Good Gone Girl
18 Capítulo 18 – “Eu quero mais é que você se foda.”
Notas iniciais
Capítulo 18 – “Eu quero mais é que você se foda.”
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Sasha e Ellie vem me fazer uma visita no início da noite. Aparentemente, alguém lhes contou sobre o que aconteceu com o meu pulso (estou em dúvidas sobre Alex ou Chris, mas eu chuto a Chris) e elas vieram me dar um sermão sobre a vida. Que nessas horas eu tenho que fazer um escândalo, gritar, chamar a polícia...
Mas tudo no que eu conseguia pensar, enquanto olhava para a ruiva, é que ela havia passado por coisas piores do que um pulso machucado... E estava ali. Firme e forte. Muito forte. Será que eu conseguiria ser tão forte quanto ela um dia? Só um pouco...
Eu me sinto uma criança perto daquelas duas.
Uma garota mimada que reclama que a vida foi uma merda quando não foi tanto assim. Ainda mais quando comparado ao sofrimento de outras pessoas.
— E então, Bell? – Sasha pergunta cruzando os braços. – Quem nós devemos matar?
Há algo no jeito que ela fala e em como Ellie faz uma expressão “intimidadora” que quase me dá vontade de rir. Mesmo que eu não consiga naquele momento, tenho que admitir que um sorrisinho se esgueirou pelo meu rosto.
— Acho que não interessa... – Eu respondo. – Já passou... E eu estou bem.
Quantas vezes eu teria que responder aquilo?
As duas fazem expressão de indignação, mas não insistem tanto quanto eu esperava, e isso me surpreende muito. Porém, Sasha segura o meu braço bom e diz:
— Quando você quiser conversar, a gente vai estar aqui. Você sabe, né?
Há algo no modo como ela diz, tornando a frase tão sincera, que eu fico comovida. Não sei se é porque ninguém havia dito aquela frase com tamanha sinceridade ou se é porque eu sei que ela passou por algo parecido (até mesmo pior).
Eu apenas concordo com a cabeça e forço um sorriso.
— Obrigada.
Sasha não era uma garota sentimental, então ela apenas fica séria novamente, com sua expressão de “que bosta” para toda aquela situação. Enquanto Ellie volta ao sermão de que eu não devo deixar tudo isso passar impune.
Graças a Deus, elas não ficam por muito tempo porque, como é dia de semana, elas têm muita coisa para fazer. Então se despedem e me deixam sozinha com meus pensamentos: que iam desde “Sasha é uma guerreira” à “Elas tem razão. Não posso deixar ele sair impune desse jeito... Mas não posso confrontá-lo como ele merece”.
Eu nunca havia sentido tanta vontade de me vingar de alguém quanto agora.
E isso significa que eu devia estar muito perto de perder a cabeça.
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Pelo resto da semana eu evito Michael.
Volto a evitar os lugares que eu sei que ele frequenta, por medo. Eu não gosto disso. Antes eu gostaria de evitá-lo. Diria que estava fazendo um favor à nós dois; evitando constrangimento para ambos. Porém, agora, cada caminho que eu desvio, sinto-me humilhada. Como se eu estivesse deixando ele me tirar mais que a minha autoestima.
Isso me deixa nervosa.
Há uma voz na minha cabeça que se revira, se debate e luta: “Você não pode deixar ele vencer!” ela protesta. Por um instante, sinto-me como aquele personagem da saga “Senhores do Mundo Subterrâneo”, o homem que possui o demônio da derrota, não podendo recusar a nenhum desafio e perder sem antes ser acometido por uma dor terrível. Mesmo que eu diga a mim mesma que não é uma questão de ganhar ou perder; não é uma questão de competição. É uma questão de autopreservação, ou melhor, de me manter inteira.
Ou proteger o que sobrou de mim.
Digo a mim mesma que preciso me focar em outras coisas, coisas importantes: curso, trabalhos, projetos, concursos... O nome “Alexander” pisca em minha cabeça como uma placa neon vermelha, mas não sei se devo citá-lo. Não temos nada sério (temos?).
Não quero nada sério, eu me corrijo.
“Será?” responde uma voz chata na minha cabeça.
Estou tentando lidar com esses sentimentos novos e conflituosos quando percebo que todas as minhas tentativas foram em vão. Não as tentativas de tirar Alexander da cabeça (essas quase nunca davam certo), mas as tentativas de evitar Michael. O diabo loiro... Que estava parado na frente da porta do meu quarto.
Por um momento meu coração para de bater, e então volta com força total. Batendo tão rápido que me dá dor de cabeça e pânico. Tenho duas saídas: ignoro-o e vou embora ou o enfrento. Aquele era o meu dormitório; meu quarto. Se eu não estivesse segura ali, eu não estaria em lugar nenhum.... Mesmo com as mãos tremendos.
— O que você está fazendo aqui? – Surpreendo-me com o tom raivoso da minha voz.
Não o esperava aquela raiva, mas ela era bem-vinda.
Mike se vira para mim com uma expressão indecifrável. Pelo menos ele não estava com raiva (o que já era alguma coisa), mesmo assim, escondo o meu braço atrás de mim, como se não quisesse que ele visse o que havia feito em mim outro dia. Mesmo assim, o fato de eu esconder meu antebraço o fez trincar o maxilar, como se sentisse um gosto amargo.
Quase seria capaz de dizer que ele se sentiu culpado, mas não creio que ele seja capaz de sentir tal sentimento... A menos que queira usá-lo para me manipular.
— Acho que precisamos conversar – ele disse.
Dois meses.
Este foi o tempo que Michael levou para me dizer esta frase. Tempo suficiente para conhecer pessoas novas (e melhores), decidir seguir com a minha vida e descobrir a verdade sobre ele; sobre nosso relacionamento. Mais precisamente, que ele nunca me amou. Provavelmente, que nunca sequer se sentiu atraído por mim.
Quero jogar meus livros mais pesados nele.
Como alguém pode ser tão cara-de-pau? Eu estou indignada.
— Não temos nada para conversar – eu respondo, não conseguindo sequer fita-lo no rosto (por mais bonito que seja). Eu estava enojada. – Terça-feira isto ficou bem claro. Agora, vá embora.
A raiva dá firmeza à minha voz e eu agradeço por isso. Pela primeira vez, não pareço patética numa discussão. Talvez porque antes eu me preocupasse mais em não me queimar nem magoar as pessoas, do que comigo mesma. Eu queria que as pessoas gostassem de mim... Mas havia algo em Mike (algo no modo como ele me tratou) que me fez perceber que eu estava pouco me lixando para que ele gostasse de mim ou não.
Este sentimento me surpreende. Ele é novo e estranho.
De qualquer jeito, Mike não vai embora. Ele nem se mexe.
— Me desculpa por terça-feira – ele pede, bem baixo. Tão baixo que eu tenho dúvidas de ter ouvido isso. Michael Furey nunca pedia desculpas; ele nunca estava errado. – Eu... Perdi a cabeça... E te machuquei.
Apesar do tom envergonhado que amolece um pouco meu coração, digo a mim mesma que é um jogo. Ele está tentando me manipular. O que eu menos queria no momento era abaixar a minha guarda para esse cara, que já me enganara várias vezes.
Ele me traiu com Lauren, mas quantas outras será que ele havia tido antes dela?
— Não vejo por que você se importa – eu retruquei. – Eu fui só uma aposta. Mais um jogo que você ganhou, parabéns. Espero que você esteja feliz. Destruiu a única coisa boa que eu tinha aqui.
Realmente, ela podia ser uma ilusão, mas foram os melhores momentos da minha vida.
Ele dá um passo em minha direção, mas eu recuo. Ainda me lembro do seu olhar, do que ele fez, da sensação do coração acelerado e da garganta seca... Ainda tenho resquícios de medo o suficiente para me lembrar de que ele era cruel e violento.
— Não faz assim, Bell – ele pede.
O tom parecia de puro sofrimento. Era o tom de quem queria me fazer sentir culpada. Eu estava infligindo esse sofrimento e eu deveria parar para que ele gostasse de mim de novo. Eu já o perdoara muitas vezes por causa daquele tom.
Hoje não.
— A aposta foi idiotice, verdade. Eu não te conhecia... Mas eu gostei de você, de verdade... Por isso ficamos juntos seis meses— ele diz. – Eu realmente gostei de você. Não teria ficado se não gostasse-...
Pergunto-me se ele espera que eu sinta gratidão por ele ter ficado comigo.
Se ele espera que eu fique “Meu deus, ele realmente deve me amar muito para ficar seis meses comigo, mesmo me traindo descaradamente pelas minhas costas”. O pior é que talvez eu realmente concordasse com isso antes... Mas, como eu disse, hoje não. Hoje, nada desse discurso romântico (e desse clichê de “antes eu não te conhecia, mas agora gosto de verdade de você”) me convencia. Não fazia sentido.
— E foi por isso que você me traiu com a minha melhor amiga? E porque você não me procurou nenhuma vez para se desculpar? E foi por isso que você estava saindo com aquela garota outro dia? – Eu retruquei. – Sabe de uma coisa? Nada do que você diz faz sentido. Não sei porque você não segue com a sua vida e não me deixa eu seguir com a minha. O que você pretende vindo até aqui e dizendo essas palavras?
O primeiro sinal de raiva que eu vejo, é o modo como ele cerra os punhos.
— Você quer voltar comigo? Para quê? – Eu continuo, não ligando para aquele alerta. – Para me trair de novo? Imagino que sim. Afinal, era tão fácil me enganar, não é mesmo? É muito fácil me ludibriar com palavras bonitas, gestos românticos e clichês de livros melosos, mas quer saber de uma coisa? Acabou.
Ele franziu o cenho. Pude ver um lampejo de raiva em seus solhos e então eu soube que era hora de encerrar aquilo ali. Dou um passo em direção à porta do meu quarto e eu a destranco, então ele ainda pensa sobre o que eu acabei de falar. Sobre a palavra “acabou”.
— Bell, pera... – ele protesta.
— Acabou, Mike – eu digo. – Não sou mais a mesma garota besta de antes. A manobrável com elogios e tom aveludado... Eu criei nojo de você.
Então, o rosto dele se transforma de novo.
É como ver um demônio por debaixo da pele dele, o modo como suas expressões mudam de um momento para o outro. É como ver o guardião da “Violência” do livro “Senhores do Mundo Subterrâneo”, cujo demônio aparece por debaixo de sua pele quando ele fica com raiva. Assim estava Mike agora: num momento ele era Mike, o cara legal que todo mundo adora, e então ele se tornar um animal raivoso no outro.
Alguém que eu não conheço.
Um arrepio percorre a minha espinha, quando ele se aproxima perigosamente de mim, mas já estou dentro do meu quarto. Então, só para provocar ainda mais, eu digo:
— Eu quero mais é que você se foda.
E fecho a porta na sua cara.
Eu o ouço protestar e bater na porta insistentemente, mas digo a mim mesma para ser forte. Então apenas me afasto e me sento na beira da cama. Não conseguindo sentir satisfação ao ouvi-lo reclamando do outro lado. Na verdade, eu senti medo. Como se a qualquer momento ele pudesse arrombá-la e chegar à mim.
Até que uma hora ele se cansa e vai embora. Meu alívio foi tão grande que eu me joguei na cama, quase desmaiando. Parte de mim achou que eu devia ser uma louca só de falar com ele daquele jeito, ainda mais do jeito com que ele me tratou na terça-feira sendo que eu não tinha falado quase nada.
Mas dizer tudo o que estava entalado na garganta foi bom. Muito bom. Melhor do que eu esperava. Tenho certeza que a “Isabelle descolada” deu tapinha nas minhas costas e me parabenizou pela coragem... Ou pela raiva.
Mas tudo o que eu queria, era não sentir mais medo. Nunca mais. Medo de não ir onde eu quiser porque posso me encontrar com ele, medo do que ele pode fazer se eu retrucar suas afrontas, medo de que ele termine ainda mais com minha autoestima.
“Esse vai ser só o começo” prometo a mim mesma.
O começo de uma Isabelle mais destemida e determinada.
E isso me dá vontade de escrever. Posso escrever mais um conto para o concurso, sobre o amor. Eu já tinha escrito um conto clichê e meloso, e outro baseado na história dos meus pais, mas posso acrescentar mais um para minha professora corrigir.
Um do momento mais assustadores de se começar uma história é quando você abre um documento em branco. Aquele momento em que há somente você e aquele documento vazio. É assustador porque é um momento franco; verdadeiro. Tem que ser. O documento parece falar: “E aí? O que você tem para dizer?”, e então você diz: “É mais ou menos isso”.
Porém, naquele momento a raiva era tão intensa que eu não sinto medo. Só respiro fundo e meu dedos começam a se mover, falando por eles próprios. Tão rápidos que parecem lutar para acompanhar o ritmo dos meus pensamentos.
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Na sexta-feira eu já tenho alguns esboços para mostrar para a minha professora e ela parece bem satisfeita quando eu coloco uma pilha de folhas em cima da sua mesa. Primeiro ela olhara para aquelas 20 folhas ali, e depois para mim, e depois para as folhas novamente. Ela tira os óculos de grau e então me olha de novo.
— Parece que alguém teve uma semana bem produtiva – ela diz. – Hum... Você sabe que é no máximo três mil palavras, não sabe?
Eu forço um sorriso, tentando esconder minha vergonha.
— Hum... Eu sei... Ontem eu estava inspirada... Então escrevi pelo menos uns cinco contos... – Ela arqueia as sobrancelhas para mim. – Eu acho que não tenho bem uma definição certa do que é amor... Então... Er... Sei lá. Só fui escrevendo.
Ela parece divertida.
— Bem... Eu juro que pensei em ler um dos seus contos rapidinho e comentarmos sobre ele... Mas acho que será mais interessante eu ler todos e então comentarmos sobre eles em geral – ela refletiu, olhando para as folhas na sua mesa como se tivesse o suficiente para o fim de semana. – Então... Eu vou ler eles no fim de semana, e a gente conversa na segunda-feira. Pode ser?
Eu concordo, porque, sinceramente, não quero ver a reação dela lendo na minha frente. Gosto de imaginar, é claro, como a pessoa fica quando lê o que eu escrevi, mas ver é outra coisa. E se ela não sentir o que eu quis passar? E se o que para mim estava “nossa, que engraçado!” para ela for tão “ah, tá ok”. Eu não suportaria, acho.
Então eu estou liberada pelo resto do dia, então eu posso arrumar o que fazer.
Minha tatuagem já pode pegar sol agora, então eu penso em passar em algum lugar para comprar uma blusa que dê para exibi-la, mesmo que pareça difícil encontrar alguma que não mostrasse demais ao ponto de eu ficar incomodada... Ou talvez eu devesse comprar uma blusa que eu ficasse incomodada, penso um tanto maliciosa.
Meu rosto fica vermelho diante do pensamento.
Acho que não nasci para ser uma Femme Fatale, de qualquer jeito... Mesmo que eu nunca tenha tentado ser nada desse tipo... Mas eu nunca tentei...
Então fico muito animada diante daquela ideia. Novamente, sinto como se houvessem me ligado numa tomada e eletricidade passasse por meu corpo. Não conseguindo ficar parada. Eu poderia comprar algo assim... E poderia ir para Nottingham sozinha, pela primeira vez. A “Belle Descolada” dá pulos de empolgação na minha mente e é assim que eu tenho certeza do que eu vou fazer pelo resto do dia.
Obviamente a ideia tem seus erros.
Como, por exemplo, eu me perder pelo menos umas cinco vezes até encontrar o lugar onde eu havia ido com Sasha e Ellie aquele dia. E então perceber que meu senso de direção é uma porcaria. O lado bom é que eu encontrei uma padaria boa no caminho e decido voltar lá depois de fazer compras. E eu também pude conhecer a cidade.
Minha mãe, uma vez, havia dito: “Se você quiser conhecer um lugar, se perca nele. E quando achar que já viu de tudo, se perca de novo”. Não que eu goste de citar a minha mãe, mas, como ela ganhava a vida viajando, fazia sentido que ela desse bons conselhos sobre turismo.
Quando chego na enorme loja que tem de tudo, decido pegar qualquer blusa que mostre minha tatuagem. Quero poder mostrá-la quando eu quiser, seja em festa, seja andando pela rua, seja cuidando da minha vida. Então não tenho um estilo definido quando descido pegar um bando de blusas até meus braços não conseguirem mais segurar nada, e ir vesti-las no provador.
É estranho estar lá sozinha, sem ter ninguém palpitando sobre nada.
Quase me sinto solitária, porque era engraçado estar lá com Sasha e Ellie. Decido que fazer compras de roupas sozinhas (ainda mais umas escandalosas) não era legal.
Eu visto um croped que termina logo abaixo dos meus seios e me sinto a Lady Gaga no videoclipe de Perfect Ilusion... Só que com sutiã por baixo...
Apesar de que poderia ser interessante...
Meu Deus, o que está acontecendo comigo?
Eu não tenho um corpo legal para não usar sutiã. Para começar eu era muito magra, daquelas que pareciam cabeçudas nas fotos, e meus seios eram menores do que eu gostaria. Apesar de eu ter uma cintura O.K. e uma bunda O.K. Se eu usasse um croped sem sutiã, provavelmente não ia ficar vulgar porque eu mal tinha seios para perceberem que eu estava sem sutiã...
Eu estreito meus olhos para meu reflexo no espelho enquanto faço um teste.
É, realmente não parece que eu estou sem sutiã.
Mal parece que eu tenho peitos.
Viro de lado e analiso minha tatuagem. Eu devia ter mandado o tatuador colocar nome nos livros. Títulos dos livros que eu mais gostei de ler... Mas sinto que ele iria cobrar mais por isso (uma tatuagem já não é barata). Talvez, mais no futuro, eu peça algo assim. Mesmo assim, a tatuagem está linda e à mostra... Antes da minha barriga muito magra... Nossa, eu teria que usar essa blusa com alguma coisa de cintura alta.
Pera, eu vou levar essa blusa? Sério Bell?
Eu olho para a blusa cinza com a frase “Don’t Stress Meaw”.
Era a minha cara...
Mas era muito curta...
Mas era tãaaaaaao eu...
Não dá, pego o meu celular bato uma foto e mando SMS para as garotas.
“Devo?” pergunto.
Elas levam dois minutos para responder.
“Meu Deus Bell, você tá sem sutiã?” Ellie responde.
“PERAI, VC TEM UMA TATUAGEM?” Sasha responde.
Nossa, essas duas meninas conseguiam pegar uma foto e virar Sherlock Holmes, coletando as mínimas informações sobre mim naquele momento. Estou levemente assustada. Não tanto quanto culpada por não ter contado para elas sobre a tatuagem. Não porque eu imaginei que elas fossem me repreender, mas porque eu não saberia lidar com a malícia na voz delas quando eu falasse: “Eu fui com Alexander”.
Quase consigo imaginar as carinhas delas e os comentários maliciosos.
De repente Ellie me liga e meu telefone começa a tocar.
Eu sinceramente penso duas vezes antes de anteder.
— NÓS PRECISAMOS CONVERSAR SERIAMENTE MOCINHA! – Ouço a loira gritar do outro lado da linha. Assim mesmo, bem seca. – QUE HISTÓRIA É ESSA DE VOCÊ ANDAR POR AÍ SEM SUTIÃ E DE TATUAGEM?!
Por um instante, eu realmente sinto receio de ter aborrecido ela, até que a escuto se explodir em gargalhada com Sasha do outro lado da linha. Então fico incomodada. Elas estavam rindo de mim? Será que eu estava sendo ridícula?
— Hum... Então... É... Eu só tirei para experimentar roupa... – eu respondo.
Sinto meu rosto ficar muito vermelho.
Se eu usasse óculos, minhas lentes embaçariam.
— Ah, sim, lindo cropped. Você tem que levar ele... E levar todas as blusas que mostrem essa gracinha de tatuagem – ela diz, parecendo bem animada.
— A gente quer ver pessoalmente! – Sasha grita ao fundo.
— AAAAA, a gente tem que ver isso de perto! Onde você está?! – Ellie quase me deixa surta com seus gritos agudos. – Hum... Na mesma loja de roupas de antes...
— TÁ! A gente tá indo para aí! Paga tudo e nos encontre na lanchonete que tem na frente – ela manda. Quase consigo imaginá-la dando um pulo de onde está (seja lá onde for) e correndo para se arrumar. E provavelmente arrastando Sasha no caminho. – Câmbio desligo!
E então ela desliga na minha cara.
Encaro isso como um sinal de que ela está empolgada.
Eu levo três blusas, contando com a “Don’t Stress Meaw”, e então vou para onde elas me mandaram ir. Graças a Deus não tem como errar: é uma grande lanchonete bem em frente à loja de roupas. Para errar, sendo cega... E talvez nem assim, porque o lugar tinha um cheiro de fritura inconfundível. Acho que era cheiro de... Batata? Nossa, eu amo batata frita.
Por um instante eu me lembro do que o Alex me disse no carro, quando eu lhe contei que Michael dissera que eu era uma batata, e então eu rio sozinha. Parecendo uma doida, certamente.
Então pego uma mesa para quatro pessoas num canto discreto da cafeteria e peço um milk-shake com batata frita. Ele leva um segundo para entender meu sotaque, porque eu disse “Fries” ao invés de “Chips”.
— Bem americano – ele diz.
— Sou americana – eu explico. – Desculpa.
E lá estava a minha mania de falar “Desculpa” para coisas que não precisavam de uma desculpa. Acho que é por isso que ele me olha estranho antes de sair para atender ao meu pedido. Quero me enterrar no chão e morrer de vergonha, mas digo a mim mesma que com o tempo eu vou parar de pedir desculpas por essas coisas.
E parar de pensar em pedir desculpas por ter pedido desculpas. Argh.
Eu prendo meus cabelos volumosos em um rabo de cavalo, e então começo a calcular quanto tempo elas levariam do apartamento delas até onde eu estava. Meia hora? Pera, estou contando com a Ellie se arrumando durante este tempo? E com a Sasha se arrumando também? Aah, eu sou muito ruim em matemática e em resolução de problemas. Principalmente os problemas da minha vida.
Não importa o que dizem. Tudo é muito relativo.
O garçom traz meu pedido sem demorar muito o que até me surpreende e me faz dar um sorriso de agradecimento para ele. Eu passei a tarde toda me perdendo naquela cidade doida, e estava morrendo de fome para este lindo não demorar com a minha comida. Hoje era um dos dias mais felizes da minha vida... Ou quase isso. Talvez o dia mais animado que eu tive.
E aí você percebe o como meus dias são animados.
Então eu espero aqueles dois embustes chegarem enquanto eu me entupo de Milk-shake e batata frita. Chega um momento, no terceiro Milk-shake, que eu até pego intimidade com o garçom. Queria nem pensar na gorjeta que ele iria ganhar.
— Suas amigas ainda vão chegar hoje? – Ele perguntou.
É neste momento que eu vacilo.
— Vão... Ou iam... Não sei... Espero que sim – eu respondo.
Ele acha graça e então coloca mais um Milk-shake em cima da mesa.
— Esse eu não pedi... ainda – eu digo.
— Ah, é por conta da casa – ele diz, com um sorriso de canto.
Eu olho com desconfiança para o Milk-shake e depois para ele. Ele era um cara legal, bem-apessoado até. Sorriso com covinhas, olhos cinzentos, cabelos castanhos claros. Pergunto-me que plano maligno ele está tramando para mim e se devo aceitar a bebida (sabe-se lá se caiu na cozinha e ele está tentando empurrar para mim? A cliente idiota e feliz e solitária que está se sentindo abandonada).
— Você não está tentando me fazer ter uma crise de diabetes, está? – Eu brinco.
— Meu Deus, você descobriu – ele responde, dando uma risada. – Estou surpreso porque a maioria das pessoas teria uma crise no segundo.
— Eu não sou como a maioria das pessoas – eu rebato. – Você aceitou o açúcar, eu nasci nele, cresci e fui moldado pelo açúcar. Só vi a luz do sol quando já era uma mulher.
Ele ri. E vai continuar no seu trabalho enquanto eu tenho certeza que ele deve estar achando que eu sou uma garota maluca quando minhas duas amigas chegam (enfim) à lanchonete. Mas eu já não consigo ficar parada quando elas se aproximam.
— Olá vocês! – Eu digo, levantando-me e abraçando as duas. – Tudo bem com vocês? Como vocês estão? Como foi o dia de vocês? Sentem, sentem! Vamos conversar!
— Parece que alguém se entupiu de açúcar – Sasha comenta olhando para Ellie.
— Só parece? – A loira responde. – Aaah, antes da gente sentar! Queremos ver a tatuagem direito. De perto! Mostra! Mostra!
Eu subo um pouco a barra da minha blusa, só o suficiente para que elas vejam a tatuagem que já está quase que completamente cicatrizada. Está bem perto de estar cem por cento, pelo menos ela já não tem mais cascões. As duas garotas analisam como se fossem críticas de obras de arte.
— É muito bem-feita – Sasha diz.
— Sim, e de bom gosto. Está linda, Bell! – Ellie diz. – Quando você fez?
Eu tento me lembrar.
— Quinze dias atrás, com o Alex – eu digo, colocando a blusa no lugar e voltando a me sentar. – Eu disse que queria fazer uma tatuagem também, e ele me levou no tatuador dele... Eu falei quando eu estava bêbada, mas não foi divertido fazer sóbria.
As duas garotas riram.
— Meu Deus, Bell – Ellie diz pegando ar. – Você chorou? Doeu?
— Não chorei. E sim, doeu... Muito – respondo. – O pior é a sensação de que nunca iria acabar... Mas aqui estou! Viva e inteira! Eu estava procurando alguma blusa que dê para ver bem a tatuagem para quando eu quiser andar com ela à mostra, sabe? Mas é difícil. Ela fica num lugar meio difícil de mostrar. Vocês querem alguma coisa?
As duas garotas piscam para mim atônitas.
— Acho que nunca te ouvi falar tanto na vida – Sasha diz.
— Hoje eu estou animada. Tipo, beeeeem animada. Estou insuportável ne?
Ellie ri e chama o garçom para atendê-las. A loira pede refrigerante e onion rings (eca) e Sasha pede o mesmo, mas com algum refrigerante que ninguém nunca ouviu falar. Ou que você só bebe quando não tem nada de bom num lugar e é a única coisa que tem.
— Podemos saber o que causou essa onda de empolgação? – Elas perguntam.
Eu franzo o cenho.
Gostaria de dizer que sei de onde vem, mas não sei... Mas tenho uma ideia.
— Acho que eu tive uma revelação – eu digo, espalmando minha mão na mesa. – Segurem-se para não cair quando eu disser que... Confrontei Mike.
A ruiva e a loira arregalaram os olhos para mim, como se não entendessem, e então, em uníssono, elas gritaram “Quê?!” e todo mundo virou a cabeça para as panteras da mesa 5 (sim, somos nós: uma ruiva, uma morena e uma loira... Na mesa 5. Há).
— Como assim? – Ellie pergunta, ainda chocada.
— Quer dizer... Não foi beeeeem “confrotar”, estava mais para: “joguei tudo o que queria falar no ar e sai correndo para o meu quarto”... Mas ele ficou com raiva igual então acho que isso bem satisfatório – eu digo.
— Pera... Vamos por partes... – Sasha pede, cruzando os braços sobre a mesa. – Estou confusa e boiando.
Eu respiro fundo.
Lembro-me que teve muita coisa que eu não contei para elas sobre meu término com Mike e talvez fosse hora de contar para elas estarem a par de tudo. Então começo falando sobre o que eu descobri: que ele apostou com os amigos babacas para pegar a virgem (que não era virgem, há! Chupa), e que eu vi ele com outra garota no dia em que fomos naquela exibição horrível de filmes piores ainda (mas com uma pipoca maravilhosa)... E é com relutância que eu conto que foi ele quem machucou o meu braço.
Quando eu lhes conto, Sasha quase voa da cadeira para caçar ele.
Não estou brincando, Ellie realmente segurou a raiva.
— Aquele filho da puta não fez isso! – Ela gritou, ensandecida.
— Você tem que contar para alguém, Bell – Ellie diz, segurando a amiga e puxando-a para a mesa. – Ele não pode ficar impune, ou ele vai achar que sempre vai sair limpo. Ele vai achar que ele sempre vai poder ser escroto e que não há nada de errado...
Eu sei que elas estão certas, mas confesso que há um medo em mim. Um medo que me faz pensar algo como: “Não quero ser a garota que vai fazê-lo pagar por cada coração (ou pulso) que ele já quebrou ou que vai corrigi-lo”. Acho que já sabemos o que acontece quando se segue os clichês...
Não quero dizer isso para elas, porque não quero que elas se decepcionem.
Eu só quero viver minha vida sem me preocupar com ele.
— Ontem. Ele me procurou no alojamento – eu respondo. – Ele veio com um papo estranho de que havia perdido a cabeça e pediu desculpas... E então disse que a aposta foi antes de me conhecer e que ele havia gostado de mim de verdade. Por isso ficamos seis meses juntos e blá blá blá.
Sasha passa a mão em seus cabelos volumosos.
— Esse cara é um psicopata – ela geme de raiva (nunca vi alguém fazer isso).
— Como alguém pode ser tão cara-de-pau assim? – Ellie concorda.
— Confesso que pensei na mesma coisa – eu lhes disse. – Então eu disse toda a verdade. Que não entendia o que ele pretendia com aquilo e que tinha acabado tudo entre nós... Mesmo que já houvesse acabado nos dois meses que ele sequer me procurou... E isso me levou a ter este momento de “revelação”.
As duas garotas se inclinaram sobre a mesa, com o cenho franzido. Tentando entender o que eu estava querendo dizer com “revelação”. Então eu respiro fundo e digo:
— Eu não sou mais a boa garota dele.
Elas franzem o cenho e comem suas onions rings num silêncio confuso.
Eu reviro os olhos.
— Eu não sou mais a boa garota dele. Eu não sou mais a mesma besta de antes que aceitava tudo o que ele fazia sempre perdoava aquele babaca por causa de um sorriso bonito ou de uma palavra melosa... Eu estou mais forte hoje do que quando eu vim para cá. E isso me deixa muito feliz.
As duas garotas arqueiam as sobrancelhas e pensam sobre o que eu disse. Enquanto pensam, elas vão concordando com a cabeça e refletindo.
— Sério... É como tirar um peso das costas – eu digo, terminando o Milk-shake. – Tipo... Ok, sobrevivi a mais um desastre... O rei dos desastres amorosos e ainda estou aqui! Vou me empanturrar de Milk-Shake e ser feliz!
As duas garotas sorriem.
— Um brinde a Bell – elas dizem levantando suas bebidas.
— Um brinde à vocês – eu respondo.
Quando terminamos, pedimos a conta e decidimos que ainda está muito cedo para terminarmos a noite assim. Sasha da ideia de irmos caçar algum pub ou casa noturna para ficarmos. “Precisamos de uma festa” é o seu argumento e provavelmente o slogan que ela usaria se concorresse a presidência.
— Que estranho, esse cara riscou o recibo – eu digo indignada.
Sasha puxa da minha mão, lê e então ri.
Ela me devolve dizendo:
— É o número dele, idiota.
Meu rosto fica vermelho, quando Ellie dá uma gargalhada.
— Eu achei que ele estava só sendo simpático...
— Você ainda tem que aprender a ver malícia nas coisas – Ellie diz passando o braço por meus ombros. – Mas relaxa, uma hora você aprende.
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