Golden Bird
2 Estratégias
Notas iniciais
Dentro do trem, Charlotte perguntou pelo seu quarto, indo para o mesmo em seguida, sentando-se na cama e colocando os pensamentos em ordem. Pouco depois, escutou batidas na porta, recompondo-se e indo abrí-la: era Viktor, o único vencedor do Distrito 9 e amigo de festas do seu tio.
— Charlotte, eu sinto muito por isso — o homem alto de cabelos castanhos escuros ondulados na altura dos ombros, barba, pele bronzeada e olhos cor de mel parecia sinceramente compadecido com a situação da jovem
— Não mais do que eu — respondeu a garota, prendendo seu cabelo em um coque.
— Eu falei para Zion pagar o que Carter estava pedindo, mas ele achou que essa era a situação para ele demonstrar dominância — o homem revirou os olhos — Sempre uma criança. Bem, estou reunindo o pessoal na mesa, já que eu tenho que treinar vocês para vencerem ou, pelo menos, tentarem — ele fez uma careta de pena e chateação
— Sempre gostei da sua honestidade — falei, fechando a porta atrás de mim e o seguindo pelo corredor
— O garoto e Mikeyan já estão lá, só faltam nós dois.
— Viktor, eu vou precisar de um violão — ela disse, aguardando ansiosa a resposta do homem, que se manteve em silêncio por algum tempo e, depois, respirou fundo.
— Eu gosto da sua linha de raciocínio, pode dar certo, muito certo mesmo — a cada vez que ele pensava mais no assunto, o sorriso de divertimento aumentava em seu rosto — Mas você vai ter que aprender a sobreviver, garota, há coisas que patrocinadores não podem fazer por você.
— Tudo bem, pode deixar que eu me viro quanto a isso — ela fez silêncio o restante do caminho para que Dylan não soubesse do que haviam conversado.
— Ah, parece que a bela adormecida finalmente quis nos dar o prazer de sua companhia — debochou Dylan, enquanto comia uma fatia de um bolo red velvet e tinha à sua frente uma xícara de chocolate quente.
— Eu já estou aqui, não estou? — questionou Charlotte, enquanto escolhia seu assento de frente para Mikeyan, deixando o lugar ao seu lado para Viktor, que teria que ficar de frente para Dylan.
— Garotos, acalmem-se — falou Viktor, enquanto pegava um quitute salgado da mesa — Sei que o senhor gosta de uma boa briga, garoto, mas, para sua infelicidade, a Capital te proíbe de brigar desde que o seu nome foi sorteado até a contagem dos 75 segundos ser finalizada. Vocês são propriedades deles agora e eles decidem quando vão brigar — ele parou para terminar de comer o último pedaço de um bolinho frito de carne bovina — Então, aproveitem para comer essas delícias e guardem energia para a arena, lá você — ele encarou Dylan com alguma ironia — vai poder ir atrás dela e as pessoas vão amar ver tudo isso — a fala de Viktor pareceu acalmar o jovem, que pegou um prato e serviu-se fartamente da comida exposta
Bem, agora com isso resolvido — o homem se serviu uma taça de champagne — vamos para a parte em que eu, como mentor de vocês, ensino os dois a sobreviver. Em primeiro lugar, táticas de sobrevivência: no treinamento, dediquem-se a aprender a fazer fogueira, obter recursos, que plantas são comestíveis, quais plantas não são, essas são especialmente importante, falo por experiência própria — ele deu uma risada, lembrando-se de como havia envenenado a comida dos carreiristas restantes enquanto ele se escondia na rede de túneis subterrâneos da sua arena que contara com túneis de minas.
Habilidades com armas são superestimadas. Na hora em que é você e outra pessoa — ele inclinou-se para frente da mesa — Uma pedra qualquer, um tijolo podem se tornar uma arma — ele tomou o último gole da taça — Sabem usar alguma arma?
— Eu sei — respondeu Dylan brevemente
— Eu também — disse Charlotte, tomando um gole da xícara de chocolate quente com a qual havia se servido.
— Hummm… Misteriosos — ele abriu um sorriso, passando as mãos pelo cabelo — Parece que os Jogos já começaram — ele deu uma risada — Eu vou falar sobre isso individualmente. Outra coisa é conseguir patrocinadores e eu preciso que vocês pensem em uma forma de conquistarem a Capital. Vocês precisam saber o personagem que irão interpretar e vamos tratar disso individualmente também. Alguma dúvida?
— Não — responderam os adolescentes.
— Se não se importarem, eu gostaria de começar a conversa individual com Dylan primeiro. Tudo bem?
— Claro! — disse a loira, o que fez Viktor direcionar seu olhar para Mikeyan, que acompanhava a situação entretida.
— Ah, isso me inclui? — a mulher de pele lilás perguntou
— Sim, querida — Viktor respondeu com um doce sorriso, que a menina entendia ser sarcástico pelas noites de poker do seu tio com o seu mentor.
— Tudo bem, então nós vamos — afirmou Mikeyan levantando-se e chamando a menina. Cada uma foi para a sua cabine e a loira escolheu deitar e dormir pelo cansaço da noite anterior na qual mal repousara.
Ela estava andando de novo pelas áreas montanhosas do território livre e ouviu, ao longe, as risadas de seus familiares e, principalmente, a voz de sua avó cantando.
A jovem caminhou por entre as árvores da floresta, porém o que ela acabou avistando foi uma cabana de madeira, de onde vinha barulhos de movimentação e de uma arma sendo destravada. Automaticamente, a adolescente se escondeu atrás de uma árvore alta e larga, enquanto ouviu o som da porta sendo aberta e passos atentos.
Ela espiou, rapidamente, e vislumbrou a figura de um jovem homem loiro, com aspecto de pacificador, portando um fuzil, em postura de estar caçando alguém.
- Lucy! — o homem gritou, fazendo o coração de Charlotte disparar. Ela fechou os olhos, respirou fundo e olhou para baixo, percebendo que ela não era Charlotte, mas sim uma versão jovem da sua avó, ela era Lucy e tudo isso lhe parecia muito familiar. Era parte das histórias que ela havia ouvido e a adolescente sabia que o homem estava buscando eliminá-la. Foi então que ela escutou um grito e o som de uma cobra fugindo pela grama — É isso? Você quer me matar? É isso, Lucy Gray? Você quer me matar?
A jovem sabia que precisava sair dali ou seria encontrada, mas necessitava agir no momento certo. Charlotte aguardou e, quando pensou em correr, sentiu os pés presos ao chão, como se mãos tivessem agarrado os seus calcanhares. Em desespero, ela lutou para sair do lugar, mas a única coisa que obteve foi cair para frente, com os pés ainda presos no mesmo lugar e, na queda, ela acabou quebrando alguns galhos secos que suas mãos esbarraram para evitar o choque direto com sua face.
Quando ela ouviu o som dos galhos secos quebrando, soube na hora que ele também havia escutado, sentindo os passos dele reverberando no chão. A jovem lutou o máximo que podia para fugir dali, porém todas as suas tentativas foram frustradas, fazendo lágrimas de puro medo escorrerem por sua face.
- Aqui está você! — a raiva em sua voz era palpável, o que fez com que Charlotte não tivesse coragem de levantar o rosto para visualizar quem a caçava — Olha para mim! — ele praticamente rosnou a frase, mas ela se manteve imóvel, tendo escutado depois o som do disparo da arma contra o chão pouco à sua frente, fazendo-a tremer — Eu disse para olhar para mim! — ele vociferou as palavras e ela, finalmente, levantou o olhar, encarando os olhos azuis impiedosos e ferozes dele — Eu fiz tudo por você! Tudo! Eu salvei a sua vida! — ele respirou fundo, olhando brevemente ao redor — Se você pôde voltar para essa pocilga de Distrito para fazer os seus showzinhos naquela espelunca foi por MINHA causa e você não demonstra o mínimo de gratidão e lealdade! — o homem comprimia os lábios em raiva.
- Lealdade? Foi isso o que você demonstrou ao Sejanus? — ela cuspiu de volta, o que levou o jovem a comprimir os olhos e soltar uma risada amarga.
- Você não sabe nada sobre isso! — ele voltou a mirar a arma no peito dela.
- Que você entregou o garoto que te considerava o melhor amigo dele sem hesitar para ganhar pontos com a Capital? É sério? Eu errei algo? — sua voz destilava sarcasmo
- Eu não posso ficar aqui. Eu não fui feito para a miséria, eu sou um Snow. — ele falava como se isso justificasse todas as suas ações
- Como então eu posso confiar em você? Que você não irá me eliminar no primeiro momento em que isso lhe pareça conveniente? — ele se manteve em silêncio — Você veio me procurar com ou sem o fuzil?
- Você deixou uma cobra debaixo do lenço da minha mãe para me atacar!
- Você saiu da cabana armado antes de saber disso, Coriolanus! — eu lhe fitei no fundo do seus olhos — Faz logo o que você veio fazer e volta para a sua querida Capital — ela respirou fundo
- Você poderia ter vindo comigo para a Capital, poderíamos ter sido felizes, mas você escolheu que as coisas terminassem assim — ele destravou a arma.
- Agora são quatro, Coriolanus — fechei os olhos, começando a cantarolar a canção de ninar:
Deep in the meadow, under the willow (profundamente no prado, sob o salgueiro)
A bed of grass, a soft green pillow (um leito de grama, um macio travesseiro verde)
Lay down your head, and close your sleepy eyes (deite sua cabeça e feche seus olhos sonolentos)
And when again they open, the sun will raise (e quando eles abrirem de novo, o sol nascerá)
Here it’s safe, here it’s warm (aqui é seguro, aqui é quente)
Here the daisies guard you from every harm (aqui as margaridas te guardam de todo mal)
Here your dreams are sweet and tomorrow brings them true (aqui seus sonhos são doces e amanhã eles se realizarão)
Here is the place where I love you (aqui é o lugar em que eu te amo)
Foi então que a adolescente escutou o som dos disparos.
Charlotte acordou num ímpeto com uma sensação de desespero e falta de ar, ouvindo um som forte ao fundo. Ela estava desorientada, sentindo-se ainda meio zonza, quando, aos poucos, foi voltando a si, com o som do mover do trem sobre os trilhos, trazendo a ela novamente a noção de que estava sendo conduzida aos Jogos. O barulho ainda persistia, quando ela notou que eram batidas na porta, o que a fez se levantar e atender, dando de cara com Viktor:
— O que aconteceu, garota? Eu estou te chamando há algum tempo! — o homem parecia meio emburrado
— Eu peguei no sono e estava tendo um pesadelo — respondeu enquanto tentava normalizar a respiração.
— Tudo bem — ele suspirou — Isso é bem comum, na verdade. Hora de conversarmos sobre a sua estratégia.
— Tem algum lugar em que não poderemos ser ouvidos? — ela temia que Dylan captasse alguma estratégia.
— Claro, o seu amiguinho já foi para a cabine dele, que fica bem distante da mesa de jantar. Vamos para lá.
Quando chegaram no local, Charlotte se serviu de um copo de suco de maracujá e um sanduíche de pernil com molho e salada, enquanto o mentor colocava uma dose de vodka para si.
— Bem, qual é o seu plano? — questionou, fazendo uma careta após tomar tudo em um só gole
— Você sabe que eu sei cantar e tocar violão, eu posso cantar para eles na entrevista, só que eu preciso de um violão para isso. E é aí que você entra.
— Eu posso fazer esse favorzinho em nome das boas festas que o seu tio me proporcionou — disse, pegando um flan de morango — E as suas habilidades de sobrevivência? Preciso que seja honesta comigo, não posso te ajudar se eu não souber o que você consegue fazer. — a loira respirou fundo, ponderando o que deveria contar para o seu mentor, já que estar nos limites fora de Panem era considerado um crime.
— Eu tenho habilidades de sobrevivência — Viktor arqueou as sobrancelhas em descrença — Eu … — ela baixou os olhos para suas mãos — Meu tio deixava eu e meus pais sairmos … — ela respirou fundo, fechando os olhos, enquanto soltava parte da informação — … sairmos dos limites do Distrito antes de eu completar 12 anos — o rosto de Viktor demonstrava surpresa — Minha mãe é do tipo espírito livre e isso acabou pegando no meu pai quando eles se apaixonarem, meu tio deixava isso acontecer para manter o primo por perto. Nós passávamos dias fora e ele dizia que estávamos doentes para as outras pessoas.
— Agora o tratamento misterioso e revolucionário que melhorou a saúde de vocês depois que você fez 12 anos faz sentido — ele acendeu um cigarro e começou a fumar.
— Os dias em que ficamos acampados me fez aprender a conhecer diversas plantas, também sei caçar alguns animais.
— E alguma habilidade com armas?
— Sei usar lâminas e lanças.
— Bem, isso é bem melhor do que eu esperava, garota, bem melhor mesmo — ele solta a fumaça do cigarro e ri consigo mesmo — Parece que esses Jogos serão interessantes. Quem sabe não temos a chance de termos mais um vencedor do Distrito 9, melhor dizendo, vencedora. Durante o treinamento não mostre todas as suas habilidades para os outros tributos, fique só nas áreas de sobrevivência, só use as lâminas e as lanças se ninguém estiver por ali, nem olhando. Eu quero que eles te subestimem, ok? — ele deu mais um trago no cigarro e a fumaça incomodou Charlotte, mas a adolescente não ousou reclamar, pois aquele homem poderia ajudá-la a sobreviver.
— Claro. Eu só preciso saber de uma coisa: Você consegue o violão para mim? — questionou preocupada
— Eu posso não ser um Finnick Odair, mas ainda assim eu tenho os meus fãs na Capital que podem me arrumar um violão — ele soltou um sorrisinho irônico.
— Ótimo! — ela soltou aliviada
— Você precisa ser carismática e sorridente. Você estará emocionada e super feliz de ter a honra de poder se apresentar para eles, entendeu?
— Sim — ela falou, pensando em como faria isso.
A noite chegou, seguindo-se um jantar silenciosamente desconfortável, com Dylan encarando-a como um caçador avaliando sua presa. Quando Charlotte deitou-se em sua cama, ele só podia pensar se sua família havia conseguido fugir do Distrito 9.
Naquela noite, no Distrito 9, era possível ver algumas figuras fugitivas, nas áreas além dos limites permitidos, quando se ouviu um disparo ecoando.
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