God of Mischief | Loki

28 Capitulo 27: Lacrimosa


Notas iniciais
Oi pessoal!!!! Esse capitulo... esse capitulo... Quem não sabe: Lacrimosa do latim pode ser uma referência a lagrimas, ao ato de chorar. Trecho do requiem da missa de homenagem aos mortos. Musica do capitulo: Lacrymosa - Evanescence (dãã) e Storm the Sorrow - Epica. Escutem. Obrigada as lindas fantasminhas que estão surgindo! A tia ama quando vocês aparecem! Surjam das profundezas! Dedico este cap a linda CandyLemonPie que saiu do limbo ja recomendando! Obrigada mesmo! Venham para o grupo do face!! Divirtam-se! ''Out on your own Cold and alone again Can this be what you really wanted, baby? Blame it on me Set your guilt free'' ''I' ve tried to peer into the core But could not storm the sorrow'' ''Erase the page For I'm alone and ailing''

Assim que saí daquela sala me peguei no corredor vazio, onde o Patriota mantinha vigília. Eu tremia tanto que mal podia me manter de pé. Me apoiei na parede e caminhei alheia aos sons de tiros, gritos e bombas estourando. Natasha recomeçou a gritar pelo autofalante. Senti meu rosto se encharcar pelas lagrimas.

Entrei em uma sala sem olhar para onde estava indo. Se alguém aparecesse me pegaria com facilidade. Os gritos dela invadiam minha mente. O som do inferno. Me sentei no chão em um canto da sala. Ela merecia. Ele merecia. Não tinham me ajudado. Tinham feito de tudo para me prejudicar. Tinham torturado Loki. Eu sabia que Clint tinha ajudado. Simplesmente era óbvio. Se tivessem me capturado teriam feito o mesmo a mim. Assim como os agentes da hélice. Todos mereciam. Porque eu tremia tanto?

Me vi refletida em cacos de vidro no chão. Eu tinha os olhos arregalados e a boca entreaberta. Eles mereciam. Eles mereciam. Ouvi a porta se abrir, mas móveis me ocultavam. A pessoa tornou a sair. Encarei minhas mãos. Repletas de sangue. Por que eu chorava? Ela não parava de gritar. Gritos longos. Fixei os olhos na mão esquerda. Me senti estremecer. Tirei-a da minha visão. Comecei a soluçar alto. Os gritos de Natasha tornavam-se fracos. Cansados.

Percebi que várias flechas tinham ficado para trás. Eu poderia chama-las depois... depois. Um grito angustiado preencheu meus ouvidos. Loki ria. Natasha pedia que ele poupasse Clint. Meu grito confuso se misturou ao dela. Gutural e desesperado. O que eu tinha feito? Como eu tinha chegado a isso? Queria que tudo parasse. Queria ir para casa.

Eu não podia continuar. Não conseguiria. Os gritos de Natasha transformaram-se em gemidos sofridos. Eu apertava minhas mãos contra as coxas. Alguém entrou na sala, mas eu mal tive tempo de levantar. Era um homem alto com armadura de Asgard. Ele ergueu a espada acima da minha cabeça. Eu senti que estava morta. Fechei os olhos e gritei assustada. Mas o golpe não veio. Steve o aparou com o escudo. Eu mal vi a disputa dos dois. Simplesmente deslizei pela parede me sentando novamente.

Ouvi o som da armadura se chocando contra o chão encher a sala. O soldado estava morto. Não. Inconsciente. Steve se aproximou, abaixando-se diante de mim. Me olhava de um jeito estranho.

– O que você fez? – Perguntou com acusação na voz. Ergui os olhos para ele. Eu tremia agitada. Eu chorava. O loiro foi capaz de ver o que quer que meus olhos mostrassem. Sua expressão de repulsa se desmanchou em um segundo, enquanto ele largava o escudo e me puxava em um abraço. Eu não questionei. Apenas apoiei a cabeça no ombro dele e chorei. Possivelmente se colocassem Natasha em minha frente, faria tudo de novo. Apenas não era fácil como eu tinha achado que seria. Eu não tinha aquela natureza em mim. Mas também não sentia arrependimento. Eu estava satisfeita. Não mudaria o que tinha feito. Apenas precisava de algum tempo para lidar com isso.

Steve se afastou conforme minhas lagrimas secaram. Meus olhos tornaram-se duros como adagas. Eu levaria Clint e Natasha em minha memória. Um lembrete a mim mesma de que não aceitaria que entrassem no meu caminho. Eu seria forte.

O loiro acariciou meu rosto com uma expressão dolorida. Ele não entendia. Mas assim como eu aceitava Loki, ele me aceitava. Me puxou pelas mãos me pondo de pé. Eu assenti grata. Ele me ofereceu um sorriso breve e apontou o arco no chão. A arma veio até mim. O olhei firme. Saímos por portas diferentes como devia ser.

Voltei a correr pelos corredores, meus ouvidos ignorando o choramingo de Natasha. Alguns asgardianos me viram. Eu não corri. Armei o arco e comecei a disparar. Machados e lanças vinham contra mim, mas não senti medo. Eu era a melhor arqueira daquele lugar. Eles cairiam pelas minhas mãos. Um a um.

Segui adiante e vi Tony em um corredor paralelo lutando com alguns agentes. Podia ouvir Hulk derrubando aviões e rebatendo bombas. Steve estava em algum lugar lutando. Eu ouvia raios atingirem a pista de pouso. Loki mantinha Natasha gritando.

Corri de sala em sala, mas nunca achava nada além de mais pessoas para abater. Eu precisava chegar à sala principal. Ali eu acharia o que precisava. Corri em meio à confusão, tiros espocando no meu encalço. Desviei de um ou outro tumulto, atirei uma flecha aqui e outra ali.

Por fim achei o lugar. A porta estava aberta, como um convite. A Manopla estava em uma mesa, dentro de uma redoma, exatamente diante da porta. Aquilo era uma armadilha. Eu podia sentir. Olhei ao redor e não vi ninguém. Eu precisava tentar.

Entrei lentamente na sala e caminhei olhando ao redor. Dezenas de computadores trabalhavam sobre as mesas largadas as pressas. Em algumas eu podia ver xícaras de café ainda fumegando. Mas nós estávamos causando o caos algum tempo. Como poderiam ainda estar quentes? A menos que...

Ouvi os tiros vindo pelas minhas costas e tive tempo apenas de me jogar atrás de uma mesa. Um deles atingiu o elmo, fazendo minha cabeça ressoar como um sino. Coloquei uma flecha no arco e esperei. Ouvi os passos rodeando meu esconderijo. Então Nick Fury surgiu pela minha esquerda, atirando. Ou eu atiraria ou correria. Optei pela segunda opção.

Me senti como uma rato perseguido por um grande e ameaçador gato. Não conseguia fazer nada além de correr e me jogar atrás de outra mesa para me proteger enquanto o agente atirava as minhas costas.

– Loki. – Abri a mão e encarei o Espaço. Não era sábio fazer o que eu estava fazendo sabendo que as joias queriam minha cabeça numa bandeja de prata, mas se eu não o fizesse o homem providenciaria a bandeja. Chamei em voz baixa torcendo que ela permitisse minha voz de existir ali e na sala onde o deus estava. Os gritos de Natasha se interromperam quase imediatamente. – Loki, estou presa numa sala com Fury e a Manopla. Eu preciso de ajuda aqui. Depressa. – Chamei, me arriscando a espiar pela lateral da mesa. Dois tiros vieram em minha direção me fazendo retornar. Não sem antes ver que Odin estava sentado a um canto, muito descansadamente. Maravilha.

– Liana Schroeder. – Fury disse, como se me apresentasse ao idoso.

– Para você é Senhorita Stark. – Rebati fria, em voz alta. Eu o observava pelo reflexo de uma janela. Sua expressão não se alterou em nada. A Manopla estava entre nós dois em uma redoma de vidro. Minha expressão de desejo devia ser tão visível que fez Fury girar uma cadeira, bloqueando minha visão.

– Senhorita Stark. – Odin falou, chamando minha atenção. Senti uma vontade repentina de correr. Ele tinha Gungnir nas mãos. Eu não demonstraria medo. Não depois de hoje. – Você tem causado muitos problemas.

– Obrigada. – Respondi incerta.

– Como conheceu Frigga? – Perguntou repentino. Certamente era capaz de ver o Toque do Destino e a Benção de Frigga em mim.

– Viagem Astral. – Respondi breve, sem me atrever a olhar. Aquilo parecia ter sido há mil anos. Não que eu tivesse noção do que mil anos significavam. Ele sorriu com uma expressão saudosa. Era claro que ainda amava a esposa.

– E por que ela procurou você? – Ele quis saber.

– Para que eu ajudasse Loki. – Respondi com honestidade. Fury apenas nos olhava com atenção pelo mesmo reflexo. Imaginei que ele encararia aquilo como uma confissão. Eu não me importava. Precisava pegar aquela Manopla e sair logo dali.

– Frigga sempre se iludiu com relação a ele. – Falou mais para o agente do que para mim. Senti meu sangue ferver. Eu precisava sair dali. Por quanto tempo poderia alongar aquela conversa sem que me acertassem?

– Por que se iludiu? – Questionei. O olho azul pousou em mim novamente.

– Loki sempre foi inferior a Thor em tudo. – Começou. Eu ia arrancar o outro olho dele. – Nunca teve a mesma força física. Não tinha apreço pelas armas. Não tinha apreço por lutas. Passava horas lendo e praticando magias com a mãe. Assustava as serviçais e pregava peças em qualquer um que se distraísse perto dele. – Conforme ele foi falando, me peguei sorrindo. Eu quase podia ver o pequeno Loki. – Nunca se comportou como deveria, incapaz que era de atender a menor das minhas expectativas, mas ela insistia em acreditar que ele era o mais maravilhoso entre nós. Ela tinha essa característica de ver o melhor das pessoas.

– Isso não devia deixar você tão chateado. – A voz sibilante de Loki surgiu à porta. O agente se virou atirando e eu aproveitei para correr pelo corredor me aproximando da Manopla. O deus da trapaça ocultou-se atrás de um grande armário. Odin viu meu avanço, mas não moveu um músculo. Estava deixando que Fury lidasse com a situação. Se eu tocasse a Manopla, então o problema seria dele. O agente virou-se e eu me joguei atrás de outra mesa, antes sequer que ele disparasse.

– O que você fez com Natasha Romanoff e Clint Barton? – Fury perguntou seco.

– Deixei-os para aproveitarem a Lua de Mel. – Falou frio. Aquela frase fez um arrepio percorrer minha espinha e um sorriso se formar em meus lábios.

– Você compreende o que quero lhe dizer, Liana? – Odin interveio fazendo um gesto em direção ao filho. – Olhe as atitudes dele e me diga se Frigga não estava iludida.

– Não fale da minha mãe. – Loki falou num sussurro repleto de ameaças. Os olhos do moreno correram do deus para a grande luva dourada. Eu podia ver o brilho em seus olhos. Mas qualquer movimento em falso e Odin atacaria. Aquele encontro era uma valsa lenta em campo minado.

Com sorte algum dos outros viria nos socorrer. Mas pelos sons que podíamos ouvir isso não aconteceria. Era bom que o moreno estivesse trabalhando em um plano.

– Liana, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. – Fury falou. Aquilo me fez erguer uma sobrancelha, surpresa. – Odin deseja fechar os caminhos entre os mundos. Isso garante proteção ao nosso próprio. Estamos perdendo muitos bons agentes hoje e mais mortes vão acontecer. Não estou disposto a isso. Se entregar suas joias, vou apagar qualquer acusação contra você e essas mortes serão evitadas. Você ficará em paz. – Concluiu olhando meu esconderijo para o do deus mais jovem. Eu fiquei pasma. Senti minha boca se entreabrir em choque. Fury estava me propondo traição, assim? Na frente de Loki?

Eu comecei a rir. Ria alto. Ele tinha perdido o juízo. Depois de todo o inferno em que ele tinha me afundado. Depois de tudo que eu tinha passado e feito. Ele achava que eu viraria as costas à Loki? Fury havia me posto naquela situação e eu a levaria até o fim. Ele havia me escolhido como sua inimiga e eu estava decidida a aceitar o papel.

– Paz? – Perguntei num murmúrio ameaçador. – Eu não quero a sua paz. Quero Loki num trono pisando na sua cabeça! – Conclui beirando o descontrole. Aquilo fez o deus sorrir maldosamente. Fury começou a caminhar lentamente na minha direção. Eu armei o arco.

– A senhorita tem noção do caos que deseja instaurar nos noves reinos? – Odin perguntou com sua voz grave. Eu sorri. Eu sabia bem. – Tem consciência de que o desejo de Loki ter um trono e súditos a seus pés trará destruição a toda sua raça? – Questionou, me olhando pelo reflexo, de cabeça erguida, com toda sua superioridade evidenciada no único olho azul. Ele me encarava como a um inseto barulhento.

– Tenho certeza de que estamos todos muitíssimo preocupados com Midgard. – Falei em tom irônico. Ele me ofereceu um meio sorriso. Nosso tempo estava acabando.

Loki saiu de sua proteção e atirou um feixe de luz azul contra Fury, o obrigando a proteger-se como eu. Aproveitei para avançar mais um pouco e tornei a me esconder. Cerca de quatro metros me separavam da joia. Eu sabia que assim que a tocasse Odin atacaria. A essa altura eu já estava bastante nervosa. Precisávamos sair dali.

– Fury. – Eu o chamei. – Não acha irônico que seus heróis tenham trocado de lado com tanta facilidade? – Perguntei, tentando conduzir uma dança com as palavras. Quem era bom nisso era Loki, mas nesse caso teria que ser eu. Jarvis nunca o obedeceria. – Não acha hilário que o conselho estivesse tão certo sobre o perigo dos Avergers voltarem-se contra você? – Perguntei, me arriscando a espiar e analisar o caminho até meu objetivo. Odin me observava atentamente.

– Os Avengers vão aprender o significado de alta traição, assim como você. – O agente ameaçou amargurado.

– Não seja rabugento. – Debochei. Loki me olhava pelo reflexo, com uma expressão confusa, sem saber onde eu queria chegar. — Olhe que hilário: Eu tenho o Hulk, tenho o Iron Man, tenho o Capitão America. Todos do meu lado. E seus melhores agentes estão mais que ferrados. Tenho inclusive Jarvis. – Falei ressaltando o nome do software. Vi os painéis piscarem diante de mim. Ele me ouvia. – E ele traria o Patriota de Ferro para mim agora se eu pedisse. – Falei muito direta. Dito isso o silêncio caiu sobre a sala. Ouvi meu adversário preparar a arma. Todos sabiam que eu o tinha convocado.

Nem um minuto se passou, antes que o Patriota irrompesse pela janela lateral, disparando contra os dois. Fury e Odin precisaram correr antes que fossem atingidos. Eu levantei e corri em direção a Manopla, com Loki no meu encalço. O agente recarregou a arma e disparou duas ou três vezes em nossa direção, mas a armadura se colocava na frente nos protegendo. Quando cheguei à luva dourada, atirei o vidro no chão o estilhaçando. Peguei a peça do chão e a ergui vitoriosa, mostrando-a a Loki. Ele sorriu amplamente.

Odin disparou um raio de luz contra mim. Eu sabia que me acertaria. Isso se a armadura não tivesse se colocado na frente no exato momento sendo explodida em dezenas de pedacinhos. Meus olhos se arregalaram em choque. Poderia ter sido eu.

– Vai! Vai! – Loki gritava me mandando para fora da sala. Antes de correr disparei uma flecha de luz e som para atrasa-los. O diretor atirava a esmo as nossas costas. Saímos desabalados, mas podíamos ouvir Odin correndo em nosso encalço. Ele tinha uma agilidade realmente assustadora.

Eu nunca corri tão depressa. Nunca. Minhas pernas moviam-se rápidas até mesmo para mim, eu me desviava de agentes, entrava e passava por salas como um furacão. Tudo a minha volta era um simples borrão de cores e do som de tiros, explosões, raios e urros. Por fim achei que fosse seguro parar de correr. Foi quando o pânico se apoderou de mim. Onde estava Loki?

No meio da confusão tínhamos nos separado, mas Odin não devia ter visto a luva comigo, devia ter deduzido que eu a entregara para o filho. O moreno estava sendo perseguido. Tentei colocar a Manopla. Eu poderia defendê-lo com ela. Uma dor lancinante atingiu minha mão e eu derrubei a arma no chão soltando um grito angustiado. Ela brilhava como se estivesse em chamas. Não era feita para mim.

Tornei a toca-la, mas estava gelada. Eu apenas não podia usa-la. Precisava achar Loki, antes que Odin o fizesse. Aquele pensamento me causou um calafrio, enquanto eu rasgava o tecido agora acinzentado da barra do vestido e o usava para pendurar a peça na aljava. Precisava manter as mãos livres para atirar. Assim que a senti bem presa tornei a sair da sala. Precisava lhe entregar a Manopla. Se ele a tivesse Odin, Fury e qualquer um estaria acabado. Venceríamos.

Matei agentes e soldados pelo caminho. Não me preocupava mais em ser discreta. Não me preocupava em tentar me proteger enquanto eles atiravam. Eu apenas precisava achar ele. Gritava seu nome pelos corredores como uma louca, mas tudo que recebia eram ataques em resposta. Uma adaga abriu um corte em minha sobrancelha, errando o olho por muito pouco. O soldado que a atirou desabou com três flechas cravadas, disputando o mesmo buraco em seu peito. Limpei o sangue com a mão enquanto corria.

Quando dobrei um corredor me choquei de frente com Thor, cambaleando. Não caí no chão, apenas porque ele me amparou com a mão. Ele estava suado, mas não tinha nenhum ferimento. Seus olhos encontraram a luva amarrada em minha aljava.

– Loki? – Perguntou apressado.

– Odin. – Respondi breve. Os olhos do loiro se arregalaram conscientes do problema. Fury dobrou um corredor e quando nos viu atirou sem hesitar. O deus me abraçou evitando que os tiros me atingissem. Eles ricochetearam em sua armadura enquanto Thor me empurrava para o corredor ao lado. O vi jogar o pesado martelo contra nosso atacante e me seguir na corrida. Não vi se ele atingiu o alvo ou não.

Passamos por Tony que se mantinha ocupado, enfrentando um misto de Asgardianos e agentes. Thor me puxou pela mão me fazendo dobrar um corredor. Ao final um gigantesco hangar se abria. Eu podia ouvir Odin atirando raios para todo lado. Um avião passou tombado de lado, pela entrada. Um rombo gigantesco na lataria da nave permitiu que caísse no mar. O ruído do vento era ensurdecedor.

Quando entramos no recinto, Thor foi obrigado a atirar o martelo contra um pequeno jatinho, fazendo-o derrapar e servir como escudo protegendo Loki dos ataques. O moreno o olhou admirado por um segundo. Eu disparei duas flechas contra o mais velho. Ele as rechaçou com muita facilidade. Precisávamos de reforços ou aquilo daria infinitamente errado. Eu não sabia a quem recorrer. Com exceção de uma pessoa.

– Heimdall! – Gritei para o nada. – Qualquer coisa! Por favor! – Pedi vendo Loki numa tentativa de contra atacar. Odin lidava com nós três com tanta facilidade que chegava a ser risível. Ele estava cego pelo desejo de alcançar seus objetivos. Olhei ao redor. Nada viria em nosso socorro. Se ao menos eu conseguisse entregar a Manopla.

Para meu choque luzes, surgiram pelo buraco na lateral do aeroporta aviões. Dezenas de luzes. Criaturas humanoides espalharam-se pelo hangar, armadas até os dentes. Aquelas que tinham dentes. A Mulher Ave surgiu em meio a eles usando uma linda armadura completa.

– Haya a seu dispor, minha senhora. – Falou oferecendo seus serviços, com uma longa reverência. Todos imitaram seu gesto. Eu tinha um exército.

– Tirem ele dali! Contenham Odin! – Pedi em desespero. Haya abriu as longas asas e levantou voo. As outras criaturas a seguiram aos gritos pelo chão. Odin se virou visivelmente chocado. Loki aproveitou o momento e o atingiu com um raio de sua lança, diretamente no peito. O velho foi atirado longe e Thor tentou acertar o irmão com o martelo. Em resposta a isso, atirei uma flecha contra o deus loiro que precisou se desviar. Brigaríamos entre nós agora?

O moreno correu em minha direção, esticando a mão querendo a Manopla. A soltei da amarração na aljava e a estiquei oferecendo-a a ele. Seus dedos estavam a poucos metros da arma. Então algo me atingiu com muita força no rosto. Eu desabei no chão com o impacto, achei que a consciência fosse me deixar.

– Não! – Uma voz feminina gritou. Ouvi um grito de Loki e aquilo me fez tentar sentar, mesmo atordoada. Ergui meus olhos e vislumbrei o rosto de Lady Sif que descia a pesada espada de duas pontas contra meu corpo. Afastei as pernas permitindo que a arma se chocasse com impacto contra o chão. O deus atirou um raio que a mulher aparou com o escudo. Esse movimento me deu tempo de levantar e correr. Ela me seguia de perto e eu podia ouvir Loki em nossa cola. Thor vinha um pouco mais atrás. Odin tinha seus próprios problemas.

Me atirei para fora da sala e subi as escadas. Sif rebatia as flechas que eu atirava contra ela como se fosse aviões de papel. Ela era implacável.

Finalmente chegamos à pista de pouso. Fiquei chocada ao ver que o exército havia mandado aviões de guerra. Hulk os derrubava com muita facilidade. Eu podia ver lataria amassada jogada para todo lado. Me arrisquei a tentar chegar próximo a ele, mas quando um caça passou a poucos metros de mim, decidi que aquela não era uma boa ideia.

– Liana de Vanaheim! – Sif gritou me fazendo virar. Ela brandiu a espada que eu aparei de mal jeito com o arco. Eu a chutei na altura da barriga, meu pé se chocando contra a armadura. Ela sorriu recuando dois passos.

– Sif de Asgard. – Cumprimentei com a respiração entrecortada. Loki e Thor surgiram pelo grande portão que levava a pista. Olharam ao redor e nos localizaram. Trocaram palavras breves e separaram-se nos rodeando por lados opostos. Hulk urrava em alerta contra os aviões que disparavam dezenas de tiros contra ele. Nada o feria, mas eu estava terrivelmente exposta ali.

– Entregue a Manopla. – Mandou. Loki se aproximava e eu evitava olha-lo diretamente para não levar a atenção dela para ele.

– Para quê? Para você entrega-la a Odin? – Questionei, cuidando para continuar recuando para longe do alcance da espada da deusa. – Você vai ficar realizada quando Thor não puder mais ver Jane Foster não é? Quem sabe você começa a ter alguma chance? – Perguntei debochada, sabendo que estava cutucando a ferida. Os olhos azuis demonstraram que eu a tinha atingido. Ela brandiu a espada e eu mal pude me desviar. Sif era muito rápida e manejava a espada como nenhum outro guerreiro que eu tivesse visto.

– Se não me entregar por bem vai entregar por mal. – A morena ameaçou. Armei o arco a encarando, indicando qual era minha opção. Thor estava cada vez mais próximo. Antes que qualquer um dos homens pudesse fazer um movimento, ela me atacou com a espada dupla. Eu não tinha armadura para me defender e definitivamente eu não era feita para a luta corpo a corpo. Sif girava a espada na mão e se movia rápida na minha direção. Bloqueei seus golpes duas vezes, com a haste do arco, me sentindo estremecer com a fúria do impacto. Antes que eu sequer notasse, ela me atingiu a cabeça com o escudo mais uma vez, me desequilibrando. Fez um movimento simples com o pé me dando uma rasteira. Caí de costas no chão, um grito de surpresa me escapando. Ela ergueu a espada acima da cabeça e eu me encolhi. No entanto, Loki levou a ponta da lança à nuca da deusa a fazendo hesitar. Thor tomou a espada da mão da mulher e me ajudou a levantar. Minha cabeça zunia pelos impactos em excesso.

– Como vai Sif? – O deus da trapaça perguntou de maneira debochada. A mulher não o respondeu, sua concentração no loiro.

– Thor isso é alta traição. – Ela disse num tom tão suave que me admirei que fosse a mesma mulher que me atacava há poucos minutos. – As ordens do Pai de Todos foram claras. – Ela alertou.

– Você sabe muito bem porque não posso as acatar. – O deus do trovão rebateu rapidamente. A mulher desviou os olhos. Loki abaixou a lança e estendeu a mão para mim pedindo pela Manopla. Quando fiz menção de pegá-la, Sif me atingiu um chute na altura do peito. O arco caiu da minha mão. Devo ter sido arremessada por uns quatro ou cinco metros. Eu gemi alto, achando que poderia ter quebrado todos os ossos. Fiquei esticada em meio a dúzias de cadáveres.

Um agente me viu e tentou me atacar com uma lança asgardiana, enquanto eu ainda estava caída. O vi ser atirado no mar, quando um grande escudo circular o atingiu pelas costas. Me sentei com esforço e vi Thor tentando impedir Loki de matar uma Sif desarmada. O Capitão me puxou pela mão ajudando a levantar. Eu ofereci um meio sorriso a ele, convocando meu arco de volta. Os aviões recomeçaram a atirar para todo lado. Steve me abraçou, erguendo o escudo acima da cabeça e correndo comigo para uma área coberta longe dos tiros. Vi quando os três deuses se dispersaram pelo mesmo motivo. Merda.

– Tudo bem? – Steve perguntou acima do som dos gritos de Hulk. O verdão estava realmente furioso. Eu assenti breve. Os olhos azuis dele encontraram os meus e sorriu sem graça. Por fim desviaram-se para algo as minhas costas e se arregalaram em choque. Me virei para olhar. Achei que fosse desmaiar de terror. Um segundo aeroporta aviões se acoplava ao nosso. Nos entreolhamos assustados quando centenas de agentes passavam para nossa nave. – Corre! Corre! — Ele gritou me empurrando de volta em meio aos tiros. Steve ficou para trás atrasado por uma horda de agentes.

Eu não sabia para onde estava indo. Tudo eram borrões. Tiros de muitos lados, bombas e naves vindo abaixo apenas poucos metros de mim. Eu mesma atirava flechas a esmo. Às vezes via alguém cair ao meu lado. Parei ao redor e olhei atordoada, procurando por Loki. Ao invés dele, achei Tony que me abraçou quando um lança granadas disparou em nossa direção.

– Lia! Você precisa sair do meio! – Ele gritou acima do barulho. A confusão estava instaurada de tal forma que mal conseguíamos distinguir os guerreiros do meu exército dos agentes. Tudo era caos e eu estava completamente vulnerável.

– Loki? – Perguntei.

– Esquece a Rena! Você precisa se proteger! – Ele rebateu, atingindo de uma única vez cinco ou seis guardas asgardianos que vinham pelas minhas costas. Eu atirei em dois agentes que tornavam a mirar nele com o lança granadas. – Vai! – Gritou, se virando me dando cobertura, enquanto eu corria para uma segunda área coberta, onde costumavam aguardar aviões que seriam usados. Meu único pensamento era onde ele poderia estar. Se ele pegasse a maldita Manopla tudo terminaria. Tudo.

Para meu completo choque centenas de espectros começaram a se erguer do chão. Eram como Anong tinha sido um dia. Almas dos mortos. Eu sorri ao vê-los atacarem agentes. Loki finalmente havia convocado seu próprio exército. Os espíritos que ele controlava não eram de guerreiros, mas nos colocavam na vantagem numérica novamente. Eles pegavam armas abandonadas e estas adquiriam o mesmo aspecto embaçado e enevoado das almas.

Não pude admirar muito mais o caos criado pelo deus. Dois tiros me erraram por milímetros. Fury estava ali novamente. Me ocultei atrás de uma asa de avião caída. Eu já estava tremendo pelo excesso de esforço e cansaço, quando tornei a armar o arco. Me estiquei e disparei duas vezes sem olhar o que eu fazia. Se eu me expusesse demais levaria um tiro. Quando voltei à posição normal, fui surpreendida por Sif que havia recuperado sua espada. Um grito de choque escapou da minha boca, quando Hulk a acertou com o dorso da enorme mão a atirando longe. Eu a vi cair fora do aeroporta aviões. Quase fiquei preocupada se ela sobreviveria. Claro, que eu não teria sorte. Ela era uma deusa afinal. O grandalhão sorriu para mim. Tudo que fiz foi um pequeno sinal de positivo para ele que voltou a sua atividade de jogar pessoas longe.

– Liana! – Ouvi a voz de Loki gritar meu nome a poucos metros. Eu o vi e quase corri em sua direção, antes de perceber que era uma de suas ilusões. Acenei chamando sua atenção e vi a imagem se desmanchar. O original atravessou em meio aos guardas. Eu ajudei matando quantos podia. Ele me puxou pela mão, correndo atrás de mim. Eu ouvia as balas de Nick ricochetearem na armadura dele.

O caos era tamanho que eu não conseguia saber para onde corríamos. Assim que ele me empurrou para dentro dos corredores paramos, enquanto eu lhe oferecia a arma pela milésima vez. No segundo em que Loki tocou a Manopla a voz de Odin soou ameaçadora.

– Afaste-se. – Falou firme. Gungnir estava preparada. Apontava para mim. Olhei da arma para o deus. Seus dedos se fechavam lentamente em torno da luva dourada. – Esse é meu último aviso, Loki. – O idoso alertou. O moreno afastou os dedos da peça fazendo uma careta irritada. Encarou o pai. – Afaste-se da mortal. – Ordenou.

– Não chame ela assim. – Rosnou num tom baixo e ameaçador. Eu o olhei surpresa.

– Você ama essa mulher? – Odin perguntou dividido entre o choque e o divertimento.

– Não seja idiota. – Loki rebateu. O idoso o ignorou.

– Traga a Manopla para mim, senhorita. – Exigiu autoritário. Olhei para o mais jovem esperando instruções. Ele simplesmente assentiu. O encarei chocada. Os olhos verdes desviaram-se de mim para Odin e de volta para mim. Então eu vi Haya parada alguns metros atrás dele, no mais absoluto silêncio. Caminhei lentamente até o homem e coloquei a Manopla em suas mãos, encarando meus pés, em submissão. Assim que ele a segurou, levei ambas as mãos aos ouvidos e olhei os grandes olhos amarelos da mulher. Ela compreendeu a deixa.

Posso dizer que nunca em toda minha vida ouvi um som mais angustiante do que a voz de Haya. Era doloroso, desesperador e enlouquecedor ouvi-la. Não havia explicação. Era impossível distinguir palavras, mas as sensações de sofrimento e desolação eram claras e atordoantes. Odin largou a Manopla em choque, um grito grave lhe escapando, eu a aparei antes que caísse no chão. Afastar as mãos das orelhas me fez achar que poderia desmaiar. Loki me ergueu do chão, carregando as pressas pelo comprido corredor. Haya voou para a saída.

Abriu uma porta qualquer aos chutes e me colocou sentada em uma cadeira. Minha cabeça pendeu para frente pesada. Eu estava muito atordoada. Loki segurou meu rosto nas mãos. Os olhos verdes me encaravam preocupados. Me flagrei envergonhada da minha aparência suja e machucada.

– Liana? Tudo bem? – Ele chamou. Eu empurrei a Manopla nas mãos dele.

– Coloque de uma vez. Se eu tiver que correr mais um pouco vou enfiar uma flecha na minha boca. – Disse mau humorada. Ele sorriu. Pegou a Manopla e finamente a colocou na mão direita. Metade do Espaço, Tempo, Alma e Mente, preencheram alguns buracos vagos que havia sobre os nós dos dedos.

Ele sorriu seu melhor sorriso. Eu ri. Loki me puxou pela nuca em um beijo que me surpreendeu. Assim que se afastou encostou a testa na minha por um breve segundo. Vitória. Por que eu me sentia tão derrotada?

– Vem. – Ele disse, me puxando pela mão. Assim que voltamos ao corredor, Odin vinha em nossa direção. Loki estendeu a mão da Manopla e fez um floreio. O velho foi atirado com muita força, de volta a pista de pouso.

Caminhamos calmamente. Subimos por uma escadaria lateral, rumo a um posto de observação em uma varanda grande. Alguns poucos tentaram nos atacar, mas ou eu os acertava com flechas ou eles caiam pelas mãos do deus sem nem ao menos notarem o que os tinha atingindo. A expressão dele era de pura malícia. Se regozijava com o caos que precedia sua ascensão. Quando chegamos ao topo do posto, o elmo voltou à cabeça dele e a lança surgiu na mão esquerda. Loki estava em toda sua glória.

– Ajoelhem! – Ele gritou, sua voz amplificada muitas vezes. Tudo ao redor parou. As lutas se interromperam. Rostos viraram-se para nos encarar. Conforme as pessoas notaram que a Manopla do Infinito estava na posse dele, algumas simplesmente ajoelharam. Outras se entreolharam assustadas. Mesmo seu exército de almas se ajoelhou. Alguns aviões aproveitaram para se retirar, antes que Hulk os derrubasse também. Dois tiros foram disparados em nossa direção. Loki fez um movimento com a mão e as balas voltaram certeiras contra o atirador. O deus sorriu.

Ao ver isso muitos dos que ainda não tinham ajoelhado cederam. Apenas os Avengers, Odin e Fury permaneceram de pé. Loki encarou o pai.

– Ajoelhe! – Gritou num rompante de fúria. O velho ergueu o rosto o encarando em desafio. Velho idiota. Não sabia que Loki estava acima dele? Acima de qualquer um ali? Não sabia que eu mesma estava abaixo apenas de Loki? Que agora ele devia subserviência até mesmo a mim?

Me inclinei para frente apoiando as mãos na grade encarando ele e Fury com desprezo. Pude ver os Avengers se agrupando em um canto. Se Loki não cumprisse o ‘’acordo’’ eles lutariam. Eu esperava que o deus contornasse a situação sem ferir nenhum deles.

– Ajoelhe Fury! – Gritei em voz alta. – Ou quer ver seus agentes caírem um a um? – Debochei. Os agentes o olharam como se implorassem. Nick Fury se ajoelhou enfim, me encarando com ódio. Eu ri alto e me virei para Odin. Aquele era brinquedo de Loki. O velho era orgulhoso e estava diante de seus soldados. Não facilitaria.

O moreno segurou minha mão, desejando as joias que eu carregava. Ele faria Odin ajoelhar por mal. Eu assenti permitindo que me deixassem. Espaço tornou-se completa, Ego e Poder assumiram seus lugares. Loki fez um pequeno floreio e eu ri ao ver os joelhos do velho se dobrarem, e apesar dele tentar resistir, acabou prostrado.

– Irmão! – Thor finalmente se manifestou. – Chega! Faça o que se comprometeu a fazer! – Bradou irado. O moreno o encarou como a um verme. Ele ergueu a mão. Nada aconteceu. Todos o olhamos, pasmados. Então percebemos. Realidade ainda estava comigo. Ainda era imaterial. Ainda era irreal para Loki.

Nos entreolhamos. Eu precisava desejar. Fury e Odin tornaram a levantar. Assim como alguns agentes e soldados. Eu precisava desejar agora.

Eu tinha pensado muito sobre esse assunto. Havia cogitado muitas coisas. Trazer meus pais de volta. Apagar as últimas semanas. Me vingar de Nick Fury. Mas os desejos mais latentes em minha mente eram sempre os mesmos. Tornar Loki humano. Isso o faria me odiar de tal forma que jamais seria reversível. Ele me mataria se eu fizesse algo assim. Aquilo o faria infeliz de tal maneira que me doía sequer pensar na possibilidade. Minha outra opção era fazer de mim mesma uma deusa. Mas eu já sabia que isso me custaria minha vida. Eu me tornaria deusa para cair morta no segundo seguinte. Inútil.

Eu encarei os olhos verdes que esperavam ansiosos que eu resolvesse o problema. Ele estava se tornando impaciente e estávamos muito expostos ali. Eu sabia muito bem o que eu queria. Queria que ele fosse pleno. Que tivesse tudo àquilo que o completasse. Que fosse tão feliz quanto eu poderia desejar que fosse. Queria que sua carga fosse leve. Eu o queria feliz. Queria que todos que haviam lutado ao meu lado o fossem também. Eles haviam escolhido a mim e eu lhes daria felicidade em troca. Um desejo ridiculamente simples e tão sincero que me admirava ter demorado tanto a perceber isso. Muito provavelmente Frigga havia me escolhido sabendo disso.

– Você conhece meu desejo, Realidade. O torne real. – Comandei. Loki não me questionou sobre isso. Era algo pessoal demais.

Eu sorri. A Joia surgiu muito sólida no dorso da luva. A Manopla do Infinito estava completa. Ela reluzia repleta de poder. Recuei alguns passos dele, sorrindo, o admirando. Ele era o mais poderoso entre todos. Me inclinei para frente, iniciando uma reverência. Aquilo o fez sorrir amplamente.

Um estampido. Dor. Um grito agudo me escapou, enquanto em cambaleei para frente. Tony e Steve gritaram. Correria se instaurou na pista de pouso. Me virei para olhar de onde vinha aquilo. Eu tinha uma bala no ombro.

Natasha Romanoff vinha carregada por dois agentes. Tinha uma Glock nas mãos feridas. Os agentes sempre tinham duas... eu havia tirado apenas uma dela. As flechas não estavam mais cravadas em seu corpo. A agente tinha faixas ensopadas de sangue cobrindo os ferimentos. Suas mãos cheias de sangue e carne rasgada se fechavam firmes ao redor da arma. Seu rosto estava repleto de sangue seco, os olhos focados, repletos de ódio para suplantar a dor. Como um gavião a procura da presa. Eu era a presa. Olhei ao redor, buscando por proteção, mas eu estava muito exposta. Não havia onde me esconder.

Loki fez menção de me puxar para longe, mas não houve tempo. O desejo de vingança estava em cada poro de Natasha.

– Não! – Ele gritou tarde demais.

Um segundo estampido. Um quarto. Um sexto. Eu sentia os impactos me fazendo cambalear. A arma era o arco daquela mulher. Um alvo parado era muito simples para se errar, mesmo muito ferida. Steve atingiu os agentes com o escudo e Tony se atirou contra Natasha a derrubando no chão. Ela perdeu a consciência com rapidez.

Recuei alguns passos, sentindo minhas mãos fraquejarem. Olhei para mim mesma e me assustei ao ver que tinha seis buracos na minha vida. O arco caiu. Me bati contra a grade de proteção e apenas não despenquei no pavimento abaixo porque Loki me amparou pela cintura no último segundo. Seus olhos estavam arregalados, enquanto meu vestido se cobria de sangue. Eu não estava mais de branco.

A dor me fez arfar quando Loki me ajudou a sentar no chão, me escorando na parede. Seus olhos me encaravam em pânico. Ele fez um gesto com a mão tremula e tudo ao redor paralisou, com exceção dos Avengers.

– Liana... – Ele murmurou, me amparando nos braços, se encharcando no meu sangue. Eu quase não conseguia focaliza-lo. Tony, Steve e Thor chegaram derrapando. O capacete do meu irmão estava caído em algum ponto atrás de si. Eu tentava respirar, mas meu pulmão parecia uma peneira. Eu o sentia enchendo-se de sangue. Alguma artéria estava rompida.

– Que mortal burra... – Eu balbuciei sorrindo. Eu não choraria. Eu sabia que aquilo iria acontecer. Eu sabia. Estava pronta para aceitar que nos separaríamos de um jeito ou de outro. Senti lagrimas se chocarem contra minha pele. Ele estava chorando? Levei minhas mãos tremulas ao rosto dele. Molhado. Aquilo me fez perder a determinação. Senti medo. As lagrimas desceram dos meus olhos em profusão. Eu queria estar com ele. Não queria morrer.

– Deseje que ela fique. – Steve falou numa voz tão partida, que me senti penalizada.

– Apenas a Morte pode decidir isso. – Thor falou, numa voz embargada. – As Joias não podem subjulgar algo como ela. — Tony soltou um grito desesperado. Loki me trouxe mais para perto e eu gemi alto com dor.

– Desculpe... – Pediu beijando minha testa. – Alguém faça alguma coisa! – Ele berrou para os outros em desespero. Não havia o que ser feito.

– Não é... sua culpa. – Eu disse com muito esforço. Eu me sentia afogar, tentei puxar o ar, um ruído deprimente me escapando. Apertei a mão dele por puro instinto ao sentir a dor me dilacerar. Ele a apertou de volta, beijando meu rosto, sujando-se em sangue. Loki soluçou alto e eu senti algo se partir em mim. Meu desejo havia falhado? Ou isso era o preço? Eles seriam felizes depois disso? Eu ouvia Tony chorando alto a um canto.

Olhei para o lado e vi uma mulher, com uma longa capa preta. Ela tinha o rosto mais bonito que eu tinha visto em toda minha vida. Sorria doce. Era indescritível. Era estarrecedora. Senti meus olhos se marejarem, impressionados pela beleza que ela tinha. Eu não fui capaz de inveja-la. Apenas a Morte poderia ter uma face tão bela.

Nenhum dos outros parecia vê-la, mas Loki olhou de mim para o nada que ele devia ver na direção que eu olhava. Sua boca se entreabriu. O deus me apertou contra o corpo, mas eu me sentia tão entorpecida que a dor finalmente havia me deixado. Ele tremia loucamente.

– Não olhe para ela. – Ele murmurou ao meu ouvido, sua voz quebrada. Porque eu estava quebrada. Loki sempre havia me tratado como cristal, prestes a se partir. Agora ele se agarrava aos cacos. – Por favor, não olhe para ela. Por favor.

– Ela é bonita. – Eu disse baixinho, deixando um choramingo baixo me escapar. O deus se afastou, me olhando apavorado. – Eu... não... medo. Está tudo bem.

– Não! Não! – Ele disse enterrando o rosto em meu pescoço. Eu sorri no limiar da consciência.

– Você... importa? – Perguntei quase sem voz num vestígio do meu humor antigo. A Morte se ajoelhou ao meu lado sua mão a centímetros do meu rosto.

– Você sabe que sim! – Loki falou em desespero. Thor apertou o ombro do irmão, desviando os olhos. Steve estava sentado no chão olhando para o nada. Eu sorri para Loki. Meu melhor sorriso. Meu último sorriso. E senti os dedos gelados da mulher mais linda do universo, fecharem meus olhos, me tirarem da minha dor.

O deus deixou um grito desesperado lhe escapar pela boca. Banner chegou às escadas naquele minuto, de volta a sua forma natural. Correu derrapando e se abaixou procurando pelo pulso da mulher. Ergueu os olhos para o homem que a amparava. Seu rosto se encharcando com as lagrimas.

Os guerreiros continuaram sentados em silêncio, com todos paralisados ao redor. Loki se sentia vazio. Morto. Desejou estar assim. Quando ela o tinha chamado porque precisava de ajuda, ele tinha largado Clint com a função de matar Natasha. A ruiva tinha conseguido escapar. Talvez tivesse findado o agente. Se ele tivesse a matado... Se tivesse sido mais cuidadoso... Se tivesse arrumado uma armadura como Liana tinha pedido. Era culpa dele. Era mais uma vez culpa dele.

Ela não podia ter se ido. Não podia. Ele estava sozinho outra vez. Por culpa dele. Como podia ter falhado em protegê-la? Ela era sua prioridade. Como podia ter se descuidado? Como podia ter se esquecido do quanto ela era fraca? Liana sempre tinha a fachada da força, mas era frágil como uma flor. Ele havia se preparado para vê-la senescer, mas não para vê-la se despetalar diante de seus olhos.

Loki arrancou a maldita Manopla da mão, desejando destrui-la, e a atirou contra a parede, gritando de raiva e frustração. Coisa inútil. Nunca odiou tanto um objeto. Ela havia sofrido para consegui-la e depois de tanto esforço aquela maldita luva não fora capaz de algo útil. Não fora capaz de a salvar. Todos voltaram a se mexer. De que servia todo aquele poder, quando a morte não podia ser parada? Ele não queria aquilo. Ele tinha um talento próprio para querer o que não podia ter. Sentiu-se afogar em raiva, dor e remorso.

Odin e Fury chegaram ao lugar. O deus pegou a mão dourada e fez um movimento amplo a fazendo sumir. Pouco importava. Nada importava. Os dois pararam vendo a cena deplorável em que os outros se encontravam. Loki desejou matar a todos. Ninguém a tinha protegido. Mas nada a traria de volta. Era tudo inútil. Ele acariciou os cabelos vermelhos, sujos de sangue. Ela era tão bonita. Odiou-se por saber que por mais que quisesse mantê-la em sua mente, o tempo a apagaria. Seria como se nunca a tivesse conhecido. Pouco mais que uma sombra. Beijou o rosto inerte, puxou as mãos delicadas e as beijou também. Ela não mais sorriria. Seu toque não mais traria paz. Ele escondeu o rosto, no pescoço dela, se permitindo cair em desespero. Liana não estava mais ali. Um segundo. Ela tinha sido um segundo. O mais caro de sua existência.

Tony, às lagrimas, a retirou com gentileza de seus braços. O deus sentiu vontade gritar diante da sua ausência. Loki continuou sentado olhando para o nada. Thor o colocou de pé pelos braços e o abraçou, como um irmão deveria fazer. O moreno correspondeu desprovido de qualquer expressão. Thor era um bom irmão. Odin parou diante deles e o moreno desviou os olhos, cansado demais para qualquer coisa. Não tinha mais orgulho para querer se defender.

– Se você conhece um mínimo de misericórdia, me deixe optar pela execução. – Se ouviu falando em uma voz oca. O velho olhou para Fury.

– Mantenha seus guerreiros sob controle. Limpem a bagunça aqui. Eu cuido do resto. – Disse breve. O Diretor assentiu. – Heimdall. – O deus chamou. E todos os asgardianos deixaram Midgard. Loki não era nada além de uma sombra que uma vez havia flertado com o poder, desejado a vingança e agora enamorava-se pela morte. Tudo estava acabado. Liana estava acabada. Ele estava acabado.