God of Mischief | Loki
24 Capitulo 23: A Face da Morte
Notas iniciais
Loki entrou intempestivo na casa sem nem ao menos olhar para os lados. Estava furioso. A ideia de sequer encará-lo me deixava nervosa. Thor o seguiu de perto, me deixando parada para trás. Dois deuses em uma única casa e muita coisa pendente entre eles. Me perguntei se haveria algum extintor de incêndio por perto.
— Eu deveria matar você! — Thor bradava em inglês dentro de casa. Aquilo me tirou do torpor e me fez correr para dentro. Ao entrar, os encontrei em lados opostos do cômodo, se encarando como dois predadores. Loki abriu os braços na lateral do corpo, inclinando a cabeça de lado com uma expressão provocadora e um sorriso forçado.
— Vá em frente, irmão — instigou respondendo no mesmo idioma. — Seu pai aplaudiria de pé!
— Você fala como se não fizesse parte da família — Thor rosnou em resposta. Uma risada que transbordava em deboche escapou por entre os lábios de Loki.
— Eu não sou da sua família — declarou lentamente em resposta, raiva e revolta fervilhando nos olhos verdes. A voz ecoava rancor em cada palavra dita com desgosto evidente, mesmo que ele pretendesse indiferença. Não fosse a mesinha de centro, certamente o deus do trovão teria se atirado contra o irmão.
— Não é? — Thor perguntou retórico, numa voz cheia de mágoa. — Tem noção de como foi achar que você tinha morrido? De como eu me senti? — questionou, seu timbre grave ecoando mágoa. Loki hesitou, uma expressão indecifrável em seu rosto. Seus olhos brilharam de um jeito estranho. Ele piscou rapidamente e em seguida um sorriso pouco natural.
— Vitorioso? — arriscou o olhando com superioridade, como se o desafiasse a contradizê-lo. O tremor suave em sua voz parecia muito audível para mim. — Livre da sombra que o seguiu a vida inteira.
— Como você pode ser tão cego? — questionou estupefato. Eu simplesmente não sabia se deveria me intrometer ou não. Era pessoal demais. — Como teve coragem de fazer o que fez? Você planejou matar nosso pai! — Aquilo me fez erguer as sobrancelhas e apertar os lábios, definitivamente decidindo ficar calada.
— Qual parte de “eu não sou da sua família’’, você não entendeu? — revidou afiado com sarcasmo e amargor.
— Você é meu irmão! — Thor afirmou, seu tom subindo vertiginosamente, a raiva fazendo uma veia pulsar em seu pescoço. — Acha que vim até aqui, contra a vontade do Pai de Todos, por um estranho?! — esbravejou. Novamente Loki hesitou, as sobrancelhas se unindo em uma expressão dolorida com a qual eu começava a me familiarizar. — Quando soube o que fizeram a você... eu teria destruído a S.H.I.E.L.D. com minhas próprias mãos se Jane não tivesse me impedido… — concluiu cansado e assombrado pelos próprios pensamentos. Acreditei em Thor, simplesmente acreditei em cada palavra dele. Loki empertigou-se tentando recuperar a postura, desviando os olhos por um breve segundo e tive a certeza de que ele também acreditava. Ou ao menos desejava muito.
— Como você soube? — perguntei achando a deixa para tentar interromper aquela discussão, mesmo temendo ser rechaçada.
— Depois que escaparam da S.H.I.E.L.D., Tony conseguiu as informações — explicou simplista. Deduzi que as obtivera do meu celular. Eu o tinha guardado, mas não o encontrara depois daquilo. Imaginei tê-lo derrubado no meio da confusão. – Ele falou a respeito de um tal de Jarvis ter enviado as informações da organização e havia vídeos... — Sua voz morreu no meio da explicação, lançando um olhar repleto de significado ao irmão. As sessões possivelmente eram registradas. Eu não queria que ele continuasse. Não precisava. Loki encarava a parede com uma expressão dura.
— E como você nos achou? — perguntei, tentando impedir o deus de se focar naquilo.
— Eu me separei das tropas que estavam procurando por vocês – explicou. Os olhos do irmão se desviaram para o deus outra vez. — Comecei a procurar sozinho, imaginando que conheceria meu irmão um pouco melhor comparado a eles. — A frase fora dita cheia de significado implícito, mas dessa vez Loki não pareceu se afetar. — Fui de reino em reino, mas sempre estavam um passo adiantados. Então do nada um portal se abriu e eu soube que me levaria até vocês. Foi assim. — declarou simplesmente, parecendo um tanto admirado com sua sorte. Eu me admirava por ele simplesmente sair entrando em portais que se abriram do nada. A passagem certamente era fruto do uso das joias.
— Você desertou para vir atrás de nós — Loki falou sem emoção na voz. — Posso saber o que quer de diferente do que as tropas de Odin querem?
— Quero você vivo — redarguiu sem nenhuma vergonha de admitir. — Isso faria nossa mãe feliz… não só ela. E se eu puder te impedir de fazer uma besteira vai ser ainda melhor — completou com uma sombra de humor. Loki bufou impaciente. O silêncio caiu sobre nós como um balde de água fria. Os olhos de Thor se demoraram no meu rosto por alguns segundos, mas eu estava perdida em meus próprios pensamentos para notar que eles me analisavam atentamente e depois se desviaram para Loki que encarava a parede outra vez. Thor observou o corte na minha testa. Aquilo estava claramente inflamando. — Ela vai acabar morrendo — prosseguiu dessa vez em um alemão muito antigo e arcaico, mas ainda inteligível para mim.
Loki parecia ter se atualizado no idioma, enquanto o herdeiro do trono de Asgard permanecia o falando como meus ancestrais mais antigos um dia o fizeram. Os olhos de Loki correram do outro deus para mim e de volta para ele. Thor não sabia que eu podia acompanhar aquela conversa e o deus da trapaça não fez questão de esclarecer.
— E qual motivo te leva a crer nisso? — prosseguiu naquele idioma.
— Obviamente, você tem dado mais valor às joias do que a vida dela — acusou sem meias palavras. — Esse corte não foi acidental. — Aquela conversa estava me deixando nauseada. Aquilo já estava resolvido. Era passado e eu preferia que continuasse lá.
— Isso não é da sua conta — rebateu evasivo.
— Não, não é — concordou sem resistência. – Mas você e eu sabemos que essa confusão que você começou não pode acabar bem para alguém como ela.
— Alguém como ela? — O deus da trapaça perguntou cheio de desprezo arrastando as palavras. Senti que devia sair dali. Eu me magoaria.
— Midgardiana — falou num tom sério. — Eu tento manter Jane afastada do perigo tanto quanto posso e você faz o quê? A coloca dentro do campo de batalha!
— Liana não é tão frágil assim — Loki falou em um tom que não devia convencer nem a ele. Eu devia sair dali. Me sentia uma criança ouvindo briga de gente grande.
— Você não conhece compaixão? — O deus do trovão perguntou se irritando novamente. Loki tinha uma expressão profundamente irritada. Simplesmente eram incapazes de conversar sem se desentenderem. — Aquelas joias quase a mataram hoje! Ela não pode ficar usando elas como se fossem brinquedo! Aquele foi o preço que cobraram e ela quase teve que pagar!
— Ela está bem, não está?
— E por quanto tempo? — Thor revidou. O silêncio desabou novamente sobre a sala. Mais uma vez meu tempo posto em xeque. Encarei meus pés por alguns segundos. Não queria ouvir mais aquilo, era decisão minha e não de nenhum deus.
— Isso já é problema meu — declarei, quebrando meu silêncio em minha língua materna. Thor me olhou surpreso, antes de dirigir um olhar reprovador ao irmão por não tê-lo alertado. Suspirou pesadamente, se rendendo afinal.
— Você perdeu o juízo, Liana.
— Possivelmente — concordei seca, forçando um sorriso. Pelo canto dos olhos podia perceber Loki mortalmente sério. — Mas aonde eu vou ou deixo de ir continua sendo uma decisão só minha. — Thor ergueu as mãos ao lado do rosto em um gesto de rendição. O assunto estava encerrado.
Loki seguiu para a biblioteca sem falar mais nada, Thor pediu muito educadamente se poderia tomar um banho. O deixei a vontade e segui para o quarto. Fechei a porta as minhas contas e me escorei, deslizando pela parede, até me sentar no chão. Cerrei os olhos por um instante. Quanto tempo mais eu duraria? No meio daquele caos não existia uma certeza. Um dia? Uma semana? 40 anos? Nunca seria o suficiente.
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Acordei no meio da noite com as vozes sussurradas dos irmãos. Eles não estavam dentro de casa, mas sim do lado de fora. Tinham se afastado para que eu não os ouvisse, mas o vento trazia o som até mim e nas últimas semanas eu estava sempre em alerta, qualquer barulho me acordava. Me sentei na cama esperando que estivessem discutindo sobre as mentiras de Loki, mas o assunto era outro. O assunto era eu.
— Devolva ela para o irmão — Thor recomendava com paciência. — Tony pode mantê-la em segurança. Desista dessa sua ideia absurda! Use as joias para consertar as coisas para ela.
— Fala como se estivesse se referindo a um objeto — Loki cortou friamente. — Depois que eu tiver as joias, vou levá-la de volta. Não vou mexer com Midgard até que ela se vá.
— E você acha que isso é justo? – Thor perguntou desgostoso. — Mesmo que ninguém a ataque, as pessoas nunca vão esquecer quem ela é. Liana nunca mais terá uma vida normal –— ponderava numa voz que soava penalizada. Eu já havia deduzido tudo aquilo por conta própria. Mas a chance de eu chegar até isso eram nula. Thor devia saber pois não fez questão de contradizer, apenas prosseguindo naquela divagação. Loki não respondeu. Me levantei e fui o mais silenciosamente que pude para a sala, me escondendo atrás da porta onde poderia ouvi-los melhor.
— É o melhor que posso fazer — Loki concluiu em um tom de voz estranho. Espiei pela porta e o vi encarando a mata que se erguia ao longe. O deus do trovão lhe deu dois tapinhas no ombro.
— Pode fazer melhor que isso, irmão. Eles vivem muito pouco para que você estrague o curto futuro que ela tem. — Eu não estava gostando nada daquela conversa.
— Eu não irei apagar a memória dela — Loki sibilou entredentes. Senti meu coração falhar uma batida. — Isso já aconteceu uma vez e não vai acontecer de novo.
— Você se importa com ela. — O outro falou num tom dividido entre o choque e a acusação. Me esqueci como era respirar.
— Às vezes me sinto envergonhado com a quantidade de bobagens que sai da sua boca — Loki cortou friamente.
— Bobagem? Acha que não conheço esse olhar? — Thor murmurava irritado. — O jeito como você olha para ela. Às vezes em que fica imaginando por quanto tempo ela ainda vai durar. Que se pergunta como as coisas vão ser quando você já não for mais capaz de reconhecer o rosto por trás das rugas. Isso é familiar demais — concluiu, o desgosto claro na sua voz. Thor não repudiava o envelhecimento, mas sim a distância que colocava entre ele e Jane, era evidente. Senti as lágrimas virem até meus olhos, mas eu as impedi de descerem.
— Você está imaginando coisas — o deus da trapaça rebateu rascante. — Você realmente acha que eu seria idiota a esse ponto? De me pôr na mesma situação que você? Não consigo entender como pode suportar isso — afirmou, sua voz soando mais amarga do que eu esperaria.
— Cada segundo com Jane é como ser viciado em beber pequenas doses de veneno — refletiu de uma maneira vaga e surpreendentemente poética para o que eu esperava. Eu podia entender aquele conceito. Doía, mas não era o bastante para matar. E era impossível parar.
Eu não queria ouvir mais nada. Ouvir Thor falando aquele tipo de coisa me deixava abatida. Me tornava ainda mais consciente de tudo. E de qualquer forma Loki negava com veemência que tivesse qualquer importância. Eu era uma marionete apaixonada pelo titereiro. Eu nunca esperaria reciprocidade, mas sempre estaria ali disposta ao que me pedisse. Manipulável como o brinquedo que eu era. Desejando ser útil. Porque enquanto fosse útil continuaria em suas mãos.
Levantei e segurei meu arco. Não me meteria naquela briga. Abri uma gaveta e peguei um ipod de dentro, simplesmente sabendo que haveria um ali. Saí pela porta dos fundos, em silêncio. Precisava ficar um pouco sozinha. Caminhei entrando pela mata em frente. Nada me atacaria em Lugar Nenhum. Não existiam predadores e as únicas pessoas éramos nós três.
As árvores se erguiam com mais de vinte metros, crescendo espaçadas apesar das raízes muito entrelaçadas, rodeadas de folhas mortas e úmidas. O vento soprava fresco e silencioso, agitando as copas, deixando que o brilho das luas cheias entrasse por entre os galhos.
Escolhi um espaço embaixo de um enorme eucalipto e me sentei encostando as costas ao tronco. Coloquei os fones e aumentei o volume, ouvindo uma música repleta do som melódico de um piano que embalava a voz potente de uma mulher.
O vento fazia meu cabelo voar à frente do rosto, mas eu não me importei. Meus dedos brincavam puxando e soltando a corda de luz do arco, no ritmo da música. Eu cantarolava baixinho, tentando manter minha mente longe dos problemas.
Ele me levaria de volta à Midgard. Me largaria lá, no esquecimento até que eu morresse. Eu envelheceria. Me tornaria inútil e ainda mais frágil. Não seria capaz de esticar uma corda. Estaria morta em vida. Aumentei o volume.
Loki esqueceria meu rosto. Esqueceria o som da minha voz. Esqueceria até mesmo meu nome. Seria como se eu nunca tivesse existido. Comecei a cantar mais alto ignorando a falta de afinação. Eu voltaria para minha família. Eles envelheceriam comigo. Talvez eu pudesse casar com alguém. Desde que ele não tivesse olhos verdes. Então eu poderia ter filhos, dois meninos talvez. Será que brigariam muito? Ensinaria eles a atirar. Claro que ensinaria. Puxei uma flecha e disparei com os olhos fechados, contra uma árvore. Eu não sabia se tinha acertado ou não, mas não importava. Talvez pudesse aprender a tocar algum instrumento. Desde que não fosse flauta. Meus filhos cresceriam e casariam. Eu abandonaria o esporte e ajudaria a cuidar dos netos. Talvez eu os ensinasse a falar alemão. Provavelmente não. Não falaria alemão com ninguém. Disparei outra flecha, tensionando ainda mais a corda. Eu aprenderia a dormir cedo. Quando o terror noturno não me perturbasse. Meu marido precisaria se acostumar. Eu arranjaria um hobby. Talvez leitura. Desde que não fosse poesia. Disparei duas flechas em sequência, apontando uma para cima e a outra em linha reta. Seria uma vida boa. Seria maravilhoso. Eu quase nem notaria o vazio.
Soltei o ar em arquejos. Quando abri os olhos, Loki estava em pé diante de mim. Há quanto tempo ele estava parado ali eu não sabia. Me encarava com seriedade. Tirei os fones de ouvido plenamente consciente da minha expressão de culpa e da cantoria constrangedora. Tentei me lembrar de que ele não tinha como saber meus pensamentos sem que eu notasse. O deus se sentou ao meu lado apoiando a cabeça na árvore e fechando os olhos. Ele era lindo. Tornou a abri-los, me olhando de esguelha.
— Por que está se escondendo? — indagou. Por um segundo cogitei negar e explicar que apenas queria ficar um pouco sozinha. Ao invés disso me ouvi falando uma mentira em tom displicente.
— Fiquei com medo que resolvesse apagar minha memória e me levar para Midgard — afirmei o encarando. Loki virou o rosto para mim.
— Você não devia ficar ouvindo conversas atrás da porta.
— E vocês deviam perguntar a mim o que eu pretendo fazer da minha vida e não ficar cochichando pelos cantos— protestei irritada. — Mesmo que ela dure apenas um segundo, ainda é minha.
— Sei disso. Se ouviu com atenção deve ter reparado que eu discordei — devolveu com algum sarcasmo. Fui obrigada a me calar. Aquilo era verdade. Apoiei a cabeça no ombro dele. Eu não tinha mais medo que me recusasse. A presença dele me fazia esquecer que eu devia me preocupar com o futuro. — Você precisa cuidar desse corte na testa — falou após alguns minutos como se fosse o maior dos nossos problemas. Ri baixo diante da preocupação dele. Ou talvez fosse apenas um comentário. Eu preferia a primeira opção.
— Então você se importa? — alfinetei sem pensar, com senso de humor.
— Com o quê? — indagou soando confuso.
— Comigo — respondi breve, sem hesitar. Ele abaixou os olhos para mim.
— Se morrer, quem pega as joias?
— Você arranja alguém.
— Muito trabalhoso — respondeu evasivo. Ri me afastando do ombro dele.
Larguei o arco no chão ao lado e passei uma perna por sobre as de Loki, me sentando em seu colo. Comecei a beijá-lo de forma intensa e ele me correspondeu prontamente, suas mãos pousando nas minhas costas, me firmando próximo a seu corpo. Deixei as minhas escorregarem por seu tórax, inclinando meu corpo mais para frente. Mordisquei sua boca, provocativa, me afastando levemente. Ele tentou alcançar a minha novamente, suas mãos descendo para minhas coxas, mas eu recuei mais um pouco, sorrindo. Quando fez menção de segurar meu rosto, levantei rapidamente.
— Se não se importa, então vou embora — falei de um jeito dissimulado. Os olhos verdes se estreitaram, percebendo que eu estava brincando com ele.
— Liana. Volta. Aqui. — ordenou pausadamente. Aquilo me fez rir. Chamei o arco e recuei alguns passos.
— Para quê? Você nem se importa... — debochei, me divertindo mais do que seria sensato. Um sorriso se formou nos lábios dele, aceitando meu jogo de poder.
— Humana atrevida.
— Eu poderia te mostrar o quanto — instiguei em voz baixa recuando mais alguns passos. Deixei uma alça da camisola descer pelo ombro. — Basta dizer que quer — afirmei, permitindo que a outra alça também deslizasse levando a roupa fina embora.
Os olhos dele me encararam de alto a baixo. Eu sorri cheia de malícia, deslizando uma das mãos por meu pescoço, fechando os olhos enquanto acariciava meus seios e permitindo que descessem ainda mais. Assim que ele fez menção de se levantar, soltei uma risada e desatei a correr em meio as árvores me afastando ainda mais.
Em questão de segundos Loki estava ao meu lado, me puxando pelo braço do arco e me colocando contra um carvalho com a intensidade de quem tinha seu desejo negligenciado. Deixei que beijasse meu pescoço, enquanto uma de suas mãos o apoiava ao tronco e outra segurava um seio com delicadeza, embora firme, pressionando seu corpo já rígido de desejo contra o meu. Passei por baixo do braço erguido acima da minha cabeça e dei a volta na árvore me desvencilhando das suas mãos, me divertindo em provocar. Loki bufou impaciente. Dessa vez eu não planejava recomeçar a fuga.
Assim que me puxou pelo braço, me virei, o beijando prontamente, afastando a roupa de couro desejando o contato da sua pele contra a minha, sentir seu cheiro e seu peso sobre mim. Me apoiei a árvore, deslizando pelo tronco puxando-o para o chão junto comigo. Eu queria que Loki me tocasse de todas as formas, e a maneira como seus dedos me buscavam me fazendo gemer alto, mostrava que estava disposto a me atender.
Então um som alto como uma explosão fez o chão tremer.
Nos afastamos, nos encarando surpresos por um segundo. Loki ficou de pé e me puxou pelas mãos, seus olhos encarando a direção do barulho. Era a direção da casa. O deus fez um gesto fluido de cima para baixo diante do meu corpo e um vestido longo, de tule verde escuro, surgiu como se feito a partir de fumaça. Ele levou os dedos aos lábios em um pedido de silêncio me encarando, enquanto se colocava a minha frente em um gesto protetor. O capacete e a lança surgiram. O arco e a aljava subiram as minhas mãos e eu apoiei uma flecha à haste, sem armar. Aguardamos em silêncio. Já tinha experiência suficiente para saber que os problemas sempre me achavam.
Para minha surpresa, Thor surgiu correndo, coberto de suor e tinha sangue por toda armadura, mas eu não sabia se era dele ou não. O martelo estava em mãos, também repleto de sangue. Parou diante de nós.
— Duas legiões lideradas por Sif e Odin. Sem condição de resistência — declarou simplesmente. Loki franziu as sobrancelhas com uma expressão tensa. Thor não fugia de uma boa batalha. Se declarava a impossibilidade de prosseguir na luta, havia um motivo. E parecia óbvio. Senti algo desagradável se enroscar no meu estômago. Odin estava ali. Como tinham nos achado? Instantaneamente Loki abriu a mão. Espaço brilhava com intensidade pedindo uma ordem.
— Para onde? — perguntei nervosa, praticamente cuspindo as palavras.
— Três aqui — Loki falou em um timbre apático que apenas uma joia do infinito poderia produzir. — Três em Niflheim — decidiu firme. Um brilho púrpura nos envolveu e desaparecemos.
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Aquele lugar era pavoroso. O calor era absurdo, praticamente não havia luz e havia tanta névoa que era difícil enxergar muita coisa ao redor, tornando o ar abafado e complicado de respirar. Como se não bastasse, havia um forte cheiro de putrefação misturado a enxofre. O que eu podia ver era um chão pedregoso e irregular completamente enegrecido. Me senti estranha no mesmo instante em que chegamos, uma sensação de... não pertencimento. Loki e Thor me deram as costas, encarando ao redor.
— Precisamos tirar ela daqui, foi uma péssima escolha — Thor falou sério. Loki assentiu olhando ao redor com uma expressão tensa.
— É ruim, mas também era a mais razoável, Odin não pensaria como uma opção — disse, pela primeira vez não discordando do outro.
— Por quê? — quis saber, confusa. O que eles estavam vigiando com tanta tensão?
— Porque você é a única humana viva nesse lugar — Loki respondeu sem rodeios. — Na verdade, eu tinha planejado vir sozinho aqui. Eles podem sentir sua presença.
— Eles? Eles quem? — Eu não estava entendendo nada.
— Os mortos — Thor respondeu, fazendo um sinal para o seguirmos. Caminhava à minha frente, enquanto o irmão seguia atrás. Eles estavam me protegendo? Dos mortos?
— Loki... você me disse que aqueles que morriam seguiam para Valhala — falei me lembrando dessa conversa antiga, tentando entender.
— Você vai para Valhala. Você é considerada guerreira, já que usa arco e flecha. Humanos normais vem para cá — explicou ainda muito alerta. Existia até mesmo esse tipo de divisão? Meus pais estariam ali?
— E o que tem demais em eu ser a única viva aqui? Vocês estão vivos — afirmei como se não fosse óbvio.
— A questão é que eles a invejam. Os que enxergam isso como um lugar de punição. Você vive. É capaz de comer, de beber, de circular entre os vivos e principalmente de decidir partir — Thor me explicou, enquanto subíamos uma colina. — Para alguns mortos este lugar é agradável. Para a maioria não. Muitos desejam estar vivos. E uma alma humana viva certamente os lembra da condição em que estão. Os deixa inquietos — concluiu de um jeito que me fez ter calafrios. Me lembrei de cenas de filmes e seriados cheios de zumbis e me perguntei se seria algo parecido. Eu esperava sinceramente que não.
— Por que viemos, então? — quis saber. — Somente para fugir de Odin?
— Loki disse que Alma está aqui — O deus do trovão esclareceu.
— Se Odin está nos procurando, a melhor defesa é o ataque — Loki falou de um jeito muito rígido. — Precisamos nos apressar.
— Se for para resolver os problemas dela, sim. Se nã...
— Chega vocês dois! — ralhei irritada em um rompante antes que entrassem em outra briga.
Uma criança nos encarava afastada alguns metros. Eles não haviam reparado nisso. Assim que a mostrei a eles, ambos pararam de forma tão brusca que me bati contra as costas de Thor. A menina de longos cabelos escuros, sorriu e acenou. Os homens olharam para mim. Minha boca se abriu em choque.
Era Anong.
Antes de poderem me impedir, corri até ela, parando a centímetros de tocar sua pele. Antes de fazer isso, Thor e Loki me seguraram pelos braços. Eu não olhei para eles. Estava chocada demais. Não era possível. Como ela estava ali? Como ela...?
— Não se toca os mortos, Liana. A menos que você queira se juntar a eles — Loki me explicou de um jeito brando. O olhei cheia de dor. Os olhos do deus encararam a menina que sorria simpática para mim. — Ela pode te tocar se quiser, mas verá a morte dela se permitir — explicava com uma paciência com e gentileza que eu não esperava. Assento em entendimento.
Ambos soltaram meus braços com delicadeza, permitindo que me ajoelhasse em frente a Anong. Eu me abaixei até a altura da menina. Parecia desfocada e tinha os contornos borrados como se eu a visse através de um vidro embaçado. Só conseguia pensar em como ela era doce. Em como Banner devia estar destruído. Eu tinha escutado quando falaram em devolvê-la a ele. Como aquilo tinha acontecido? Eu queria saber. Eu a vingaria.
Passei a mão pelo meu próprio rosto, olhando as mãozinhas pequenas dela. Tão pequenas.
— Toque — pedi em inglês. Esperando que ela tivesse aprendido essa palavra. Suas mãozinhas tocaram minhas bochechas e tudo ficou escuro por um breve segundo.
Paredes cinzentas e apáticas, um punhado de monitores em uma parede oposta. Tudo parecia muito mais alto do que eu. Estava vendo através dos olhos dela. Banner estava sentado em uma cadeira, assinando uma montanha de papéis.
— Pai — A vozinha infantil chamou em tailandês. O significado veio claro à minha mente. Aquilo me destruiu de uma maneira que eu não podia acreditar. — Eu quero ir embora — ela continuou. O homem a olhou com uma expressão terna.
— Já vamos. Espera um pouquinho, tudo bem? — pediu no mesmo idioma. Anong assentiu e sentou em uma cadeira, mexendo na barra do vestido florido que usava, os pézinhos em sapatilhas pequenas balançando no ar. Seus olhos passearam pela sala. Ela sentia ansiedade. Tinha medo daquele lugar. Por fim encarou o monitor. Eu estava no saguão acompanhada por Steve.
— Liana — anunciou simplesmente, apontando a tela. Banner ergueu os olhos do papel mais uma vez. Quando encontraram o que ela mostrava me seguiram, incrédulos, acompanhando meu caminho por dezenas de câmeras. Steve me deixou numa sala.
Quase dez minutos se passaram até que o Capitão entrou naquele recinto. Devia ser longe de onde havia me deixado, o que justificava a demora que notara na ocasião. Ele parecia atarantado. Eu senti apenas desprezo, apesar de vê-lo pelos olhos dela.
— Ela está confusa — Steve disse em um tom muito preocupado sendo bastante direto. Aquilo soava estranho aos meus ouvidos. Soava como soaria a Anong. Apesar disso, eu era capaz de entender, com alguma concentração. — Veio buscar ajuda. O que vão fazer com ela? Não posso chamar Fury.
— Eu disse que isso aconteceria — Bruce falou, ficando de pé. — Por isso eu e Tony fomos contra desde o início. Essa ideia absurda era loucura. O que ela sente?
— Mencionou uma sensação de ausência, como se algo faltasse o tempo inteiro... — Ele respondeu, cheio de culpa. Eu fui incapaz de sentir pena. — Bruce... quando eu aceitei, achei que fosse ser melhor. Achei que Liana ficaria bem, que esquecer a manteria segura... achei que ela ficaria bem — Ele repetiu devastado, querendo que o outro acreditasse. Por um breve segundo, fui capaz de me penalizar. Um segundo breve demais.
— Agora é tarde. Se souberem que ela sente que falta algo, que de alguma forma percebe o que aconteceu, vão querer usá-la de cobaia. Eu vi os teste e as pesquisas envolvidas, já foi usado em agentes antes e nunca deu errado. Nunca sequer notaram — Banner falou de um jeito agitado. Estava nervoso. — Precisamos tirar ela daqui. Me mostre o caminho — pediu. Virou-se para Anong retornando ao tailandês. — Anni, as pessoas ruins querem pegar a Liana. Eu vou ajudá-la. Pode me esperar aqui? — perguntou. Eu senti aquele coraçãozinho infantil se apertar. Ela assentiu e ambos os homens saíram pela porta.
Anong me procurou pelas telas, apertando as mãozinhas no colo. Ela me encontrou novamente no corredor. Loki seguia ao meu lado. Ela observou enquanto eu entrava em outra sala. Segundo depois, poeira se espalhava saindo daquela porta e eu e Loki voltávamos ao corredor. O arco vinha firme em minha mão.
Os olhos da menina procuraram os dois homens e os acharam, correndo pelas escadarias, depois de notarem que eu tinha saído do lugar onde Steve me deixara. Dois lances de escadas abaixo encontraram Natasha. Trocaram meia dúzia de palavras e ela começou a descer aos saltos, correndo a frente deles. Steve parecia tentar alcançá-la, mas a mulher conseguia ser ainda mais ágil que ele. Ainda assim, ele a puxou pelo braço, ao que ela se virou o acertando com um soco. O Capitão a soltou e ela voltou a correr, com ele em seu encalço. Ela se virou com a Glock em mãos, porém parecendo lembrar quem acompanha Steve, tornou a guardá-la. Tarde demais.
Bruce Banner, mostrou seu outro lado. Hulk surgiu, quase esmagando os outros dois na escadaria estreita. Anong, vendo tudo pelas câmeras, soltou um gritinho nervoso.
A mulher e o capitão correram para fora do caminho com o gigante verde vindo como um furacão atrás. Ele estava descontrolado. Anong podia acalmá-lo. A menina levantou e contrariando as ordens de Banner desceu as escadarias indo para onde ele estava.
Eles se isolaram em uma espécie de passarela que ligava o bloco de laboratórios onde estavam ao prédio principal. Anong abriu uma porta de emergência e entrou correndo o mais rápido que as perninhas curtas podiam. Hulk estava de costas para ela. Steve e Natasha falavam algo em um tom baixo. Possivelmente tentando acalmá-lo. Um alarme estava disparado ao fundo. Um grupo de agentes surgiu pela outra extremidade. Fury entre eles. No entanto, ninguém pareceu notar a menina ali.
Os agentes se posicionaram. Aquilo enfureceu ainda mais o grandalhão que socou o chão ameaçando pôr a passarela abaixo. O chefe puxou Steve e Natasha para trás e trocaram algumas palavras. O capitão olhou uma última vez para o amigo. Tinha a expressão cansada e preocupada. Eu sabia o motivo. Ele deve ter julgado que Bruce podia se virar sem ele, porque seguiu o diretor. Dali eles iriam de helicóptero encontrar a mim e a Loki no telhado. Anong não veria nada disso acontecer.
A menina estava assustada. Aquele lugar era repleto de pessoas ruins, a tinham roubado do seu pai. Queriam ferir alguém que ela, do alto de seus conceitos infantis, considerava sua amiga. E agora apontavam armas contra a única pessoa que a cuidava. Pude sentir as palavras se formando em sua garganta, mas antes que a menininha pudesse chamar pelo pai, uma mulher morena de olhos claros que visivelmente liderava aquele grupo, ordenou que disparassem. Dúzias de dardos tranquilizantes voaram.
— Papai — Anong chamou numa voz estranha. O monstro verde interrompeu o urro de raiva que lhe escapava e se virou para olhar.
A menina cambaleou. Quatro dardos. Dois na perna, pescoço e bochecha. O homem voltou ao seu estado natural, me surpreendendo com o auto controle e racionalidade repentinos, correndo aos tropeços para ela, a puxando nos braços no momento em que Anong caia. A mulher ordenou o cessar fogo. Eu sentia espuma se formando na boca. Tudo doía. Uma dose de medicação para um homem adulto em uma criança podia matar. Quatro doses para o Hulk certamente fariam isso. Overdose.
— Não, não, não, não, não, não, não — Banner repetia, buscando o pulso dela. Ele chorava em desespero. Anong entrou em convulsão e eu senti o pânico me tomar. Um peso se formou sobre o tórax algumas vezes. Uma tentativa de massagem cardíaca. E então tudo se tornou preto novamente.
Um grito agudo escapou da minha boca, enquanto eu recuava para longe das mãos espectrais de Anong. Loki me apoiou antes que eu caísse no chão. Apesar das feições desfocadas da menina eu podia ver que ela franzia as sobrancelhas, preocupada. Ergui os olhos marejados para o deus.
— Nem pense nisso — Ele respondeu frio, antes mesmo de ouvir a pergunta. Eu queria levá-la de volta. — A Morte nunca permitiria um absurdo desses — falou em uma advertência clara em cada palavra, desprezando minha ideia, como se a morte realmente fosse uma pessoa disposta a me impedir. Antes que eu pudesse tentar discutir, vozes que soavam abafadas e, apesar disso, ecoavam surgiram. Chamavam meu nome. Tínhamos ficado parados por tempo demais. Thor e Loki se preparam, ficando diante de mim e empunhando suas armas. A única pergunta que me ocorria era como eles planejavam ferir os mortos.
Anong fez um sinal para mim, chamando minha atenção. Ela apontou para o final da colina.
— Vem — pediu em uma voz etérea e distante. Se alguém conhecia aquele lugar pavoroso era ela.
— Eu preciso da Alma — expliquei pausadamente a ela. Pude perceber um sorriso se formar na face embaçada. Anong sabia o que eu queria. A criança fez um novo gesto indicando que eu deveria segui-la. Assim que olhei novamente para os deuses, nos vi cercados por centenas, milhares de espectros. Thor abaixou o martelo.
— Não vai dar... — falou baixo. Loki tinha uma expressão firme no rosto. Olhou do irmão, para mim e de volta para ele.
— Vai ter que dar — resmungou obstinado. O deus do trovão o encarou como se ele tivesse ficado louco. Eram milhares vindos por todos os lados. Eu recuei assustada. Imaginei o que aconteceria se todos me tocassem. Experimentaria mil tipos de morte. Até que fossem demais.
— Ela sabe um lugar seguro — falei tentando chamar atenção. Nenhum dos dois pareceu me ouvir. Estavam preocupados com a quantidade de espectros que avançavam pelos campos. Thor atirou o martelo, para minha surpresa atingindo uma dezena de almas, as derrubando no chão. Elas levantaram e recomeçaram a avançar como se nem o tivessem notado. Olhei para Anong, sentindo o terror me tomar.
— Alma — repeti com urgência. Ela assentiu.
Começamos a descer a colina em disparada. A menininha corria tão rápido que parecia flutuar. Devia flutuar mesmo. Alguns espectros se viravam para olhar a nossa passagem. Um número pequeno acenava de forma dócil, até curiosa. Mas a maioria rosnava meu nome.
Me virei para olhar para trás e vi Loki e Thor nos procurando no campo. Atirei uma flecha para o alto sinalizando minha posição. O projétil explodiu em uma bomba de som e luz. Todos os espectros gritaram, com exceção daqueles que pareciam amistosos. Não gostavam de luz e barulho.
Os deuses me viram ao longe. A expressão de Loki se distorceu em dezenas de outras. Choque, raiva, preocupação estavam visíveis entre elas. Thor o segurou pelo pulso e começou a descer em nosso encalço arrastando o irmão junto. No entanto, não podíamos parar de avançar. Espectros vinham por todos os lados.
Anong apontou um portão alto, que estava simplesmente largado no meio do campo. Não havia paredes a que ele estivesse preso. Era apenas um portão abandonado. Quando fiz menção de abri-lo, pude ouvir Thor e Loki gritarem algo muito atrás, mas já era tarde. A porta me puxou para dentro e Anong me acompanhou de boa vontade.
Silêncio. Apenas meu coração batendo, minha respiração rascante. Além disso, silêncio.
Escuridão. Acima da noite. Acima do medo. Se eu tivesse ficado cega não seria tão escuro. Em questão de segundos, perdi a noção de direção. Perdi a noção do tempo. Senti o pânico me tomar. Meu arco seria completamente inútil. E eu com ele. Desejei correr, contudo o medo me impedia.
— Liana Schroeder — uma voz feminina chamou meu nome, omitindo o Stark. A voz me causava arrepios. Era como a de mil unhas arranhando um quadro negro e ao mesmo tempo soava melodiosa. — Estais antecipando tua chegada ao meu reino? — a mulher me perguntou.
— Quem é você? — perguntei com a voz entrecortada, virando a cabeça à procura de um ponto de luz. Qualquer coisa serviria.
— Não sabeis? — questionou muito serenamente. — Somos confidentes de infância. Tu cresceste sob meu jugo, entretanto escapando-me por entre os dedos. Vens fazendo isso com ainda mais frequência nos tempos de tua juventude — dizia em um tom cheio de interesse. Senti o terror me tomar com ainda mais intensidade. Poderia me embolar no chão e chorar em desespero. Eu queria Loki ali comigo mais do que queria qualquer outra coisa. Ela era uma pessoa de fato.
— Morte — concluí em um tom baixo, sentindo meu corpo incapaz de tremer. Aquilo era outro nível de medo. Tremer era bobagem. Era para medos racionais. Meu medo dela era algo sem medida. Sua risada alta ecoou pelo espaço, e eu achei que minha alma fosse abandonar o corpo e correr.
— Tornaste-te bela e desejável. Desejei levar-te antes disso — contou sem ressalvas. — Desejei integrar-te ao todo e ao nada. Tu serias plena, entre os meus. Serias livre como teu espírito anseia. Voaria como a ave que lhe faz figura. E, no entanto, persistes em escapar de mim. Por qual razão, então, entraste de tão bom grado em meus domínios? — questionou com curiosidade. Minha vontade era de responder que sairia dali com o dobro de boa vontade.
— Preciso da Alma — respondi sentindo minha voz falhar. Não havia sentindo em joguinhos de palavras.
—Tenho vos acompanhado em tua busca. Poderia vos conceder o que almejas, mas qual o sentido disso se, contudo, findarás entre os meus mais cedo ou mais tarde?
— Eu vou para Valhala — afirmei com um pouco mais de segurança do que realmente sentia.
— E acaso não sou eu quem a levará até as Valquírias? — indagou retórica, sua voz de mil unhas e veludo subindo um tom. Estremeci, procurando coragem para respondê-la.
— O sentido disso está em terminar o que eu comecei — expliquei em um tom baixo apesar das palavras soarem atrevidas. — Eu me comprometi a coletar todas as joias.
— Mas não para ti. Conheço tua alma, criança — garantiu de uma maneira acusatória que fez com que eu me encolhesse em meio à escuridão.
— Não... Para ele — confessei em um sussurro.
— O deus — concluiu simples. — Humana tola.
— Tenho escutado isso com muita frequência — devolvi soando bem humorada, surpreendendo até mesmo meus ouvidos. Ela riu de um jeito que me deixou à vontade. Algo estranho. Estar à vontade diante da morte.
A escuridão não se dissolveu, mas eu repentinamente era capaz de ver. Ela me permitia vê-la. Uma mulher alta, de corpo esguio. Um capuz ocultava seu rosto. Anong segurava sua mão, muito tranquila e satisfeita.
— Tua escolha lança pedras a teus próprios pés. Teu caminho é irregular. Mas tua vontade é fogo que incendeia teus inimigos. Tu queimas junto a eles e tens ciência disso— afirmou. Eu não sabia do que ela estava falando. — Não temes a morte?
— Claro que sim, mas qual o sentido de me deixar dominar por medo de algo do qual não posso fugir? Se você quiser, meu coração não chega nem na próxima batida — falei, estremecendo plenamente consciente disso. A mulher soltou outra risada, deliciada da minha sinceridade. — Irá me buscar mais cedo ou mais tarde, não é?
— Certamente — respondeu caminhando até mim. Senti meu coração se apertar, e desejei desesperadamente correr. No entanto, minhas pernas não pareciam ouvir. Ela segurou minha mão e eu caí de joelhos, um grito escapando. Senti meus dedos se abrirem contra minha vontade. Poder, Realidade e Espaço pairavam ali. Havia um cubo dourado ao lado delas. Alma. — Vais me devolver um dia. — Ela disse calmamente. — Quando a encontrar no momento em que todo ego é destruído. Quando perderes o teu próprio — proferiu. Eu não podia acreditar naquilo. Ela estava... me emprestando. — Agora, vá. Retorne à tua missão suicida. Para sair de Niflheim lembre a teu deus o que ele mesmo carrega — explicou me dando as costas. O portão tornou a surgir atrás de mim. Eu podia ouvir Loki e Thor gritando do outro lado. Meu coração palpitava dizendo a mim que eu deveria ir. Contudo, havia uma pendência.
— Quero levar Anong — me ouvi falando sem pensar. A mulher se virou lentamente, os olhos liláses se estreitando perigosamente.
— Perdestes a sanidade? — ralhou em um tom venenoso que quase me fez desmaiar de pavor.
— Poderá buscá-la novamente em outra ocasião... — tentei argumentar, minha voz soando como esganiçada. Ela voltou a se aproximar de mim. Seu rosto ficou a poucos centímetros do meu e eu podia sentir sua respiração gélida.
— Estás delirando. Concedo-te piedade, faço tua vontade e queres me roubar? — questionou, sua voz soando cruel.
— Por favor... — pedi recuando contra a porta, em pânico. A mulher me seguiu, batendo a palma da mão aberta no portão ao lado do meu rosto.
— Dê-me uma boa justificativa para um pedido como esse e talvez me faças repensar minha decisão de tomar a ti agora mesmo — ameaçou com olhos de cobiça. Eu podia simplesmente murmurar desculpas e torcer por perdão pela minha estúpida ousadia. Mas essa não seria eu.
— Eu tenho um Toque do Destino... Frigga é a melhor mãe que jamais existiu. Como alguém como eu pode saber da dor de um pai e fingir que não a vi? Por acaso compaixão não é uma característica dos protegidos de Frigga? Não pretendo desrespeitá-la, é só a minha natureza — arrisquei, usando isso como justificativa. Esperava que fosse convincente, mesmo eu sabendo que cada palavra era verdadeira ela podia não acreditar.
Morte tocou minha testa com a ponta dos dedos por um breve segundo e eu senti minha alma se expor às vistas dela. Aquilo me tirou o ar por completo me fazendo arquejar como se estivesse me afogando. Tentei afastar meu rosto dela, me batendo contra o portão, um grito estrangulado preso a garganta. Tão breve quanto aquilo começou, parou.
— De fato tens o Toque e uma Benção. És uma combinação fascinante de fatores — ponderou e eu podia sentir seus olhos presos aos meus. — Dou-te a menina — disse, enfim. Anong cambaleou para frente, muito material. Eu olhei dela para a morte. — Como vós dissestes, posso buscá-la novamente. Vão antes que eu me arrependa por tais favores — concluiu friamente.
Eu não questionaria mais nada. Peguei Anong no colo e abri a porta sem pensar. Saí aos tropeços, me chocando contra Loki e Thor. O moreno me segurou pelos ombros, seus olhos me encarando de alto a baixo visivelmente aturdidos. Então olhou para Anong e se arregalaram em choque.
— Como você...?
— Longa história — cortei nervosamente, olhando os mortos que desciam a colina em nosso encalço. Era como se o tempo não tivesse corrido daquele lado do portão. — Eu tenho a joia da Alma. Tira a gente daqui — pedi abraçando Anong de um jeito que me lembrava da minha própria mãe. A menina parecia tranquila, embora me abraçasse de volta. Loki nos encarou uma última vez de um jeito estranho. Thor também nos olhava. O deus da trapaça abriu a mão e para meu choque Alma flutuava bem ao centro brilhando cegamente, ao invés de Espaço. Ele franziu as sobrancelhas de um jeito confuso e então encarou ao redor. Franziu as sobrancelhas, um sorriso malicioso surgindo lentamente nos lábios, os olhos verdes se estreitando.
— Parem. Em formação — ordenou, sua voz ecoando alta. A horda de almas se interrompeu instantaneamente e se encaixou em fileiras perfeitas. Como um exército. Eu e Thor nos entreolhamos. Os olhos de Loki se estreitaram ainda mais lhe dando uma expressão de sagacidade. O deus estava controlando os mortos. Aquilo me causou arrepios.
— Irmão? — Thor chamou, mas ele parecia surdo. Me aproximei e beijei-lhe o pescoço sem me constranger pela presença do outro. Ele se virou como se estivesse surpreso. Como se repentinamente tivesse se lembrado da minha presença ali.
— Por favor — pedi o encarando com o rosto muito próximo. Seus olhos foram dos meus, para suas tropas de almas e voltaram para mim. Eu sorri cansada. — Por favor — repeti. A Alma embora ainda brilhasse enlouquecida, foi substituída por Espaço.
— Para onde? — perguntou a mim, seu tom de voz parecia o de alguém que tem algo ruim na boca. Eu precisava pensar. Um lugar onde não nos achassem. As opções estavam cada vez mais escassas. Olhei para ele demonstrando toda minha confusão.
— Para a casa de Jane Foster — Thor respondeu. Nós olhamos para ele de maneira desconfiada. Ele deu de ombro — Ela mora longe e não conhece os outros. Também não está na lista negra da S.H.I.E.L.D. e nem teria motivos para nos entregar — ponderou com lógica. Achei justo. Voltei meus olhos para Loki. Ele suspirou contrafeito.
— Quatro aqui. Quatro na casa de Jane Foster — recitou. E nós fomos.
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