God of Mischief | Loki
25 Capítulo 24: Mente
Notas iniciais
Jane estava sentada junto a mesa e com ela, um homem na casa dos 60, uma moça que não devia ser nem um ano mais velha que eu e um rapaz de idade próxima. Poderiam ter nos cumprimentado calmamente, talvez um pouco surpresos. Isso se tivéssemos chegado com suavidade e não como mamutes em uma loja de cristais.
Estávamos na mesma sala bagunçada da outra vez, mas o ar londrino noturno me atingiu como um soco, com o som de veículos e o cheiro de algo cozinhando perto dali. Para minha surpresa achei estranho estar na terra. Percebi tudo isso por um ínfimo segundo, antes que um pequeno caos se instaurasse.
Surgimos sobre a mesa de jantar que se partiu, não aguentando o peso. Eu e Anong soltamos um grito agudo quando isso aconteceu. Loki me apoiou pelas costas antes que eu batesse em um aparador junto à parede, impedindo também que eu derrubasse a menina dos braços. As pessoas na mesa gritaram com o susto. O mais velho se levantou, histérico, correndo contra a parede oposta. Por algum motivo estava sem calças. Ele apontava para Loki e berrava palavras que se embolavam, soando incoerentes.
— Como vai, Selvig? — Loki cumprimentou com um sorriso debochado, me afastando dos destroços do que fora uma mesa.
— Você disse que ele tinha morrido! — o homem berrava para Thor, sendo sumariamente ignorado pelo deus entretido que estava aos beijos de Jane. Claramente não perdiam tempo.
— Tudo isso é alegria em descobrir que eu sobrevivi? — O deus da trapaça perguntou de um jeito irônico fazendo o homem se encolher. Aquilo fez Jane Foster afastar os lábios de Thor, atravessar a sala e parar diante dele, que sustentou seu olhar parecendo educadamente interessado. A mulher simplesmente o acertou com um tapa no rosto usando toda a força.
— Ei! — gritei muito chocada, a empurrando pelo ombro para trás com a haste do arco. Thor a puxou pelo braço, com medo que eu resolvesse mostrar a ela minha própria força. Para minha surpresa Loki olhou em direção ao irmão com seu sorriso mais galante.
— Ela continua uma graça — comentou displicente com deboche acentuado, me desarmando completamente.
— Alguém vai me explicar o que está acontecendo aqui ou vou precisar esperar sair no jornal? — perguntou a outra mulher, estarrecida contra a parede.
— Darcy, este é meu irmão, Loki — Thor apresentou muito educadamente. Ela o olhou de alto a baixo com um olhar aprovador e a curiosidade de quem certamente o reconhecia dos noticiários. O rapaz a seu lado a segurou pela mão sussurrando algo, parecendo irritado. O tal Selvig ainda chorava perto da parede. E eu seguia entendendo muito pouco de tudo aquilo.
— E todos achavam que ele estava morto — Jane sibilou entredentes. O deus colocou as mãos atrás do corpo a olhando e sorrindo forçadamente de um jeito que mostrava achar muita graça e sentir certo orgulho naquilo tudo.
— Parece bem vivo para mim — o rapaz comentou com um olhar técnico.
— Ele devia estar morto... — Selvig resmungava olhando desconfiado de um jeito agitado.
— Ian, é feio ficar encarando as pessoas para ver se estão vivas ou mortas — Darcy falou, repreendendo o rapaz, embora ela mesma não desviasse os olhos de Loki. Aquilo tudo era esquisitíssimo. A menina olhou para mim, após alguns segundos parecendo notar que eu mesma a encarava. — Ei, você não é modelo?
— Eu? — devolvi surpresa pela suposição, me pegando desprevenida. — Não.
— Tenho certeza de já ter te visto na TV — insistiu. — Você já foi ao Jimmy Fallon?
Fiz uma expressão constrangida, a verdade é que sim, há muito tempo, logo que as notícias sobre uma Stark bastarda de Howard chegaram a mídia. E depois quando eu ganhara uma medalha de tiro com arco em um mundial.
— Ela é arqueira da equipe norte-americana — Jane informou por mim, me olhando com atenção. Darcy fez um ar de compreensão, porém o da amiga era mais analítico. Meu vestido verde certamente dizia a alguém como ela que eu estivera passeando por outros reinos. — E irmã de Tony Stark se bem me lembro. Esteve aqui algumas semanas atrás, às cinco e pouco da manhã querendo saber desse aí — falou indicando Loki, parecendo irritada. Ele me olhou com as sobrancelhas erguidas demonstrando surpresa e algum divertimento. Dei de ombros me sentindo corar.
— Ah! Eu vi um edital seu! — Darcy ainda insistindo na ideia.
Ela começou a revirar os jornais empilhados e por fim puxou uma foto minha, com o uniforme da Stark Industries, mirando o nada com um arco composto nas cores da armadura de Tony. A foto dava ênfase em minha familiaridade com o Homem de Ferro, mas era tirada de baixo para cima destacando um par de tênis esportivos da Puma nos pés. Me lembrava vagamente daquele ensaio.
— Não parece você... — Loki comentou observando criticamente a foto. Arranquei a imagem da mão da mulher, corando como um pimentão. Thor pigarreou tentando nos levar de volta ao assunto principal.
— E a menininha? — Ian perguntou, finalmente levando a atenção de todos para Anong.
— Filha do Hulk — respondi simplesmente. Os quatro desinformados arregalaram os olhos em choque.
— E ela fica verde e tal? — Darcy inquiriu com a voz aguda. Eu neguei agitada, apenas balançando a cabeça. A garota seguiu tagarelando acelerada: — E quem é a mãe? Você? Ela não parece com você.
— Claro que não! — Loki negou, sua voz ecoando como se a ideia fosse absurda. Selvig tapava o rosto com as mãos quando o deus falava.
— Alguém dê calças para ele — Thor pediu indicando o homem seminu. Ian pegou calças de veludo cotelê de cima do encosto da cadeira e empurrou-as nas mãos de Selvig.
— Acho que está rolando muito assunto de família por aqui... — Darcy falou, puxando Ian pelos braços e andando até a porta. Selvig os acompanhou apressadamente ainda abotoando a roupa. Loki abriu para que ela pudesse passar, oferecendo um meio sorriso educado. A mulher correspondeu um pouco sem graça, incapaz de desviar o olhar, deixando o cientista passar apressado, antes de o deus tornar a fechá-la. Ele virou-se encontrando minha expressão impaciente, dando de ombros com um sorriso de escárnio preso aos lábios.
O silêncio se abateu de uma forma estranha sobre nós. Agora éramos apenas os irmãos, Jane, Anong e eu. A mulher sentou-se no sofá, soltando um longo suspiro, seus olhos encarando a todos com atenção, enquanto eu pegava um pote de biscoitos de uma prateleira os colocando nas mãos da menina, para que comesse. Não fazia ideia se voltar dos mortos dava fome, porém ela aceitou-os de bom grado, sentando à um canto.
— Quem vai explicar? — Jane perguntou prática. Thor sentou-se ao lado dela e segurou-lhe as mãos. Ele a olhava com algo próximo a devoção. O irmão inclinou a cabeça levemente, como se achasse aquele comportamento curioso.
Me sentei em uma das cadeiras e Loki fez o mesmo. Ouvimos em silêncio enquanto Thor narrava a ela os acontecimentos recentes. Não pude deixar de notar que o deus da trapaça claramente apertava os lábios em uma tentativa de conter o sorriso irônico, enquanto o irmão falava sobre “traição’’ e “mentiras’’. Ele se orgulhava daquilo e eu, tonta, achava graça.
O deus do trovão narrou tudo que sabia sobre as joias e os passos do irmão nas últimas semanas. A partir daí Loki assumiu, contando os fatos de maneira resumida a ela. Jane era boa ouvinte e apesar de olhar dividida entre a raiva e o medo para o deus, prestava atenção e fazia as perguntas corretas. Anong adormeceu no sofá com um biscoito ainda em mãos.
— E como você pegou Alma? — A mulher quis saber olhando para mim. Foi minha vez de dar as explicações que eles mereciam. Ocultei um ou outro detalhe da conversa com a Morte. Loki me olhava de um jeito estranho. Tinha os olhos estreitos na minha direção. Ele sabia que faltava parte do diálogo e, no entanto, Thor e Jane acreditaram piamente em minhas palavras. — A pergunta é: o que vocês vão fazer agora? — questionou, enfim.
— Terminar de coletar as joias e usá-las para corrigir erros — Loki respondeu de forma vaga. Havia mentira ali, eu sentia isso. Enquanto Jane e Thor se entreolharam confusos e, em minha opinião, abobalhados, o deus me fitou de esguelha piscando, travesso. Então ficou claro para mim. Mesmo que eu tivesse convocado Thor como nosso aliado, ele não colocava fé nesse elo. Como eu já sabia, queria confundir e iludir. Estava ganhando tempo.
— Loki, eu não tenho nenhum motivo para confiar em você e todos sabemos disso — o príncipe herdeiro respondeu com firmeza. Aquilo pôs um sorriso nos lábios finos.
— Finalmente aprendendo alguma coisa, irmão — escarneceu venenoso. — Não confie em mim. Quantas vezes precisei repetir isso até você entender? — Thor deu impulso para atacar o irmão, mas Jane o segurou colocando as mãos em seu peito o olhando de um jeito suplicante. Ela já tinha presenciado os dois juntos por mais tempo e mais vezes do que eu e conhecia melhor o comportamento explosivo do namorado, sendo capaz de antecipar as rusgas dos dois. O deus da trapaça sorriu abertamente. — Não confie em mim. Confie nela — sugeriu, inclinando a cabeça levemente na minha direção. Senti minha boca se abrir em choque, mas tratei de me recompor, tentando um ar de dignidade. Ele havia me dado uma deixa. Restava que eu fizesse meu papel de atriz. Uma marionete na mão do titereiro.
— Eu só quero voltar para casa... — declarei, me fazendo de coitadinha. — Tenho metade das joias e ele não tem como tirá-las de mim. Assim que tivermos todas, vamos trazer tudo de volta ao normal e ficarei em paz novamente. Você pode ficar com elas... — Ofereci, tão dissimulada a ponto de perceber Loki erguer levemente as sobrancelhas, admirado. Thor continuou me olhando sério. Percebi, enfim, que ele não tinha ambição. — Ou entregue-as ao seu pai. Odin pode escolher o que fazer com elas — Thor ergueu a mão me fazendo calar. Voltou-se para Loki.
— E o que você ganha com isso? — perguntou, muito sagaz. O outro permaneceu sério.
— Liberdade — falou seco. — Minhas atitudes consideradas criminosas, esquecidas — concluiu. Por um segundo eu mesma acreditei que pudesse existir sinceridade ali. Antes de me dar conta, Thor avançou contra Loki, o segurando pela gola da roupa e o empurrando contra a parede. O trapaceiro puxou a adaga prateada que trazia à cintura, porém o outro foi mais rápido e imobilizou sua mão.
Antes de sequer ver o que estava fazendo, pulei por cima da mesinha de centro, me jogando no sofá, ajoelhando às costas da mulher, puxando Jane pelos cabelos, a fazendo soltar um grito agudo de surpresa, enquanto levava uma flecha ao seu pescoço. Thor se virou para olhar e me encontrou o encarando de volta, meus olhos firmes. Loki sorriu de um jeito maldoso. Eu sabia como jogar um jogo de ameaças. Morar na rua ensina muitas coisas, aquilo não era nenhuma novidade e nos últimos tempos eu aprendera a concretizá-las.
Thor analisou a situação por poucos segundos e se afastou do irmão erguendo as mãos acima da cabeça. Esperei que se afastasse alguns passos e abaixei a ponta afiada. Me afastei de Jane sentando de volta na cadeira, meus olhos acompanhando o deus. Loki retornou ao seu lugar ao meu lado, reprimindo um sorriso, enquanto ajeitava os cabelos negros com displicencia. O irmão se sentou ao lado da namorada sussurrando um pedido de desculpas. Ela tremia dos pés à cabeça.
— Você é tão venenosa quanto ele — Jane disse por fim, em uma tentativa de ofensa. Sorri como se tivesse ouvido um elogio. Duvidava muito de que em algum momento pudessemos desenvolver alguma amizade. Não poderíamos ser mais diferentes.
— Mas eu mordo com muito mais frequência — Loki informou cheio de escárnio.
— Morde e em seguida pensa que pode voltar como se nada tivesse acontecido! — Thor exclamou exasperado. — Depois de tudo o que fez acha que vai ser simples assim?
— Acho — ele respondeu com um ar dissimulado ironizando a situação. — Admita que veio a nosso encontro por ordem de Odin. Se fizer isso, posso considerar esclarecer uma coisinha ou duas para sua mente limitada — falou, sua voz soando acusatória, os lábios se apertando. Aquilo pareceu o desconcertar por um breve segundo.
— Se eu tivesse feito isso, não acha que já o teria entregado a ele? — revidou irritadiço.
— Você pode não ter nada na cabeça, mas Odin tem. Ele quer as joias. Um rei como ele nunca entraria em uma missão praticamente suicida como essa. Enquanto você não souber como pegar as de Liana, vai nos seguir como um cachorrinho esperando o melhor momento, admita — Loki acusou, a raiva e o veneno pronunciados em cada sílaba.
— E por que Odin iria querer as joias? — O irmão perguntou como se tentasse ganhar tempo. Jane parecia pensativa. Na minha opinião, Thor realmente queria entender o motivo daquilo.
— Porque... isso manteria os Nove Reinos sob seu comando com muita facilidade. Se as joias são tão ilimitadas quanto vocês dizem, isso manteria insurreições caladas pela simples ideia. Pessoas como Loki nem cogitariam sair de suas casas — Jane falou lentamente, fazendo o deus assumir um ar levemente ofendido. — Odin poderia separar os reinos de maneira definitiva. Assim, atacantes não circulariam. Assim ninguém circularia — ela concluiu olhando para o amado com uma expressão estranha. Jane era capaz de antever o pior cenário para os dois.
— Achamos o cérebro do casal! — Loki falou ecoando irônico. — Já que ele não foi capaz de sequer se perguntar o porquê deveria levar as joias, explique ao meu inteligentíssimo irmão o que isso significa no que concerne ao casalzinho apaixonado — requisitou visivelmente deliciando-se diante da ideia de que o irmão não pudesse notar aquilo por conta própria.
Jane não precisou falar nada para que Thor percebesse. Se Odin pegasse as joias, eles nunca mais se veriam. Senti repulsa daquele homem que se intitulava o Pai de Todos. Pai? Ele não entendia muito do conceito.
O deus do trovão pareceu desnorteado por alguns minutos. Então sua expressão tornou-se dura. Olhou para a mulher ao seu lado. Ela era tão magrela quanto eu, embora bem mais baixa. A questão é que mesmo aos meus olhos Jane Foster parecia frágil e indefesa. Thor se sentiria eternamente responsável pela proteção dela. Ele a beijou de maneira apaixonada sem se importar que estivéssemos ali. Qualquer um que tentasse tirá-la de perto seria seu inimigo. Mesmo que esse alguém fosse seu próprio pai. Me flagrei invejando Jane.
— Você vai consertar a vida de Liana. Vai apagar seus crimes da memória de Odin. E vai passar o resto dos seus dias se comportando como um bom filho? — Thor perguntou trazendo sua atenção de volta a nós, enumerando as promessas, mostrando que também sabia usar ironias. Loki sorriu, fazendo um gesto amplo com os braços ao lado do corpo.
— Tem a minha palavra. — Um bufo foi a resposta obtida. Eu quase ri. A palavra dele não andava muito bem cotada.
— Temos uma aliança com potencial de apagar todos os erros que chegaram até aqui. Apesar de tudo Liana tem a minha proteção. Se você tentar roubar as joias dela vai se ver comigo — O deus do trovão falou me surpreendendo. Mal sabia ele que eu as entregaria a Loki de bom grado se pudesse. — Se tentar qualquer coisa, qualquer uma, eu vou matar você sem pensar duas vezes — ameaçou seriamente.
— Eu já ouvi essa conversa tantas vezes… — Loki respondeu parecendo entediado.
— Então pode imaginar que eu já me cansei dessa brincadeira — declarou de maneira ameaçadora. O irmão deu de ombros em um gesto de displicente desafio, fazendo o outro revirar os olhos, irritado, se voltando para me encarar. — Não torne a ameaçar Jane. Mesmo sendo uma guerreira, seria desonroso entrar em um conflito com você, mas certamente Sif…
— Sif é completamente apaixonada por você. Se eu fizesse qualquer coisa com Jane, ela seria a primeira a me aplaudir de pé — praticamente cuspi as palavras me lembrando das poucas vezes em que tinha visto a deusa. Loki me olhou pelo canto dos olhos controlando um sorriso. Jane parecia… irritada, por assim dizer. Agora aquela parecia ser a grande revelação da noite de Thor, no entanto ele nada disse. — Mas eu gosto da Jane, pode ficar tranquilo — concluí como se isso fosse garantia de qualquer coisa. Thor passou a mão pelos cabelos e caminhou para o interior do apartamento em silêncio. A mulher lançou um olhar assustado de Loki para mim e de volta para ele. Ao ver que ambos sorríamos, levantou pegando Anong no colo com a desculpa de colocá-la para dormir em uma cama de verdade e se retirou.
Me levantei e fui para a varanda do prédio. Era raríssimo construções londrinas que tivessem esse detalhe, ainda mais construções antigas como aquela. Talvez por isso Jane tivesse escolhido morar ali. Loki me seguiu, se escorando displicentemente de costas na grade de ferro, apoiando-se pelos cotovelos.
— Você deve achar ele um idiota e eu não quero dissuadi-la da ideia, mas não acho que seja uma boa escolha o desafiar tão abertamente — comentou, olhando as estrelas acima de maneira distraída. — Assim como não foi boa escolha desafiar a Morte para trazer essa menina.
— Eu sei — garanti com certa impaciência. — Agora já está feito.
— Você se arrisca demais. Perde o foco — disse num tom repreensivo. Aquilo me fez sorrir. Caminhei até ele e segurei a grade com uma mão de cada lado do seu corpo. Isso o fez abaixar o rosto para mim, uma expressão indecifrável.
— Isso é preocupação, Loki? — questionei, o fitando nos olhos, com um sorriso atrevido brincando em meu rosto. Era engraçado como nossa diferença mínima de altura ficava tão pronunciada quando ficávamos próximos assim. Ele apenas levantou uma sobrancelha em resposta. Aquilo me fez rir. Eu adoraria ouvi-lo admitir. Era uma das coisas que eu mais queria ouvir. Me inclinei procurando por seus lábios.
— Você deveria parar com isso — alertou, antes que eu o beijasse. Apenas mordisquei a boca dele.
— Você deveria querer que eu parasse — respondi, o som de uma risada presa em minha voz. Aquilo o fez estreitar os olhos me olhando em advertência.
— Liana, falta apenas a Mente — Loki informou, enfim. Aquilo sim, fez com que eu me interrompesse. Me atingiu como um soco. E eu sabia que minha expressão tornava minha reação transparente. — Tudo estaria terminado se você tivesse pegado a joia quando teve chance — falou numa voz inexpressiva.
Eu me lembrava bem daquela vez. A tive nas mãos e, no entanto, não a retirei por ordem de Frigga. Ela tinha algo planejado. Agora me parecia óbvio que se Mente tivesse sido nossa primeira aquisição, Loki teria me dominado sem hesitar. E para o fim, voltávamos ao início. Nosso último desafio. Entrar novamente em Asgard. Eu não me sentia minimamente compelida a ir em sua busca. E não por medo do que pudesse acontecer durante a missão, meu medo era o que viria a seguir. Apesar disso, uma pergunta me inquietava no fundo.
— Como vamos entrar e sair de Asgard? — A expus, meu rosto ainda a centímetros do dele.
— Pense — devolveu, como sempre apreciando deter informação desconhecida para mim.
Precisávamos entrar em Asgard. Tudo bem, Espaço nos levaria. Minha questão envolvia a segurança. Se Odin sonhasse... e de qualquer forma, eu duvidava que o cofre continuasse tão parcamente protegido. Ele sabia que obtivéramos sucesso nas joias anteriores, certamente a protegeria de maneira mais cuidadosa.
Loki revirou os olhos, visivelmente irritado com minha dificuldade em encontrar a resposta. Mordi meu próprio lábio, franzindo as sobrancelhas me esforçando. Mais um pouco e sairia fumaça da minha cabeça.
— Eu não sei — admiti, frustrada.
Não pude deixar de reparar que os olhos verdes estiveram encarando minha boca, durante aqueles minutos. Ele me beijou, ao invés de responder. Por mim, tudo bem. Eu adorava sentir seus braços me envolvendo pelas costas, me trazendo mais perto. Adorava o toque da sua pele na minha. Adorava o cheiro amadeirado que ele tinha. Eu adorava tudo nele.
— Loki? — A voz grave como um trovão o chamou, nos interrompendo. Tentei me afastar, num gesto brusco, mas ele manteve as mãos firmes me envolvendo. Olhou para o outro com a petulância e o desafio pronunciados em seus olhos. Como se o desafiasse a tentar questionar qualquer coisa. Thor olhou para mim, que estava claramente constrangida, com minha pele combinando com os cabelos. Seus olhos voltaram ao irmão, uma expressão de quem sabe das coisas no rosto. Apesar disso, nada falou. — Jane preparou o quarto de hóspedes para Liana. Achei que você deveria deixá-la dormir lá, mas pelo que eu vejo, acho que não vai precisar...
— Não vai ser necessário. Loki dorme comigo — comuniquei, fazendo o deus da trapaça sorrir de maneira provocadora para o irmão. Aquele seu meio sorriso de quem sabia que sairia vencedor. — A menos que você não queira — acrescentei virando-me para ele. O deus poderia ter rido diante do meu escárnio pela preocupação de Thor.
— Acho ótimo — concordou, prático. Olhei sorrindo para o outro. Thor se retirou balançando a cabeça, abismado. — Teimosa — Loki disse ao meu ouvido, provocando arrepios. Me virei desejando retomar o beijo, porém antes de poder fazê-lo, o deus começou a falar novamente. — Amanhã aquela joia testará você.
— Como todas as outras.
— Acredite em mim, Mente vai procurar o que existe de pior para te atingir — ele falou com certa frieza.
— Pior que o Tempo? — questionei ficando preocupada.
— Não duvide disso — afirmou sério. Sua voz soava preocupada. Eu engoli em seco. Tempo tinha sido, em minha opinião, a pior de todas. Ergui os olhos para ele demonstrando como eu me sentia. O deus me ofereceu um meio sorriso indicando claramente que de nada adiantaria me preocupar por antecipação.
Seus olhos pousaram em meus lábios por um segundo a mais.
Loki tornou a me beijar, assim de repente, afastando meus pensamentos. Eu estava muito próxima a ele de forma que podia sentir contra meu corpo a intensidade do seu desejo. Beijava com ardor e, como sempre, parecia ter urgência em me fazer dele, seus dedos longos procurando por cada centímetro de pele exposta. Seus lábios abandonaram os meus e pousaram no pescoço em beijos e leves mordidas que me arrepiavam, para por fim chegarem a minha orelha que ele mordiscava, me fazendo ofegar. Aquilo parecia o deixar ainda mais excitado.
Eu mesma afastei a cota de couro de sobre os seus ombros, procurando pela barra da camisa, desejando tocar seu corpo. Assim que encontrei a pele do abdome definido, o arranhei levemente demonstrando o quanto eu mesma o queria. O deus afastou o rosto me encarando com o olhar cheio de volúpia, a face levemente abaixada. Permiti que minhas mãos descessem de maneira muito perigosa, enquanto eu aproximava o rosto dele, mordendo minha boca de maneira provocadora, seu hálito contra minha pele deixando-a arrepiada. A tensão entre nós sempre era muito evidente, sempre um momento roubado, um erro sendo repetido de novo e de novo.
Quando passei a língua pela extensão do seu pescoço, o senti estremecer. Ou talvez aquilo fosse efeito da localização das minhas mãos e a forma como o acariciavam. Loki me empurrou contra a parede, afastando a alça fina do vestido de tule, expondo um seio, para em seguida, me erguer do chão pelas pernas, que enlacei ao redor de sua cintura. Eu adorava o jeito como ele me olhava. Sua lascividade era a minha própria.
Ele me mantinha contra a parede apenas com a pressão do seu corpo contra o meu, suas mãos subindo o tecido do vestido, numa pressa louca de encontrar minhas coxas que apertou com firmeza. Sua boca indo de encontro aos meus seios os sugando, desejoso, me fazendo gemer baixinho arqueando as costas, uma corrente elétrica se espalhando por mim. Minha voz soando daquela maneira o fez puxar meus cabelos de um jeito dominador. Eu era dele. Aquilo me fez arranhar suas costas com suavidade e desejo. Sua própria respiração soava entrecortada. Deuses, nós não podíamos ficar na varanda.
— Loki… — sussurrei em seu ouvido o fazendo voltar os olhos verdes para mim. Ele me queria. Ali e agora. — No quarto — ponderei em um tom baixo e urgente. O deus estava visivelmente impaciente, mas me pôs de volta ao chão, recuando comigo para o interior do apartamento que se encontrava silencioso, em busca do quarto de hóspedes. Não adiantaria me preocupar por antecipação. Eu queria mais uma noite de esquecimento nos braços de Loki.
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Eu o acordei, beijando as costas nuas e repletas das marcas vermelhas das minhas unhas. Sentia um peso horrível no estômago. Mente. A última joia. Talvez aqueles fossem nossos últimos momentos juntos. Poderia tê-lo deixado dormir mais, fingir que não havia nada a fazer e teríamos uma manhã pacata de domingo em Londres. Seria uma doce mentira. Eu não fraquejaria.
Loki se virou me olhando, uma expressão sonolenta no rosto. Eu sorri ao encontrar os olhos verdes. Sua expressão alterou-se minimamente para uma que eu não conhecia por um segundo tão breve a ponto de me fazer duvidar da minha própria percepção. Em seguida o olhar frio, distante e calculista estava de volta. Ele segurou uma mecha dos meus cabelos, me puxando em um beijo, sem se importar que eu tivesse acabado de acordar. Calmo e gentil, algo difícil de encontrar nele. Loki se afastou e me encarou por breves segundos, antes de levantar para se vestir. Se tudo saísse como queríamos, hoje cada um seguiria seu próprio caminho. Aquela ideia me nauseava.
Nos vestimos em silêncio e seguimos para a sala. Thor, Jane e Anong estavam tomando café. A televisão da cozinha estava ligada em um desenho animado. Nos sentamos na mesinha circular. O casal nos cumprimentou com um aceno breve. A única comida que me chamou atenção foram as fatias de melancia em uma tigela. Um café da manhã nada inglês. As puxei para mim, arrancando todas as sementes que pude ver e as empurrei de volta para Loki. Ele me ofereceu um meio sorriso e mordeu um pedaço, ainda em silêncio, em uma espécie de piada interna muito específica. Então pareceu notar minha expressão tensa e o olhar perdido com que o encarei, antes de ser capaz de disfarçar. Seu sorriso esmoreceu, trazendo a atenção de volta à comida, talvez imaginando tudo aquilo que eu tentava mascarar. Repentinamente Thor atirou a caneca onde ele estivera tomando café no chão a estilhaçando em pedacinhos e nos sobressaltando a todos.
— Outro! — gritou alto. Jane deu um gritinho agudo com o susto e começou a rir. Olhei para Loki que apenas tapou o rosto com uma das mãos, constrangido, embora eu pudesse ver um sorriso de canto com algum divertimento. Anong simplesmente rolava de rir. Inevitavelmente eu mesma me rendi às risadas. Thor havia conseguido quebrar a maldita tensão.
Terminamos de comer conversando amenidades e rindo de pequenas bobagens. Parecia uma manhã estranhamente comum e agradável. Não pude deixar de reparar que os olhos de Loki, acompanhavam minhas mãos, meus olhares e cada ínfimo gesto. Repentinamente o silêncio. Jane levantou-se da mesa retirando a louça suja.
— Como vai ser? — Thor perguntou seriamente. Me virei para Loki esperando a resposta. Ele abriu a mão, mostrando Espaço e virando-se para mim.
— Você estará em Asgard e aqui ao mesmo tempo. Dois corpos — começou a me explicar. — Se precisar fugir terá como se retirar quase instantaneamente, de volta para o original.
— Isso não vai afetar a noção de realidade dela? — Jane perguntou voltando à sala. Loki a olhou lhe dando algum crédito.
— Vamos manter a mente em apenas um lugar — esclareceu. O deus voltou os olhos muito seriamente para mim. — O que acontecer lá será a sua realidade. Se tiver que fugir, quero que fuja. Mesmo você tendo a opção de transitar entre dois corpos a consciência será uma só. Se for destruída você será um vegetal — explicou, pondo aquilo completamente às claras. Todos me olhavam com seriedade. Eu assenti com certa tranquilidade. Entendia bem a gravidade daquilo que faríamos, contudo estava confiante. Eu já vinha fugindo a tempo demais, tinha quase mestrado nisso. — Acima de tudo, quero que volte imediatamente se encontrar Odin. As chances são mínimas, mas pode acontecer. A lança dele não erra o alvo. Nunca. Você entendeu? — explicou dando tanta ênfase as palavras que me assustava. Eu assenti lentamente.
— E como a mente dela, vai circular de um corpo para o outro? Não pretende usar a joia novamente depois do que aconteceu na nave do colecionador — Thor questionou. Loki ofereceu seu melhor sorriso. Aquilo me fez sorrir também. Ele seria meu motorista. O deus do trovão pareceu perceber a verdade ao ver nossas expressões, a dele próprio se enchendo de surpresa e certa indignação. — Liana, você consegue entender que ele vai dominar e subjugar a sua mente? — me perguntou chocado com meu sorriso e tranquilidade diante da ideia, duvidando da minha completa compreensão.
— Não... — respondi sorrindo para Loki. — Ele só vai me levar passear — comentei displicente. Loki riu baixo diante da minha alusão a uma simples voltinha. Ou da minha loucura iminente. Eu adorava o som da risada dele. Era raro, mas completamente adorável. Se bem que ultimamente ele ria muito mais do que quando eu o conheci.
— Você confia nele? — Jane perguntou como se duvidasse da minha sanidade. Eu a olhei com seriedade, mas não respondi.
— Não reparei em mudanças na segurança do cofre — Thor informou, fazendo o irmão bufar impaciente. Ele duvidava claramente da capacidade do outro de notar um meteoro caindo em sua cabeça. — Mas não subestime nada. Seja rápida e se precisar fugir, fuja — recomendou reforçando a orientação do irmão, uma preocupação legítima na voz.
— Quando você quiser, Liana — Loki convidou, encerrando o assunto. O arco entrou pela sala voando e eu assenti, pronta para ter minha réplica em outro lugar longe de Londres. O deus olhou para a joia.
— Dois corpos. Dois reinos. Uma mente. Um mestre — orientou firme. Não senti nada diferente. Os olhos verdes me encararam por um segundo. Ele sorriu. E me senti desabar em seus braços.
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Repentinamente me vi em meio aos jardins de Asgard. Toquei meu rosto e os cabelos percebendo realmente estar ali, em um corpo que poderia ser o meu, mas algo nele me fazia sentir como se fosse um sonho. O vestido verde me garantia alguma discrição, mas eu não estava interessada em ser vista.
Caminhei com firmeza em direção à entrada do castelo. Sorri ao ver a árvore de peras-melancias ao longe. Os frutos não estavam mais ali, em seu lugar folhas largas amarelo-douradas preenchiam a copa. O vento soprava levemente. Talvez estivéssemos entrando no outono, ou quem sabe no inverno. Ao longe era capaz de ouvir vozes femininas conversando, mas ali tudo parecia estranhamente deserto, ainda assim eu sentia insegurança. Possivelmente a falta que a armadura me fazia fosse o motivo. Mas afinal, Odin tinha retirado todas as tropas do reino?
Entrei nos corredores do castelo e ainda não tinha visto uma alma viva sequer. Por mais que aquilo me garantisse certa segurança era muito estranho. Meus passos ecoavam contra as paredes de pedra. Eu quase conseguia imaginar um Loki criança, correndo por ali, pregando peças no irmão e em qualquer um que fosse tolo o bastante para baixar a guarda. Conhecendo cada recanto do castelo, cada passagem e atalho e cada frequentador. Ele tinha jeito de ter sido um menino travesso. Isso dois mil e poucos anos atrás...
Subi pelos corredores e pela primeira vez passei por alguém. Duas serviçais que me olharam distraidamente, as cumprimentei com um aceno da cabeça e passei por elas com a maior confiança que podia. Aquilo pareceu lhes bastar. Eu estava bem vestida e confiante, andando com um arco em mãos. Asgard tinha poucas guerreiras, disso já sabia. Devia ser o suficiente para acreditarem que eu era visita de outro reino e talvez bem nascida o suficiente para andar desacompanhada, mas precisava me apressar antes que começassem a fazer comentários.
Menos de dois minutos depois, ali estava eu diante da porta preta mais uma vez. O que haveria atrás dela me aguardando? Eu sabia que Loki seguia minha mente, mas não a estava lendo. Era como ser vigiada. Eu não estava sozinha. Levei a mão à maçaneta prateada, mas antes que pudesse tocá-la a porta se abriu.
Nada estava diferente. A sala era a mesma. Centenas de armas brilhando nas paredes e em suportes e ao fundo a caixa preta que Loki uma vez havia me mandado retirar. De volta ao início, para o fim. Meneei a cabeça, receosa, sabendo não poder ser somente isso. No instante que dei o primeiro passo tudo se enevoou.
Minha cabeça estava pesada e eu me senti descoordenada. Por um momento fiquei sem ter noção de nada. Isso era aquele corpo artificial ou algo estava realmente acontecendo. Onde ficava cima e baixo? Perto e Longe? Qual o significado dessas palavras?
Tão repentino quanto a sensação veio, ela se foi. Da primeira vez que estive naquela sala aquilo não tinha acontecido. Deduzi que a joia havia me ignorado em minha última visita por nem sequer ter cogitado levá-la. Agora estava ali por causa dela e Mente certamente me daria as boas-vindas.
Quando pensei em caminhar, uma criança pequena e muito ruiva passou correndo por mim, provocando um arrepio. Onde estavam as armas da sala mesmo? Tudo era absurdamente branco ao redor.
Eu a segui. Não havia uma opção que soasse mais razoável. A menininha sentou-se em um banco de plástico amarelado. Me sentei ao lado dela, o que a fez erguer os olhos castanhos que encaravam as sapatilhas pretas. Ela tinha o rosto inchado. Me reconheci naquele rosto infantil com uma pequena surpresa. Tempo já tinha brincado daquilo uma vez e isso já não me chocava tanto como no começo.
— Liana, onde está a joia da Mente? — perguntei à menina.
— Ela morreu. Ela acabou de morrer — informou de um jeito pesaroso. Aquilo me atingiu como um soco. Não por pensar que de alguma forma a joia não existia mais. Eu sabia que era minha mãe quem tinha acabado de morrer. Senti o ar deixar meus pulmões e aquela emoção morta há tanto tempo me preencheu. A incerteza, a insegurança, o medo. Todos os sentimentos de uma criança pequena que havia acabado de perder sua mãe. Nunca fora uma emoção morta de verdade, apenas empurrada para algum canto escuro permitindo que eu avançasse apesar de sentir sua falta todos os dias, o tempo todo. Era como cravar uma faca em uma ferida dormente.
Então entendi o que Mente faria comigo. Ela não pregaria truques. Ela não dissimularia. Aquela joia iria me ferir como doía mais, porém faria isso às claras, me deixaria entender como e o quanto me atingiria. Buscaria em minha própria mente por sensações. Ela me faria revivê-las. Não era como nenhuma das outras joias que flertavam com o caos e me desejavam morta, pura e simplesmente. Mente me torturaria. Faria com que eu desejasse pela morte.
Desviei os olhos da menina e cambaleei para longe. Minha mãe tinha acabado de morrer. Sua falta era um buraco em mim. As lágrimas vieram quentes ao meu rosto, me desnorteando. Senti falta da sua voz, que eu já quase não lembrava o som, cantando músicas antes de eu dormir, senti falta do seu cheiro e do seu cuidado. Do som da sua risada e a sensação de que tudo daria certo se eu estivesse bem fechada em seu abraço. Mente não me iludia me fazendo crer que ela estava ali. Me fazia ter a certeza de que jamais estaria novamente e do quanto eu estava absolutamente sozinha. Revivia cada perda e cada falta. Não como se tivesse realmente acabado de perdê-la, mas o acúmulo dos anos de sua ausência e o quanto aquilo era ainda latente em mim e seguiria sendo para sempre. Mente esfregava sal em minhas feridas e simplesmente não havia nada que pudesse ser feito. Minha mãe jamais deixaria de ser uma falta torturante, uma ausência irremediável e uma lembrança de uma felicidade quase ingênua. Senti aquilo me atingir com brutalidade. Arquejei com uma dor nada física e muito real. Eu não podia me deixar dominar, precisava achar a maldita joia.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, um homem alto de cabelos, barba e olhos castanhos passou por mim, arrastando uma cadeira. Senti meu corpo estremecer de maneira involuntária. Eu sabia o que vinha a seguir. Não corri até ele, nada o faria parar. Aquilo era imutável.
— Pai... não, pai... — balbuciei, mesmo sabendo que de nada adiantaria. Não era o rosto de Howard Stark que nada significava para mim, mas o de um Schroeder como eu. Ele parou embaixo de um ventilador de teto que segundos antes não estava ali, amarrou uma corda e fez uma oração em alemão. Senti meus braços e pernas dormentes. Eu o havia achado morto ao voltar da escola. Agora estava vendo a morte. Meu pai puxou uma fotografia pequena do bolso da camiseta, seu olhar era pura dor. Seguia irremediavelmente apaixonado por uma lembrança. Minha mãe, linda como uma modelo, sorria seu sorriso perfeito. Aquele sorriso que sempre disseram ser nossa maior semelhança em desfeita aos cabelos ruivos e corpo esguio. Ele beijou a foto e então chutou o encosto da cadeira a fazendo tombar.
Desviei os olhos bem na hora, um gemido sofrido me escapando. Sentindo a garganta trancar, encarando o chão fixamente, meus olhos arregalados pelo horror. Eu podia ouvir a corda estalando. Podia ouvir o ar lhe faltando, um chiado estrangulado lhe escapando e o som do corpo se batendo em movimentos involuntários. Eu apertava as mãos, enterrando as unhas na carne. Aquilo durou uma eternidade. O silêncio surgiu. Eu não devia olhar, mas agi sem controle de mim mesma.
Como da primeira vez, meu primeiro pensamento ao vê-lo foi o de que a corda devia machucar. Um pensamento infantil. Então a verdade me veio clara e dolorida. Eu estava sozinha. Uma dor dilacerante.
Não tinha sido motivo suficiente para ele continuar. Ele não se perguntara em nenhum momento o que aconteceria a uma menina da minha idade sozinha? Eu não bastava. Eu era nada. Ele tinha me abandonado. Raiva.
Me mandariam de volta à Alemanha. Eu viveria em um orfanato qualquer. As pessoas sentiriam pena da filha do suicida. Eu não queria que sentissem pena de mim. Era tudo que eu não queria. Medo.
Desviei os olhos tentando dominar aquele turbilhão de sentimentos. Eu precisava me focar. Onde estava aquela maldita joia? Por mais que eu tentasse, as sensações me vinham em desordem e doloridas. Mente estava buscando em mim o que me assustava e me prendendo naquele inferno de emoções. Eu era prisioneira de mim mesma. Estava plenamente consciente para sofrer por antecipação. Para sentir cada milésimo de agonia me percorrer. As sensações não desapareciam, mas se acumulavam.
Um homem cheirando a álcool surgiu a um canto. Merda. Eu comecei a correr antes que ele me tocasse. A joia. Pegar a joia. Aquelas sensações não me dominariam. Senti a mão molhada de chuva resvalar na minha pele. Onde estava Loki? Ele me pegaria. Eu não conseguiria me defender. Eu precisava de ajuda. Aquele animal me estupraria. Se não acontecera da primeira vez, aconteceria agora. Meu coração gritava por socorro. Pânico.
O homem desapareceu tão repentino como tinha surgido. Nesse momento eu quase não conseguia fazer mais nada. Me escorei a uma parede branca que estava ali largada. Eu queria que me tirassem dali. Que explodisse a maldita joia. Que se fodesse a S.H.I.E.L.D., Asgard e todo resto. Eu queria que aquilo parasse.
Loki me tiraria dali. Foquei meus pensamentos nele. Eu não o sentia me vigiando. Um pânico novo tomou conta de mim. Achei que dessa vez fosse desmaiar. Eu estava sozinha, Mente o havia tirado dali. Eu estava presa em mim mesma. Em meu próprio medo.
Um grito estridente e agoniado cortou o ar, me sobressaltando. O que era aquilo? O que viria a seguir? Eu não sabia quanto mais eu podia aguentar. Ainda assim, me vi caminhando em direção ao som. Alguém sofria. Senti meu estômago se desmanchar. Eu conhecia aquela voz. Era Loki.
Senti meus joelhos fraquejarem. Ele estava de volta às algemas na parede. Natasha Romanoff fazia desenhos em seu rosto usando a lâmina de uma faca, desfigurando e ferindo. Loki sustentava seu olhar com a mandíbula trancada e o ódio pronunciado de uma maneira assustadora. Se recusava a emitir qualquer som, o suor escorrendo misturado ao sangue. Ela sabia que as feridas cicatrizariam até o dia seguinte para então poder repetir aquilo. Para ela aquilo era justificável. Eu não fazia ideia de como havia sido o treinamento de Natasha, porém podia entender como a seus olhos ele era um inimigo e o que se desenrolava ali plenamente justificável. Eu desejei matá-la.
Um homem enorme surgiu a partir do nada e a ruiva lhe disse algo em russo. Ele assentiu e simplesmente iniciou socos e chutes tão fortes que teriam me colocado inconsciente em segundos. Ele golpeou o deus com as mãos fechadas em concha na altura das orelhas. Aquilo teria me deixado surda e, no entanto, Loki apenas meneou a cabeça sem fazer um ruído. Natasha assistia aquilo calada, seu rosto impassivo. Eu desejei ouvir cada grito do corpo dela.
O homem se retirou após o que me pareceram horas. Loki chacoalhou a cabeça recusando-se a perder a consciência. Estava pálido, mas seguia se recusando a responder as perguntas da agente. Então ele próprio fez uma à Viúva Negra.
“Onde ela está?”
Senti o desejo de arrancar meu próprio coração fora e acabar com aquelas sensações. Natasha apertou os lábios, balançando a cabeça inconformada sem responder, se retirando. Então vieram os choques. E dessa vez a voz de Loki foi ouvida.
O corpo do deus se batia enlouquecido, um urro de pura dor e angústia que me assombraria até o fim da vida. E Natasha não fazia aquilo parar. Eu desejei destruí-la de todas as maneiras que eu pudesse pensar. Eu a queria se debatendo em minhas mãos. Eu queria ver o medo em seus olhos. O sofrimento dela seria a minha paz. Eu queria vingança.
Os gritos dele me deixariam louca. Queria ir embora. Aquela joia era demais para mim, eu não sabia como chegar a ela, como dominá-la. Não era capaz de dominar a mim mesma. Me encolhi no chão o assistindo sofrer. Seu próprio sofrimento era o meu. Desejei morrer. Queria que aquilo acabasse. Eu não podia mais.
Um homem muito velho aproximou-se de mim. Tinha um tapa-olho dourado. Eu sabia quem ele era. Como Odin estava ali era o que eu não sabia.
O deus olhou com indiferença o filho que sofria as minhas costas. Como se não fosse nada. Seu único olho voltou-se para mim.
— Cansada disso? — perguntou, me olhando de cima. Eu não tinha forças nem sequer para assentir. Estava afundada em mim mesma. Desejei que me matasse de uma vez. — Você tem medo de poucas coisas. Mesmo para uma midgardiana. Demonstre não ter medo da morte e entregue-se a ela.
— Faça parar — pedi em voz baixa. Ele riu ao ver que eu ainda não estava disposta a fazer por mim mesma, apesar de ter minha aljava com flechas afiadas a disposição.
— O medo existe apenas na sua mente. Não deixe te rodear — disse alheio a tudo. Eu percebi enfim que ele não estava realmente ali. Era parte da armadilha, não um Odin real. — Você deve fazer parar — informou. Abri minha mão, encarando as joias que eu tinha. Alma seria quase inútil. Era de longe a mais fraca de todas as joias nesse momento. Espaço certamente não me tiraria dali. Restavam Realidade e Poder, uma combinação perigosa. Me decidi pelo Poder brilhando de maneira provocativa, desejando chamar minha atenção.
Levantei do chão com muito esforço. Encarei o único olho bom da ilusão que era Odin. O medo existia apenas na minha mente. Aqueles eram meus medos.
— Tudo aconteceu assim? — perguntei por fim. Ele sorriu.
— Cada segundo — informou com um sorriso ínfimo. Me senti estremecer.
` — Eu quero subjugar você — afirmei sem floreios numa voz monocórdia.
— E ainda assim está sendo conduzida por mim, desde que chegou aqui — A representação de Odin falou. Eu estava presa dentro de mim. — Conduza você mesma — sugeriu calmamente. Eu não era mais capaz de sentir nada. Me sentia oca. O medo existia apenas na minha mente. E estávamos nela. Olhei para Loki amarrado e abatido. Fiz um gesto fluido com a mão do arco e toda aquela imagem sumiu. Eu não queria ver aquilo e não veria. Não queria nada daquilo. Desejei que a joia se mostrasse como realmente era. Aquela era a minha mente. E eu tinha Poder para decidir como funcionaria.
Uma mulher magrela, de cabelos negros quase até os joelhos, muito desgrenhados e olhar agitado, vestindo farrapos, adornada com colares e pulseiras da mais fina prata e simplesmente imunda, surgiu no lugar de Odin. Era Mente. Em toda sua loucura.
Cada sensação ainda fervia dentro de mim, contudo uma se sobrepunha a todas as outras. Vingança me percorria como o mais doce dos venenos. Eu segurei a mulher pelos cabelos e ela se debateu, o que me fez puxar ainda mais forte. Eu tinha Poder para dominá-la. A atirei no chão com força e a chutei no rosto. Eu podia senti-la tentando me dominar em resposta, mas Poder a mantinha afastada. Ela era a culpada por aquele turbilhão de emoções. Ela me fazia sofrer e eu a faria pagar.
— A joia! — rosnei numa voz que não soava como a minha. A mulher choramingou. Me atirei sobre ela, uma faca surgindo nas mãos. Eu era livre ali para ter o que quisesse. Eu tinha Poder para isso. Natasha tinha me dado muita inspiração e Mente parecia saber. Ela se encolheu, um pequeno cubo azul brilhante, envolto em vidro, surgindo acima de sua cabeça. Eu o agarrei sem pestanejar e a mulher desapareceu em meio ao nada. E tudo desapareceu em meio ao nada.
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Abri meus olhos e vi o tecido amarelo do sofá. Minha cabeça pendia para frente, mas eu estava apoiada pelas costas no móvel. Simplesmente abri os olhos e fiquei ali, absorvendo aquele inferno de emoções que ainda se agitavam em mim. Não movi um músculo, não tinha energia para isso. Achei que talvez pudesse vomitar.
— Liana? — a voz de Loki me chamou alarmada. Havia me perdido no caminho e ao erguer os olhos, me deparei com o rosto dele, próximo ao meu, uma expressão de preocupação ocupando as feições. A lembrança de seus gritos e seu corpo se debatendo me atormentaria o resto da vida. Minha reação ao ser chamada fez com que todos suspirassem em alívio.
— Graças a Deus! — Jane exclamou abraçando Anong.
— De nada — Loki respondeu displicente, sem perceber meu estado. Eu, no entanto, não falei. Apenas continuei o encarando tentando coordenar minha respiração. Me inclinei para frente, apoiando a testa no ombro dele. Aquilo fez todos se calarem. O príncipe se virou me olhando preocupado. — Liana? — chamou novamente, em um tom tenso. Ergui os olhos para ele, mas me senti incapaz de falar. As sobrancelhas se franziram com minha falta de reação. Achei que sair de lá acalmaria as emoções, porém elas continuavam ali. Vívidas como uma ferida reaberta.
— Faça parar — pedi com a voz fraca e rouca.
Aquilo pareceu deixar todos em alerta. Loki segurou meu rosto nas mãos encarando-me com seus olhos anuviados. Sustentei seu olhar de modo apático. Então o senti invadir minha mente, sem questionar. Ele procurava o que estava errado e eu não me importava. Perscrutou tudo aquilo que Mente limitara a ele. Sua expressão se alterou para o verdadeiro horror em questão de minutos.
Thor pareceu notar e se pôs de pé, abrindo caminho. Correu para o corredor e abriu a porta do quarto.
— Aqui, Loki — orientou firme. O irmão me pegou no colo, me fazendo derrubar o arco das mãos. Eu não me importava. Entramos todos no quarto e ele me deitou com extrema gentileza na cama. — O que aconteceu com ela?
— A joia tentou levá-la à loucura — explicou breve, mesmo sabendo como havia sido muito mais complexo que isso. — E quase conseguiu.
— O que você vai fazer? — Jane perguntou, vendo-o sentar ao meu lado, segurando meu rosto nas mãos.
— Roubar o que quer que a esteja machucando — falou convicto e mortalmente sério.
Thor e Jane se entreolharam com certa cumplicidade. A frase dele me pôs em alerta. Roubar minhas emoções? Aquilo que estava me enlouquecendo? Não. Eu queria o desejo de vingança fervendo dentro de mim. Precisava direcionar o que sentia a alguém ou aquilo me destruiria. O queria exigindo ser satisfeito quando encontrasse Natasha Romanoff. Eu a faria pagar.
Afastei a mão dele com gentileza, apesar do brilho doentio em meus olhos. Ele observou franzindo as sobrancelhas com preocupação enquanto eu entrelaçava os dedos dele entre os meus.
— Vou ficar bem — prometi mais para mim do que para ele, forçando um sorriso extremamente artificial. Abri a mão mostrando a joia. — Fique com ela. Não a quero.
— Não, você não vai ficar bem — Discordou categórico, ignorando meu pedido. Talvez devesse lhe dar algum crédito, Loki entendia mais de mentes do que eu. A preocupação dele me fez sorrir com alguma sinceridade mínima.
— Não tente me consertar — respondi com uma sombra de humor. — Não estou quebrada. Agora pegue a joia.
— O que aconteceu lá? — Thor perguntou, enquanto atendia aos pedidos de Anong por colo. A menina me encarava como se eu estivesse morrendo. Forcei um sorriso para ela, antes de trazer a atenção a Loki.
— Aconteceu que terminamos de buscar — me ouvi dizer num tom cansado. Seus olhos encontraram os meus, entendendo que de certa forma eu parecia esperar ser largada para trás de imediato.
— Saiam — Loki mandou cheio de autoridade, a frieza marcada nas sílabas. Achei que o irmão fosse lhe dar um murro, mas Jane assentiu olhando para mim e empurrando o namorado para fora.
Nós nos encaramos por alguns minutos. Eu não me sentia nada melhor. Olhar para ele me fazia desejar ter Natasha entre os dedos e esmagá-la como a um inseto. Eu ainda faria isso. Ele pegou a Mente de sobre minha mão e uma sensação de alívio me percorreu. O pesar e a tristeza se foram como se um peso tivesse sido removido. Apenas o meu legítimo desejo de vingança permaneceu.
— Como vou te passar essas joias? — perguntei incerta. Eu tinha medo da resposta.
— Por que está com tanta pressa?
— Eu pensei… pensei…
— Quero saber como você se sente de verdade — cortou, ignorando minha pergunta e minhas incertezas.
— Loki... eu vou ficar bem.
— O que a joia te mostrou? — interpelou. Eu suspirei sabendo que ele não desistiria.
— Me fez reviver sensações. E presenciar coisas que eu só tinha imaginado — respondi de maneira vaga. Ele continuou me encarando, demonstrando que queria detalhes. Desviei o olhar. — Vou matar Natasha Romanoff — comentei, enfim. Aquilo o fez fechar os olhos com força, crispando os lábios. Ele segurou minha mão, a apertando entre os dedos com gentileza.
— Isso não tem nada a ver com você — cortou, sua voz soando fria como sempre, a despeito do gesto carinhoso, tentando descartar minha ideia. Devo tê-lo olhado com uma expressão doentia. Eu sentia o ódio fervendo dentro de mim.
— Olhe bem para mim — falei pausadamente. — Você realmente acha que não? — Vi as sobrancelhas subirem com surpresa. Lokisuspirou em desistência. Ninguém iria me dissuadir.
— Você pode fazer o que quiser com ela, mas eu vou matá-la — falou de um jeito que soava, no mínimo, macabro. Eu sorri como se estivéssemos combinando de ir jantar. Loki conseguia me fazer sentir melhor. Ou talvez fosse a falta de contato com aquele cubo pavoroso. — Quanto às joias, temos um problema — prosseguiu. Aquilo apagou meu sorriso de maneira instantânea. Ele me deixaria. Depois de tudo aquilo, tinha chegado a hora de ficar para trás. — Precisamos de uma peça chamada Manopla do Infinito. Com isso podemos juntar as joias, independente do mestre — explicou. Aquilo me deixou estarrecida. Chocada. Nossa aliança não estava acabada? Ainda tínhamos algo a fazer? Aquelas palavras me encheram de uma alegria que eu não era capaz de expressar. Permiti que uma risada escapasse levando todo aquele peso embora. Tínhamos mais uma missão. Mais um dia. Ele pareceu notar meu regozijo, contudo não disse nada. Apenas encarou as mãos sobre as cobertas de um jeito reflexivo. — Ela estava em Asgard junto com a Mente. Eu teria lhe dito para buscá-la, mas Thor me disse que Odin a enviou a outro lugar. Devia ter dito isso, mas achei que fosse tirar sua concentração — refletiu de maneira astuta, demonstrando ter pensado muito no assunto. Ele estava certo. Como sempre.
— Onde? — perguntei, embora a resposta soasse no fundo da minha cabeça como em um alerta.
— A S.H.I.E.L.D. — respondeu seriamente. Eu poderia rir. As coisas nunca eram simples.
— E quando vamos?
— Acha que está em condição? — questionou, esquadrinhando meu rosto, duvidando claramente de mim.
— Está preocupado? — interpelei, estreitando os olhos na direção dele. Loki tinha o dom de me fazer sentir bem. Ele fez um muxoxo impaciente.
— Você está ótima — concluiu ecoando deboche. Eu ri baixo, de um jeito que o fez sorrir de canto, antes de desviar o olhar. — Descanse, irei planejar o próximo passo enquanto isso.
— Não estou cansada — respondi distraída, vendo-o caminhar para a porta.
— Mas vou deixar — rebateu malicioso, tentando me fazer calar pelo constrangimento. Aquilo me fez rir e me ajeitar nos travesseiros. Loki sorriu de um jeito apagado. — Não pense muito no que você viu — pediu como se fosse perfeitamente possível.
Eu aguardaria por seus planos. Eu aguardaria por ele. Afinal tínhamos mais um dia. E eu mesma tinha planos a fazer. Uma russa experimentaria os horrores que uma alemã pudesse proporcionar.
Talvez a joia da Mente tivesse realmente me roubado a sanidade.
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