só está me aturando porque está com dó de me deixar só”.
Eu não consigo olhar no rosto de Alex porque só de eu me lembrar que eu tive vontade de beijá-lo me deixa constrangida, e mais a ideia de que ele possa estar comigo só por pena me deixa mortificada. Então eu somente concordo com a cabeça, olhando para o meu copo. Pergunto-me que surto mental eu poderia ter tido para ter vontade de beijar um completo estranho (por mais desconcertantemente bonito que seja).
— Não saia daí – ele manda, antes de se afastar com o moreno.
— Como se eu tivesse para onde ir – eu resmungo para mim mesma.
Sério. Alguém me explique, porque as pessoas ficam se separando nas festas? Sasha foi para um lado, Ellie sumiu com o tal do Barnaby, Alex foi junto com Oliver procurar Sasha... E eu fiquei aqui sozinha com meu copo de Martini no fim. Se festas são assim, elas não são exatamente o que eu esperava.
Tento não me senti uma rejeitada antissocial (mesmo que nesse momento eu esteja me perguntando se eu não fui simpática o suficiente para que eles sintam vontade de me chamar para onde quer que estejam indo) e deixo a mesa por um instante para pedir mais um Martini no bar. Aquela coisa era boa para caramba. E eu não era alguém acostumada a beber, mas um copo não fizera diferença. Por que mais um haveria de fazer?
O barman sorri para mim e ri quando eu peço o Martini.
— Você realmente gostou dessa bebida? – Ele pergunta divertido.
— Por que é tão surpreendente? – Eu pergunto.
— Porque pessoas que nunca beberam antes não costumam gostar de bebidas fortes – ele responde, fazendo a bebida bem na minha frente.
Como eu não tenho com quem conversar, decido ficar ali.
— Onde está o Alex? – Ele pergunta.
— Sei lá. Acho que ele foi apresentar alguém pra Sasha – eu respondo. – Todo mundo me deixou sozinha ali, aí fiquei entediada e sem bebida.
Ele revira os olhos.
— Entendi... – Dylan (me lembrei do nome dele) meneia a cabeça em reprovação. – Se você quer saber, eu não teria coragem de deixar uma garota como você sozinha. Pode ser perigoso, você é muito bonita.
Eu rio porque sei que ele está viajando. Estou há, pelo menos, dez minutos sozinhas e ninguém deu em cima. Graças a Deus, porque eu não saberia lidar com alguém dando em cima de mim. Sem contar que eu não consigo pensar em nenhum “perigo” em ficar sozinha. Eu apoio a cabeça no punho e observo as garrafas de bebidas na parede atrás de sua área de trabalho.
Um cara se apoia no balcão ao meu lado e pede uma bebida ao barman.
— Oi, linda. Está sozinha? – Ele pergunta para mim de repente.
Eu olho ao redor para ter certeza de que ele está falando comigo e isso faz Dylan rir enquanto coloca o meu copo cheio de bebida sobre o balcão. Não foi intencional, mas imagino que meu desdém seja engraçado.
— Tá falando comigo? – Eu pergunto ao rapaz.
Ele é só um pouco mais alto que eu (o que significa que para o resto do mundo ele devia ser baixo), com cabelos castanhos lisos para cima e olhos verdes amendoados. Há algo em seu sorriso, e na intimidade com que ele me chama de “linda”, que me deixa agoniada.
— Você está vendo outra garota bonita por aqui? – Ele pergunta.
Dylan está se divertindo com a cena enquanto dá a garrafa de cerveja para o rapaz.
— Hum... Não, mas...
Ele se aproxima de mim, fazendo-me recuar dois passos, e diz:
— Você sabia que é a garota mais bonita daqui essa noite?
O jeito com que ele me olha nos olhos, me incomoda muito e eu bebo minha bebida tentando não parecer intimidada, mas sei que é isso que eu pareço.
— Eu até pagaria uma bebida para você, mas você foi mais rápida – ele comenta, chegando um pouco mais perto. E eu recusei mais uns dois passos. – Sabe o que eu quero?
Ele tenta se aproximar de novo e eu dou mais um passo para trás. À essa altura já estamos quase do outro lado do bar, e Dylan está se divertindo muito enquanto serve à outras pessoas. Pergunto-me porque ele não vem me ajudar? Será que não percebe que eu estou correndo perigo?!
— Te dar um banho de gato – o rapaz da cerveja diz.
Eu franzo o cenho.
— O quê?! – eu pergunto, me matando de rir.
— O que eu quero. Eu quero te dar um banho de gato – ele explica. Eu sinto muita vontade de enterrar meu rosto nas minhas mãos, de tanta vergonha alheia que estou sentindo por essa pessoa à minha frente. – Você já viu como gatos tomam banho?
Levo pelo menos meia hora para entender que ele disse que quer me lamber.
“Eu não estou ouvindo isso” digo a mim mesma, fechando os olhos e desejando que esse cara seja uma criação da minha cabeça solitária. Eu não ouvi isso.
— Achei você! – Alex diz aparecendo magicamente ao meu lado. Percebendo os olhos arregalados do garoto ao meu lado, ele pergunta: — Estou atrapalhando?
De repente, o cara do “banho de gato” não tinha mais nada a dizer. Ele só fica olhando para o ruivo grande e tatuado ao meu lado.
— Hum, não. Ele só estava me falando sobre banhos de gatos – eu respondo começando a rir. – Você encontrou a Sasha?
— Sim, todo mundo está perto do palco porque a banda que ela quer assistir está entrando. Levei cinco minutos para te encontrar já que você sumiu da nossa mesa – ele responde em tom ríspido. Essa é a deixa para o cara baixinho sair, totalmente ignorado. Até sinto pena dele, talvez eu devesse ter lhe dado mais atenção.
— Obrigada por aparecer. Esse cara era meio maluco – eu digo a ele.
— Você parecia estar precisando de ajuda – o ruivo responde, olhando-me nos olhos. Eu desvio o meu olhar depois de três segundos. Ele me deixava inquieta quando me olhava assim. Então ele se vira para o barman. – E você, só se divertindo aí, né?
Dylan apenas responde que estava se divertindo demais para interromper. O ruivo revira os olhos e pede mais uma cerveja para si, aproveitando que já estávamos perto do bar. Quando o barman lhe entrega, ele segura a minha mão e diz:
— Vamos ficar lá com suas amigas.
Eu concordo com a cabeça, um pouco agitada pelo fato dele estar segurando minha mão, mas tento parecer normal. Não é a primeira vez que seguram a minha mão, ou que me olham daquele jeito (obviamente), mas Alex era muito bonito e desconcertante para eu saber lidar. Provavelmente, tudo que ele fizesse me deixaria sem graça.
...
— Bell, aí está você! – Ellie exclama quando me vê.
Ela parece mais feliz que o normal e me dá um abraço como se fizesse um tempão que não nos víamos ou como se eu tivesse me perdido no meio de uma floresta. Gosto de seu abraço. É quente e macio. Eu a abraço de volta com gosto. Por algum motivo, Sasha abraça nós duas e isso quebra um pouco a imagem que eu tinha dela: toda descolada e nada cafona para um abraço em grupo.
— Obrigada por trazer nossa amiga de volta, lindo – Ellie diz ao ruivo, que apenas assente com a cabeça, com um sorriso comedido. Então, para mim, ela diz: — Como você teve coragem de sumir?!
— Você sumiu primeiro – eu acuso. – Vocês. Todo mundo sumiu!
Não sei o que deu em mim para eu reclamar que todo mundo me deixou abandonada numa mesa (geralmente, eu não reclamaria, juro), mas isso realmente me magoou um pouco. Estranho para alguém que está acostumada em ser deixada de lado.
— Nossa... Desculpa, não pensei que você fosse se importar – Sasha admite.
— Eu juro que pensava em voltar para a mesa... – Ellie diz, e eu acredito nela. – Ah, mas você não estava sozinha. A menos que você esteja dizendo que ficar com Alex é a mesma coisa que ninguém.
Eu me sinto mal.
— Claro que não! – Eu respondo. – Ele é legal.
Não consigo dizer mais nada, porque não vou dizer na frente dele que ele me deixa sem graça e sem papo para uma conversa produtiva. Principalmente: não vou admitir que quando ele está me olhando (exatamente como faz agora) eu me sinto a pessoa mais desastrada e desengonçada do mundo.
— E gostoso. Percebo como você olha para ele – Sasha cantarola no meu ouvido.
Eu fico vermelha até a raiz do meu cabelo e fico muito tensa.
Ela ri da minha reação, mas ninguém escuta o que ela me diz, porque Petshop Boys é uma banda bem barulhenta. A primeira música do seu repertório, começa com um solo de bateria e então entra o baixo e depois as guitarras. Sasha me lança um olhar malicioso, rouba um gole da cerveja de Alex e balança a cabeça e o corpo como se a música fizesse parte de si.
Eu não tenho sua desenvoltura, então eu somente balanço a cabeça no ritmo da música, bem como Ellie e Alex fazem. O amigo de infância do ruivo, por sinal, manda bem no vocal. Ele tem aquela voz de moleque que ao mesmo tempo é envolvente e travessa, mas há algo em seu olhar, quando ele olha para o público, que faz um calor instantâneo subir pelo corpo. Não tenho nem que me perguntar o que Sasha viu nele.
Para a minha completa surpresa, “The Petshop Boys” é uma banda screamo (e para quem não sabe o que é: basicamente, tem umas gritarias no meio) e, apesar do aspecto gentil de Oliver, ele grita como se tivesse um monstro na garganta. Não que isso seja ruim, afinal, essa deve ser a intenção, não é?
Percebo que eu gosto de músicas assim: de sons pesados e ritmos frenéticos. Sinto como se a música fizesse parte de mim. Então, quando menos percebo, estou pulando, me mexendo, me divertindo. E, em nenhum momento, eu sinto que as pessoas estão me olhando. Sou só eu no meio de, pelo menos duzentas pessoas. Eu, Ellie, Sasha e Alex. É uma das melhores sensações que eu tenho.
Nunca pensei que algum dia eu fosse me sentir assim.
Em algum momento, dentro do repertório de seis músicas da banda, alguém me empurra e eu acabo caindo para cima do Alex novamente. Ele me ampara, num reflexo incrível. Olha feio para o rapaz bêbado do meu lado, e então me puxa para que eu fique entre ele e Ellie. Onde não corro perigo de nenhum bêbado me empurrar no chão.
Ele olha para mim, de uma maneira que eu descreveria como: “Tudo bem?”. E eu espero estar olhando para ele como quem diz: “Tudo. Obrigada”... Mas, tenho certeza de que meu olhar muda totalmente de sentido quando passa pela minha cabeça o quanto ele está perto, o quanto seus olhos são atraentes e o quanto seus lábios são muito beijáveis. Tenho certeza que eu devo ter olhado com algo do tipo: “Quero te dar um banho de gato”... Mesmo que eu não soubesse olhar desse jeito para ninguém.
E então ele se inclina e me beija.
Primeiro de leve, como se quisesse ter certeza de que estava tudo bem me beijar. Então, eu o puxo pelo pescoço e correspondo.
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