Godness Issues
3 Capítulo 3
Ulyaa acordou com um cheiro horrível no ar. Alguém está usando o banheiro. Antes do dia de ontem, isso geralmente significava que ela tinha acordado muito tarde, e que estava muito atrasada para rezar e pedir aos deuses. Mas no dia de hoje, quatro dias antes de seu aniversário de 18 anos, isso significava que tinha acordado na hora certa. Estava cansada demais de rezar, e agora ela queria tomar as rédeas do seu próprio destino. Mesmo que as probabilidades de sobrevivência sejam pequenas e baseadas em uma pequena e mísera hipótese, cuidadosamente elaborada por seu amigo Felipe. Esse era o jeito que Ulyaa gostava de resolver seus problemas: com as próprias mãos.
Levantou da cama, realizou seu ritual do banheiro e pegou o seu vestido vermelho e velho de sempre. Dirigiu-se para a mesa do café da manhã, onde a mesma comida era servida. Algumas das crianças já estavam comendo. Elas pareciam mais felizes que no dia anterior, pois elas sabiam que Alícia não iria gostar de mais infelicidade no orfanato.
Ulyaa pegou um prato de mingau com pão velho, a especialidade da casa. Sentou-se do lado de Felipe, pois com toda certeza ele ainda tinha coisas para falar com ela.
— Ulyaa, eu imagino que você tenha conseguido roubar uma arma da casa do Lorde Staus, não estou certo? — falou ele em um cochicho. Ulyaa voltara tarde da casa do Lorde no dia passado, então não teve a chance de contar para o Felipe que tinha conseguido a arma.
— Consegui— Ulyaa queria manter segredo do que realmente tinha acontecido na casa do Lorde Staus, pois para ela, aquele tinha sido um momento mágico, e ela não queria estraga-lo com palavras.
Ela tinha se divertido muito. Ele se ofereceu para treina-la depois que ela havia perdido a luta. Lorde Staus passou o dia inteiro ensinando à Ulyaa, e depois ofereceu a melhor refeição que ela havia provado em sua vida. Fora o dia mais feliz da sua vida. E para fechar com chave-de-ouro, ele deu a espada de diamantes para ela, como símbolo da amizade que florescera. A espada com a lâmina negra foi assim nomeada como A Fúria, pois era assim que Ulyaa se sentia. Ulyaa havia prometido ao Lorde Staus que voltaria hoje na sua casa. E tudo o que ela queria era cumprir sua promessa.
— Ótimo! Um passo do nosso plano já está concluído— Sorriu para Ulyaa— Ulyaa, ontem eu fui para a biblioteca para “trabalhar”. Na sessão de livros antigos eu vi uma maneira para você poder enxergar os deuses. Eu estava foleando um antigo livro de feitiços quando eu vi isso. — Felipe tirou do bolso de seu casaco um papel amarelado e dobrado. — isso é uma feitiço de achar coisas omitidas, não sei se vai funcionar, mas era o que mais aproximava da nossa causa. E como você é uma abençoada pela morte, deve ter pelo menos alguma magia em você
— O que vocês ainda estão fazendo aqui? — Sra. Thiaph falou enquanto pegava Ulyaa e Felipe pelas orelhas. Eles estavam tão focados na conversa que não perceberam que ninguém estava mais na sala de jantar, e que eles estavam extremamente atrasados — vão pegar um trabalho imediatamente, se não...
Ulyaa e Felipe se entreolharam e foram para a sala de trabalhos, com a Sra. Thiaph em seus calcanhares, os monitorando. Definitivamente a Sra. “Simpatia” do Orfanato tinha dado um ponto final na conversa deles. Ulyaa procurou um trabalho na casa do Lorde Staus, mas como não havia sobrado, ela teve que pegar um trabalho em outra casa. Felipe pegou um trabalho e olhou significativamente para Ulyaa, como se tivesse algo a dizer, mas conversas paralelas não eram permitidas na presença da Sra. Thiaph. Ulyaa fez um sinal com o indicador, como se estivesse dizendo: depois a gente conversa. E foram para a porta de saída do orfanato, que dava para um corredor de madeira levemente iluminados por insetos e répteis.
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Depois de lavar o chão, encerá-lo, limpar todo o banheiro, a cozinha e os quartos de uma casa de 6 pessoas, Ulyaa finalmente teve o precioso tempo de descanso. Ela comeu sua ração (comida que era dada aos órfão para otimizar o trabalho), finalmente sentindo um pouco de energia, e abriu o papel velho que Felipe havia lhe entregue.
“Feitiço da não omissão”
“Instrução 1: beba um chá de cogumelo vermelho.”
“Instrução 2: primeiro faça um círculo de pó de cogumelo vermelho ao redor do corpo de quem realiza o feitiço.”
“Instrução 3: cite as seguintes palavras:”
“Apareça aquilo que esconde.
Faça do invisível, visível.
Que o impalpável se torne palpável.
“Com as minhas palavras eu torno o que foi omitido: visível”.
Ulyaa, com muita tristeza, se deparou na palavra “cogumelo vermelho”. Onde ela iria conseguir algo do tipo? Ulyaa não fazia ideia do que era isso, e nem de onde iria arranja-lo, mas uma sensação a invadia. Talvez ela tivesse que tentar roubar de novo, e dessa vez tudo podia dar errado. Ulyaa afastou esse tipo de pensamento. E se lembrou de Lorde Staus. Talvez ele possa ajudar, ele se mostrou confiável. Ela tinha que vê-lo o mais rápido possível.
Como havia terminado seus afazeres na casa, ela logo procurou o seu chefe passageiro para pedir que a dispensasse. Encontrou-o conversando com os filhos. Isso não era bom sinal, um órfão não podia atrapalhar o andamento da casa, não podiam conversar quando não eram chamados. Ela arriscou, desobediência significava tortura.
— Senhor— ele e os filhos a olharam com espanto, e com um pouco de nojo— já terminei meus afazeres, e não estou me sentindo bem— ela teve que improvisar, pois eles demonstravam raiva— e não quero que a sua maravilhosa família pegue a doença de um órfão— ela tossiu um pouco para ilustrar a falsa doença.
— Pode ir sua imunda, mas quem cuida do seu orfanato vai saber sobre isso. Quanta irresponsabilidade deixar uma órfã doente trabalhar perto de pessoas descentes. — ele falou com desdém.
Ulyaa odiava como as pessoas daquela vila tratavam os órfãos, e como as vezes pediam coisas deploráveis que não podia recusar. Porém, ela já havia se acostumado, e por isso sabia enganar as pessoas como ninguém. A chave ficava em puxar o saco e bajular. Por mais que se sentisse suja fazendo isso, essa era a única saída para chefes temporários exploradores e para esse caso. Ela se curvou perante o chefe, e saiu em direção à porta que dava aos túneis da árvore. Tudo o que ela sentia era raiva. Talvez fora por isso que ela nomeara sua espada de “A Fúria”.
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Ulyaa chegou à porta de serviço da casa de Lorde Staus. O silêncio que prevalecia no ambiente fora cortado com o som da campainha. Ulyaa escutou o barulho de passos vindo de dentro da casa, as sensações que vinham de seu corpo não a deixavam ficar parada. O mordomo, Sr. Smithers, abriu a porta.
— Olá. Eu vim ver lorde Staus, por favor— Falou Ulyaa agitada.
— Lamento senhorita, mas ele está ocupado no momento.
— Por favor, senhor. Eu tenho um assunto que devo tratar com ele urgentemente. Eu posso ao menos espera-lo aqui? Eu não tenho outro lugar para ir.
— Pode entrar senhorita. Porém eu não sei que horas ela vai ficar desocupado, as vezes ele demora muito trabalhando. É um homem muito ocupado.
— Muito obrigada senhor, para mim isso é uma questão de vida ou morte.
O mordomo deixou Ulyaa passar pela porta, e a conduziu pela mansão até uma sala propícia para receber visitas. Nela havia um sofá azul que ficava de frente a uma lareira, que no momento estava apagada, uma janela que estava coberta por cortinas de um tecido fino. Ulyaa sentou-se no sofá. Mexia a perna impacientemente enquanto fitava o vazio. Levantou-se de novo, pois não aguentava ficar parada por muito tempo. Foi em direção a janela para poder ver o céu noturno.
Estrelas! Finalmente pude ver como elas são. Ulyaa se maravilhou com o que se deparava, não conseguia transferir em números a quantidade de estrelas que via. Algumas folhas da árvore colossal em que se encontrava tampavam a sua visão, mas mesmo assim Ulyaa ainda achava incrível tudo o que via. Barulhos mínimos de passos abafados pelo carpete a tirou do estado em que estava.
Ulyaa se virou animada para a direção que o som parecia vir, com um sorriso no rosto, pensando que fosse finalmente o lorde Staus. Um homem todo de preto, com uma postura diferente do homem que esperava, atravessava a sala. O coração de Ulyaa disparou, as palmas de suas mãos começaram a suar. Ulyaa o analisou, o homem parecia ter 2 metros de altura, não podia ver o rosto, pois o capuz projetava uma sombra sobre o mesmo, e por isso ele parecia não ter expressão. Seus lábios (única parte à mostra) nem se quer se contraiam. Isso é mau sinal. O pai de Ulyaa, quando ainda era vivo, sempre a ensinara que saber ler o que as pessoas sentem é uma arma infalível, pois assim era muito mais fácil adaptar-se às mudanças vigentes. Para ela as piores pessoas eram aquelas de “sangue frio”, pois eram as mais imprevisíveis. Aquela pessoa era desconhecida para ela.
Ele se aproximou devagar. O homem misterioso estava entre ela e a porta da saída daquele cômodo. Ela saiu de perto da janela e correu para o lado, pondo mais distância entre eles, mas para sua infelicidade o homem a alcançou rapidamente.
Ulyaa tentou arquitetar um plano rapidamente, reuniu as informações que tinha: Lorde Staus poderia vencer esse homem, mas ela não tinha noção de onde estava; poderia fugir dali com a ajuda do mordomo. Não dá, não quero levar o perigo a ele também. Devo resolver isso sozinha. Agora seu objetivo estava traçado: ela tinha que chegar à sala de armas.
Tenho que me lembrar onde fica. Ulyaa correu pra cima dele e o driblou, indo direto à porta que dava para o resto da mansão, esperando que sua suposição estaria correta, com o homem a perseguindo. Passou por várias salas até poder reconhecer alguma, e então essa parte do plano ficou fácil.
Agora ela tinha que realizar a parte mais difícil: lutar contra o homem. Quando chegou à sala de armas foi para a prateleira mais próxima e correu para pegar uma espada. Pegou uma menor do que ela tinha, o alcance é menor, mas Ulyaa não se importou tanto, pois agora ela estava mais segura.
— Quais são as suas intenções comigo? — ela perguntou já desembainhando a espada. Desceu uma lâmina afiada pelo punho dele, já mostrando as suas intenções.
Os ataques desferidos pelo homem eram rápidos e mortais. Ulyaa fazia seu melhor para se defender, tentando pôr em prática tudo que tinha aprendido com Lorde Straus. Em um momento de desatenção, a lâmina do homem rasgou superficialmente o seu ombro. A dor espalhou-se pelo seu corpo, desconcentrando-a, enquanto um pequeno feixe de sangue atravessava suas vestes no lugar lesionado. O corte não havia sido tão ruim, e graças a ele Ulyaa teve uma ideia genial. Preciso de uma distração!
Quase não conseguindo conciliar os ataques dele com as suas defesas, Ulyaa jogou a bainha da espada que estava inerte em sua mão esquerda contra a prateleira com a maior força que conseguiu. Um barulho de vidro quebrando e metal batendo no chão se espalhou pela sala. E sem entender o porquê disso tudo o homem olhou confuso para a menina, que o olhara sorrindo. Extremamente incomodado o homem deu uma olhadela rápida para onde a menina jogara a bainha. Ulyaa rapidamente deu uma rasteira no homem, que caiu de bunda no chão soltando um grito de dor. Ulyaa foi rápida ao perfurar o homem em seu coração, o sangue logo saiu pelo ferimento, e o homem sem vida podia ser finalmente visto no chão. Se assombrou de como aquele movimento mortal parecia confortável para ela. Ela teve a oportunidade dar uma boa olhada no rosto de quem a atormentara. Os cabelos negros batiam nas têmporas de uma expressão imutável. Um filete de sangue saía da boca do homem. A cabeça, agora reconhecida, era de lorde Slim, um grande e influente financeiro da Árvore Gigante. A consequência de um ato tão imprudente contra uma pessoa tão importante, seria uma morte, mais rápida do que o esperado.
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