Gods and Monsters, 1919
1 Moniq
Notas iniciais
Paris, 1919.
Havia pouquíssimas coisas das quais eu me arrependia em minha longa vida, uma delas era nunca ter desembarcado na Holanda antes. Já passara por ali algumas vezes rumo à Alemanha e já ouvira histórias encantadoras sobre sua capital, mas nunca realmente havia ido até lá. Mandei um último beijo para Paris de dentro do trem, prometendo que voltaria e me deixei conduzir para a nova cidade. Somente no dia seguinte de manhã, cheguei a Amsterdã.
Assim que desembarquei na cidade, arranjei um carro e fui providenciar uma morada. Queria algo bem próximo do centro e com vista para os lindos canais que se estendiam por toda cidade, confortável o suficiente para não me fazer sentir falta de Paris. Numa posição como a que queria, provavelmente seria caro, mas, em realidade, dinheiro não era problema para mim, primeiro porque, para uma donzela como eu era bem fácil conseguir, e segundo porque eu não o usava realmente.
— Chegamos, senhorita Cosset. Há um proprietário que aluga o lugar — disse o motorista do carro se virando para me olhar, as pupilas se dilatando indiscretas.
— Ótimo — lhe sorri — Ajude-me com as malas, sim?
— Sim, senhorita — e saiu do carro apressado.
Olhei pela janela do carro para o sobrado para o qual ele havia me trazido. Era exatamente do jeito que queria, a arquitetura era linda e tinha uma enorme varanda no alto com vista para rua e o canal que a acompanhava. Esperei que o motorista abrisse a porta para mim e me tomasse pela mão para que descesse. — Obrigada.
— Eu devo...
— Não — o interrompi -, pode ir.
— Mas, senhorita...
O olhei nos olhos e ele parecia desolado.
— Seus serviços não são mais necessário, vá.
Então sua expressão se tornou neutra e suas pupilas se moveram sob minha vontade.
— Sim, senhora — e se retirou.
Não tardou para que um homem baixo e meio careca surgisse na porta do sobrado me observando, curioso.
— Posso ajudá-la?
Me aproximei com um sorriso simpático.
— Olá, sou Moniq Cosset e gostaria de alugar o sobrado.
— Desculpe-me senhora, mas minha casa é muito requisitada e já tem uma reserva para uma pessoa importante.
— Senhorita — corrigi. — Se essa pessoa é tão importante, ela pode muito bem arranjar outro lugar — e o fitei nos olhos -, não acha?
Suas pupilas se dilataram um instante e ele demorou alguns segundos antes de responder.
— Certamente, senhorita — sorriu — Ficaria encantado em recebê-la pelo tempo que quiser.
— Tinha certeza de que o senhor me entenderia — sorri cínica. — Mostre-me o lugar e peça, por favor, para recolherem minhas malas.
— Sim, senhorita.
E então, tinha o que seria minha casa em Amsterdã.
Sou o que os mortais chamam de súcubos, um demônio em forma de dama que existe somente para seduzir e se alimentar da força vital dos homens — ou mulheres como algumas de nós preferiam -, persuadir pessoas tão facilmente era um de nossos notáveis dons e eu, em especial, com um século e 79 primaveras, existia por puro prazer de ser o que era. Viver entre os homens, fosse atormentando — ou melhor, divertindo — seus sonhos ou observando seu desenvolvimento, era fascinante, divertido e, de modo lascivo ou não, prazeroso. Por isso, encontrei uma casa na cidade que mais amava no mundo e lá fiquei saindo vez ou outra para conhecer o mundo e os homens em seus diferentes habitat. Poderia dizer que fazia um trabalho quase antropológico, sorri comigo mesma enquanto saia do banho do meu novo sobrado e ia para a varanda observar a cidade. Era linda em tons avermelhados, as pequenas ondas dos canais cintilavam contra a luz do sol que, agora, já se punha e o cheiro de tulipas estava por todos os lados.
Estava perdida em pensamento sobre o que visitaria primeiro naquele lugar, como uma boa turista clichê, quando senti a garganta arranhar. Estava com fome. Uma noite com um homem me alimentava por cerca de 10 a 12 dias, mas isso não queria dizer que no 12° dia a fome ainda não me incomodava; queria aproveitar a cidade sem grandes problemas, então conclui que me alimentaria naquela mesma noite para não me incomodar depois, porém queria algo rápido e sem burocracia. Algo que havia me chamado a atenção naquela cidade também, era sua enorme fama em relação ao mercado de prostituição, era o mais popular da Europa, aliás, então o que seria mais prático do que me passar por meretriz para uma boquinha rápida? Ri sozinha indo me arrumar para uma noite agradável.
Entrei em um bordel qualquer e logo já fazia parte de seu conjunto de funcionários, era um lugar aconchegante, com uma decoração em vinho e garotas atraentes. Estava no quarto que a própria proprietária havia reservado para mim, ajeitamento minhas meias 7/8 nas coxas junto da liga, quando senti uma sensação quente envolver o ambiente. Não era o clima, também não era ruim ou opressora, apenas constante e muito presente, se assemelhava à sensação que dava quando estava na presença de um demônio maior. Eram poucos os desses que eu gostava da companhia, então sempre procurava me afastar, essa sensação, porém, era atraente, me impelia a descobrir de onde vinha e momentos depois eu estava vestindo um hobbie de seda escura e saindo de meu quarto a procura de algo que não sabia o que era, mas me mostrava o caminho.
Acabei saindo na sala comunal do lugar e assim que abri a porta a sensação passou. Lá dentro, um rapaz se perdia sob uma montanha de garotas que lhe arrancavam as roupas e lhe davam longos beijos. Somente quando a garota sobre seu quadril se afastou pude ver seu rosto. Era como a cidade, lindo em tons avermelhados, sorri; seu cabelo era de um ruivo vivo e brilhante e as linhas do rosto se completavam de maneira harmoniosa, era tão lindo quanto exótico. Então seus olhos me encontraram e soube que aquela sensação vinha dele, não saberia dizer o porquê, mas ali estava o calor, dentro das íris azul e verde água. Fui até ele e tirei a garota de seu quadril sem dificuldade, o puxei pela camisa e ele levantou obediente, era uns bons 20 centímetros mais alto que eu, mas estava vulnerável o suficiente para que eu o levasse sem dificuldades. Ele seria minha refeição da noite e eu seria sua diversão, que poderia ser mais justo?
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