Good Charlotte
5 Porto-seguro
Deixei-me cair no chão do banheiro feminino, ainda em lágrimas, sentindo o cheiro de coisa de podre no ar. Fiquei assim por alguns minutos, até a porta abrir-se e uma garota entrar. Percebi que ela estava a gritar e rapidamente me coloquei de pé.
- Menina, você está bem? – Ela falou, como se estivesse com medo de chegar perto de mim e eu lhe dar uma mordida, arrancando um bife de seus braços musculosos.
- Estou, valeu. – Me virei para o espelho sujo e quebrado e comecei a limpar a maquiagem escorrida no rosto. Minha visão periférica me permitiu admirar a expressão de horror marcada no rosto da menina. Também pude vislumbrar como deixava seus cachos escuros soltos nos ombros, diferente das outras meninas desse colégio, que faziam questão de alisar seus cabelos – Desculpa se te assustei, eu não costumo deitar no chão de banheiros femininos.
- Não, tudo bem, já vi de tudo nesse colégio. – Ela parecia mais constrangida que nervosa – Seu sotaque é diferente...
- É, eu acabei de voltar do Japão.
- Sério mesmo? Isso é muito legal, passou as férias lá?
- Não, eu morei lá a minha vida inteira. Vim pra cá por... Problemas familiares.
- Entendi. Está tudo bem com você? Mesmo? Sua cara tá meio inchada e...
- Eu preciso ir. Legal conversar com você. Tchau.
Peguei minha mochila e sai às pressas do banheiro. Senti o olhar da menina em mim, ela provavelmente estava pensando em como se esquivar de mim, da próxima vez em que me encontrar.
Precisava encontrar Ed. Não sabia dizer se ele era o tipo que pouco ligava para as coisas e já teria ido embora, ou se me esperaria para perguntar como eu estou.
Segui para a sala da qual sai chorando, por um corredor de aparência antiga, com móveis coloridos no melhor estilo anos 70. Quando finalmente cheguei, não entrei de imediato, preferi espiar pelo vão da porta. Edgard estava lá. Ele estava conversando com a velha.
Pude notar seus gestos, e parecia que estava atuando na frente da professora, e a mesma o fitava com um olhar desconfiado. Alguns minutos se passaram e ela começou a rabiscar alguma coisa em um pedaço de papel e o entregou à Ed. Ele saiu sorridente da sala, aquele mesmo sorriso que me causou arrepios mais cedo.
Encostei-me a parede, para que não pudesse ser vista. Ed passou direto por mim e tive de assobiar baixinho para que me encontrasse.
- Char! Você saiu correndo pra ficar ao lado da sala?
- Não, idiota. Eu me escondi no banheiro.
- Ah, sim. Uma garota esconder-se no banheiro feminino parece pouco óbvio. Ainda mais quando não tem ninguém procurando por você.
- Quer parar? Preciso falar com você.
- Onde você mora?
- O que isso tem a ver?
- Tem a ver que eu preciso ir pra casa agora, mas se fizermos o mesmo caminho, podemos ir conversando.
- Certo. Eu tomo um ônibus que para há duas quadras daqui. É um pouco longe, na verdade ainda não sei o caminho a pé.
- Ou podemos ir pra minha casa, que não é muito longe daqui e depois eu te levo de carro para a sua.
- Mas eu mal te conheço, como vou entrando assim na sua casa?
- Não se preocupe com isso, oras. Vamos lá, eu cozinho muito bem.
- Claro que cozinha. – Revirei os olhos e sorri. Era um moleque, a única coisa que aparentava fazer direito era jogar muito vídeo game.
Saímos pelo portão principal. Percebi um grupinho de pessoas da minha sala nos encarando, provavelmente estavam rindo internamente. Apertei o passo e fechei a cara, fingindo não estarem lá, mas quando estava longe de suas vistas ainda pude ouvir um coral de gargalhadas vindo daquela direção.
Passamos por uma parte com bastante área verde no colégio, o que achei curioso tratando-se de uma escola pública. No Japão as coisas eram diferentes. Um portal de tijolos anunciava com uma placa “Portão 3”, era a saída que dava para um bairro com casas muito grandes e bonitas. Eu havia entrado pelo “Portão 1”, que dava para uma avenida razoavelmente movimentada.
Andamos por um bom tempo, seguindo ao Oeste, mas nunca saindo do bairro chique. Quando Edgard começou a diminuir o passo, quase não acreditei. Aquele menino revoltado que usava roupas sujas e rasgadas morava em uma daquelas casas.
Ele parou em frente a uma casa cor de areia, portões brancos e vazados que deixavam a vista dois carros populares e um bem cuidado jardim de inverno ao lado. Com o clique de um botão em seu chaveiro, apenas uma parte do portão deslizou para nos dar passagem, ao mesmo tempo em que um Golden Terrier saiu correndo de dentro da casa para saudar seu dono.
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