God of Mischief | Loki

27 Capítulo 26: Casamento


Notas iniciais
Então pessoinhas amadas! Mais um capitulo quentinho do forno. Vamos a errata da Targaryen. Este deveria ser o penultimo capitulo, mas ficou tão extenso que eu o dividi em dois. Então vocês ainda tem mais dois capitulos pela frente. Quero dedicar esse capitulo as lindas Terra Branford e Bruna Lins que recomendaram lindamente a fic! Obrigada mesmo! Obrigada aos fantasminhas que estão surgindo! Unam-se a galera! Gente eu fiz um grupo no face para o pessoal que lê fic poder bater papo e ter ataque de fangirl em cima do Loki. Vamos fazer amiguinhos! Segue link: https://www.facebook.com/groups/385064741636249/ Divirtam-se!!

Quando acordei, ainda um pouco atordoada de sono, percebi que Loki não estava mais no quarto. Me levantei nervosa. Onde ele estava? Eu estava sozinha? Então ouvi as vozes vindo da sala, no andar de baixo. Loki já devia estar ali, combinando os detalhes.

Eu me sentia horrível. Pesada. Inquieta. Por um segundo cogitei voltar para cama e me aninhar ali até o dia acabar, mas não podia fazer isso. Abri a porta do armário procurando por algo para vestir. Algo com cara de “estou indo à guerra” e não “essa noite jantaremos no Ritz” era um pouco difícil no meu armário de Midgard. Mais uma vez Frigga tinha cuidado de tudo.

Havia uma calça de couro preta e um vestido branco de tecido fluido, curto na altura das coxas, com um decote quadrado. A ave estava bordada de asas fechadas, pousada próxima à barra. Aquilo me causou um calafrio. Em todas as outras roupas ela voava. Quando puxei para vesti-la, um pequeno pedaço de pergaminho despencou do meio do tecido. Um lembrete em letra rebuscada.

Quando não puder mais caminhar, voe.

Aquilo era de Frigga, sem dúvida nenhuma. O problema é que eu não entendia o significado exato. E não me parecia um bom presságio uma mensagem como aquela deixada junto a uma roupa onde minha ave tinha as asas fechadas após o sonho da noite anterior. Coloquei o bilhete de volta no armário. Eu não devia mostrar aquilo a Loki.

Me troquei em silêncio, tentando controlar o quanto minhas mãos tremiam, encarando meu próprio rosto no espelho. Eu estava um pouco mais magra e parecia poder fazer bom uso de férias na praia. Meu arco e a aljava prenderam-se ao meu corpo quando desejei assim. Respirei fundo algumas vezes e desci as escadas.

Jane e Thor estavam abraçados próximos à janela, ele com o queixo apoiado na cabeça dela, ambos de olhos fechados. Pepper acariciava o rosto de Tony, sua única parte visível, e o enchia de recomendações. Anong desenhava muito tranquila. Bom, o pai dela era o Hulk. Steve e Loki estavam sentados em pontos opostos da sala, absolutamente entretidos encarando o nada. Fui direto até o deus.

— Podia ter me acordado — reclamei séria, mesmo que eu precisasse desesperadamente dormir. Me sentei em sua perna, pegando uma fatia de bolo da mesa. Senti alguns olhares desconfortáveis em nossa direção, mas não me importei, ainda mais quando ele abraçou minha cintura erguendo o rosto para mim. Loki ainda tentava ganhar o peso perdido durante sua prisão, porém parecia mais descansado e em sua cota coriácea de batalha aparentemente estava mais do que pronto para a luta. Um legítimo príncipe asgardiano. Me obriguei a desviar o olhar. — O que ficou decidido?

— Seria arriscado tentar carregar tantos de uma vez com a joia. Precisaria usar as duas metades e você acabaria morta no processo — começou esclarecendo. Mais uma vez eu o atrasava. — O soldado vai todo dia de helicóptero. Eles virão buscá-lo então vamos retirar o piloto e entrar com ele. Seu irmão vai pilotar. Chegando, nos dividiremos para procurar — explicou com simplicidade. Lancei um olhar a Steve, imaginando se aquela escolta tão ostentadora era do seu agrado. Duvidava muito, ele gostava da moto e da própria autonomia. Aquilo era coisa do governo. Não era problema meu.

Refleti sobre as palavras de Loki. Seríamos um Cavalo de Troia. Reparei que Thor, Bruce e Steve tinham um comunicador semelhante àquele que eu uma vez havia usado. Tony estava bem servido da armadura para isso. E Loki, bom, ele não precisava de comunicador. Me perguntei por um breve segundo onde estaria o meu.

— Eu preciso de uma armadura e de um comunicador — pedi displicente. Ele assentiu muito sério.

— Já vamos providenciar — concordou num tom de voz estranho. Me perguntei se ele materializaria outra armadura para mim como havia feito com o vestido. — Todos estão prontos? — perguntou em voz alta, afastando meus pensamentos, vendo-os assentir em resposta. Jane e Pepper pareciam tão preocupadas que me davam pena. Ficar em casa aguardando devia ser infinitamente pior.

— Senhor Stark, o helicóptero está no heliponto aguardando — Jarvis informou.

— Loki? Armadura. Comunicador — repeti gesticulando como se ele não tivesse me entendido.

— O comunicador dela está na oficina, lá embaixo — Tony falou soando estranhamente artificial. Ele estava rígido e não soava bem-humorado como sempre. Concluí que fosse nervosismo. — Esqueci de pegar — falou em tom de desculpas, encarando Loki.

— Vamos buscar — o deus disse prático e displicente, me puxando pela mão. Algo estava errado. Eu podia sentir. Ou talvez fosse minha ansiedade.

Descemos as escadas e pude ver o comunicador em cima da mesa, em meio a dezenas de outros aparelhos e pecinhas. O cheiro de óleo de motor chegava até mim apesar da sala estar fechada, com o ar parecendo pesado e silencioso. Apertei um código no painel e a porta de vidro correu para o lado. Quando fui entrar, Loki me puxou de volta pelo antebraço e me deixou completamente sem ar ao me empurrar contra a parede transparente em um beijo sôfrego. Eu o correspondi tão ávida quanto ele, minha mão livre subindo para se enroscar em seus cabelos. Ele me segurava com firmeza pela cintura.

O deus interrompeu o beijo antes do que eu gostaria e pela expressão estranha que tinha, antes do que ele próprio gostaria. Fechou os olhos por um breve segundo e se afastou de mim.

— O que…?

— Vamos — disse frio. Repentinamente seus olhos estavam tão distantes que achei que tivesse feito algo errado. Franzi as sobrancelhas, com a confusão estampada em meu rosto. Ele estava antecipando o que viria a seguir? Aquele talvez fosse nosso último beijo?

Loki interrompeu meus pensamentos, um pequeno sorriso enquanto me indicava o caminho, com um gesto educado.

Entrei na oficina, caminhando a frente dele e assim que peguei o comunicador entre os dedos, reparando na bateria ausente, ouvi o som da porta se fechando. Senti meu coração falhar ao me virar para olhar.

— Loki? O que você está fazendo? — indaguei sentindo minha voz estremecer. Eu soava uma oitava mais aguda. O deus não me respondeu. Voltei até a porta, apertei o código do painel do lado interno da sala, o encarando com o nervosismo estampado no rosto e desejando que aquilo não fosse o que eu achava que era. Uma luz vermelha piscou indicando erro. Olhei do objeto para ele, apavorada. Tony havia mudado o código nesses poucos segundos. Estreitei meus olhos para o deus, de maneira ameaçadora. — Abra — ordenei num rosnado.

— Avisei para não confiar em mim — falou tão frio que me senti atingida.

— Jarvis, abra a porta.

— A senha é necessária, senhorita — sua resposta me fez encarar o deus, sentindo minha respiração acelerar, me percebendo encurralada.

— Loki, abre a porta — mandei, dando um tapa no vidro. Eu tinha escutado a conversa. Ninguém estava planejando me levar junto. Ninguém me queria no grupo. Todos planejaram me deixar para trás. Sabiam que eu não ficaria por livre concessão. Como pude me deixar enganar tão facilmente? — Eu tenho quatro joias. Você precisa de mim.

— Não se eu tiver a Manopla. Desde que as joias não estejam em seus santuários, posso trazê-las. Basta colocá-la na mão e as joias virão — explicou seco.

— Mas eu sou a mestra — respondi incerta. Aquilo o fez rir, uma risada sem emoção.

— As Joias do Infinito se curvando diante de uma humana? Uma criatura mortal e patética? — falou, a maldade pronunciada em cada sílaba. Ele falava aquelas coisas para me atingir. Para me fazer sentir raiva dele. Mas apenas doía. Senti vontade de convidá-lo para mais uma rodada de “Mate a Liana”. Eu lidaria melhor com isso. — Ou você não notou o desejo que elas tinham em me servir? Quando eu tiver a Manopla do Infinito as tirarei do seu controle como se sempre tivessem sido minhas. Elas não vão demonstrar resistência. Serão servis.

— Loki... — Simplesmente não sabia o que dizer. Não havia o que dizer. — Eu não vou roubar as joias de você, sabe disso. Pode ver a verdade em minha mente se quiser, não me importo — comecei a barganhar de forma vergonhosa. Ele se recusava a me encarar. — Abre a porta, por favor — pedi em um tom baixo, sentindo as lágrimas chegarem aos meus olhos. Ele me lançou um último olhar frio e começou a subir as escadas. — Loki! — gritei enraivecida. Eu não podia usar as joias. Já sabia de longa data que tudo que queriam era me ver morta e as ações dele eram muito mais interessantes para que fossem colaborativas comigo.

Corri até a mesa e peguei uma chave inglesa enorme e pesada a atirando com toda força contra o vidro. Nada. Protegi o corpo como podia, saindo da frente de possíveis estilhaços e golpeei o vidro com toda força usando a haste do arco, mas ele manteve-se intacto. Me arrisquei a disparar uma flecha, que apenas ricocheteou em diagonal antes de retornar para mim. Depois do ataque que haviam sofrido em casa, era natural que todos os vidros fossem blindados.

— Loki! — tornei a gritar a plenos pulmões. Ninguém abriria. Dei um soco forte na parede, o que serviu apenas para causar dor. Escorreguei me escorando e me sentei no chão chorando em desespero. Por que aquele maldito beijo? Por que tudo isso? E aquela conversa? Ele tinha me manipulado o tempo inteiro? Eu sabia que ele me deixaria para trás, mas não imaginei que fosse ser assim. Ouvi o som do helicóptero saindo. Aquilo me fez soltar um grito enraivecido e bater com a haste do arco contra o chão em um acesso de fúria. Pepper e Jane nunca me soltariam dali. Esse pensamento apenas me fez chorar mais alto. Ergui os olhos e me vi refletida em uma grande janela espelhada de frente para o mar. Pular seria suicídio.

Lentamente silenciei, acalmando minha respiração, deixando o olhar vagar. Não havia como sair. Com a ponta dos dedos contornei o bordado em meu vestido branco.

Por que Frigga deixara aquela roupa para mim? E o bilhete? Ela havia visto aquilo. Eu iria à batalha. Me lembrei de Loki me dizendo que o destino poderia mudar pela ação dos envolvidos. E se me fechar ali mudasse minha participação? Tinha que haver um jeito, mas a sala era isolada e ninguém abriria. Estava enjaulada. Me levantei e comecei a testar códigos aleatórios no painel. Nada funcionava.

O que mais doía não era ter sido enganada para ficar. Enganar era da natureza dele. O que me doía era não saber se Loki realmente queria apenas me roubar as joias ou se aquilo tudo era uma tentativa de me proteger.

Se arrisca demais”.

Três palavras que me martelavam a mente e me colocavam em dúvida. Eu me recusava a acreditar que todo aquele cuidado e gentileza eram apenas fingimento. Loki não podia ser tão baixo. Eu o conhecia demais para acreditar em algo assim. Eu havia visto além do muro. Não havia outra forma de descobrir, além de perguntar diretamente a ele.

O silêncio novamente se abateu sobre mim aos poucos. Eu estava irremediavelmente presa. Não havia como seguí-los. Nunca teria chance de perguntar. Como eu desejava ter força suficiente para dominar as joias como ele fazia. Dobrei as pernas e abracei os joelhos encostando a testa sobre eles, calada. Derrotada. Enganada.

Quantas horas haviam se passado desde que eles saíram? Duas? Eu nunca os alcançaria mesmo se conseguisse sair. Chorei várias vezes me sentindo impotente. E se acontecesse algo a ele? Se fosse ferido ou capturado? Aqueles pensamentos me embrulhavam o estômago.

Passos. Esse som me fez erguer os olhos. O som de algo sendo arrastado acompanhava aquele barulho. Jinggles descia as escadas, sorrateiro. A cada poucos degraus parava para olhar algo atrás de si. Então eu vi. Anong.

A menina descia as escadas arrastando uma cadeira. Me pus de pé imediatamente. Eu sabia o que ela faria. Eu a tinha tirado de sua prisão e Anong me tiraria da minha. Ouvi o som de saltos correndo pela casa acima de mim. Pepper a procurava. Ela colocou a cadeira embaixo do painel e sorriu para mim me dando um “oi” tímido, enquanto subia. Se eu morresse hoje que ela ficasse com a minha parte da Stark Industries. Ela merecia tudo que eu pudesse lhe dar. O código era o mesmo na casa inteira, por isso a menina sabia. Havia usado aquilo em seu quarto.

A porta se abriu com um estalo e eu a abracei tão apertado que a fiz tossir. Ela riu enquanto enchia as bochechas gordinhas de beijos. Acariciei Jinggles que a tinha trazido até ali. Gato esperto. Completamente surreal.

Nesse momento Pepper e Jane desceram as escadas atarantadas e pararam ao ver que eu estava solta. Se pudesse esganaria as duas, mas não tinha tempo a perder. Subi aos pulos e ambas saíram do meu caminho sabendo que não seria sábio tentar me impedir.

Elas, assim como eu, sabiam que havia um problema muito pequeno. Mais uma vez o tempo. Como eu cobriria a distância que eles já tinham avançado sem chegar infinitamente atrasada? Eu precisava de um meio de transporte rápido. Algo que me tirasse dali depressa. Algo mais rápido que um simples helicóptero. Olhei ao redor nervosamente.

— Liana... — Jane chamou baixo, num tom brando. Tentaria me convencer a ficar.

— Cala a boca — mandei sem nem a olhar. A fúria era clara em minha voz a fazendo se retrair. Por fim, meus olhos pousaram em um suporte de vidro com um objeto circular dentro. Eu sorri ao vê-lo. O primeiro reator que Tony havia usado em seu peito. Era óbvio como eu os alcançaria. Afinal, eu estava na casa de quem? Por acaso eu não era uma Stark? E já não tinha dominado a luva uma vez? O resto não podia ser tão difícil. — Jarvis quem está disponível?

— Todas as armaduras estão bloqueadas para seu uso senhorita — informou categórico. Tony era esperto. Me senti despencar. — As únicas habilitadas são a do próprio senhor Stark e o Patriota de Ferro.

— Espera. Onde está o Patriota de Ferro? — perguntei enérgica sentindo o coração palpitar de expectativa. Vi Pepper e Jane trocarem um olhar preocupado.

— Na casa do Tenente Coronel James Rhodes, senhorita. Fica a seis quadras daqui — informou. Aquilo me fez rir histérica.

— Manda ela para cá — ordenei.

— A senhorita precisa da senha.

— Você está de brincadeira? — ralhei furiosa. Pepper se aproximou de mim, colocando uma mão em meu ombro, com um sorriso resignado.

— Máquina de Combate Detona.

— A armadura chegará em um minuto, senhoritas — Jarvis informou. Olhei para ela chocada.

— Você iria a nado se precisasse. Eu conheço esse olhar — Pepper falou simplesmente. — Só volte viva — pediu, me abraçando.

— Obrigada — falei retribuindo. Ela não fazia ideia do quanto aquilo significava para mim. Ou talvez fizesse.

A armadura entrou pela grande janela da sala e pousou se abrindo e esperando por mim. As pernas se alongaram. Eu era mais alta que o Tenente Coronel. O telefone tocou e eu vi quando Pepper atendeu e começou a discutir com Rhodes do outro lado. Ele iria me matar. Pena que precisaria entrar na fila.

Soltei o arco e a aljava que se unificaram novamente à armadura como se fossem feitos para isso. Ocupei meu lugar vendo-a se fechar por completo. Era confortável, embora bastante claustrofóbico. As luzes se acenderam.

— Jarvis, piloto automático nessa coisa — comandei. — Direto para a localização da armadura de Tony na velocidade máxima.

— Sim, senhorita — concordou. — Ativando defletores. Ativando o sistema de ventilação. Ativando estabilizador de velocidade Mach 3. — Dito isso, a armadura levantou voo e eu senti meu estômago afundar de nervosismo. Eu estava indo encontrar o meu destino.


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Aquela armadura era absurdamente rápida. Como Tony e Rhodes não ficavam tontos? Mas eu tinha a impressão de que ela mantinha uma certa estabilidade, por que apesar disso eu mesma não estava tonta.

Voávamos acima do mar, tão próximos que se eu abaixasse as mãos poderia tocar a água. Estávamos no ar há quanto tempo? Uma hora? Um pouco mais?

Então ao longe pude ver a gigantesca nave preta, pairando acima do mar, sustentada por suas quatro hélices do tamanho de campos de futebol. Senti algo ruim se enroscar em meu peito. Eu sentia medo, mas se não sentisse seria louca. Tentei me lembrar que tinha coragem em mim. Ausência de medo era loucura, inconsequência. Coragem era fazer o que precisava ser feito, mesmo com medo. E eu podia fazer isso.

— Jarvis, nos coloque em algum ponto onde eu não morra em cinco minutos — pedi, minha voz soando estranha pelo nervosismo.

— Estou verificando o perímetro, senhorita — informou. Eu aguardei pacientemente. — O senhor Stark e os outros estão na pista de pouso, chegaram há pouco e ainda avançam sem problemas. Devo levá-la para junto do grupo?

— Não — respondi categórica. Tony me enfiaria de volta na armadura antes que eu pudesse falar qualquer coisa e Jarvis certamente tinha um protocolo hierárquico rígido a seguir. — Me coloque no andar mais baixo. Eles descem e eu subo. Cobrimos o caminho mais rápido, assim. Não deixe Tony nos notar. Fique em um ponto cego.

— Claro, senhorita — anuiu me levando. Chegamos a lateral da nave e Jarvis abriu o metal com um maçarico ínfimo. Assim que pousou em seu interior, a armadura se abriu e eu pulei para fora. O arco e a aljava se prenderam a mim. — Suba pelas escadas a direita, senhorita — Jarvis instruiu.

— Mantenha a armadura de prontidão — orientei. Comecei a subir com o corpo meio abaixado, mesmo não havendo ninguém naquele corredor. Espiei por janelinhas em portas. Alguns agentes trabalhavam em armas e outros com compostos químicos. Todos concentrados demais para me notarem. Todos tranquilos demais para terem notado a invasão no andar superior.

Chegando ao final do primeiro corredor encontrei dois agentes que conversavam a um canto. Ambos tinham papéis nas mãos. Aquilo os atrasaria no saque das armas. Armei meu arco de longe e disparei. O primeiro soldado foi atingido na lateral do pescoço e desabou engasgando-se com o próprio sangue. O outro mal teve tempo de me notar, antes que eu o atingisse no olho, minha flecha atravessando sua cabeça. O baque dos corpos ecoou pelo corredor, porém não atraiu ninguém. Os arrastei para um canto, onde ficariam mais discretos do que largados no meio do nada.

Continuei avançando e verificando salas, contudo em todo lugar onde eu olhava, pesquisas estavam sendo feitas. Minha desvantagem era estar incomunicável. Não tinha como saber o que estava acontecendo nos andares acima. Ou melhor, no segundo em que um alarme ecoou enchendo meus ouvidos eu tive uma boa noção. Eles haviam sido notados.

Olhei para trás e vi dezenas de agentes preencherem o corredor por onde eu tinha acabado de passar. Seus olhos foram da poça de sangue no chão para mim. Eu corri antes de esperar qualquer coisa. Ouvi os tiros atingirem o metal. Subi escadarias e esbarrei em pessoas que corriam agitadas. Algumas mãos tentavam me parar, mas eu as acertava com a haste do arco sem pensar. Estava enterrada naquele lugar e se não fosse rápida acabaria pega. Abri portas e atravessei salas, aos tropeços. Vi agentes erguerem armas contra mim, mas os botei abaixo com flechas. Não sabia nem se eram homens ou mulheres. Quem cruzasse meu caminho cairia.

Alguém atirou uma faca que passou a centímetros do meu braço. Senti ainda mais falta da minha armadura. Um ferimento no braço e eu estaria fora de combate. Me virei para a pessoa e atirei duas flechas, uma delas envenenada. O homem caiu no chão estrebuchando enquanto as partes dos projéteis retornavam a aljava.

O alarme continuava soando alto, contudo eu ainda podia ouvir bombas estourando andares acima de mim. Entrei em uma sala ampla com dois pavimentos. Eu estava no segundo. A porta na extremidade oposta se abriu e Clint Barton entrou correndo. Paramos por um milésimo nos medindo atentamente.

— Você pode se entregar — ele disse, enfim. Eu sorri. O agente puxou uma flecha e armou o arco. Apontava diretamente para meu coração. Eu fiz o mesmo. Se ele queria dançar, dançaríamos juntos.

— Você também — Falei, séria e muito mais atrevida do que seria sensato.

— Liana, sabe que eu conseguiria atingir você e ainda desviar sua flecha não sabe? — perguntou como um professor faria a um aluno que não consegue realizar um cálculo simples.

— Você deve saber que eu aprendi com o melhor e tive bastante oportunidade para praticar — redargui, piscando para ele. Aquilo o fez rir, sem notar que eu não me sentia tão confiante assim.

— Não vão conseguir. Sabe quantos agentes tem aqui dentro? — questionou.

— Não sei... — respondi com sinceridade. Um urro fez o chão tremer. Aquilo colocou um sorriso em meu rosto, fazendo-o olhar para cima. — Vamos torcer para que tenha um número suficiente para parar o Hulk — Barton ainda não sabia da presença do homem. Aquele era meu momento.

Disparei a flecha, enquanto corri para a beirada do mezanino. Eu sabia que não acertaria. Larguei o arco e pulei para o andar de baixo. Caí sentindo que meus joelhos e calcanhares poderiam ter quebrado com o impacto, mas eu não podia ficar parada ou Clint atiraria. Abri a primeira porta que vi e entrei sendo seguida por minha arma retornando à minha mão. Outro corredor. Cheio de agentes. Todos apontaram contra mim.

Disparei uma flecha bomba. Péssima ideia. A lataria da nave se abriu em um rombo, tive tempo apenas de gritar e me agarrar a um cano que descia pela parede. Estávamos ao lado da hélice e quase dez agentes foram puxados pela pressão. Senti o sangue respingar no meu rosto e braços. Minha cabeça zunia pelo barulho. Apesar do estrago a nave era muito grande para cair com um buraquinho daqueles.

Me forcei a retroceder à sala anterior. Clint não estava ali. Concluí que eu era muito insignificante. Ou estava muito longe do que realmente importava. Quase não conseguia ouvir, pelo atordoamento.

Me sentei no chão atrás de uma mesa. Esperei por quase dez minutos para minha cabeça voltar à normalidade e a audição se restabelecesse. Ninguém apareceu, o que me levou a concluir que deveria subir. Na verdade eu não fazia ideia de em qual andar estava. Levantei e me vi refletida em uma janela grande. Limpei com um pedaço de papel as gotas de sangue que tinha no rosto e nos braços. O vestido estava todo respingado e acinzentado de poeira. Alguma coisa tinha me acertado, porque eu tinha um corte no lábio e vários menores nos braços. Se parasse para pensar que poderia estar entre os agentes, não daria nem mais um passo. Eu precisava continuar.

Escolhi outra porta e segui pelo corredor amplo e vazio. Subi as escadas e não encontrei ninguém no meu caminho. Algumas salas precisavam de códigos para entrar, porém Jarvis os havia hackeado. No entanto, não encontrei nada de interessante. Depois de entrar em cinco salas, eu vi. Não a Manopla. Minha adaga. A que tinha ficado esquecida na casa de lugar nenhum. Eu a peguei da mesa e a atei a perna como sempre. Mas ela estar ali só poderia significar uma coisa. Odin também estava. Maravilha.

Um único pensamento ecoava na minha mente. Eu precisava alertar Loki. Ele não podia ser pego desprevenido. Saí correndo desabalada pelo corredor seguinte daquele labirinto confuso. Ouvi tiros me acompanharem quando agentes me viram. Atirei flechas de qualquer jeito, me virando para trás. Acertei quatro de cinco flechas. Um bom número considerando-se que eu estava correndo e mirando para trás, com os cabelos vindo no meu rosto.

Corri por uma ampla passarela, que ficava a pelo menos dez metros de altura do chão embaixo. Uma única agente estava parada nela. A mulher teve tempo apenas para sacar a arma antes que eu a atingisse no queixo com a haste do arco a jogando lá de cima. Ela caiu derrubando três agentes que lutavam com... com Loki. Ele os matou antes que pudessem se levantar novamente.

O deus ergueu os olhos para ver de onde a mulher viera. Quando me viu, os arregalou em choque. Atirei duas flechas derrubando um agente que vinha por trás dele. Ele ainda teve tempo de atirar. As balas atingiram o elmo dourado na cabeça do deus e caíram no chão como se fossem de plástico. Olhei-o preocupada, mas estava tudo bem. Antes sequer que eu notasse, Loki atirou a lança. Por um breve segundo achei que fosse contra mim, no entanto era contra um homem alto se esgueirando com uma faca às minhas costas. Ele caiu com a cabeça completamente separada do corpo. A lança reapareceu em sua posse.

Com um movimento da mão livre de Loki, senti minha cabeça pesar. O elmo dourado dele desapareceu e ressurgiu sobre mim. Levei a mão livre a um dos chifres adornando o capacete, com incredulidade e surpresa. Aquilo pôs um sorriso em meu rosto.

— Idiota! — xinguei em alto e bom som. Proteção. Era isso que Loki havia tentado. Me tirar da maior batalha de todas, me manter longe de Odin. Não precisaria perguntar nada. Ele apenas queria me proteger de toda aquela confusão.

— Pule logo, teimosa! — rebateu, com um ínfimo sorriso nos lábios. Por mais que se preocupasse, minha teimosia o divertia. Éramos iguais. Me equilibrei na beirada e me joguei de costas. Loki me amparou usando ambas as mãos com a facilidade de quem segura uma pena. Me pôs de pé, me olhando com severidade. Seus olhos se demoraram no corte da boca, as sobrancelhas se franzindo.

— Nunca mais — falei num rosnado baixo, batendo o dedo no peito dele. — Se fizer isso de novo vai acabar como Steve — ameacei. Aquilo o fez rir de um jeito charmoso e arrogante.

— Claro, vou sim — concordou, me puxando em um beijo curto. Revirei os olhos sorrindo. Dois agentes entraram na sala e eu os abati sem nem sequer olhar.

— Odin está aqui — avisei. Ele assentiu seriamente.

— Eu sei, está junto de Fury. Nós os vimos de longe. Me pergunto quem vai matar quem — comentou displicente duvidando da durabilidade daquele acordo. — Se acharmos a Manopla acabamos com isso — falou firme.

— Como você chegou aqui?! — A voz estarrecida de Tony surgiu, enquanto ele entrava correndo pela passarela acima, a máscara da armadura, subindo revelando seu rosto. O olhei com uma expressão séria.

— Máquina de Combate Detona — disse simplesmente. Ele bufou, revirando os olhos com descrença e impaciência. Desceu até nós.

— Atenção: a arqueira chegou de penetra para a festa — anunciou para os outros através do comunicador, antes de virar-se novamente em nossa direção. — Nada ainda? — Nos olhou questionador, enquanto a máscara subia, aceitando não ter muito o que fazer uma vez que eu já estava ali. Loki balançou a cabeça negativamente. Eu fiz o mesmo gesto, ao que Tony respondeu com uma careta. Um rapaz entrou correndo na sala. Ergueu a arma apontando em nossa direção e nos viramos para olhá-lo. Os olhos dele passearam pelos corpos espalhados e ele fechou a expressão firmando ainda mais o revólver em mãos. — Sério? — Tony questionou incrédulo. Ele nos encarou por um segundo a mais e retrocedeu pela mesma porta, em silêncio.

— Hulk e o Capitão? — perguntei, sem dar importância.

— Mantendo os agentes ocupados na pista de pouso — Tony respondeu. Aquele lugar tinha centenas de salinhas e corredores. Levaríamos dias procurando.

— Loki, você não pode usar o Espaço? — questionei. Entendia não fazê-lo a distância, talvez fosse muito custoso, porém uma vez ali alguém como ele conseguiria sem muitos problemas.

— As joias não levam à Manopla. Trabalham em conjunto, mas não se afetam — explicou me dizendo o que eu já imaginava. — Precis... — Sua frase foi interrompida por dezenas de homens que entraram correndo na sala. Não eram agentes. Soldados asgardianos.

O deus teve tempo apenas de me abraçar, me ocultando, antes que um machado fosse arremessado. Teria se cravado em seu ombro se Tony não o tivesse aparado.

— Vão! Vão! — gritou, virando-se para os homens, a máscara protegendo a face novamente. Loki me puxou pelo braço correndo para fora da sala. Subimos dois andares, ouvindo alguns tiros esporádicos, mas eu disparava flechas os silenciando. Quem entrasse no meu caminho cairia. Eu levaria a morte por onde passasse.

Ele corria à minha frente matando quem aparecesse e eu seguia protegendo os flancos, matando quem vinha pelos corredores laterais. Então um homem com o uniforme de Asgard surgiu. Ele tinha uma pequena bola de metal nas mãos, quase como um brinquedo estranho. Disparei uma flecha contra ele, mirando o pescoço, onde não havia armadura para proteger. O matei, mas não antes que ele jogasse aquilo.

— Corre! — Loki gritou a plenos pulmões. Abri a primeira porta que vi e me joguei para dentro. Ele acabou entrando em outra sala. A coisa estourou e começou a sugar portas, metal das paredes, cabos e o corpo do soldado. Em seguida sumiu para o nada. Não tive tempo de sequer me mexer antes de tiros serem disparados em minha direção vindos do andar de baixo. Me encolhi atrás do vidro blindado de proteção que fazia as vezes de corrimão. Me virei e vi um homem idoso de capa vermelha saindo por uma porta lateral. Então eu a vi.

Natasha Romanoff.

Não sei o que me fez agir daquela forma. Quando a vi, simplesmente levantei meus olhos em fúria. Ela não teve sequer tempo de preparar a Glock. Comecei a disparar flechas como uma louca. Duas, seis, doze. Eu simplesmente não conseguia acertar. A desgraçada era muito rápida, correndo e saltando, tentando chegar à saída. Disparou quatro vezes contra mim, mas nem sequer estremeci ao ver as balas atingirem o elmo dourado e as paredes ao redor. Eu precisava acertá-la. Como Clint fazia aquilo? Apenas se eu...

Interrompi os disparos e a vi avançar em linha reta para a porta, a mulher ergueu a Glock mirando meu rosto. Armei o arco. Eu não me mexeria. Sem sentir. Sem pensar. Disparei mirando cerca de um metro à sua frente. Ela disparou. Dessa vez a bala não erraria. Loki se atirou contra mim, nos jogando no chão no segundo exato.

— Ficou maluca?! — gritou furioso. Eu nem sequer prestei atenção. Me levantei para olhar. Havia acertado a coxa. Ela se levantou e começou a mancar até a arma. Disparei uma flecha fazendo a Glock deslizar para longe. Natasha me olhou por cima do ombro. O rosto sempre inexpressivo revelava medo, enquanto eu descia as escadas em uma corrida apressada e ansiosa, quase fora de mim, uma risada sem alegria me escapando. Não chamei a flecha de volta. Que ficasse cravada em sua carne.

Ela tentou mancar para a porta, mas disparei outra flecha. Essa a acertou na dobra atrás do joelho da outra perna, o atravessando. A ponta ficou completamente visível acima da junta. Um grito agudo escapou de sua boca, quando ela caiu no chão. Seu rosto estava contorcido pela dor.

Loki puxou uma cadeira e sentou, colocando os pés em cima de uma mesa. O palco era completamente meu. Eu me sentia tremer de pura ansiedade. Natasha recuou contra a parede, me olhando de olhos arregalados. Eu a observava como um predador observa sua presa. Como uma arqueira observa seu alvo.

— Jarvis? — chamei em voz alta.

— Sim, senhorita? — A voz ecoou pelo sistema de áudio da nave.

— Preciso que coloque o Patriota de Ferro para guardar o meu perímetro. Ninguém deve interromper — falei fria. Natasha me olhava com uma expressão tensa e eu sentia meu coração palpitando, estranhamente nauseada. Ela podia ver em meu rosto que, no que dependesse de mim, as próximas horas seriam longas. Loki apenas observava com uma expressão divertida. — Quero que transmita o áudio dessa sala. Se Clint Barton desejar vir até aqui, permita. Pode fazer isso?

— Claro, senhorita — respondeu. Eu sorri.

— Por que o Clint pode vir até aqui? — Natasha se atreveu a me perguntar numa voz monocórdia.

— Você não quer que ele venha te ajudar? Eu não apostaria que vai ser fácil escapar sem ajuda — rebati seca. Natasha me olhava nos olhos, em desafio. Queria manter alguma dignidade. Ela sabia o que eu faria. Me abaixei largando o arco ao meu lado. Engatinhei lentamente até ela, era estranho como me sentia completamente fora do meu normal. — Vai ser fácil para ele, as memórias estão no lugar em que deveriam — disse num tom mordaz, saboreando cada palavra. Apoiei minhas mãos nos tornozelos dela e apenas meu peso a fez ganir. Muito baixo. Ela era treinada para resistir à dor. Eu a ensinaria a gritar. Apoiei a mão sobre o joelho ferido, rodeado a ponta da flecha que transparecia. A agente tentou me afastar com as mãos livres. Nenhum grito, embora sua expressão finalmente demonstrasse o que eu queria ver. Desespero. Por fim me acertou um soco forte na lateral da cabeça. Ela tinha força e técnica, me deixando aturdida por um momento. Aquilo fez o deus se endireitar na cadeira, estreitando os olhos. — Não seja mal educada — reclamei, pegando meu arco de volta, me levantando.

Disparei uma flecha em cada mão dela. Ambas estavam sobre o chão e as flechas as atravessaram completamente, prendendo-se a ele. Isso a fez soltar um grito longo e angustiado. Ela tentou puxar as mãos instintivamente, o que apenas abriu mais a carne. A mulher me olhou com olhos marejados, mas cheios de ódio. Achei que aquilo me traria algum alívio para o ódio que ela me despertava, porém não. Por outro lado, eu era incapaz de sentir qualquer coisa que meramente lembrasse piedade ou remorso. A vingança era um veneno doce de tal forma que eu poderia passar semanas ali com ela. — Agora que sabemos que vai se comportar, vamos conversar — falei, tornando a me apoiar nas pernas dela. Natasha gritou alto, conforme eu fui avançando com as mãos. Terminei por apoiá-las no joelho e na coxa feridos, meus dedos ao redor das flechas. Ela tentou debater-se, mas aquilo servia unicamente para causar mais dor. Seus gritos eram ensurdecedores à minha frente e ecoavam por todo aeroporta-aviões.

Peguei minha adaga do suporte na coxa. Ela tinha voltado em um bom momento. Sua lâmina brilhava afiada.

— Liana, para... — A ruiva pediu ao ver a arma em minhas mãos. — O que... você vai ganhar... com isso? — perguntou numa voz fraca. Sua respiração era irregular.

— Paz de espírito — devolvi fria. Cravei a lâmina lentamente no pé da ruiva. A arma atravessou o solado das botas e começou a se cravar na carne. Aquilo sim a fez urrar. Eu observei seu rosto se retorcer e achei que pudesse vomitar, ouvindo seus gritos desesperados encherem o ambiente, empurrando ainda mais fundo. Eu sentia tanta raiva que desejei que a dor nunca a deixasse.. Senti a arma tocar os ossos. Ela tentou se debater, mas eu irritada apertei a flecha na coxa.

Deixei que a adaga ficasse onde estava. Ela era uma excelente agente. Nunca devia ter sido pega em missão e agora chorava e gritava tanto que eu mal ouvia meus pensamentos. Não era problema.

— Será que Clint vai deixar você aqui? Sozinha? — questionei com uma sombra de ironia. Natasha não tinha força para falar, apenas chorava baixo, acabada. — Você conhece alguma palavra em alemão? Ou só aprendeu russo? — Interpelei. Ela não respondeu. Apoiei a mão na faca, deixando que cada terminação nervosa implorasse por alívio. Um berro estridente lhe escapou dos lábios. — Eu lhe fiz uma pergunta.

— Não... Russo. Só... russo — respondeu arquejante. Ela gemia baixo, em sofrimento.

— É mesmo? — Puxei a faca e dessa vez ela não gritou, apenas estremecendo. O sangue escorreu pelo buraco do calçado, encharcando o chão. Ela fechou os olhos, aliviada por um breve segundo. Então percebeu que eu voltava a me aproximar.

— Chega... por favor... chega... — Minha expressão era dura. Meus dedos tremiam. O sofrimento daquela mulher ecoava por todo aeroporta-aviões, numa sinfonia macabra a qual eu conduzia.

Me aproximei do rosto dela e o empurrei com força contra a parede, rasguei sua carne escrevendo na testa, enquanto seus gritos acariciavam meus tímpanos. Ela gania como um animal. — Hundin — Declarei com rancor. Loki ergueu as sobrancelhas, surpreso, ao ouvir isso. Cadela.

Clint Barton entrou na sala aos tropeços, sua respiração rascante. Eu sorri ao vê-lo. Seus olhos se arregalaram ao ver Natasha e ele armou o arco mirando em mim. Loki o surpreendeu por trás, tocando a lateral do pescoço dele com a lança. O homem abaixou sua arma me encarando. Era tolice ter vindo ali. Ele não era um bobo, certamente sabia disso. Mas não ir o mataria.

— Vá embora Clint! — A agente comandou. Sangue escorria em seu rosto. Me virei e lhe dei um forte chute na face. O estalo alto, do nariz se quebrando encheu meus ouvidos, sendo seguido por um grito de ambos.

— Eu vou matar você — o homem rosnou me encarando.

Senti pena dele. Estava na mesma situação em que eu estivera um dia. Tentei controlar a tremedeira em minhas mãos. Minha raiva não passava, aquilo não fazia eu me sentir melhor.

— Vocês têm negado o óbvio há muito tempo —falei fria, olhando de uma para o outro, apoiando meu pé na coxa ferida da mulher. Ela gemeu de dor. — Loki, você pode amarrar Clint para mim? — pedi muito educada. Um simples movimento da mão dele e grilhões surgiram na parede branca. Eu ri debochada. Eram iguais aos que o tinham prendido. O arqueiro não tirava os olhos da mulher aos meus pés. – Amarre-se — mandei. Ele me encarou por fim. Não moveu um músculo. Levei a faca à garganta de Natasha. Clint foi lentamente até o lugar e os grilhões fecharam-se o prendendo a parede pelas mãos e pescoço. — Acho que ele gosta de você — com ela que tinha lágrimas nos olhos e o encarava em sofrimento.

Peguei uma flecha da aljava e recuperei meu arco do chão. O armei lentamente, encarando a mulher. Ela tremia nervosamente. Mirei o homem sem o olhar. Alguma coisa precisava aliviar aquele ódio em mim, alguma coisa precisava fazer parar.
— Estamos hoje reunidos aqui para celebrar o casamento de Clint Barton e Natasha Romanoff — declarei em voz alta. Os dois se entreolharam assustados. Eu disparei a flecha contra a coxa do homem. Seu urro encheu a sala. — Nunca tinha experimentado uma?— questionei irônica. — Deus se fez presente para abençoar o vosso amor conjugal — continuei, olhando para Loki nessa frase. O ouvi rir baixo. — Claro que não é o deus que vocês queriam... — acrescentei ponderando. Atirei uma segunda flecha contra o joelho do homem. Ela o atravessou e seus berros ecoaram por todo lugar. Natasha gritava junto, implorando para que eu o deixasse em paz. — Vocês que vieram até aqui por sua livre e espontânea vontade, é também de sua vontade amarem-se e respeitarem-se até que a morte os separe? — perguntei seca. Nenhum dos dois falou nada. Larguei o peso do corpo sobre a perna da ruiva que gritou alto.

— Sim! Sim! — Clint gritou em resposta. Eu me afastei dela.

— E você? — insisti a encarando. A mulher assentiu chorando. Atirei uma flecha contra a mão esquerda do homem. Ele ganiu baixo, repreendendo o próprio grito. — Vocês prometem ser fiéis e manterem-se unidos na alegria e na tristeza? Na saúde e na doença? — Ambos assentiram. Atirei uma flecha contra o pé do arqueiro. Natasha gritava quase tão alto quanto ele. Chutei o joelho dela. Peguei a faca novamente e fui até o agente. Comecei a marcar seu rosto, sentindo o sangue escorrer quente pelas minhas mãos. Ambos berravam tão alto que eu mal podia pensar. — Agora o nome dela está na sua carne. Para que você nunca esqueça quem o colocou aqui — concluí com a voz rouca e embargada. — Se houver alguém para impedir esse casamento que fale agora ou cale-se para sempre — declarei. Olhei para Loki, vendo-o olhar por cima do ombro com ironia e de volta para mim. Nesse momento eu fui até o deus e peguei a lança de suas mãos. Caminhei até Clint o olhando nos olhos.

— Liana não! Não! — berrava em desespero. O homem me olhava com uma expressão dura. Eu tremia tanto que achei que pudesse derrubar a arma. Temi que não fosse conseguir, mas eu terminaria aquilo. A lembrança dos gritos de Loki ecoava em minha mente, como um incentivo. Eu faria.

— Eu sou uma pessoa muito competitiva, Clint. Em algumas semanas cheguei quase ao mesmo nível que você. — O agente não disse nada. Me encarava com olhos frios. Quase não percebi Loki também me olhando com certa estranheza. — Eu facilmente o superaria, em mais algum tempo, mas não tenho paciência de esperar. Se eu não posso vencer meus inimigos... Eu os tiro da competição.

— Liana nã…— A voz de Loki repentinamente alarmada chegou a mim. Não houve tempo de me refrear. Fiz um movimento leve com a lança, decepando a mão direita do Gavião Arqueiro. A mão que puxava a corda. Ele não gritou. Não se moveu. Lágrimas escorriam por seu rosto, mas nenhum som. Queria preservar a mulher do pânico. O sangue jorrava do pulso. Ele morreria de hemorragia.

Olhei ao redor assustada, como se me desse conta do que acontecia ao meu redor. Loki me olhava estarrecido, embora com certa admiração. Derrubei a lança recuando um passo.

— Você está bem? — ele perguntou se aproximando com expressão preocupada.

— Poder… — balbuciei debilmente. Ele assentiu muito sério. Eu estivera sob influência da joia. Uma influência que a proteção de Frigga deveria evitar, mas que meu próprio ódio tornava viável. Me deixava permissiva. Peguei meu arco do chão.

Eu não estava exatamente arrependida e isso era o pior. Talvez não tivesse ido a extremos, com certeza não. Ou talvez tivesse… talvez aquela fosse a minha natureza?

— Preciso sair daqui — disse encarando Loki. Ele assentiu.

— Eu tenho assuntos inacabados — afirmou, quase como uma justificativa. Estava bem ciente e não o impediria.

O deus recolheu a lança e caminhou até o homem e tocou-lhe o peito com a arma. Os olhos de Clint Barton tornaram-se completamente azuis. Os grilhões abriram o fazendo cair de joelhos, para ficar de pé em seguida. O deus virou-se para a mulher.

— Viúva Negra. Que nome irônico não? — Loki disse pausadamente. Abri a porta que me levaria de volta ao caos, mas parei para ouvi-lo antes de sair. — Você lembra a promessa que lhe fiz nessa mesma nave? — inquiriu. Eu não sabia o que era, mas Natasha parecia saber bem, seus olhos derrotados foram do deus para Clint e de volta a ele. — Então você lembra — concluiu tranquilamente. — Alguma última coisa, Liana? — perguntou como um convite para que me retirasse. Eu provavelmente não queria ver o que viria a seguir. Minha pernas pareciam não conseguir me sustentar.

— Eu vos declaro marido e mulher — ouvi minha voz pronunciar em um timbre estranho. Fechei a porta voltando ao caos.