Dessa vez a aula seria no segundo andar, e minhas pernas cansadas agradeciam. Edgard parecia tão desconfortável quanto eu, aparentemente ele não queria causar uma má impressão.

Entramos na sala 216 e uma senhora encurvada, trajando roupas de malha e sapatos gastos dos anos 30, estava sentada na mesa grande, em frente à lousa. Ela analisava os 6 alunos que estavam ali sentados, que, por coincidência, eram os mesmos alunos da outra sala que não faziam parte de nenhum grupo.

Tomamos as carteiras ao meio da última coluna, encostada na parede da janela. Senti os olhos da professora penetrantes em mim, mas não os encarei.

- Ora, ora. Um rosto novo.

Finalmente me permiti olhar para frente e encarar a senhora com roupas em tons pastel. Sua pele despencava de seu rosto, os olhos estavam cansados e seus lábios haviam se tornado uma linha tênue no meio das rugas de sua face.

– Como se chama, querida?

– Eu? Ah... Charlotte.

– Seu sotaque é diferente, vem da Ásia?

– Japão.

– Mas me parece bem americana.

– Eu nasci aqui em Chicago, mas minha família se mudou para lá quando eu era muito pequena.

– Bom, já que estamos na aula de História, você poderia contar um pouco à classe como é viver no Japão.

– Ah... Eu acho que vou passar.

– É tímida? E que melhor jeito se superar a timidez?

– Eu não estou pronta.

– Mas eu tenho certeza de que a classe gostaria muito de ouvir o que você tem a dizer.

– Talvez outra hora...

De repente a sala começou a se encher de alunos, cada um tomando seu respectivo lugar. A professora olhou para eles e em seguida para mim com um olhar furioso.

– Se tivesse se levantado antes, eu lhe pouparia de ter um público tão grande. Levante-se já e vá para a frente da sala, menina.

– Eu não quero ir à frente da sala, professora.

Ouvi Edgard murmurar qualquer coisa atrás de mim, tentei prestar atenção, mas senti meu braço sendo puxado. Aquela múmia estava me levando à força para a frente da sala, gritando aos alunos quem eu era, de onde vinha e o que estava prestes a fazer.

Senti minhas mãos gelarem e meu rosto esquentar. Já estava disposta na frente das carteiras, com praticamente todos os alunos me fitando. Faltou-me ar.

Depois de alguns gaguejos e gestos descontrolados, percebi que alguns riam de mim. Minha mente se focou nos sussurros que soltavam, lendo os lábios de cada um, percebi que teria sido melhor ter dito alguma coisa desde o início. Eu estava fazendo o papel da estrangeira inocente.

– Que cabelo esquisito.

– Ela pegou carvão e passou nos olhos ou dormiu mal?

– De noite ela vai ao cemitério fazer algum ritual pro capeta, você não acha?

Tentei conter as lágrimas, mas foi impossível. Busquei minha mochila na carteira e saí as pressas da sala de aula. Ao longe, ouvi a professora no vão da porta, gritando.

– Ganhará duas faltas por ter saído da aula.

Enquanto andava, minha visão embaçava, já não enxergava quase nada. O desespero tomou conta de mim e entrei no primeiro banheiro feminino que encontrei, por sorte, estava vazio.

Olhei no espelho e minha vontade foi de quebra-lo com o punho. A maquiagem negra escorria por meu rosto, transformando-o em algo bizarro. Tratei logo de limpá-lo e me trancar em uma das cabines vazias.

– Aquela velha merece morrer. Mulher idiota, insuportável, quem ela acha que é? Onde já se viu obrigar um aluno a falar na frente da sala? Ridícula. Eu juro que a mataria com as minhas próprias mãos.

Depois de longos minutos de lágrimas e reflexões, lembrei de Edgard e do que fizera à garota loura na festa.