Gods and Monsters, 1919
2 Dann
Notas iniciais
O vento estava forte aquela tarde e as pás do moinho giravam rapidamente. Eu olhava para elas, lembrando-me de meu avô andando por ali.
"– Veja Dann, temos um bom vento hoje! Vamos ter uma boa produção á moda antiga! – dizia ele sorrindo largamente."
Eu podia vê-lo ali ainda, apreciando do alto os campos de aveia, puxando as correntes para abrir o flap e diminuir a velocidade das pás... Ah, eu estava me sentindo péssimo. Olhei para a gaita em minha mão, sentindo a garganta apertada. Respirei fundo e comecei a tocar uma canção que ele havia me ensinado. Uma música muito antiga e triste. Coloquei minhas pernas penduradas pelo vão da grade que circundava a varanda do quarto andar do moinho e fechei os olhos, minha mente vagando em nostalgia. Quando terminei a canção, me deitei no chão de madeira, o vento soprando meus cabelos para longe do rosto, o sol tingindo de vermelho minhas pálpebras. Ouvi o som de passos subirem as escadas, e pela forma hesitante como paravam antes de subir o próximo lance e até a forma como parou no meio da escada que levava onde eu estava, sabia quem era.
— Dann?
Não me movi. Continuei ali, deitado, as pernas penduradas da forma que deixava o coração dela apertado, mesmo ela sabendo que eu não ia cair. Eu estava agindo como uma criança, mas eu não me importava... doía demais para que eu me importasse.
— Dann, vamos descer – disse ela, sua voz mais perto, e abri os olhos.
Ela estava encostada na porta, os cabelos loiros presos em uma trança frouxa caída no ombro esquerdo, a testa vincada de preocupação e tive um impulso de abraçá-la...havia abraçado ela forte há quatro dias atrás, quando meu avô foi enterrado no tumulo da família. Aquela era a pior parte... ver a pessoa que te ensinou muito e que você amava muito acabar ali, em um buraco frio e escuro sob o túmulo da família. Eu deveria estar me sentindo melhor? Meu pai estava pior do que eu, pois não havia derramado uma lágrima, mas havia se fechado para si, e Bloem... Bloem estava menos agitada, e ficava brincando com suas bonecas em silêncio no quarto. Eu estava sendo cruel com a minha mãe, e sendo principalmente egoísta por deixá-la correr atrás de mim daquela maneira.
— Eu preparei um frango assado com ervilhas do modo que você gosta – disse.
Dei um sorriso para ela, me levantando e indo até ela.
— Obrigado, mãe. Vamos descer.
Ela sorriu, e enquanto descíamos, ela começou a falar sobre uma amiga que havia encontrado no mercado, me perguntando se eu me lembrava, e logo em seguida emendando um assunto aleatório. Estava tentando me distrair. Caminhamos pela trilha de lajotas até a casa, o sol poente lançando um brilho laranja avermelhado em tudo.
Quando entramos na sala de jantar, a mesa já estava posta e meu pai já estava sentado em seu lugar, apenas aguardando. Bloem estava sentada ao seu lado, brincando com um talher. O cheiro estava bom, mas ninguém comeu muito. Estava sendo uma péssima semana aquela. Depois do jantar, fui para meu quarto e guardei a gaita que estava no bolso da calça na gaveta da escrivaninha, a fechando. Isso me fez lembrar do túmulo sendo fechado novamente e senti um arrepio, abrindo a gaveta novamente. Olhei para a gaita por um longo momento, e cheguei à conclusão de que iria enlouquecer. Precisava de um tempo longe dali, nem que fosse apenas algumas horas. Precisava de uma noite de esquecimento. Tomei um banho e me vesti, passando pela minha mãe que lia um livro sob a luz de um abajur.
— Vai sair? – perguntou ela.
— Vou dar uma volta.
Ela me deu um breve sorriso, que me pareceu um pouco aliviado, e voltou sua atenção para a leitura. Sai e caminhei até onde estava o carro, o céu estava estrelado, prometendo um amanhã ensolarado e liguei o carro, indo em direção ao centro, minha mente se focando apenas na estrada e nas ruas. Cheguei ao centro depois de quarenta minutos e estacionei em um local tranquilo, indo na direção da cervejaria que ficava na esquina, ao lado da própria fabrica havia o bar. Assim que entrei, encontrei com Ewoud que acenou para que eu me sentasse junto dele. Fazia bastante tempo que eu não o via.
— Ora, se não é Dann Heeren! – disse ele.
— Como vai, Ewoud? – me sentei ao seu lado na mesa enquanto ele chamava o garçom.
— Eu estou ótimo. Cheguei da Espanha no início dessa semana e estou aproveitando os prazeres da minha doce cidade natal novamente. – disse com um enorme sorriso.
— Viagem de negócios?
— Sim. Cansativa, porém sempre trazemos algo novo na bagagem. Mais cerveja, por favor! – pediu cantando e então se virou para mim. – Fiquei sabendo sobre seu avô, eu sinto muito. Ele era um grande homem.
Acenei com a cabeça apenas. Não havia como fugir de um assunto recente, afinal... Ewoud colocou a mão sobre meu ombro, enquanto o garçom colocava as canecas de cerveja sobre a mesa.
— Ele está melhor do que nós agora, com certeza. Deve estar bebendo cerveja com todos os deuses holandeses.
Dei um meio sorriso, pensando novamente no caixão sendo colocado dentro do túmulo, e bebi um longo gole da cerveja, tentando limpar a mente.
Então tentei arrancar de Ewoud o que ele queria dizer com bagagem extra, e ele falou sobre sua aventura com os espanhóis e sobre seus negócios que foram bem sucedidos, e rimos do mal sucedido. Bebemos uma caneca atrás da outra, até que senti a cabeça levemente zonza. A cervejaria fazia uma cerveja forte de espuma cremosa, e logo eu e Ewoud estávamos rindo de coisas sem sentido.
— Ouça, Dann, tem um lugar que precisamos ir ainda hoje.
— Hoje?
— Sim, sim, vamos, pois as portas se abrem nesse instante para o paraíso – disse consultando o relógio com um sorriso e pagou a conta, dando algumas notas extras, e saímos caminhando um pouco cambaleantes pela rua. Logo minha mente iria clarear, era sempre assim graças ao meu dom.
— Para onde vamos?
— Não fica longe – disse e abriu um grande sorriso. – Ora, quase me esqueço de que você não é como eu – e riu alto.
Olhei confuso para ele, e acabei rindo junto. Ewoud parecia melhor do que eu me sentia. Andamos por algumas ruas, desertas em tal horário, e entramos em uma mais estreita, parando diante de uma porta de madeira. Ewoud bateu duas vezes e uma jovem loira abriu a porta. Usava lingerie e um roupão de seda por cima e senti meus olhos presos aos seus lábios vermelhos em movimento. Entramos na casa, onde haviam várias mulheres vestidas de modo atraente e me virei para Ewoud. Este tinha um sorriso diabólico no rosto e abraçou meus ombros, rindo.
— Dann, quer melhor distração do que uma mulher? Está muito pra baixo, meu amigo, precisa de um pouco de prazer... Dora! Ei, Dora! – Uma moça se aproximou, os cabelos volumosos lembravam uma juba leonina. – Nosso amigo aqui é terrivelmente tímido, que tal apresentar aquela sala mágica a ele?
— Não! – eu disse levantando a mão, tentando me desvencilhar do aperto forte de Ewoud, e Dora me puxou pela gola da camisa.
— Venha comigo... – sua voz era gentil, e fui puxado por ela por um corredor.
Tentei olhar para trás para ver Ewoud, mas quase perdi o equilíbrio, e me apoiei na parede. Dora sorriu para mim, e parou, abrindo uma porta. Era uma câmara pequena, com um sofá que contornava uma parte da parede e um divã. Havia algumas garotas ali, todas lindas, e vestidas com peças de sedas curtas, e então conclui que não estava realmente bêbado. Não mais como antes, e senti o rosto corar, me virei para onde Dora estava, porém ela já havia partido, deixando a porta fechada. Mãos gentis me puxaram, tirando meu casaco e uma delas me puxou para um beijo, me jogando contra o sofá. Deuses, estava sendo tentado e não me achava forte o suficiente para resistir. Mãos acariciavam minha nuca, meus cabelos e então minha mente começou a ficar mais clara. Havia algo sobre mim que apenas meu avô sabia e ele havia guardado aquilo até o túmulo. Meus dons. Eu havia nascido com dons especiais, telecinéticos e, supunha eu, que devido aquilo, minha cabeça não ficava muito tempo fora de foco, pois sempre que eu bebia era daquele modo. Sim... a cervejaria fazia uma boa e forte cerveja, mas minha cabeça levava pouco tempo para clarear. Eu olhei nos olhos da garota diante de mim, sua mão deslizando sobre meu peito me fazendo arrepiar, e me senti tentado a agarrá-la e fazer amor com ela ali mesmo, aliás, eu não tinha nenhum compromisso com nenhuma jovem. Apenas em pensar naquilo, o desejo parecia correr pelas minhas veias e fechei os olhos por um momento, segurando as suas mãos, para que elas parassem, respirando fundo.
Nesse momento a porta da sala se abriu e uma bela dama entrou. Usava um roupão de seda negro sobre um espartilho vinho, da cor dos seus lábios, ela se aproximou de onde eu estava, colocando a mão no ombro da jovem que estava sobre mim e a afastando, de modo que a moça saísse. Virou seus olhos para mim, puxando a gola da minha camisa, e me levantei quando ela me puxou para fora da sala de recepção. Estava de volta ao corredor, o papel de parede era vermelho vivo, e as pequenas luminárias a gás davam um tom levemente sombrio ao corredor. Seus cabelos estavam presos, porem várias mechas escapavam, caindo em torno do rosto de forma atraente, e notei uma mecha branca em sua nuca. Eu estava deixando me levar... sim, mas porque eu deveria me conter? Eu já havia dormido com outras mulheres antes... Mas nunca antes havia ido a um lugar daqueles. Pude perceber que a jovem que me puxava sorria, apesar de estar logo atrás dela eu podia ver sua maça do rosto se mover com o sorriso, e ela me soltou, abrindo a porta, então virou de frente para mim, o sorriso ainda no rosto. Era uma bela dama realmente e eu fiquei sem palavras diante daquele sorriso.
Ela deu alguns passos para trás, soltando os longos cabelos cacheados e deixando o hobbie de seda escorregar até o chão, e meus olhos acompanharam o tecido. Olhei seu pé pequeno e delicado, e subi meu olhar para as suas pernas firmes e belas, sentindo meu coração perder o ritmo. O espartilho desenhava sua cintura e deixava seu busto avantajado, e meus olhos subiram para seu rosto... ela quase parecia um sonho. Mas eu sabia que não era e em poucos passos a alcancei, a puxando pela cintura para que ficasse próxima a mim. Seus olhos pareciam chamas no escuro e ela encarou meus lábios por um momento antes de sorrir e me virar em direção a cama, me deitando ao mesmo tempo em que ficava sobre mim, e então ela olhou meus olhos por um longo momento.
— Qual o seu nome?
— Dann – respondi um pouco surpreso.
— Você tem olhos tão lindos quanto peculiares, Dann. Sou Moniq e lhe farei companhia essa noite – então ela aproximou o rosto, me beijando.
Nunca antes tinha sentido um desejo tão forte por alguém, e por um momento me senti como um animal faminto. Deixei minha mão subir pelas suas pernas, e encontrei os laços de sua calcinha, os desatando, enquanto as mãos ágeis dela abriam minha calça. Ela sentou sobre minha cintura, causando uma onda de ansiedade em meu estomago e ronronei, fechando os olhos. Senti ela se afastar e seus dedos invadirem minha calça trazendo-o para fora, então ela estava sobre mim e soltei um gemido de prazer ao penetrá-la, meus dedos afundando na pele macia de sua cintura, e pude ouvi-la suspirar.
Cada movimento dela mandava ondas de prazer pelo meu corpo, e quando ela se abaixou, mordendo meu lábio inferior, pensei que fosse perder a razão, então tentei beijá-la, mas ela deu uma sutil acelerada nos seus movimentos, me fazendo perder a concentração, deslizando seus lábios pelo meu queixo, entreabrindo os olhos e me afastando, mas senti sua mão em minha nuca, e ela se aproximou mais, me fazendo penetrar mais fundo e soltei um gemido involuntário.
Ela mordeu meu lábio novamente, e senti como se uma leve corrente elétrica passasse por nós naquele ponto. Suas mãos deslizaram de minha nuca para meu rosto, seu quadril movendo-se de uma forma que me enlouquecia, e soltei outro gemido. Senti seus lábios próximos aos meus, e me senti ligeiramente fraco. Aqueles lábios apenas roçando nos meus eram quase uma afronta, então apertei sua coxa, a segurando, enquanto com a outra mão a puxava para mim, a beijando, minha língua encontrando a dela.
Segurei sua cintura a virando, de modo que eu ficasse sobre ela, e ela soltou um gemido surpreso em meus lábios, fazendo meu coração saltar e puxei seus joelhos para cima, soltando outro gemido enquanto sentia seu calor me envolver e suas mãos agarraram minha camisa. Eu queria que ela sentisse tanto prazer quanto eu estava sentindo naquele momento, e comecei a me mover em um ritmo rápido, sempre indo fundo, e ela soltava pequenos gemidos de quem estava começando a perder o controle. Coloquei meus lábios contra os dela, sentindo sua respiração quente nos meus, e ela agarrou meus cabelos, soltando um gemido alto e senti que estava chegando ao ápice, uma onda enorme de prazer tomando conta de meu corpo, me enlouquecendo, e então cheguei ao ponto máximo.
Me deitei ao lado dela ofegando, me sentindo exausto e me virei para vê-la. Não fazia ideia do que dizer, aquilo tinha sido incrível, mas antes que eu pudesse dizer algo seus olhos se fecharam e eu não sabia dizer se ela estava acordada ou não. Fechei meus olhos, preocupado em tê-la machucado em algum momento. Nunca tinha sentido nada parecido antes, aquela falta de controle... Soltei o ar devagar, e acabei adormecendo.
Acordei algumas horas depois, me despreguiçando ronronando e abri os olhos para o teto escuro. Pela janela o céu escuro começava a clarear. Me virei para a jovem, Moniq era o nome e não me soava nada holandês. Apenas uma mecha em sua bochecha denunciava que ela havia se movido, porém ela continuava adormecida. Me levantei, arrumando minhas calças e minha camisa, e então me virei para ela novamente, a observando por um tempo. Peguei a colcha de sua cama e a cobri, e afastei a mecha de sua bochecha. Não costumava conhecer mulheres daquela maneira tão... tão Ewoud. Sorri com essa ideia, e sai do quarto.
Precisava encontrar meu casaco e meus sapatos, e caminhei até a sala onde haviam as garotas, abrindo a porta, e encontrei uma senhora limpando o lugar e de repente me senti tímido quando ela me olhou. Deuses, parecia que estava escrito na minha cara tudo que eu fizera durante a noite e me senti exposto.
— Imagino que seja o dono do casaco? – disse com um tom levemente malicioso apontando para o casaco pendurado no cabideiro de madeira próximo a porta.
Olhei para ele e recuperei meu casaco, fechando a porta sob o olhar afiado da velha faxineira. Passei pelo balcão, pensando em perguntar se deveria pagar e como abordaria a loira que estava ali. Era Dora, e assim que ela me viu, senti corar novamente e ela sorriu.
— Ewoud já deixou pago para você – disse ela.
— E ele já foi?
— Provavelmente não – disse, seu sorriso aumentando.
Depois eu ligaria para ele. Não tinha nada demais a dizer a ele e não tinha a menor intenção de caçá-lo em quartos de um bordel. Sai dali e caminhei pelas ruas vazias, conferindo o bolso para ter certeza de que a chave do carro estava ali. Assim que cheguei a ele, entrei e cobri meus cabelos com uma boina, e voltei pra casa.
Abri a porta da sala devagar, olhei ao redor. Minha mãe havia adormecido na poltrona como sempre fazia, e fechei seu livro, puxando a manta que cobria apenas suas pernas para cobrir seus ombros, e caminhei silenciosamente até meu quarto. Senti uma pontada na cabeça, e uma tontura repentina e me sentei na cama. A dor havia passado, mas a tontura ainda não, e quando senti minha visão escurecer, ouvi o som de algo tremer da escrivaninha. Olhei para ela, e pude ver uma das canetas dançar na mesa, como se estivesse ocorrendo um terremoto. Semicerrei os olhos, tentando fazê-la parar, porém tudo somente piorou. O bloco de folhas se espalhou pelo ar, junto com todas as canetas que havia em uma caneca, e as gavetas da cômoda começaram a se abrir e flutuarem no ar, como se não houvesse gravidade, as roupas saindo dos seus lugares.
Fechei os olhos com força, segurando a cabeça entre as mãos, gritando mentalmente para tudo aquilo parar, mas eu estava sem controle. Completamente sem controle. E nunca eu havia ficado daquela maneira... O que estava acontecendo comigo? As gavetas começaram a girar, batendo com força nas paredes, arrancando lascas de gesso, lascas de madeira. Meu tinteiro estourou e um pedaço do vidro passou pela minha bochecha e pude sentir que havia cortado. Alguém batia na porta... tentei me mover, porém meus olhos escureceram e então perdi a consciência.
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