Golden Bird

3 O êxtase da Capital


Notas iniciais
Estou de volta com mais um capítulo. Manifestem com educação se estão gostando do rumo e do ritmo da história. Sem mais delongas, boa leitura!

Charlotte se viu abismada com a multidão ruidosa que os esperava na estação de trem da Capital quando chegaram, era ensurdecedor, algo que quase a deixou sem reação. Porém, a loira lembrou-se dos conselhos de seu mentor, foi para a janela e começou a sorrir e acenar para as pessoas que ficaram extasiadas com a reação da jovem. Dylan, por sua vez, acenava de outra janela com um sorriso galanteador, o que foi percebido pela adolescente de canto de olho, então esse seria o personagem dele.

Ao desembarcarem, a multidão os cercou, com um vívido entusiasmo, enquanto Charlotte os cumprimentava com tremenda simpatia. Quando chegaram no prédio, ela foi logo encaminhada à uma sala na qual havia equipe de esteticistas de aparência chamativa, que rapidamente começou os procedimentos de higienização e beleza. A jovem sentia-se desumanizada, pois podia ouvir os sussurros de comentários sobre sua aparência e sobre se acreditavam que ela teria uma chance, como se ela não estivesse ali. No final, ela era como um animal, sendo preparada para ser leiloada por patrocinadores, que escolheriam os seus galos de briga favoritos e que pensavam que poderiam lhe render um bom retorno. Em nenhum momento, ela teve a oportunidade de se olhar no espelho e saber o que exatamente estavam fazendo com ela.

Ela se sentiu aliviada quando os esteticistas deixaram o ambiente, sentando-se na maca de metal e sentindo o incômodo da sensação de seu corpo estar pinicando. A adolescente respirou fundo, buscando colocar seus pensamentos em ordem, lembrando-se da estratégia e do personagem que deveria interpretar. Contudo, o silêncio foi interrompido pela chegada de Volina, a estilista, levando-a a se sentar para encará-la.

— Ora, ora. O que temos aqui? Parece que dessa vez me mandaram um material razoável. — falou a estilista com um sorriso que extravasava artificialidade assim como todo o restante do rosto. Os lábios roxos eram muito preenchidos, a pele bastante repuxada, até mais do que Charlotte acreditava ser possível e colorada em um tom de rosa bebê. Os cabelos vermelhos cor de sangue estavam num penteado elaborado que formavam um coração, estando os olhos do mesmo tom dos cabelos.

As palavras da estilista provocaram uma raiva na loira, que fechou os olhos por um instante e jogou esse sentimento para um canto no fundo da sua mente. Quando seus olhos abriram-se de novo, um sorriso tímido, mas, ao mesmo tempo, intenso foi formado para ser apresentado para a mulher da Capital.

— Sério? Você acha que eu consigo ficar bonita? Eu ficava vendo os desfiles dos tributos, as roupas tão lindas que você fez para o meu Distrito e eu sentia uma vontade de poder vestir algo tão lindo assim — Charlotte usou a voz de menina ingênua, enquanto lançava um olhar de admiração para a mulher, que ao receber os elogios, abriu um largo sorriso de dentes demasiadamente brancos.

— Oh, garota! — ela segurou uma das mãos da adolescente — Eu vou te deixar deslumbrante! Você ficará tão bonita no desfile que não irão nem se lembrar que você é do Distrito 9 — falou em um tom de voz entusiasmado.

— Sério? — o sorriso de Charlotte aumentou e ela piscou os olhos como se fosse uma criança que recebesse a promessa de um presente.

— Seríssimo! — ela passou a mão pelos cabelos da adolescente, que foram alisados pela equipe de preparação e que agora estavam em diversas pequenas e longas tranças.

Após um longo tempo, Volina finalmente afastou-se de Charlotte, olhando o resultado final e abrindo um sorriso de satisfação.

— Ai que lindo! Uma obra de arte! Eu me superei! Todos vão amar o meu trabalho! — a estilista dizia, terminando de ajeitar a roupa da jovem.

— Eu posso ver? — questionou a adolescente apreensiva com no que a mulher a havia transformado.

— Claro! Só tome cuidado para não estragar minha obra de arte, ok, menininha?

A loira, então, caminhou cuidadosamente nos saltos altos dourados que Volina a mandara colocar até um canto do espaço que a mulher lhe indicara. Ela chegou até em frente da superfície reflexiva com passos incertos, mas o que ela viu a deixou aliviada e, até mesmo, muito feliz.

Era um vestido longo sem mangas, com a parte final com a estampa de um campo de trigo que ia até um palmo abaixo do joelho, dali até antes do pescoço aparecia um céu claro que ia escurecendo cada vez mais, até se tornar um céu noturno na altura do colo da jovem. Do campo de trigos até o busto do vestido havia diversas borboletas estampadas.

A pele do rosto e dos braços de Charlotte estavam com glitter dourado, os lábios em um tom vívido de azul escuro e os olhos em um tom dourado mais intenso. Do início da parte posterior da cabeça até o final da parte de trás do vestido havia uma espécie de véu que parecia ser formado por espigas de trigo que se intercalava exatamente para que o espaço entre elas fosse ocupado pelas várias pequenas tranças nas quais os cabelos loiros da jovem estavam divididos.

— É deslumbrante! — disse a loira emocionada com o reflexo no espelho — É lindo!

— E você achou que eu faria algo menos do que espetacular? — disse a estilista, dando uma risada, aproximando-se da adolescente — Na hora do desfile, exiba a minha criação com elegância, ok? Pode ser que te vendo tão glamourosa assim, os patrocinadores até relevem o fato de você ser do Distrito 9 — as palavras de Volina a atingiram, trazendo o peso do seu Distrito, era verdade, os patrocinadores não gostavam de investir nos Distritos com poucos vencedores. Charlotte deveria ser extremamente charmosa e cativante se quisesse receber alguma dádiva na arena, já que, a princípio, elas eram todas direcionadas aos Carreiristas.

— Claro! — a jovem respondeu a mulher da Capital com um falso sorriso — Muito obrigada mesmo, Volina! Eu só não choro de emoção porque isso estragaria minha maquiagem.

— Está certíssima, menina! — falou a estilista antes de sair da sala e os avoxes entrarem para conduzirem a adolescente para a área das carruagens.

Ao chegar no local onde as carruagens estavam, a movimentação era intensa com os tributos, estilistas e mentores, além dos cavalos, que estavam sendo cuidados por avoxes. Eram tantas pessoas que, por um instante, Charlotte não sabia para qual veículo deveria ir, o que a fez parar e observar, fazendo-a notar as duas crianças muito magras que pareciam não ter mais de 13 anos do Distrito 12.

A garota tinha pele branca, cabelos cacheados que só iam até a altura da nuca e olhos cinzentos, já o menino tinha cabelo liso, curto e castanho claro e olhos cor de mel. Ambos estavam vestidos de mineiros com a pele coberta por maquiagem que imitava fuligem, o que não atrairia o favor dos patrocinadores. Eles não pareciam ter a mínima condição de sobreviver aos Jogos, o que fazia seu coração pesar e ela só queria que não tivesse que enfrentá-los na arena.

Enquanto observava os tributos do 12, a loira foi surpreendida por uma voz que vinha de trás dela:

— É uma pena, não é mesmo? — ela se assustou com a voz de Viktor, virando-se para ele, que usava um terno verde esmeralda com colete da mesma cor e gravata cobre, os cabelos colocados para trás com gel. Ele estava incomodamente próximo a ela — O melhor que esses pobres coitados podem encontrar na arena é uma morte rápida e menos dolorosa possível — disse calmamente, enquanto bebericava um copo de rum.

— Eles são tão pequenos — sussurrou, ainda observando as crianças do 12.

— Se você quiser sobreviver, é melhor deixar esse coração mole de lado, loirinha. Agora, vamos para a carruagem que o desfile vai sair daqui a pouco — a adolescente acompanhou o mentor em silêncio, mergulhada em seus pensamentos.

Como iria matar os tributos mais novos? O pensamento era terrível demais, trazendo um gosto amargo em sua boca, mas ela não pode evitar de pensar naquelas crianças na arena, seus corpos envoltos em sangue e isso lhe embrulhava o estômago. Não! Ela iria evitá-los, deixar que o destino deles não fosse selado por elas, Charlotte não queria o sangue de inocentes em suas mãos, porém ela não sabia se teria essa escolha. Como a sua avó passara por isso? Como ela mantivera ainda tão ela mesma depois de ter passado pelos Jogos?

— Chegamos, loirinha — a voz de Viktor tirou a adolescente de seus pensamentos, levando a cabeça e fazendo ver que Dylan já estava na carruagem com um terno que parecia feito de espigas de trigo (a calça e o paletó). Não havia camisa, o que deixava o peitoral malhado do adolescente à mostra, com sua pele coberta por um brilho dourado, o que incluía o rosto e o pescoço. Nos olhos castanhos escuros havia um delineado azul escuro do mesmo tom do batom de Charlotte e na orelha direita um brinco de argola. O cabelo preto baixo completava o visual de bad boy:

— Até que enfim a princesinha chegou. A menininha acha que pode fazer os outros esperarem — Dylan falou sem ao menos voltar seu olhar para a jovem, que revirou os olhos.

— Que eu saiba nenhuma das carruagens saiu, então eu não fiz ninguém esperar. Na verdade, eu fiz o favor a nós dois de diminuir o tempo que teremos que suportar a presença um do outro. — ela fez menção de subir na carruagem, quando Viktor lhe estendeu a mão como apoio, que ela aceitou, por causa dos saltos que estava usando.

— Essa é a hora de vocês conquistarem o público, crianças — o mentor falou, acariciando um dos cavalos negros que iriam puxar a carruagem — Não se esqueçam do que combinamos, meus queridos. Eu quero ter um vizinho ou uma vizinha na Vila dos Vitoriosos — ele sorriu, olhando para Charlotte de um jeito intenso, o que a fez se sentir um pouco incomodada, mas ela engoliu seco e manteve a postura e o semblante tranquilo.

Viktor manteve o olhar até que um som de risada atraiu sua atenção, fazendo-o se virar e ver Cashmere vir andando em sua direção em um vestido verde escuro ombro a ombro com mangas que se estendiam e cobriam até suas mãos, como se também fossem luvas. A peça possuía um profundo decote nas costas, que ia até a altura do quadril, e um decote menor na frente, o tecido parecia, na verdade, serem escamas de um réptil, mais especificamente de uma cobra. Os cabelos loiros estavam numa trança espinha de peixe e um batom escarlate estava perfeitamente aplicado em sua boca. Ela era a definição visual de uma femme fatale.

— Viktor, parece que esse ano você tem duas coisinhas bonitinhas à sua disposição. É uma pena que eles vão morrer no banho de sangue — Cashmere dizia com a calma de quem comenta se irá chover ou não, o que fez o sangue de Charlotte ferver, fazendo ter que encarar os cavalos para buscar retornar a faceta de jovem amável, enquanto Dylan manteve um sorriso debochado para a vitoriosa do Distrito 2. Viktor não se abalou, mantendo a postura confiante e disse: — Isso pode até ser verdade nos outros anos, Cash, mas esse ano… — um grande sorriso preencheu largamente seu rosto e ele caminhou aproximando-se bastante da mulher — Esse ano, meu bem, eu tenho uma chance, uma boa chance. — os saltos vermelhos da mentora fizeram barulho quando ela andou ainda mais para perto do outro mentor ficando a poucos centímetros dele.

— Eu acho isso um certo exagero da sua parte — a vitoriosa do Distrito 2 afirmou em sarcasmo, o levou aos dois mentores se encararem, até que a música que anunciava a entrada dos tributos começou a tocar nos altos falantes.

Charlotte fechou os olhos e respirou fundo antes de os abrir, assim como um sorriso encantador e assumir uma postura confiante. Quando a carruagem do Distrito 9 entrou na área do desfile, a plateia encantou-se com o visual dos tributos, levando a uma comoção inesperada, até mesmo para a jovem, que acenava graciosamente, sorria e mandava beijos para a multidão. Era um furor, quase como uma transe para a adolescente, tudo aquilo parecia tão surreal, tão absurdo e inexplicável. Como aquelas pessoas pareciam estar encantadas por ela, mas, em poucos dias, celebrariam sua morte nos Jogos? Os gritos, os aplausos, as flores que a multidão jogava em sua direção, as roupas luxuosas e a maquiagem e penteados chamativos eram tudo, toxicamente, inebriante.

Charlotte repassava a conversa com os pais em sua mente para se manter sóbria em meio ao êxtase dos moradores da Capital, foi assim até que ela pode voltar a escutar os cascos dos cavalos ecoando contra o chão, indicando que haviam passado pela passarela. Foi como se a jovem pudesse voltar a respirar após mergulhar por um longo tempo e ela fixou sua atenção nos equinos que eram conduzidos por avoxes até alguma parte do espaço. O burburinho de pessoas soava como zumbido em sua mente, até que a voz de Dylan a tirou de seus pensamentos:

— Princesinha, volta para o mundo real. — ela se virou para ele, que já descendo da carruagem, dispensando a ajuda de qualquer pessoa. Foi, então, que ela se virou para o seu lado, vendo um avox que lhe estendia a mão, o que ela aceitou de bom grado e lhe sussurrou um agradecimento, fazendo o homem se surpreender e levemente arquear a boca numa intenção de sorriso, antes de baixar os olhos ao chão.

— Vocês foram ótimos! — Viktor gritou na direção dos jovens, batendo palmas e com um largo sorriso no rosto — Vamos conseguir patrocinadores, crianças! Esses Jogos serão interessantes, pode crer que serão — ele ajeitou os cabelos e viu Cashmere de longe, piscando para ela — Agora vamos subir, se ficarmos aqui embaixo irá parecer que estamos desesperado por eles, precisamos que eles pensem que não somos só mais uns mortos de fome caquéticos do Distrito 9.

A loira deixou-se conduzir por seu mentor com Dylan ao seu lado e, quando a porta do elevador fechou-se à sua frente, ela se sentiu esmagada pelo peso de ser apenas um brinquedo nas mãos da Capital.


Notas finais
Se gostaram do capítulo, comentem! Até o próximo capítulo! ;D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.