God of Mischief | Loki
23 Capitulo 22: Em Dois Lugares
Notas iniciais
Ela cochilava no chão, deitada de bruços como a deixara, a cabeça apoiada em um dos braços. As sardas se espalhavam pelo rosto feminino descendo mais abaixo como faíscas sobre a pele. Não era uma mulher voluptuosa, mas havia algo nas curvas delicadas e longilíneas do seu corpo que lhe atraíam o olhar. Liana era bonita, era difícil não notá-la.
O corte na testa estava inflamando e mal cuidado, reparou. Se ela não tratasse aquilo direito conseguiria uma infecção. Humanos eram frágeis. Ela era frágil. Ele a odiava por isso.
Loki apoiou o antebraço na própria testa e continuou a observando. Os cabelos ruivos ainda úmidos da chuva espalhados em ondas pelo chão e a boca entreaberta enquanto ressonava, lhe davam uma aparência doce escondendo com facilidade a força que tinha. Liana era frágil como vidro e tão afiada quanto um.
Ele nunca havia esperado que uma humana pudesse ser tão resistente quanto ela. Se Jane Foster o tinha impressionado, não existiriam palavras para definir Liana.
Ela se mexeu, chegando mais para perto dele, apoiando a cabeça em seu ombro. A pele do corpo estava gelada pelo contato com o chão. Loki não disse nada. Simplesmente aceitou se aproximação, passando um braço ao redor das costas, a aquecendo como podia. Liana tinha um aroma adocicado e feminino.
— Vá dormir na cama — mandou, com a boca encostada contra os cabelos vermelhos.
— Vem comigo, então — Ela convidou erguendo os olhos sonolentos, o encarando. A mulher não esperou resposta, apenas começou a se levantar, abandonando definitivamente o roupão, e a beijá-lo ao mesmo tempo, o puxando pelas mãos. Loki cedeu, seguindo-a, correspondendo aos beijos, enquanto ela recuava para o quarto.
Liana pegou a camisola de seda preta de sobre a cômoda, ainda o beijando e se afastou o suficiente para vesti-la. Ao fazê-lo, atirou-se de costas na cama e bateu duas vezes ao lado, convidando-o. Ela sorria abertamente, como se realmente se agradasse de sua companhia. Sorria daquela forma que o destruía completamente. Sempre tinha um sorriso amplo no rosto. Bastava ele olhar para ela rapidamente, o sorriso surgia aquecendo os olhos escuros, iluminando os cabelos vermelhos. Sempre sincero. Liana não saberia fingir algo assim. Não estava acostumado com sorrisos sinceros, pelo menos não direcionados a ele. A mãe sorria muito daquele jeito. Thor também, embora em menor frequência. Liana sorria assim sempre.
Ele podia perceber nos olhos dela que estava apaixonada. Sentia no tom de sua voz, quando falava displicente, na linguagem corporal, na maneira como seu corpo respondia ao dele. Não seria a primeira e definitivamente não seria a última, mas talvez fosse a única a ignorar que era irmão do Príncipe herdeiro de Asgard, filho do rei. Mesmo que a relação de ambos fosse ruim, ainda existia status em estar ao lado de Loki, o que acabava por atrair muitas e muitos candidatos em busca de ascensão social. Para ela não era sequer um detalhe digno de nota.
Ambos estavam muito esclarecidos sobre o que havia entre eles. Liana não seria correspondida. Ele a deixaria tão logo tivesse as joias. Era uma mera humana e estavam apenas aproveitando a companhia um do outro. Mais do que nunca, sabia como a magoaria.
Loki pegou um roupão preto de um cabideiro e o vestiu antes de sentar-se ao lado dela trazendo seus pensamentos de volta à realidade. Liana deitou-se, o conduzindo pela mão a acompanhá-la, então apoiou a cabeça novamente em seu peito, encaixando-se ali, ainda sorrindo satisfeita. Ele quase apagara seu sorriso. Depois disso, comprometera-se a devolvê-la à sua vidinha com segurança. Sua mãe a tinha escolhido, era uma protegida de Frigga. Ele poderia esquecer Midgard por 70 ou 80 anos. Depois que ela se fosse cuidaria daquele lugar. Permitiria a Liana terminar seus dias com tranquilidade. Faria isso como uma forma de retribuição e compensação. Faria aquilo porque a mãe ficaria satisfeita se fosse assim. Sua vontade de vê-la sorrir nada tinha a ver com essa decisão.
Liana poderia conhecer alguém, casar, ter filhos, envelhecer e se ir. Uma vida digna e sem sobressaltos. Em 70 ou 80 anos, talvez menos. Loki não se importava. Humanos eram brevidades do universo. Em 70 ou 80 anos. Provavelmente menos. Quase um suspiro. Se ele fechasse os olhos ela não estaria mais ali.
— Loki? Você me escutou? — a mulher perguntava erguendo o rosto para ele com uma expressão impaciente, os lábios volumosos apertados.
— Claro — respondeu sem ter a menor ideia do que ela estivera falando.
— Então por quê? — parecia repetir uma pergunta. O deus desviou os olhos sem saber qual era o assunto. Liana o cutucou acima do joelho, fazendo uma careta, diante da desatenção dele. — A comida continuou vindo. Por quê? — ela repetiu.
— Benção de Frigga — afirmou simplesmente. Ela pareceu satisfeita com a resposta.
O silêncio caiu sobre eles. Não deveria ficar assim, junto a ela. No entanto, antes de poder se afastar, a humana virou-se novamente o fitando.
— Preciso me desculpar — falou com uma expressão séria, seu tom de voz era polido. — Disse um monte de bobagens, e eu não acredito em nada daquilo. Estava com muita raiva, mas não é justificativa. Não deveria ter dito — explicou tensa. Liana tinha enfiado agulhas em um ponto sensível e agora as tirava com a mesma facilidade. Apesar de não conseguir sentir as intenções dela sem ser notado, as palavras soavam verdadeiras. Muito tempo atrás Loki tinha escolhido ignorar aquele tipo de comentário, mas essa era a primeira vez que alguém se desculpava por isso.
— Tudo bem — respondeu, no que pretendia um tom frio e indiferente. Um sorriso ínfimo surgiu nos lábios da mortal. — Vocês falam e fazem bobagem com frequência — completou, provocador, um sorriso de canto brincando em seus lábios. A mulher ofereceu um olhar reprovador, e lhe deu um tapinha na perna, rindo baixo.
— E você não faz nada errado, não é? — alfinetou em um tom brincalhão, balançando as mãos de um jeito descoordenado. Ele sorriu. Era engraçado como ela não sabia o que fazer com as mãos quando não tinha um arco nelas.
— Às vezes — respondeu de um jeito apaziguador. — Como pegar doze portais errados pelo universo para chegar aqui — exemplificou com desdém. Liana o olhou surpresa.
— Foi assim que você chegou? — quis saber, franzindo as sobrancelhas. Loki assentiu distraído. Ela parecia impressionada. Ele desviou os olhos, mantendo-se sério.
Dessa vez ela parecia tranquila, feliz. E não cheia de culpa e preocupação como da última. Loki não sabia o que tinha mudado e se tentasse descobrir Liana ficaria furiosa. Era cômico que uma das poucas pessoas que eram um mistério para ele, fosse humana. Ela duraria tão pouco que provavelmente não teria tempo de descobrir todas as nuances de humor, todos os gostos e manias. Apenas mais uns 70 ou 80 anos. Seria um choque. Seria como uma batida de coração. Ele nunca estaria preparado. Uma vez tinha dito algo semelhante a Thor... Como o irmão aguentava aquela situação?
— Liana, quantos anos você tem? — se ouviu perguntando antes de poder reprimir a curiosidade.
— Tenho 21 — respondeu, acompanhando as linhas da mão dele com os dedos. Loki quase riu. Ela tinha a idade de uma criança de colo asgardiana, embora fosse uma mulher feita em Midgard. — Mas não falta muito para o meu aniversário. — Isso Loki sabia, o dia de Frigga marcava a data e estava chegando. — E você? — ela perguntou erguendo os olhos cheios de curiosidade, atraindo sua atenção.
— Muitos — respondeu de um jeito evasivo. Ela se virou rindo.
— Quantos? 300? — indagou em tom de brincadeira. O deus negou com um aceno breve, sério. Ela não pareceu notar. — 500? — continuou arriscando. Isso tinha sido há muito tempo. — 700? 900? Pelo amor de Deus, quantos anos você tem? — insistiu achando graça. Então ela finalmente notou a seriedade nos olhos dele. A expressão de Liana se anuviou.
— Eu tenho 1051 — o deus respondeu, colocando uma mecha de cabelos ruivos para trás de uma das orelhas da mulher, perscrutando os olhos castanhos e vendo a verdade atingi-los. Liana olhou para as próprias mãos, parecendo confusa. Ele entendia o motivo. Se refletisse por um momento perceberia que Frigga falecera com uma idade superior a atual contagem do tempo de Midgard. Em que ano estavam? 2014? Quase 2015? O deus era anterior a todos os ancestrais de que ela fosse capaz de lembrar e possivelmente ainda estaria ali depois que sua descendência a esquecesse.
Liana se calou, encarando o nada. Se antes parecia tranquila, o peso havia voltado aos olhos escuros. O sorriso tinha sumido. Nenhum dos dois sabia bem o que dizer. Loki percebeu que antes disso, ela não tinha nem noção do abismo entre eles. Ela seria um segundo. Ele, a eternidade.
Loki beijou os cabelos dela, desceu os lábios para o rosto, mas se interrompeu antes de chegar à boca. Ela, que sempre tinha um olhar atento e sagaz, ergueu os olhos vazios de tudo isso, porém repletos de tristeza. Ele sentiu a própria expressão se alterando. Liana tentou forçar um sorriso, no entanto tudo que conseguiu foi um esgar. O deus preferiria que tivesse gritado com ele. Beijou os lábios dela, provando-os lentamente. Estavam trêmulos como se estivesse prestes a chorar. Foi ela quem se afastou, abaixando a cabeça.
— Amanhã o dia será cheio — comentou num tom que pretendia normal. Sua voz soava uma oitava mais aguda. Liana virou-se de costas para ele. — Boa noite. — Loki não respondeu. Nunca respondia. Ficou encarando as costas da humana. Ela era um segundo. Mais uma noite insone a caminho. Como Thor aguentava aquilo? Ele a devolveria ao seu mundinho em segurança.
E isso nada tinha a ver com sua vontade de vê-la sorrir.
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Fui a primeira a despertar na manhã seguinte, uma rara exceção à regra. Saí do quarto o mais silenciosamente que pude. Achei o roupão no chão da sala. Estava determinada a deixar de lado a autopiedade. Eu seria feliz pelo tempo que pudesse e ponto. O depois resolveria como desse.
Sempre havia gostado de caras mais velhos. Meu primeiro namorado fora seis anos mais velho. E desde lá sempre tinha sido assim... Steve não chegara a ser propriamente um namorado, pelo menos assim eu pensava, mas claramente havia um padrão. Contudo isso era um pouco demais.
Comi alguma coisa em que não prestei atenção. Tomei um banho demorado e vesti um vestido longo de cetim rosa, com decote quadrado. A ave dourada enfeitava as costas. Loki continuava dormindo e mesmo sabendo que precisávamos ir eu não tinha coragem de acordá-lo. Às vezes, por um breve segundo, me sentia abatida. 1051 era muito tempo. Eu era nada, mas estava cansada de me sentir destruída. Ele era meu enquanto pudesse mantê-lo ali e era a isso que me agarraria. Talvez esse fosse o motivo pelo qual não estava realmente com pressa de seguir viagem.
Peguei meu arco e fui para o campo que havia em frente a casa. Escolhi algumas árvores de tronco fino e que estavam a uma distância razoável e então comecei a disparar. Minha mira estava impecável. Alvos parados tinham se tornado ridiculamente simples. Resolvi tentar atirar mais rápido. Testar a velocidade. Armar e soltar. Sem mirar. Sem pensar. Apenas sentir o arco. Ele era uma extensão de mim, tão fácil de manejar quanto era fácil de respirar. Cravei três flechas uma ao lado da outra, separadas por uma distância mínima.
— Você não precisa praticar mais do que já tem feito. — A voz de Loki surgiu de um ponto às minhas costas. Me virei e ele estava encostado na porta da casa, ainda embrulhado no roupão preto. Eu sorri amplamente quando o vi, incapaz de me refrear. O deus franziu as sobrancelhas por um segundo fugaz, enquanto eu caminhava para ele.
— Então você vai praticar — sugeri, mordaz o provocando. Loki apenas ergueu uma sobrancelha olhando de mim para o arco. Ele não podia segurá-lo. Passei por ele e entrei apressada na casa, abrindo o primeiro baú que vi. Como eu sabia que aconteceria havia um arco ali, uma luva protetora e uma aljava com uma dúzia de flechas. Loki me olhava, escorado com displicência ao batente da porta, com incredulidade. Entreguei o arco e a aljava para ele que os segurou a contragosto.
— Eu não sei usar isso — admitiu num tom contrariado. Olhei para ele com uma expressão exagerada de choque. — Príncipes lideram exércitos. Vão para o campo de batalha e não ficam atirando protegidos pelas muralhas de um castelo enquanto os soldados ficam com a diversão de verdade — falou com um tom de superioridade e certa indiferença. Fiz uma careta diante daquilo.
— Vamos lá, alteza. Vai ser legal — insisti devolvendo o deboche. O ajudei a colocar a luva. Não pude reprimir uma risada ao ver que ele realmente não tinha muito jeito com a arma. Não era possível que realmente não tivesse treinamento nenhum naquilo. Imaginei que preferia treinar com o irmão e por isso talvez tivesse negligenciado outras opções.
Eu mesma armei meu arco, mostrando a ele. Loki suspirou impaciente e repetiu meu movimento. Me aproximei dele, corrigindo a postura. Ele levantava muito o ombro tensionando a corda e a esticando pouco. — Olha por aqui para mirar — disse, indicando a mira de fibra ótica. Ele olhou pelo círculo e então soltou. Sua flecha se cravou na árvore um pouco abaixo das minhas. Para um primeiro disparo estava excelente. Me virei pra ele sem alterar a expressão. — Não sabe usar? — perguntei numa voz tediosa. Loki riu. Era algo raro de se ouvir.
— Juro que nunca tinha tentado — falou, erguendo as mãos ao lado do corpo num gesto de rendição. Foi minha vez de rir. Deuses.
— Ainda bem que Asgard não participa das Olimpíadas... — comentei, pegando o arco dele e o tensionando, sem colocar flecha. — Seria bom se o arco tivesse um amortecedor. A corda pararia de balançar e você provavelmente conseguiria acertar o mesmo ponto que as minhas. Talvez se usarmos uma dragona... — expliquei pensativa, mexendo na corda de fibra. Loki tirou a arma das minhas mãos.
— Certo, arqueira — cortou, me trazendo para perto pela cintura. — Vamos almoçar e precisamos sair — disse sério, me dando um beijo rápido. Ele entrou na frente e fiquei ali enquanto minhas flechas voltavam à aljava. Respirei fundo. Não haveria descanso por mais que eu quisesse.
Belisquei algo e corri me organizar para partirmos, indo atrás dele carregando a armadura. Loki já estava pronto, tendo conjurado a lança e o elmo. Ele me ajudou a ajeitar a proteção, mas tinha uma expressão tensa no rosto.
— Tudo bem? — perguntei me virando para ele. O deus sustentou meu olhar, firme.
— Liana, o lugar aonde vamos não vai ser fácil como os outros. Espaço está protegida por mais que seu próprio poder — advertiu com seriedade. Os outros tinham sido fáceis? Qual parte, por favor? — Não importa o que veja ou ouça. Quero que se mantenha no caminho e não toque em nada — orientou muito sério. Agora estava ficando realmente preocupada. Estava acostumada a ir sem muita instrução sobre o que viria pela frente. — Se eu mandar correr, você corre. Se eu mandar atirar, você atira. E acima de tudo: Silêncio.
Ele terminou de apertar a armadura e seguimos viagem.
Chegamos a um lugar estranho. O céu era negro e repleto de estrelas, apesar de termos saído pouco depois do almoço. Ao redor tudo era feito de rochas. Loki escolheu uma direção e começamos a seguir por ela no mais perfeito silêncio. Então após poucos metros ele se interrompeu e cravou a ponta da lança no chão de pedra. Quando puxou uma tampa se abriu, revelando um alçapão. Então eu entendi. Aquilo era uma nave. Estávamos do lado de fora. Eu não fazia ideia de como isso era possível. A nave simulava a gravidade de algum planeta?
Ele pulou para dentro com facilidade. Eu fiquei encarando o buraco. Dali até onde Loki estava devia haver uma distância de pelo menos dez metros. Olhei para ele e balancei a cabeça negativamente. Se pulasse, quebraria uma perna. O deus largou a lança a um canto e cruzou os braços diante do corpo me encarando. Eu o imitei, pondo o arco de lado e fazendo o mesmo gesto. Loki apertou os lábios em advertência. Não devia gritar durante a queda. Fechei os olhos com força, respirei fundo umas duas vezes, tomando coragem e me joguei de costas. Se ele não me segurasse eu viraria panqueca.
Ouvi o ar soprar pelos meus ouvidos e então um baque suave. Loki me parou em seus braços como se fosse super simples. Possivelmente era. Me pôs de pé e fez sinal para chamar minhas armas. Elas vieram ao menor pensamento. E então meus olhos encontraram o que havia para ser visto ao redor.
Dezenas, centenas de recintos envidraçados, repletos de plantas dos mais diversos tipos. Algumas se mexiam, outras mal cabiam nas saletas, algumas não passavam de sementes. Loki levou o dedo indicador aos lábios, indicando que eu deveria permanecer em silêncio. Um lembrete constante. Assenti e o segui avançando pelos corredores abarrotados. Seguimos durante vários e vários metros.
Aos poucos as plantas começaram a ser substituídas por animais. Desde os mais pequenos até os enormes. Alguns pareciam ter dificuldade para caminhar e se batiam nos vidros. Outros estavam muito magros, embora houvesse comida em tigelas. Uma coisa todos tinham em comum. Um olhar vítreo.
Loki mal observava os arredores, seguia avançando por entre os recintos. Eu o seguia de perto, procurando não prestar muita atenção nas coisas estranhas enclausuradas. Então dobramos um corredor e o choque me atingiu como um soco. Haviam pessoas presas.
Eu parei e senti minha boca se abrir, surpresa. O deus se virou para me olhar. Seu rosto vazio de emoção. Frio. Indiferente. Aquelas pessoas não significavam nada para ele. Ergui meus olhos para um recinto ao meu lado. Dentro havia uma mulher com asas de águia. Ela não possuía boca visível, mas sim um bico de ponta recurvada, encaixado sobre o rosto. Os cabelos mudavam em um degradê suave de fios para penas castanhas.
Andava aleatoriamente pelo recinto pouco maior que um quarto. Seus olhos estavam turvos, tentou se focar em mim, com muita dificuldade. Me aproximei do vidro com a mão esticada. Estava a milímetros de tocá-lo quando Loki segurou meu pulso com firmeza. Desviei os olhos para ele, assustada.
— Não — seus lábios formaram a palavra sem emitir nenhum som. Eu desejei teimar, mas algo no seu olhar de alerta me fez assentir, concordando. Voltamos a avançar.
Eu evitava olhar para os recintos, mas podia ouvir o lamento de criaturas em sofrimento. Algumas mal se aguentavam de pé. Mais de uma vez vi pessoas se chocando contra os vidros como se não os vissem. Aquilo me angustiava. Às vezes Loki se virava para ver se eu ainda o seguia pelos corredores cada vez mais estreitos.
Um barulho alto me fez dar um pulo e quase bater num vidro. Loki me amparou com o braço, sua expressão visivelmente irritada. Paramos ouvindo atentamente.
— Vá buscar os novos, minha querida, eu termino de alimentar — uma voz masculina dizia dois corredores distante. O barulho de sapatos de salto se distanciando se fez presente e então estávamos de volta ao mais absoluto silêncio. Éramos nós, esse homem e as suas criaturas.
Loki ladeou um dos recintos e pude ver uma sala se abrindo ao final do corredor. Corremos o mais silenciosamente que conseguimos em meio às prisões. Não havia porta, apenas um portal amplo e alto. Passei por ele com facilidade. Então percebi que Loki não conseguia seguir adiante. Era como se uma barreira se erguesse entre nós. Eu quase ri ao ver isso. Muito simbólico.
Ele me olhou com uma expressão estranha, sorri dando de ombros. Não tinha problema, eu podia me virar e, na verdade, não tinha esperado nada diferente disso. Afinal, se ele pudesse circular tão tranquilo por todos os cofres eu não estaria ali.
— Já volto — meus lábios formaram as palavras sem produzir som. Ele assentiu breve e se virou para vigiar os corredores.
Haviam dois caminhos, ambos feitos de cristal com o universo muito visível através deles, aquilo me desagradava profundamente considerando o tipo de arma que eu usava. Um tiro ali seria um pedido pela morte. Escolhi o da esquerda de maneira aleatória. Quando tentei passar, uma barreira me impediu da mesma forma que impedira Loki. Recuei surpresa, optando então pelo caminho oposto. Dessa vez me choquei com toda força contra uma nova barreira. Loki se virou para olhar visivelmente irritado. Me aproximei da barreira e ergui a mão. Uma parede invisível me segurava ali. O deus franziu as sobrancelhas confuso.
Precisávamos pensar. Nos entreolhamos, mas nada ocorria. Espaço. Por que eu também não podia passar? O que aquela joia fazia como obstáculo?
Os olhos verdes dele foram de um corredor para o outro e por fim pousaram em mim. Ele parecia agradavelmente surpreso. Então um segundo Loki surgiu ao meu lado, exatamente igual ao primeiro. Uma ilusão. Meus olhos foram de um para outro. Um já era difícil de lidar.
O segundo Loki caminhou até a outra entrada e fez um gesto impaciente. Então me ocorreu. Os corredores não eram caminhos alternativos. Ambos precisavam ser percorridos. Espaço. Estar em dois lugares ao mesmo tempo. Assim que tentei atravessar, ele imitou meu movimento. Não havia barreira.
Loki me olhava pelo canto dos olhos, imitando cada gesto meu. Eu estava na liderança e não porque fosse a mais indicada, mas porque se tivesse que imitá-lo eu certamente falharia. Reproduzir meus gestos era brincadeira de criança para ele.
O corredor seguia longo e sem nenhum obstáculo. Quando percebi, estávamos distantes da entrada. Cada passo meu era calculado para que ele pudesse reproduzir em velocidade, tempo e amplitude. O deus me lançou um olhar impaciente. Eu não precisava daquele cuidado todo. Respirei fundo e apertei o passo. Loki fez exatamente a mesma coisa. Então chegamos a uma parede com um complexo quebra-cabeças em um idioma que eu não conhecia. Senti meu humor despencar. Olhei para ele que me encarou de volta. Seus olhos foram de mim para o desafio. Eu não sabia o que fazer. Ficamos apenas nos olhando por um segundo. Eu sabia que ele tinha a resposta, era dono de um conhecimento vasto. E sabia que existia uma maneira para que ele a desse a mim. Fechei os olhos com força e assenti. Então minha mente se fez leve.
Cambaleei por um breve segundo e até nisso fui copiada. Levei uma das mãos à cabeça, completamente confusa. Podia sentir as emoções e pensamentos que lhe ocorriam naqueles momentos, e sabia que ele próprio tinha acesso a todos os meus. Todos. Nada era segredo se ele não quisesse assim. O que eu estava fazendo ali? O quebra-cabeça, claro. Olhei em frente e as letras eram claras como se eu sempre as tivesse conhecido. Aquilo era rúnico. Simples.
Balancei a cabeça atordoada. Estava muito leve. Repleta de pensamentos que não eram os meus. Cambaleei mais alguns passos e me apoiei à parede de cristal. Minha respiração estava agitada. Eu não conseguia me focar. Apertei o rosto com uma das mãos em um movimento angustiado. Loki já havia influenciado meus sentimentos, mas nunca havia dominado minha mente de maneira completa, como tentava fazer agora. Digo tentava porque a Benção de Frigga me mantinha consciente. Não fosse isso, eu seria um mero fantoche. A S.H.I.E.L.D passaria vergonha.
Minha mão se afastou do rosto contra minha vontade e eu o encarei através da parede de cristal. Ele fez um movimento repetidas vezes, com a mão espalmada, como se afastasse algo. Queria que eu mantivesse a calma. Assenti e olhei para o painel. Muitas letras, que pareciam pedir por um padrão. Centenas de frases passaram pela minha mente, nenhuma delas, formulada por mim. Meus dedos se moveram para o painel e começaram a mover as letras. E repentinamente eu não as entendia mais. E voltei a entendê-las. Meu rosto se virou para o deus. Por um breve segundo eu o havia rechaçado involuntariamente. Ele tentava esconder o misto de irritação e frustração que sentia. Eu me sentia apenas muito confusa.
Balancei a cabeça, irrequieta, como se pudesse mantê-lo longe apenas com isso. Me senti forçada a olhar para ele.
— Você não confia em mim? — seus lábios perguntaram. Golpe baixo. Típico. Tentei relaxar, mas não era tão simples. A S.H.I.E.L.D. realmente não tivera ideia do que estava fazendo quando tentou determinar o que minha mente poderia lembrar. Loki sabia muito bem o que estava fazendo. Nos poucos momentos em que conseguia me dominar por completo eu me sentia vazia de qualquer emoção ou pensamento que fosse meu.
Me virei para o quebra-cabeças novamente entendendo as letras. Loki começou a mover as peças no lado dele do corredor e eu fiz o mesmo, submetida à vontade do deus. As runas se entremeiam formando novos padrões e mais outros a partir dos primeiros, porém o deus seguia os revelando com uma grande destreza. Eu conseguia entender como aquela língua era antiga e sabia que mesmo entre os deuses nem todos a dominavam. Três frases se formaram afinal, unindo os dois painéis. “Habitar dois lugares. Viver outras vidas. Um se torna dois.’’ Algo simples e autoexplicativo. Os painéis se desfizeram como se fossem de fumaça.
O corredor se estendia à nossa frente e ao final eu conseguia ver duas joias de um brilhante tom de púrpura. Um pensamento que não era meu me ocorreu. Não eram duas, mas sim apenas uma. Duas metades de um todo.
Assim que demos o primeiro passo, duas crianças surgiram ao lado das joias. Duas meninas. Uma tão escura quanto à noite e a outra tão clara quanto neve. Apesar disso eram idênticas em aparência. Ambas sorriram nos fitando fixamente.
— Você está em vários lugares ao mesmo tempo — a garota diante dele falou o olhando.
— Você não — a outra completou, me encarando enquanto seu sorriso desaparecia. Senti um arrepio percorrer a minha espinha. Loki estava aqui e na entrada e isso as agradava. Eu não tinha como fazer nada assim. Aquela joia exigia um tipo de habilidade muito específico. Mesmo com meu pouco conhecimento, eu tinha certeza de que pouquíssimas pessoas poderiam atingir uma exigência como aquela.
Podia sentir os pensamentos de Loki correndo por minha mente. Ele pensava em muitas coisas ao mesmo tempo. Buscava uma solução. Se eu fosse assim ficaria maluca. A criança começou a avançar em minha direção, um machado duplo de aparência pesada surgindo em suas mãos.
Virei meu rosto para Loki em um gesto muito meu. Eu desejava correr, mas ele me mantinha estática. Atirar não era uma opção. Então um único pensamento se fixou em minha cabeça. Loki estava na minha mente. Estava em três lugares, não apenas em dois como eu tinha suposto. A mente do deus trabalhava no mesmo sentido e eu sentia uma raiva e frustração que nada tinham a ver comigo. A criança estava cada vez mais próxima.
Nos entreolhamos. Eu conseguia entender o que ele faria. Quase ri com aquele pensamento que não era meu. Loki me puxaria para dentro da sua própria mente. Assim como ele tinha acesso ilimitado, eu também teria. Provaria seu próprio remédio.
Então eu me via através dos olhos dele. Que coisa confusa. Não era como eu havia imaginado. Eu sentia suas emoções e as minhas. Ouvia seus pensamentos e os meus. Era confuso. Era o caos. E era estranhamente confortável. Havia raiva, frustração e rancor. Havia carência, doçura e gentileza. Aquele era ele ou eu?
— Satisfeitas? — perguntei, achei que as palavras se enrolariam quando eu tentasse usá-las, mas saíam fluidas e naturais da boca de Loki. A criança à minha frente estava com o machado em riste, mas o abaixou no mesmo segundo. Um grande sorriso se formou em seu rosto. A criança em frente a ele caminhou em sua direção. Ambas abriram as mãos e suas metades da joia pairavam acima das palmas pequenas. Não tinha sido exatamente difícil, embora nem todo aquele que desejasse as joias teria um aliado para que pudessem percorrer o caminho juntos. Nós as pegamos e as crianças desapareceram, assim como o corredor de cristal. O segundo Loki sumiu e o original estava ao meu lado. Eu preferia assim. Sorri para ele satisfeita por termos conseguido novamente. Senti meu coração acelerar uma batida e isso nada tinha a ver comigo.
O deus fez um movimento amplo com a mão e me senti de volta ao controle dos meus próprios pensamentos e longe dos dele. Éramos dois novamente. Quase relaxei não fosse a necessidade de ainda sair daquele lugar.
Loki começou a retroceder por todo aquele caminho que havíamos percorrido. As coisas estavam dando certo mais uma vez. Logo estaríamos em nossa casa em lugar nenhum. Maldito momento para pensar isso.
Meus olhos pousaram em um dos recintos e eu parei em choque. Loki continuou avançando. Caminhei lentamente em direção ao vidro. O deus virou-se e então congelou ao ver onde eu estava. Eu o senti tentar invadir minha mente e o afastei apenas desejando isso. Poder me dava suporte para tanto. Loki mandou a cautela para o espaço.
— Liana, não — falou num tom baixo e urgente. Ouvi os sons do homem que alimentava os animais hesitarem por um breve segundo. Meus olhos foram do recinto para o deus e de volta ao recinto. Havia um casal humano ali dentro. Uma mulher um pouco mais velha que eu, de cabelos escuros, olhos monólitos e compleição esguia, acompanhada por um homem loiro e forte. Largado no chão um bebê muito pequeno dormia tranquilo, alheio aos arredores. Certamente nascera ali.
— Por quê? — perguntei no mesmo tom dele. Loki se aproximou de mim, agitado.
— Porque ele coleciona. Tudo pode fazer parte da coleção. Inclusive você e eu. Vamos embora — chamou alto. Eu ouvia os passos do homem se aproximando.
— É só um bebê. Eles não escolheram... — murmurei horrorizada.
— Nada escolheu estar aqui, minha querida. — Uma voz áspera soou ao meu lado. Um homem de cabelos da cor de palha seca, com rosto macilento e uma estranha maquiagem nos olhos e lábios, nos encarava. Loki ergueu sua lança, um olhar desafiador brincando em seu rosto. — Mas todos estão protegidos e muito bem cuidados. Alteza, por favor abaixe a arma. Creio que estão com algo que Sua Majestade enviou para ficar sob minha proteção. Eu a quero de volta — concluiu prático. O deus lhe ofereceu seu sorriso mais venenoso, repleto de deboche e provocação. Eu não me importava. Meus olhos voltaram àquelas pessoas cambaleantes.
— Há quanto tempo estão aqui? — perguntei, antes que Loki pudesse entrar naquela discussão sem sentido.
— Doze anos de muito trabalho árduo até conseguir um filhote — o homem respondeu cheio de orgulho. Senti vontade de vomitar. Meu sangue fervia nas veias.
— Isso é muito — falei débil, sentindo minhas mãos tremerem. — Você tem ideia de quanto tempo isso é para um ser humano?! — rosnei enraivecida. Reparei que Loki apertou a haste da lança, diante das minhas palavras. Para ele, doze anos não eram nada. A expressão daquele homem detestável não se alterou. Armei meu arco mirando sua cabeça. Ele continuou estático. No último segundo virei o corpo disparando contra o vidro. Loki percebeu o que eu faria assim que me virei e colocou o corpo diante do meu, me protegendo dos estilhaços.
Aquilo desabou espalhando cacos por todos os lados. Um tipo de gás se espalhou ao nosso redor. A fumaça me deixou tonta e se Loki não tivesse me amparado eu teria caído no chão. O Colecionador soltou um grito estridente de puro ódio. Chamas azuis irromperam de suas mãos e teriam nos atingido se o deus não fosse rápido o bastante, me pegando no colo e se esquivando para o topo de um dos recintos de vidro. Ele saltou de um vidro para outro como se fosse muito fácil. Desceu em um corredor e me apoiou contra a parede de uma das celas.
— Humana insolente! — ralhou muito, muito irritado. Ele não costumava me repreender daquela maneira, eu devia tê-lo tirado do sério. O único problema era quase não conseguir ouvir o que ele dizia, meus olhos passeando pelo espaço ao redor de maneira aleatória. E eu não tinha inalado aquele gás nem por cinco minutos. Loki pareceu perceber que eu não conseguia focalizá-lo. Sua expressão era tensa. — Liana, olhe para mim — ordenou, a irritação mal contida na voz. Tentei erguer os olhos para ele, mas era como se eu não fosse capaz de controlar meus movimentos. Uma nova rodada de controle mental era mais bem-vinda do que aquela sensação.
O deus fez uma careta percebendo que eu não conseguiria segui-lo para fora daquele lugar. Loki se endireitou e firmou a lança nas mãos, muito sério. Ele precisaria matar o Colecionador se quiséssemos sair dali. Ou poderia me deixar para trás.
— Alteza, essa humana já causou mais confusão do que posso aceitar. Me devolvam a joia e você poderá ir embora. — Ouvi a voz do homem vinda de longe. Não pude deixar de reparar no singular. Eu estava na lista negra.
— Não acha hipócrita da sua parte esperar que alguém da realeza se curve a uma vontade sua? — Loki perguntou no mesmo tom alto, caminhando lentamente, em direção à voz do homem.
— Na verdade não. Você tem pouco mais que um mero título — O homem ponderou surgindo no final do corredor. Os olhos de Loki se estreitaram perigosamente. Ele tinha um meio sorriso repleto de deboche brincando nos lábios.
— Você sabe que ao fim disso, meu mero título será o de rei do universo. Ao fim disso, você, e todas as criaturas dentro desses recintos deverão lealdade e subserviência a mim. — afirmou com um sorriso maligno. O homem não se afetou nem por um segundo. Eu consegui me sentar mais firme a lucidez voltando a minha mente. As chamas na mão do homem tornaram a brilhar.
— Uma pena que eu não empreste minhas coisas. São objetos raros. Objetos de colecionador — falou numa voz lenta e asquerosa. — Sua humana daria um belo item na coleção, poucos são como ela. Um Toque do Destino e uma Benção de Frigga, algo raro de se ver. Me pergunto quais outros deuses a tocaram, isso certamente aumentaria sua raridade. — O homem falou venenoso.
Loki disparou um raio azulado da ponta da sua lança, enfurecido. Eu seria mais um item de colecionador. Armei o arco ainda levemente grogue e disparei a esmo. Quase acertei o próprio Loki. Ao invés disso, atingi o recinto da mulher-ave na ponta oposta do salão, o estilhaçando. A mulher desabou em um monte de penas e cacos para fora do seu cárcere. Mais gás. Tentei me levantar e correr dali, mas uma mão feminina me segurou pelos cabelos.
— Taneleer, devo guardar essa aqui? — Uma voz delicada perguntou. O homem sorriu, enquanto atirava chamas contra o rival. O deus revidava com raios vindos da lança. O colecionador desviava muito ágil, os raios atingiam então um novo recinto destruindo os vidros. Ao ouvir as palavras Loki se virou sem pensar, seus olhos me procurando. Taneleer fez menção de atacá-lo por trás, mas eu fui rápida. Puxei a adaga que carregava na perna e a coloquei contra o pescoço.
Contra o meu pescoço.
Ele me queria na coleção. Todos hesitaram por um segundo. Talvez Taneleer pensasse que eu estava blefando, não podia deixá-lo duvida. Pressionei a adaga contra a pele, trincando os dentes quando um filete de sangue escorreu suave. Se fizesse um movimento em falso, ele perderia um item valioso. Loki franziu as sobrancelhas por um instante discretíssimo, o homem abaixou as mãos lentamente apagando as chamas. No entanto, a mulher que me imobilizava não moveu um único músculo.
— Liana, abaixe a adaga – Loki mandou numa voz lenta e ponderada. Se ele me mandasse correr, eu deveria correr. Se ele me mandasse atirar, eu deveria atirar. Se ele me mandasse abaixar a adaga que eu usava para ameaçar minha própria vida, eu deveria abaixar. O problema é que eu não entendia bem o conceito de obediência.
— Senhor Taneleer — chamei, minha voz soando mais enrolada do que eu gostaria. Os olhos apáticos do homem correram de mim para Loki. Ele sorriu. — Aceito ser parte da sua coleção, me juntarei a ela de bom grado. Não tenho para onde regressar, de qualquer forma e sei que pode atender algumas necessidades para o meu conforto. Ser o único item de coleção voluntário e exigente. Exclusividade. Para mim e para você. Apenas venha me buscar pelas suas próprias mãos, tem a minha palavra de que serei colaborativa — negociei, tentando aumentar meu valor. Loki me encarou como se eu estivesse maluca. Mais uma vez estava arriscando alto.
O homem fez menção de caminhar em minha direção, porém Loki o bloqueou colocando a lança no caminho, como uma barreira. Taneleer apenas abaixou os olhos para a arma e me ofereceu um olhar de justificativa. Eu encarei Loki o mais seriamente que podia, através da massa enevoada que era meu cérebro. O deus pareceu entender que eu planejava algo. Estava usando a ambição do Colecionador contra o próprio. O deus da trapaça era muito familiarizado com esse tipo de plano. Ou talvez só soubesse que minha palavra não valia muito, coisa que Taneleer, imprudente em sua ganância, fazia questão de ignorar.
Loki abaixou a lança e o homem continuou seu caminho para mim. Sorria repleto de ambição. Assim que estava em minha frente, a mulher soltou meus cabelos. Eu me endireitei o melhor que podia, ainda segurando a adaga. Sorri para o homem, em seguida olhei sorrindo para Loki. O deus me conhecia bem o suficiente para saber o que viria a seguir. Girei sobre os calcanhares e passei a lâmina, com toda a força que pude reunir, pelo pescoço da mulher. Taneleer soltou um grito agudo e tentou me acertar com as chamas pelas costas, no entanto, antes de poder fazê-lo, o deus estava entre nós criando uma barreira de gelo como escudo. A mulher caiu no chão estrebuchando, sangue azul encharcando o piso. Fui incapaz de me sentir minimamente arrependida.
— Você está bem? — Loki gritou acima do barulho dos gritos do Colecionador.
— Melhor impossível — respondi armando o arco. A verdade é que eu estava bastante tonta, mas ele não precisava saber disso. — Mate ele — pedi, o veneno escorrendo nas palavras.
Antes de qualquer resposta, Taneleer me puxou pelo pescoço, por trás. O desgraçado havia dado a volta. Eu soltei um grito agudo. Loki não poderia atacar sem me atingir junto. O Colecionador pressionou um punhal ondulado contra minha jugular. Ele espumava de ódio.
— Vadia! Minha mulher! Minha coleção! Vadia! — bufava, cego pela ira. Ergui as mãos derrubando o arco, em rendição.
— Um acordo! Um acordo! — gritei apavorada.
— Não tem acordo! — rosnou puxando meu cabelo, me fazendo choramingar agoniada. Loki parecia capaz de estripá-lo. Abri as mãos mostrando Realidade, Poder e minha metade do Espaço.
— Minha coleção — anunciei numa voz aguda. Ele paralisou, observando com assombro. Os olhos do homem brilhavam desejosos, tanto quanto os de Loki. Ele ainda não tinha esquecido o Poder. — Nos deixe ir e eu lhe dou minha coleção. — O homem afrouxou o puxão, hesitando. Encarei as joias. Deus... eu era maluca. Precisávamos de ajuda. Usaria as três joias ao mesmo tempo. O homem estendeu a mão livre para pegá-las e vi Loki se mexer como se fosse atacá-lo. Praticamente cuspi as palavras, como se sempre as conhecesse. – Dois se tornam três. A distância desaparece. Porque sou a senhora de todo Poder e o Espaço é meu servo. Thor se faz aliado. E isso é real pela minha vontade — completei as palavras. Os olhos de Loki se arregalaram entendendo em um segundo o que eu fizera. Achei que fosse cravar a lança em mim de qualquer maneira. Um raio atingiu o centro da sala. As pessoas cambaleavam alheias a todo o resto.
Thor estava ali. Com capa, martelo e todo resto. Absolutamente poderoso. A expressão de Loki se alternou entre o choque, o medo e a raiva. O deus do trovão não hesitou nem por um segundo. Atirou o martelo, atingindo em cheio a cabeça de Taneleer, o derrubando no chão para longe de mim.
O arco subiu para minha mão e eu comecei a atirar contra os recintos. O gás não me afetava. Eu me sentia plena. No comando. Com tanto poder quanto possível para uma humana.
Loki e Thor lutavam contra Taneleer em algum ponto as minhas costas, mas eu não via nada disso. Corria pelo lugar atirando flechas como se minha vida dependesse disso. A mulher-ave caminhava mais firme agora. Assim que me viu inclinou a cabeça em uma reverência polida. Correspondi copiando seu gesto. Ela levantou voo e juntou-se a Thor e Loki. Muitas criaturas que começavam a recobrar a lucidez faziam o mesmo.
Então eu os encontrei. A mulher, o homem e o bebê. Encolhidos em um canto, abraçados. Assustados. Deuses, eu odiava Taneleer. Me aproximei lentamente e a mulher ergueu os olhos para mim, envolvendo seu filho nos braços. Eu sorri timidamente me ajoelhando até ficar na altura deles. Ela disse algo em um idioma que sequer reconheci. Apenas balancei a cabeça, indicando que não entendia. O homem segurou minhas mãos, com lágrimas nos olhos. Nenhuma tradução era precisa. Abri as mãos mais uma vez e eles se encolheram assustados. Sorri com delicadeza, tentando tranquilizá-los.
— Eles voltam para casa e jamais lembrarão do tempo passado aqui. São felizes e vivem bem até o fim. Isso é real — ordenei, convicta. Assim que terminei a frase eles sumiram.
E eu desabei no chão.
Me sentia atordoada. Exausta. O ar entrava com dificuldade pelos meus pulmões, embora ao mesmo tempo me sentisse indestrutível. O que estava acontecendo?
Eu não ouvia os sons da batalha. Talvez tivesse terminado. Não conseguia me mexer. Eu estava morrendo?
— Liana! — Consegui escutar a voz de Loki, me chamando ao longe. Fui incapa de responder. Em seguida o mesmo chamado na voz de Thor. Eu os ouvia, mas não conseguia fazer nada. Por fim, centenas de vozes chamavam meu nome. Não reconhecia nenhuma delas. Vi criaturas aladas percorrem o teto alto daquele lugar infernal. A mulher-ave pousou diante de mim e ela parecia horrorizada. Eu estava tão mal assim?
— Está aqui! — Gritou. Sua voz soava como um canto, melodiosa, mas forte. A mulher se inclinou me apoiando com as mãos, erguendo-me do chão. Minha cabeça pendia mole para trás.
Os irmãos surgiram correndo pelo corredor, seguidos de perto por uma infinidade de criaturas. Eles eram muito diferentes. Loki se ajoelhou ao lado da mulher-ave me encarando em choque. A expressão de Thor não era melhor.
— Ela vai morrer — a mulher falou numa voz pesarosa. Senti o desespero me tomar. Eu sabia que isso aconteceria, mas assim do nada? Não... eu não podia morrer assim. Tentei me levantar, mas era impossível. Então me vi refletida nas íris verdes do deus.
Eu tinha os olhos completamente negros e veias arroxeadas seguiam em direção ao centro do meu rosto. Minha pele parecia mais branca que nunca em contraste com o cabelo. Eu iria morrer. Loki afastou a mulher com a mão, ocupando seu lugar, me firmando. Seus olhos corriam pelo meu rosto como se ele procurasse uma solução para o quer que estivesse acontecendo comigo.
— Irmão? — Sua voz chamou com urgência. — Yggdrasil — falou tenso, sem desviar os olhos de mim. Eu não sabia o que era aquilo, mas Thor assentiu por um breve segundo e se virou para as outras criaturas.
— Vocês ouviram! — gritou em tom de comando. — Uma semente, depressa!
Ao ouvirem suas palavras todos começaram a correr pelo lugar e revirar cacos e escombros. Eu mal conseguia respirar. Estava morrendo, sem sombra de dúvida.
A expressão de Loki era dura, tensa. Seus olhos não se desviavam dos meus nem por um segundo. A mão dele encontrou a minha e eu praticamente não tinha forças para segurá-la. Ele franziu as sobrancelhas, diante do meu aperto fraco. Meus pulmões ardiam como se estivessem em fogo. Aquela história de que morrer era fácil se tratava de pura balela. Morrer era horrível, doloroso e assustador. Ele poderia ir embora se quisesse. Eu iria morrer.
— Senhor! Aqui! — Ouvi uma voz aguda como um apito falando. Era claramente uma criança, mas parecia também com um camarão. Bizarro. Loki mal olhou para seu rosto, apenas analisou o que o menino lhe entregava. Tinha o tamanho de uma bola de golfe, com a mesma aparência de um porco espinho de cor laranja. Cheirava a gasolina.
Loki afastou meus lábios com a ponta dos dedos e colocou a semente dentro da minha boca. Era surpreendentemente macia. Eu não precisei mastigar, ela se dissolveu. Seu gosto variava lentamente da torta de morango que a minha mãe fazia aos domingos, de cupcakes, do algodão doce que meu pai comprava quando íamos à feira, do bolo de chocolate que a Pepper preparava e, por algum motivo, também tinha gosto de melancia. Era a melhor coisa que eu já tinha provado.
O ar entrou nos meus pulmões com brusquidão. Arquejei, me sentando depressa. Senti o sangue voltar a correr por meu corpo, trazendo cor ao rosto. Olhei para Loki e pude ver no reflexo dos seus olhos que os meus próprios voltavam a habitual cor castanha e não havia mais nada de anormal em minha pele. Loki fechou os olhos por um breve segundo e tornou a abri-los com uma expressão séria e tensa. Ele apertava minha mão, com mais força do que deveriam, contudo não protestei. As criaturas corriam para nós aos gritos e palmas. Olhei ao redor levemente confusa, um sorriso se formando em meus lábios. O deus soltou o ar em um longo suspiro. Seu irmão estava de volta e me olhava com preocupação. Ofereci um pequeno sorriso indicando que estava bem.
Então Thor, sem aviso, o pegou pela capa verde, próximo ao pescoço o erguendo do chão. Loki não teve tempo de reagir, antes de um soco o atingir em cheio. Um grito agudo escapou da minha garganta e eu me atirei contra o deus do trovão, o socando com minhas mãos pequenas onde eu pudesse alcançar. Ele nem sentia.
— Solte ele. A senhora quer isso. — A mulher-ave estava de volta e falava imperativa e com muita dignidade, se referindo a mim de forma muito formal. — Ninguém vai querer que eu cante. — disse isso em tom de alerta. Algumas criaturas a olharam assustadas. Outras, no entanto repetiram a ordem para que Thor o largasse. Loki o olhava com uma expressão entre a ironia e o divertimento.
— Eu tenho um exército — Loki falou numa voz cheia de deboche, apertando os lábios numa tentativa ruim de controlar um sorriso. O irmão o colocou a contragosto de volta no chão.
— Não, a humana tem — O pai do menino-camarão falou em voz alta, colocando a mão garrada sobre o ombro do filho. Ok. Agora eu estava impressionada. Loki o olhou como se fosse o próximo da sua lista. Antes que pudesse fazer qualquer observação, para o choque de todos, Thor o puxou em um abraço apertado.
— O que você está fazendo? — Loki sibilou entredentes. Thor afastou-se do irmão e parecia pronto para lhe dar outro soco. Me coloquei entre eles sem saber bem o que fazer ou dizer.
— Taneleer? — perguntei, tentando desviar o foco. Algumas criaturas sorriram de um jeito macabro. Não era preciso fazer mais perguntas. — Podemos ir para casa? — questionei tentando soar natural. As pessoas ao redor se entreolharam, parecendo tão ansiosas quanto eu. — Vocês podem ficar com essa nave. Voltem para suas casas. — Alguns gritaram em comemoração. Aquilo era o mínimo depois de salvarem minha vida e experimentarem o inferno.
— Vamos embora — Thor falou, ainda trocando um olhar afiado com Loki. Quando abri a mão mostrando a Realidade, o deus da trapaça a fechou num movimento brusco, me olhado de cima com uma expressão fria.
— Eu a avisei sobre usar as joias de maneira inconsequente — repreendeu em um tom frio. Me senti como uma criança teimosa. Sabia que iria ralhar comigo assim que tivéssemos tempo. Ele abriu a própria mão revelando o Espaço e então desaparecemos de volta a nossa casa em lugar nenhum. Dessa vez não éramos apenas nós dois.
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