Goddess and Monster - Part 1

5 Capítulo 5 - Entre tapas e confissões


Notas iniciais
Olá, amiguinhos e amiguinhas! #palmirinhafeelings Animados e entristecidos com os acontecimentos da Copa? Bem, estou aqui para acalmar o coração

Cavalgaram tão depressa e distante como no dia em que fugiram de Porto Real. Sandor estava possessivo, controlando o cavalo para que ele fugisse o mais longe de Rosby. Ele não lutara tanto para mantê-los longe do perigo para entrarem em um perigo maior. A essa altura, as pessoas de Rosby estariam comentando sobre a fuga dos dois. E em breve, isso cairia nos ouvidos da realeza. Não queria ouvir falar de recompensas por suas cabeças.

Ele seguia pela estrada do Rei e isso o deixava receoso. Teria que desviar o caminho novamente, mas dessa vez, ele o fez na direção oposta a Rosby. Entraram pela floresta, se afastando o máximo que podiam. Quando encontraram uma clareira onde a luz da lua pudesse iluminá-los, Sandor parou o cavalo.

Ficaram ali, parados em cima do cavalo, por um bom tempo. Sandor nada disse e foi quando se lembrou de Sansa. Ele olhou para baixo e viu que suas mãos ainda o apertavam pela cintura. Ele não podia sentir a pele dela, graças a armadura, e, tirando suas luvas, colocou suas grandes mãos por cima das pequeninas de Passarinho. Ela não recuou, não pareceu ter percebido. Sandor podia sentir a pele macia da menina e isso o acalmou. Ela realmente estava ali. E não iria a lugar algum. Precisava protegê-la.

– Você está bem, menina? – perguntou Sandor.

Sansa saiu de seu transe e percebeu que suas mãos estavam sendo cobertas por Sandor. Ela teve o instinto de recuar, mas as mãos calejadas dele aqueciam as suas, passando por todo o seu corpo. Sentia frio, mais que antes, graças ao vestido fino que usava.

– Sinto frio.

Sandor se moveu, quebrando o contato. Desceu do cavalo e ajudou a menina a descer. Sentir a pele dela tão próxima de suas mãos fez ele, finalmente, perceber o que ela usava e o estado de Sansa. Ela usava um vestido tão fino, que ele conseguia definir a silhueta do corpo da menina pela luz da lua. Sentiu um calor em suas partes baixas. O rosto dela estava cheio de sangue e a pele estava arrepiada pelo frio.

Sansa começou a chorar. Ajoelhou-se no chão, deixando que as lágrimas viessem, mas fazendo esforço para chorar baixo. Não queria que ele brigasse por chorar alto e correrem o risco de serem descobertos. Ela não percebeu quando Sandor se afastou, mas voltou, se ajoelhando a frente dela.

Ele tinha um pedaço de pano úmido na mão e, segurando o queixo da menina, começou a limpar o sangue de seu rosto. Ele ignorava as lágrimas de Sansa e isso a fez parar de chorar. Sansa sentiu o pano em sua pele. Estava gelado e isso a arrepiou mais ainda. Ele tinha uma delicadeza tão oposta de sua grandeza. Como no dia que ele lhe limpou a boca quando fora estapeada, pela primeira vez, na Fortaleza Vermelha.

Sansa reparou no rosto do homem. Tentava desviar o olhar, mas ele estava tão próximo que se sentiu obrigada a olhá-lo. Observou o lado queimado que tanto temia junto do lado puro. Havia um corte com sangue seco ali. A marca dele era tão grotesca que fazia Sansa sentir a queimadura na própria pele. Sentira pena dele. Sandor sofreu tanto por... nada?

Ele não era um santo. Mas lembrava-se de sua história. Não merecia aquela cicatriz. Era apenas uma criança. Talvez, fosse um castigo adiantado pelo que ele seria quando crescesse.

Mas Sandor não era tão ruim assim. Ele lhe adverteu diversas vezes sobre como se comportar diante do rei. Pedia para que lhe poupasse um pouco de dor. Protegia-lhe. E ainda o fazia. Se não fosse por Sandor, poderia estar morta agora. Por diversas vezes, ele a salvara. Aquela noite foi apenas mais um ato de seu heroismo.

E Sansa se perguntou por que um homem tão grosso e estúpido como Sandor se importava em lhe proteger e lhe tirar de uma prisão. Ele era sua liberdade. Mas ela não era nada para ele. Nem família, nem prometida e, ainda por cima, Sandor era vassalo de outra casa. Era.

Suas dúvidas se transformaram em mais dúvidas e frustrações. Ele não era nada dela e não lhe devia nenhum favor, mas ainda assim, ele estava lá. Ela não tinha nada para oferecer a Sandor. E se perguntou o que faria para agradecer todos os momentos que Sandor esteve a seu lado.

Olhar para seu rosto, para seus olhos era parte de seu agradecimento. Mas muito pequeno diante do que ele já tinha feito a ela. O que ela poderia oferecer a Sandor por todas coisas que ele havia feito e para que continuasse lhe protegendo? Dinheiro? Ela tinha as joias, poderia oferecer a ele sem medo. Mas não sentia que aquilo tinha algum valor.

Pensou que poderia pedir para seu irmão e sua mãe que lhe dessem um cargo em Winterfell. Talvez, um pedaço de terra. Poderia até pedir para que o irmão o casasse com alguma moça de casa vassala. Mas Sandor não parecia ser do tipo que viraria um Lorde do Norte. E nem ao menos sabia se ele aceitaria servir seu irmão. Ele poderia rir da ideia.

Sandor não era um homem de pagamentos, valores. Ele matava por prazer, bebia por prazer. Sandor era... homem. Ele não casaria com qualquer mulher quando ele poderia ter seus prazeres em bordeis. E se perguntou se ele era como os homens que a sequestraram, livres e que se satisfaziam com uma mulher de vida fácil.

– Seu vestido está sujo, não tenho como limpar – Sandor dissera, desviando Sansa de seus pensamentos.

Ela olhou para o vestido sujo de sangue. Não gostava da ideia de ficar suja, mas não tinha muito o que fazer . Pelo menos, o seu rosto estava limpo.

– Você está machucada? – perguntou. Sansa sentia alguns doloridos pelo corpo. Aquele homem a segurara de forma bruta, além de ter beliscado seu traseiro. Ela esticou os braços para se observar e Sandor a levantou, analisando a menina a procura de machucados.

Sandor sentiu o sangue lhe ferver. Ela estava cheio de roxos e alguns arranhões, como um que estava em seu rosto.

– Você está toda machucada – disse Sandor, socando a árvore mais próxima de si. Sansa levou um susto com o ato, vendo os nós dos dedos de Sandor ficarem vermelhos e arranhados.

– Está tudo bem. – garantiu Sansa.

– Não venha se fingir de forte quando acabou de chorar aqui — rosnou Sandor. – O que aconteceu, menina? O que eles fizeram com você?

Sansa suspirou. Ele não sabia que ela tinha sequestrada, mas certamente imaginava. Ou não teria ido atrás dela e eles se encontraram por acaso.

– Quando eu me afastei de você, eu ouvi um barulho – começou a explicar. – Eu tentei voltar pra você, mas eles me pegaram e me ameçaram se eu gritasse – as lágrimas começaram a voltar e sua voz estava embargada. – Ele me amordaçaram.

Sandor fechou o punho. Malditos homens. Sansa parou por um momento, abaixando a cabeça e voltando a chorar silenciosamente. Sandor nada fez. Deixou que ela tivesse seu momento.

– Eram quatro homens. Todos aqueles que você matou – explicou Sansa, se esforçando para parar de chorar. – Um deles me levou para aquele bordel quando chegamos na vila. Disse para a mulher cuidar de mim – Ela olhou para Sandor e os olhos castanhos dele estavam fervorosos. Ruborizou com o que ia contar. Ele iria estapeá-la se contasse que tomou banho e teve um momento de paz para se limpar e comer. Não, Sandor nunca a machucaria. – Eu tive a chance de me banhar, de me limpar e cuidar de mim. Estava suja e com fome. – Ela abaixou os olhos quando disse aquilo. Não queria ter que olhar para aquele rosto quando ele ficasse furioso.

Sansa ouviu Sandor suspirar.

– E o que mais? O que eles fizeram? – perguntou Sandor, aparentemente calmo.

– Depois que eu comi e me limpei, aquela mulher me deu um vestido novo – e ela olhou para o próprio vestido que usava. – Tentei fugir, milorde.

– Eu não sou um lorde. – cortou Sandor. Sansa se encolheu.

– Perdão.

– Continue, menina! – Sandor estava perdendo a paciência. Temia que ela estava com medo de contar mais alguma coisa.

– Depois que tentei fugir, aquele homem apareceu – ela disse, olhando para a mão que ainda estava com o corte do pacto, mas com uma nova atadura. – Ele puxou meus cabelos, me machucou, me apertava forte. Tentou abusar de mim. Até que você chegou.

Sansa voltou a chorar. Sandor se levantou, voltando a socar a árvore mais próxima com a mão cortada do pacto. Dessa vez, ele fez com mais força e mais vezes. O corte na palma abriu e voltou a sangrar, e ele sentiu ardência e a pele repuxando por dentro do corte a cada batida.

– Pare, por favor! – pediu Sansa em meio às lágrimas.

Sandor parou. Se antes, os nós de seus dedos estavam arranhados, agora, sangravam. Ele voltou até Sansa e pegou-a pelos ombros, levantando-a.

– Ele a tocou, menina? – perguntou o homem, bem próximo do rosto dela.

– Como? – Sansa não sabia se ouvira bem.

– Seus seios, sua boceta, menina. Eles te tocaram? – perguntou Sandor e Sansa ruborizou ao ouvir aquele palavrão. Como uma lady, odiava ouvir aquelas grosserias.

– Não! – afirmou, se sentindo ofendida pela pergunta.

– Tocaram em algum outro lugar? Fizeram algo que não queria?

– Não! Eles... – ela tentou dizer, mas lembrando-se de quando o homem roçou em seu traseiro. Ela imaginava o que aquilo queria dizer, mas estava com vergonha de contar para Sandor. – Eles não fizeram nada. Mas aquele homem que você matou, ele roçou em mim.

– Roçou? – perguntou Sandor. Apesar da raiva, achava engraçado torturar a menina a forçar a dizer coisas que uma lady nunca diria. – Roçou o pau em você, quer dizer?

– É... – ela ruborizou. – Ele não estava desnudo. Está tudo bem. – Não estava tudo bem. Não gostou da situação que passara. Mas queria que aquela conversa terminasse logo. Imaginava quão vermelho seu rosto estava e tinha certeza que a luz da lua estava denunciando.

– Ele não precisa estar desnudo. E para você sentir alguma coisa, com esse vestido, não precisa estar nua – disse, tocando num pedaço de vestido da menina. – Esse tecido fino é a mesma coisa que nada.

Sansa podia sentir todo o seu rosto explodir de vermelhidão. Sandor olhava para seu corpo e os olhos raivosos deram lugar a olhos famintos. Sansa se arrepiou. De frio, de medo e de algo mais.

Ela se encolheu, abraçando a si própria, esperando que ele parasse de lhe olhar e fizesse alguma coisa. Mas viu que ele não faria nada e decidiu quebrar todo aquele gelo.

– Seu rosto está marcado. – avisou, desviando o olhar.

Sandor tocou a parte queimada do seu rosto, sentindo um pouco de ardência no corte que havia. O sangue estava quase seco, e o corte não parecia profundo. Ele deu de ombros e foi até Estranho para pegar seu manto da Guarda Real e estendeu no chão, próximo à uma árvore.

– Vem descansar, menina – disse apontando para o manto. – Aqueles homens já estão mortos e não vão te machucar mais.

Sandor amarrou Estranho em uma árvore e Sansa se sentou sobre o manto.

– Você não irá limpar o corte? – perguntou Sansa para Sandor. Ele estava de costas a ela e virou o rosto para olhá-la.

– Isso não é importante. – respondeu, voltando a cuidar do cavalo.

– Irá infeccionar.

– Não importa, passarinho. Eu cuido disso depois. – rosnou.

– Eu... – tentou dizer, mas estava um pouco amendrontada com o que ia oferecer. – posso limpar para você.

Sandor soltou uma gargalhada rouca, sem olhar para Sansa.

– Você? Limpar meu corte? – ele se virou para Sansa. – Está em cima da minha cicatriz. Como fará isso se nem tem coragem de olhar para o meu rosto? Como irá tocá-lo?

Ele tinha um tom desagradável, sarcástico. Falava alto e se aproximava de Sansa, desafiando-a. Ela ajeitou a postura e olhou-o nos olhos.

– Olhei para você, agora a pouco, enquanto me limpava. – respondeu Sansa. – Posso limpar seu corte. É o mínimo que posso fazer para agradecer sua proteção.

Sandor apenas riu. Mas isso não atingiu Sansa. Ela se levantou, fora até o cavalo, onde sabia que tinha um odre com a pouca água que tinham, dentro da bolsa. Encontrou algo que não esperava. Sua boneca. Nem se lembrava mais dela. Ela pegou o objeto por alguns instantes e guardou de volta. O pano que Sandor limpara seu rosto estava na cintura do homem. Ela viu que estava úmido e todo manchado de sangue. Decidiu ignorá-lo e pegar um pouco do tecido de seu vestido.

– Você pode me emprestar sua adaga? – pediu ao homenzarrão, que ainda mantinha o sorriso sarcástico no rosto. Ele pegou a adaga que escondia por dentro da bota. E aproveitando que ele se ajoelhara para isso, Sansa o segurou pelos ombros, guiando-o para que se sentasse sobre o manto da guarda real. Sandor estava começando a perder o sorriso

Ela ajeitou o vestido e se ajoelhou ao lado dele. Pegou um pedaço da barra do vestido verde, deixando um pedaço da coxa à mostra, sentindo o vento frio lhe tocar a pele. Ela sentiu o olhar de Sandor sobre sua coxa nua, enquanto tentava cortar um pedaço do pano. Não o repreendeu, como uma lady deveria fazer. Ela teve seu pedaço de pano e a barra voltou a tapar-lhe a coxa.

Ela molhou o pedaço de pano com o odre de água, mas Sandor, já sério e um pouco desconfiado, lhe tocou as mãos, obrigando-a a parar.

– Aqui – ele disse, pegando um odre que estava pendurado em sua cintura. – Use vinho. – Ele bebeu um gole antes de dar o odre para Sansa.

Ela umedeceu o pano com a bebida, sentindo o odor do vinho lhe subir pelas narinas. Sansa se posicionou próxima a Sandor. Tomou coragem para olhar para a marca do homem.

Ele ainda não acreditava que ela limparia sua ferida, logo onde sua queimadura ficava. Ela nunca o olhava, e sequer imaginou que, algum dia, Passarinho lhe tocaria naquele lugar.

Sansa tocou a pele massuda do homem e começou a limpar o corte. Sandor se afastou ligeiramente ao toque do álcool, mas Sansa o segurou do outro lado do rosto, garantindo que ele não fugisse. Ele não iria fugir, era forte para um simples corte.

A pele queimada de Sandor era dura e macia ao mesmo tempo. Era enrugada e quente e desagradável de se tocar. Sansa se sentiu um pouco enojada, mas continuou. Não era tão ruim assim, apesar de que olhar diretamente para ele era desconcertante. Ela tirou todo o sangue seco e deixou a ferida limpa. O corte não era profundo. Iria sarar rapidamente, mas gostaria de ter alguma coisa para lhe fazer um curativo. Ou alguma erva medicinal.

Sansa estava tão próxima do rosto de Sandor, que ele podia sentir seu hálito de frutas frescas e seu cheiro de jasmim. Ela havia se banhado há pouco e isso só fez bem para os dois. Ele se sentia inebriado com o perfume de Sansa que se misturava a algo mais. A algo que só a pele de Sansa tinha. E isso deixava sua boca salivando.

Ela ameaçou se afastar, e Sandor segurou seu braço, impedindo. Ela arregalou os olhos, um pouco assustada com o ato. Ele tinha um olhar selvagem e hipnotizado e Sansa sentiu necessidade de quebrar todo aquele clima. Tinha medo do que ele lhe faria.

– Se tivermos sorte, poderemos encontrar alguma erva curativa para seu rosto. – disse Sansa, terminando de limpar o corte.

– Que se dane as ervas – grunhiu Sandor, soltando o braço de Sansa. Ela se afastou, jogando o pedaço de pano no chão. – É só um maldito arranhão.

Sansa nada falou. Não iria debater com Sandor e receber mais grosserias do homem.

– Não jogue esse pano no chão – advertiu Sandor. – Se estiverem atrás de nós, isso daí vai ser uma pista.

Sansa se virou para olhá-lo. Ela tinha pego sua capa, jogada em cima do cavalo e se cobriu.

– Estão atrás de nós?

Sandor bufou, encostou na árvore, se lembrando que não falara nada sobre o que ouvira para Sansa. Não queria preocupá-la, mas em algum momento, ela teria que saber.

– Os Lannisters ganharam a batalha, menina – respondeu Sandor, pegando o odre de vinho e bebendo um gole antes de continuar. – Expulsaram Stannis e sua tropa.

Sansa ouviu aquilo sem emoção nenhuma. Não sabia o que pensar. Não sabia se ficava satisfeita ou se ficava com medo. Nenhuma das duas opções. Não havia motivos para ficar satisfeita. Os Lannisters nunca foram bondosos para ela e tinha uma ponta de esperança de que Stannis conseguiria Porto Real. Mas também não havia motivos para ficar triste. Sandor lhe garantiu que Stannis não a deixaria em paz. Ela não sabe qual seria o seu futuro nas mãos de Stannis.

Havia motivos suficientes para temer. Se Stannis estivesse m Porto Real, ele poderia deixá-la em paz, agora que fugira. Ele não iria se importar com o destino dela e de Sandor. Mas com os Lannisters... Era diferente. A esse momento, eles já deram falta de Sansa. E Sandor não deixou nenhum bilhete de despedida também. Joffrey e Cersei iriam querer a cabeça dele.

E de Sansa.

Por mais que o rei não gostasse de Sansa e não tivesse pretenção de casar, ela ainda era seu brinquedo. Ele poderia estar satisfeito por ter se livrado de um estorvo como ela, mas poderia estar desgostoso por ela ter fugido debaixo de seu nariz. O mesmo valia para a rainha.

E, naquele instante, Sansa entendeu a gravidade da situação.

– Eles virão atrás de nós? – repetiu a pergunta, apenas para ter certeza do que pensava.

Sandor bebeu outro gole de vinho e deu um sorriso sarcástico.

– Se deram falta, neste momento, devem estar exigindo uma recompensa por nossas cabeças.

– Talvez... não. – Sansa tentou dizer.

– Não? – perguntou Sandor, curioso com o que ela iria dizer.

– Eu não era nada para o rei Joffrey – afirmou sem firmeza na voz. – E você... Bem, eles, talvez, nem se importem.

Sandor gargalhou. Com a luz da lua, Sansa reparou que a pele queimada se repuxava de forma esquisita quando ele ria.

– Você acredita mesmo nisso? – perguntou Sandor, entre gargalhadas e goles de vinho. – Eles vão exigir a minha cabeça, Passarinho. Isso é certo. Sou um desertor. Deveria estar lá para proteger o seu rei amado – ele viu Sansa fechar a cara com a última frase e pouco se importou. – Foi uma traição da minha parte. E você?

Sandor se levantou, dando passos largos para diminuir a distância entre os dois.

– Você acredita que ele não exigirá a sua bela cabeça? – perguntou, tocando nos cabelos macios de Sansa. – Você estava prometida para ele, Passarinho. E fugiu. É filha de um traidor. E isso só reforça de que traição é de sangue – Ele deslizou a mão para o braço da menina, percebendo que ela ficou arrepiada. – E o que acham que vão fazer quando descobrirem que o Cão do Rei está com a prometida? Daqui a algum tempo, vão pensar que estou te fodendo de todos os jeitos – Ele se aproximava mais, mesmo não tendo mais espaço para preencher. Sandor agarrou a cintura dela com brutalidade, arrancando um grito de susto da menina. – Mas você não se importa, não é? Você acredita que quando te capturarem, você vai poder chilrear sua gentileza e se fazer de pobre coitada que foi sequestrada pelo Cão de Caça do Rei. E eles vão ficar com pena de você e te aceitarão de volta – ele apertou sua cintura, aproximando seu rosto do dela e Sansa tentava se afastar a todo custo. – Você não vai saber mentir para eles, Passarinho. Eles mentem melhor que você. E dessa vez, suas cortesias não irão te salvar. E sua cabeça vai ser exposta ao lado da cabeça do seu traidor pai!

A espinha de Sansa gelou. E o frio que sentia aumentou. Por mais que estivesse agarrada a Sandor, ele não a esquentava. Não daquele jeito brusco. Unindo uma força que não sabia que existia, ela se afastou dele e lhe estapeou o rosto, logo do lado da queimadura e do corte recente.

– Meu pai não era traidor. – disse Sansa, calmamente, antes que ele lhe machucasse de novo e tentando fazer com que Sandor também se acalmasse, apesar do tapa. Sua gentileza era sua única arma.

Sandor bufou e olhou-a com aqueles olhos vermelhos quando alguma coisa não acontecia do seu jeito.

– Seu pai está morto, não há como voltar atrás e determiná-lo fiel ao rei. – perguntou Sandor. – De tudo o que eu lhe disse, é só isso que te importa?

– Sim, é só o que me importa agora – respondeu Sansa, com firmeza. – A minha dignidade é a única coisa que me sobrou, sor. E é só isso que importa. Se eles me capturarem, eu não terei mais nada. Apenas a certeza de que meu pai não era um traidor e de que eu não estou errada.

Ele afrouxou o abraço e ela se soltou, mas sem se afastar completamente dele.

– Você acredita que está certa em fugir do seu amado rei?

– Ele não é o meu amado rei! – quase gritou, mas lembrou-se que era uma lady e isso não adiantaria. – Se eu tivesse ficado... O que acha que aconteceria? Ele me machucaria como sempre me machucou. Me humilharia e a morte não seria uma coisa tão distante assim. Se ele não me matasse, eu mesma teria me matado! Como muitas vezes eu pensei em fazer!

As lágrimas de Sansa voltaram e ela se esforçou para não deixá-las cair. Lembrava-se das vezes que pensara em se jogar da janela de seu quarto na Fortaleza Vermelha, logo quando seu pai fora assassinado. Nunca teve coragem de concluir o ato.

Sandor segurava o lado do rosto queimado. Já havia um corte ardente e agora, Passarinho lhe dera mais uma dor para sofrer. Mas o que mais doeu fora a confissão de suicídio da menina. Nunca pensara que ela tentaria tirar a própria vida e nem que ela já havia tentado.

– Eu sei que estou certa em fugir – disse Sansa, engolindo o choro. – Sei que estou certa, pois isso pode me garantir a vida e estar com a minha família novamente. E enquanto eu estiver com você, eu sei que terei minha vida garantida. Você me prometeu isso, lembra?

Sansa levantou a mão com a atadura com o corte do pacto que fizeram.

– E apenas por isso – se aproximou de Sandor, colocando uma mão sobre o braço dele. A armadura estava gelada. – Peço perdão por ter te machucado. Eu não tenho direito de fazer isso, pois me salvou a vida diversas vezes. Mas eu gostaria que você me respeitasse. E como agradecimento, irei cuidar de seus machucados. É o pouco que tenho para lhe oferecer.

Sansa mantinha o rosto levantado, desafiando-o. Os olhos estavam marejados, mas o esforço para não chorar era maior. Sua dignidade e cortesia eram o que tinha para oferecer e, mais uma vez, desejou que isso funcionasse.

Sandor estava bravo e, ao mesmo tempo, perplexo. Não imaginava a força que Sansa tinha. Não imaginava que ela cresceria tão rápido desde que saíram de Porto Real. Ela o surpreendeu e gostava disso. Não tinha muito o que fazer com a garota, além de levá-la de volta para sua família. Decidiu ignorar o tapa e aceitar o pedido.

– Tudo bem, Passarinho.

E com aquela resposta, Sansa se cobriu com a capa que estava sobre o cavalo e se deitou sobre o manto de Sandor, esperando o sono lhe consumir.

Sandor se sentou ao lado dela. Sabia que ela estava com frio, mas não podiam fazer uma fogueira. O tapa lhe ardeu e ele ainda tinha vontade de vingança. Mas não iria fazer isso. Ela o tratou de forma severa que ele nunca pensou que ela faria. Respeito era o que ele poderia dar no momento.

Sansa tremia de frio e Sandor percebeu. Ele não podia fazer mais nada. Queria ter dado vinho para ela beber. Aquele vestido era fino demais. Queria se deitar e abraçá-la para garantir aquecimento. Ela o amaldiçoaria e ele levaria outro tapa. Mas para isso, ele teria que tirar a armadura gelada. E ele não tomava banho há dias. Sansa acabara de se limpar e ele não queria estragar aquele perfume que ela emanava com seu cheiro de cachorro.

E sonhando com aquele perfume, ele se deitou, colocou sua mão por sobre o braço da menina e acabou pegando no sono.

***

Quando Sandor acordou, o sol já batia em seu rosto. Ele levantou de supetão, olhando a sua volta e garantido que tudo estava certo. Olhou para Sansa e ela ainda estava ali, dormindo como uma donzela dormiria, sem preocupações sobre seu semblante. A capa estava espalhada pelo chão, revelando o corpo curvilíneo da menina sobre o vestido fino e manchado de sangue. A excitação matinal dele aumentou mais e ele colocou a mão por cima para evitar que isso acontecesse. À luz do sol, ele percebeu os hematomas que ela tinha pelo corpo.

Havia alguns roxos pelo braço e percebeu alguns na cintura, por cima do vestido. Ele passou a mão sobre o braço dela, tentando não acordá-la, mas ela se mexeu e ele, rapidamente, se afastou.

Levantou-se, olhando para Estranho para saber se estava tudo bem. Nada acontecera de noite. Sem bandidos ou cavaleiros por recompensa. Tinham perdido muito tempo ali e se amaldiçoou por ter dormido. Ele se afastou para mijar e quando voltou, Sansa estava acordada e levantada.

Eles não se falaram e ela retirou a capa. Ela deu um sorriso tímido a ele, mas Sandor não correspondeu. Apenas bufou, acenando com a cabeça.

– Não temos comida, Passarinho – avisou Sandor. – Vamos ter que procurar até encontrarmos uma estalagem segura.

Sansa assentiu com a cabeça. Ela pediu permissão para se afastar e fazer suas necessidades. Sandor foi atrás e Sansa percebeu.

– O que está fazendo? – perguntou Sansa.

– Estou te acompanhando – resmungou Sandor, dando-lhe um sorriso sarcástico. – Não vou te deixar sozinha depois do que aconteceu.

– Está de dia, eu posso me cuidar! – insistiu Sansa.

– Como se cuidou da última vez? – ironizou Sandor. Sansa cruzou os braços, ofendida.

Sandor resolveu ceder, mas lhe deu a adaga que guardava na bota.

– Não se afaste por mais de três árvores. Quero ver sua cabeça vermelha daqui – disse-lhe. Sansa não sabia o que fazer com a adaga, mas aceitou mesmo assim.

Depois que ela se afastou, Sandor ajeitou o manto encardido da Guarda Real e a capa de Sansa, os panos sujos de sangue e os odres de água e de vinho e bebeu alguns goles do álcool. Conseguia ver a cabeça de Sansa ao longe, mas não podia ver mais que isso.

Quando ela voltou, sem perguntar, Sandor a pegou pela cintura, colocando-a de lado sobre o cavalo. Ele sentiu ela se arrepiar com o toque. Subiu atrás de Sansa.

– Estou com fome – disse Sansa. Seu estômago roncava.

– Não temos mais comida, Passarinho – respondeu, esporando o cavalo para que ele andasse e passando a mão pela cintura da menina, para segurar as rédeas.

Ele pegou o odre de vinho e pediu para Sansa segurasse as rédeas do cavalo. Enterrou os dedos entre os cabelos ruivos da menina e colocou o odre de vinho sobre seus lábios macios.

Ela se assustou um pouco, mas aceitou o vinho de bom grado. Deixou que a bebida lhe ardesse a garganta, mas não entendia por que Sandor tinha que lhe pegar daquela maneira para fazê-la beber o vinho.

– Beba um pouco do vinho. Vai enganar seu estômago – ele lhe falou.

Sansa sentiu que os dedos dele a acariciavam ao invés de puxá-la.

– Por que me pega assim? – perguntou Sansa, se sentindo um pouco atrevida com a pergunta, quando parou de beber o vinho. Sandor esboçou um sorriso malicioso.

– Se eu lhe der o vinho, você não vai beber do jeito certo.

Sansa não falara mais e ele soltou os cabelos, deixando que ela se ajeitasse. Da última vez que bebera vinho, ele lhe pegara da mesma forma. Agora entendia por que estava descabelada quando se olhou no espelho.

Eles cavalgaram por alguns minutos até Sandor parar o cavalo próximo a uma macieira. Ele desceu do cavalo e ajudou-a a descer.

Sem permissão, ele pegou-a no colo, fazendo Sansa se sentar em seu ombro. Ela se desequilibrou, mas ele segurava seu traseiro e Sansa resmungou alguns pios por isso. Ele lhe deu a mão, para que ela se equilibrasse. Sandor se aproximou da macieira e a menina entendeu por que ele a colocou daquele jeito. Estava próxima a alguns galhos carregados de maçã e ela conseguiu pegar quatro maçãs, enquanto Sandor segurava sua coxa. A mão dele estava muito perto de partes íntimas de Sansa e ela se sentiu uma onda de calor passar por seu corpo. O vestido fino deixava que ela sentisse as mãos calejadas dele e a barba roçando por sua outra coxa.

Ele se aproximou de outra árvore. Uma ameixeira e ela conseguiu capturar cinco ameixas. Sandor se abaixou para colocá-la no chão e pegaram as maçãs que deixaram cair, colocando as frutas dentro da bolsa sobre o cavalo. Ele colocou Sansa de volta sobre a sela e subiu.

Ela comia uma ameixa, sentindo o estômago se aliviar um pouco. Voltaram a cavalgar, comendo as frutas e parando apenas para as necessidades.

Já era tarde, o sol estava baixo, quando Sandor se pronunciara.

– Estamos próximos a uma outra vila, Passarinho.

Ela se animou um pouco, mas ao mesmo tempo, se amedrontou.

– Vamos para lá? – perguntou Sansa.

– Sim. Precisamos de um pouco de descanso e de comida de verdade. – respondeu Sandor.

– Como se chama?

– Altheia.

Sandor estava um pouco incerto se deveriam ir para a vila. Depois da última que passaram, não queria arriscar novamente. Mas ele precisava de descanso, banho e comida. Ele escondeu o manto entre ele e a Sansa e pediu que a menina colocasse sua capa.

– Seu cabelo vermelho chama atenção, menina – explicou. – Coloque o capuz quando se sentir ameaçada e tente tampar o sangue do vestido. Está vestida como puta, não vão desconfiar de você.

Novamente, ele usara uma palavra grosseira para se referir a ela. Se sentiu ofendida e queria repreendê-lo por isso. Mas não deixava de ser verdade. Usava um vestido muito indecente. E até ia tentar se defender, mas os murmúrios de vozes e ruídos de cavalos e passos a fizeram olhar para frente e reparar que estavam chegando próximos a vila de Altheia.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Sansa tem se fortalecido muito e quero que ela cresça cada vez mais. Agradeço a visita de todos e podem deixar comentários, sugestões, reclamações, barracos, confusões quando quiserem!! Quero saber se estou no caminho certo!! No próximo capítulo, quero começar a postar prévias dos próximos caps! Não fiz nesse, mas farei no sexto, com certeza! Muito obrigada por acompanharem! E até a próxima! (Que não irá demorar, prometo).