Notas iniciais
Oi pessoal! Post da madrugada! o/ Acabei um capitulo agora e resolvi postar. Sejam bem vindas leitoras novas! Comentem bastaaaante! Genteeee... 200 paginas o.O Esse capitulo foi dificil de escrever, mais pela carga emocional do que pela ideia dos acontecimentos. Quero dedicar ele a Loki of Asgard que fez uma lindaaa recomendacão! Muito obrigada! Enfim... Divirtam-se, comentem e recomendem! ''come to bed, don't make me sleep alone couldn't hide the emptiness you let it show never wanted it to be so cold just didn't drink enough to say you love me'' ''You poor sweet innocent thing'' ''Darling, I forgive you after all anything is better than to be alone and in the end I guess I had to fall always find my place among the ashes''

Estávamos de volta a nossa casa de madeira no meio de lugar nenhum. Ao entrarmos vimos nossas coisas sobre a mesa da sala. Como tinham chegado ali eu não sabia. Loki entrou e foi direto para o banho, absolutamente calado e introspectivo. Eu fui para o quarto, louca para tirar aquela túnica e o colar. Ao arrancar aquilo tudo, fiquei me olhando nua em frente ao espelho. Eu era razoavelmente bonita. Tinha uma pele firme e as costas e abdômen definidos pelos muitos anos atirando, apesar da magreza que me dava ossos proeminentes e seios pequenos. Meus cabelos eram bonitos e de uma cor viva e chamativa. Eu tinha olhos expressivos e uma boca desenhada. O tempo levaria tudo isso embora e só acrescentaria ainda mais sardas e, a elas, rugas fiéis companheiras. Me perguntei o que mudaria na aparência de Loki em 50 anos. Provavelmente nada. Ele ainda me reconheceria? O pensamento me enjoava.

Me afastei do espelho, enrolando um roupão branco e felpudo ao redor do corpo. Deitei de costas na cama, sentindo uma exaustão muito mais mental do que física. “Você será menos que um fantasma.’’ Eu sabia. Seria mentira dizer que aquilo era novidade.

Loki entrou no quarto, usando apenas uma calça preta, secando os cabelos com uma toalha. Deuses... era lindo. Abriu o armário em busca de uma camisa limpa. Apenas quando olhou para mim pelo canto dos olhos pude perceber que o estava encarando. Levantei depressa e fui para o banheiro sem dizer nada, virando o rosto para o impedir de ver que corar, constrangida.

Enchi a enorme banheira e entrei, apoiando a cabeça na borda, esperava que a espuma me ajudasse a relaxar, mas não. Eu me sentia nervosa e irrequieta. Tinha muitas coisas em mente. Abracei os joelhos e apoiei o queixo sobre eles. Eu seria menos que um fantasma. Aquilo não devia doer, eu sabia, não era nenhuma boba. Me perguntei como seria o adeus. Ele pegaria as joias e se tornaria soberano do universo. Subjugaria Odin. A S.H.I.E.L.D. seria brincadeira de criança. Mas e então? O que aconteceria comigo? Estava tentando manter o pensamento do que aconteceria com os humanos afastado da mente, mas eu era inegavelmente uma. Passei a ponta dos dedos pela cicatriz na perna, a encarando. Muito humana. Ele tinha alguma consideração por mim? Eu seria bem tratada? Ou seria apenas mais uma em meio à multidão?

Eu não podia acreditar que ele fosse esse tipo de homem. Depois de tudo que estávamos passando, não podia simplesmente fingir que nada tinha acontecido. Mas ele era Loki. Sempre imprevisível. Eu seria menos que um fantasma. Frigga tinha planejado isso para mim?

As poucas vezes em que falara com ela, Frigga sempre havia sido tão doce. Mesmo agora, ela havia deixado as coisas preparadas para mim. Teria feito isso apenas para que eu ajudasse o filho?

— Liana? — Loki bateu na porta. — Tudo bem? — perguntou. Eu devia estar ali há pelo menos uma hora.

— Ahn... sim... — respondi me levantando e correndo para fora da banheira, espalhando água para todo lado. Me enrolei de qualquer jeito no roupão e abri a porta de supetão. Ele ficou parado me olhando, levemente surpreso. Percebi que meus cabelos, escorriam água. Os apertei com a toalha tentando disfarçar meu constrangimento.

Passei por Loki que continuou me encarando como se eu tivesse ficado louca. A essa altura dos acontecimentos eu mesma já estava convencida disso. Entrei no quarto e fechei a porta. Deviam ser umas três da manhã e estava exausta. Vesti a camisola preta e tudo que eu conseguia pensar era no que ela não devia me lembrar. Me sentei na cama, encarando meus pés.

Loki entrou no quarto, pegou um travesseiro e saiu sem falar nada. Fiquei apenas parada e ele nem sequer dirigiu o olhar para mim. Ouvi o barulho da cama do quarto ao lado, enquanto ele se ajeitava. Soltei um suspiro entrecortado. O que eu esperava? Que ele deitasse ali comigo?

Minha cabeça girava a milhão quando a pousei no travesseiro. Passaria o resto da minha curta existência o vendo de longe. Era o mais provável. Arrebanhada com minha própria raça. Traidora da minha própria espécie. Isso não importava. Eu apenas queria ficar perto dele por tanto tempo quanto conseguisse. A ideia de que me olharia com desprezo, me corroía como ácido.

Certa vez, minha mãe havia lido uma história sobre deuses gregos e havia me falado sobre Hércules. Eu fiquei muito impressionada e havia comentado que Zeus devia amar muito a humana mãe do semi-deus. Minha mãe havia rido com seu velho humor ácido. “Deuses não amam humanos, querida. Eles conseguem o que querem e vão embora.’’ Eu devia tê-la escutado. Dormi com esse pensamento em mente.

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Acordei na manhã seguinte, com o barulho dele circulando pela casa. Escolhi um vestido curto e sem mangas de algodão lilás com decote quadrado. Coloquei calças de couro preto por baixo, amarrei a adaga na coxa, calcei meus coturnos e amarrei os cabelos numa trança lateral. Loki já havia comido quando cheguei à sala e estava sentado no sofá com o Tempo pairando acima da mão. Peguei uma fatia de bolo na mesa e me sentei ao lado dele, encolhendo as pernas sobre o móvel. Me olhou pelo canto dos olhos e eu sorri de lado, fazendo-o desviar o olhar.

— Coisinha horrorosa — comentei displicente. Ele não respondeu. — Como se usa?

— Não sei — respondeu sincero numa voz que revelava aborrecimento. Me lembrei de Sindarin falando que o Tempo não se domava.

— Talvez seja melhor não mexer por enquanto — sugeri num tom apaziguador. Loki revirou os olhos, impaciente. — Me desculpe se eu não gosto dela — respondi chateada.

— Também não gosto — falou fechando a mão. Olhou sério para mim. — Mas se não pudermos usá-la não tem utilidade — ponderou. Eu entendia isso, mas aquela joia me assustava.

— Eu sei. Vamos buscar mais uma hoje? — quis saber. Estava pronta para ir mesmo sabendo que uma joia a mais significava um dia a menos com ele.

— Sim, o Poder — falou num tom que pretendia soasse displicente. Ouvi desejo em sua voz. Aquilo me preocupou, mas eu nada disse. Já tinha visto o que ele era capaz de fazer por algo como o poder. — Se você estiver pronta, podemos ir agora — completou. Eu me levantei para buscar o arco e corri para encontrá-lo no quintal, trazendo a armadura nas mãos. Ele soltou um suspiro impaciente e eu ri, enquanto o deixava fechar as travas. Abri a mão e a realidade nos levou para onde poderíamos encontrar a próxima joia.

O lugar parecia desolado. Era impressionantemente árido. Parecíamos ser a única coisa viva que chegava ali em milênios. No entanto, eu via carros e enormes naves negras destruídas e espalhados pelo lugar. O vento soprava fazendo a areia se chocar contra nossa pele. Mesmo o céu era alaranjado.

— Que lugar é esse? — perguntei, olhando ao redor.

— Svarthalfheim. Lar dos elfos negros — respondeu, com a voz arrastada. Maravilha, mais elfos. Era tudo que eu queria.

— E eles estão aonde? — questionei estranhando a falta de estruturas que possibilitassem se habitar uma região como aquela.

— Extintos — declarou breve, escolhendo uma direção e caminhando. O olhei levemente surpresa. Loki deu de ombros. — Minha família não lida muito bem com dominação do universo — Eu ri daquilo. Imaginei o que Odin diria se nos visse naquele momento. Não era muito bom ficar pensando nele.

Caminhamos em meio aos destroços por uma hora ou mais. Eu fazia paradas para mexer em coisas dentro dos carros, cheia de uma alegria infantil. Mostrei a Loki cigarros, biscoitos, chicletes, canetas e mesmo um batom resgatados de dentro de um porta-luvas. Ali tínhamos pouca pressa, então esperava pacientemente minha caça ao tesouro. Talvez quisesse evitar se indispor comigo antes da missão. Enfim avistamos um palácio caindo aos pedaços, repleto de torres e torrinhas pontiagudas como agulhas, todo feito em basalto laranja.

— Como você sempre sabe para qual lado devemos ir? — perguntei me dando conta disso.

— Uma coisa com poderes como esses emana muita energia. Eu posso sentir à quilômetros. — respondeu mal me olhando. Claro, ele era um deus. Era óbvio que a coisa seria muito mais simples para ele. Se eu estivesse sozinha ficaria rodando por meses até achar os lugares. Se eu estivesse sozinha não estaria ali.

Entramos pela porta da frente e Loki parecia estranhamente descuidado. Andava a passos largos e olhava fixamente para frente. Eu quase não conseguia acompanhá-lo agora. Ele estava focado. Até demais para o meu gosto. Estava obcecado.

— Loki, podemos andar mais devagar? — pedi, minha respiração soando rascante. Eu praticamente corria sobre o chão irregular do palácio. Haviam muitas pedras levantadas e trechos do teto estavam completamente destruídos, espalhando destroços pelos amplos salões. O lugar cheirava fortemente à morte.

— Você é muito lenta — reclamou sem me olhar. Fazia muito tempo que não me criticava abertamente assim. Não respondi, engolindo aquilo calada. Tampouco diminuiu o ritmo. Subiu com facilidade sobre uma pilha enorme de rochas me deixando para trás. Escalei como podia e quando desci do outro lado, estávamos em um salão enorme, maior do que muitos que eu já tinha visto. Havia uma mulher sentada em um trono grotesco, feito de crânios de várias espécies distintas.

Ela era absurdamente linda. Tinha cabelos lisos e negros, até a cintura, adornados por uma coroa dourada e repleta de pontas como as torres do castelo. Uma franjinha lhe dava um ar de inocência que não combinava com o conjunto. Era dona de seios e quadris fartos e uma cintura finíssima. Seus olhos eram tão azuis quanto o céu poderia ser. Sua pele era bronzeada e delicada como porcelana. Tinha um dos sorrisos mais bonitos que eu já tinha visto na vida. E completava isso tudo num vestido vinho, com um decote tão grande que lhe chegava pouco acima do umbigo e uma fenda na perna subindo até a coxa. Tanto Loki quanto eu ficamos de queixo caído quando a vimos. Era impossível desviar os olhos dela.

A mulher levantou e caminhou até Loki, alguns metros à minha frente. Sorriu sensual, passando os braços ao redor do seu pescoço, encostando o corpo ao dele. Loki a olhava imóvel e eu podia sentir meu sangue fervendo nas veias. Ela se inclinou para beijá-lo e eu armei o arco. Os olhos azuis encontraram os meus, a fazendo se interromper. Por que Loki não se mexia?

A mulher sorriu e se aproximou de mim e para meu completo choque sua aparência tornou-se a de um homem tão lindo quanto a mulher fora. Os mesmo cabelos negros e olhos azuis, em um corpo alto e musculoso, vestindo uma armadura dourada, combinando com a coroa pontiaguda. Ele se aproximou de mim. Era muito, muito bonito.

— Você é interessante — falou numa voz grave. Recuei dois passos quando ele avançou um. Loki continuava estático.

— Andei ouvindo muito isso nos últimos tempos — respondi, meu arco armado. Ele sorriu de um jeito absurdamente sedutor. Senti o ar deixar meus pulmões, impressionada.

— Não duvido disso. Como vai Realidade? — perguntou. O questionamento me colocou em alerta redobrado. Eu sabia o que ele era. E o fato de nos enfrentar tão abertamente me assustava.

— Vai bem — disse com a voz mais firme que consegui encontrar. — O que você fez com ele, Poder? — indaguei, meus olhos indo do homem para Loki. Poder sorriu.

— Também é esperta — comentou como um elogio sincero. — Algumas pessoas são mais suscetíveis e influenciáveis pelo poder. Se seduzem fácil — explicou, fazendo um gesto para Loki. Então seus olhos se estreitaram para mim. — Outras não — disse acusatório, embora sem rancor. Sorri demonstrando uma segurança que não sentia. Provavelmente era a proteção de Frigga me mantendo imune mais uma vez.

— Então converse comigo — convidei. Ele se aproximou e eu abaixei o arco lentamente. — Não vai nos atacar?

— Não faço esse tipo de coisa, não é do meu feitio — garantiu, gentil. — Geralmente aqueles que me procuram não vivem muito de qualquer forma. Sempre preciso de novos portadores. Qual o sentido de ser ilimitado se você serve apenas para ficar em uma sala fechada? — disse num tom explicativo. Suas palavras me deixavam profundamente incomodada. — Apesar da boa companhia — concluiu indicando o trono repleto de crânios.

— Quem são? — perguntei.

— Antigos mestres — respondeu displicente. Um calafrio percorreu minha espinha quando olhei para Loki. Poder o queria ali.

— Por que fez isso com eles? Você disse que queria sair daqui.

— Eu não fiz isso! — respondeu horrorizado. — Não diretamente. Alguns desejam o poder em excesso. Então matam aqueles que são fracos demais para defendê-lo. Outros enlouquecem — comentou como quem explica que dois mais dois são quatro. — E então eu arranjo um novo portador. É como um ciclo.

— E como eu faço para me tornar sua mestra? — perguntei num tom doce. Ele riu.

— Você não duraria dez minutos. Ele sim merece ser o mestre — afirmou, indicando Loki. Eu sorri doce. Estávamos no terreno dos acordos e negociações. O deus era especialista nisso, não eu. Se ele se tornasse o mestre do Poder teríamos problemas. O conhecia o suficiente para saber disso.

— Você gosta de jogos? — perguntei, sugestiva. Ele franziu as sobrancelhas, assentindo lentamente, com curiosidade. — Vamos jogar um então. Eu me torno a mestra. Você se diverte assistindo e tentando descobrir por quanto tempo sobrevivo. Pode até apostar com a Realidade. Quando eu morrer, Loki será o senhor das minhas joias — declarei. Eu estava apostando muito, muito alto. — E isso é real — completei. Aquilo selava minhas palavras. Com a minha morte, as joias pertenceriam a Loki. O Poder não tinha nada a perder. Era uma joia que se deliciava com a morte de seus mestres e eu estava oferecendo meu pescoço. Ele sorriu amplamente, certo de que logo eu seria mais um crânio em seu trono.

—Então você já foi seduzida pelo poder — concluiu. Eu entendia bem o que ele estava falando. Tinha acabado de pôr minha vida a prêmio, para ser sua mestra. Ele se aproximou de mim, mas não o temi. Se inclinou e simplesmente me beijou os lábios. Quando recuei assustada, senti que havia um pequeno cristal nas minhas mãos. Eu o olhei por entre os dedos. Vermelho sangue. A cor do sangue daqueles que o haviam tido. Meus olhos se ergueram para Loki, porém não precisei chamá-lo. Ele me olhava de um jeito estranho.

— Você o tem, não é? — perguntou frio. Sua voz soava dura. Eu o olhei desconfiada. Assenti num gesto ínfimo. Ele estendeu a mão. — Me dê.

— Eu não posso — balbuciei. O deus estreitou os olhos, vi seus dedos intensificarem o aperto no cabo da lança. Estava me assustando. — É minha...

— Sua? — questionou numa voz cheia de desprezo, me olhando de cima. — O que te faz achar que uma joia como essa deve pertencer a uma humana? A você? Uma pobre, doce e inocente, coisa? — perguntou cuspindo a última palavra, andando muito lentamente em minha direção. Loki me encarava com raiva. Ele definitivamente estava me assustando. Recuei no mesmo ritmo dele.

— Ela me escolheu... — disse num murmúrio, minhas sobrancelhas se franzindo. “Alguns desejam o poder em excesso. Então eles matam aqueles que são fracos demais para defendê-lo.’’ Eu era fraca demais para defendê-la e a frase ficava martelando na minha cabeça. A joia sabia disso. Tinha feito aquilo propositalmente.

— Então escolha entregá-la para mim — rosnou entredentes, o rosto tomando-se de fúria. Meus olhos correram para a pilha de concreto que teria de subir se quisesse sair dali, e de volta para ele. Eu podia sentir que aquilo era influência da joia.

— Não posso... — repeti recuando mais rápido agora. Loki segurou a lança nas duas mãos.

— Me dê essa joia! — gritou enfurecido. Estremeci diante do eco da sua voz no espaço amplo. Estava apavorada. Não conseguia acreditar que ele estava fazendo isso. A joia devia estar apenas ampliando um desejo que era o dele próprio. Mil anos? Loki me esqueceria em dois minutos. Meus olhos voltaram para a pilha de concreto. Havia um buraco estreito na base, grande o suficiente para alguém magra como eu. Eu podia ver o outro lado, mas não conseguiria engatinhar. Teria que passar deitada me empurrando aos poucos, contudo não tinha esse tempo. — Liana! Me entregue agora! — ordenou. Neguei brevemente. Loki fez menção de erguer a lança e eu desatei a correr. Me encolhi quando ela passou a centímetros do meu pescoço, em um movimento amplo dele. Loki seria muito mais rápido que eu, sem dúvidas. Estava a alguns metros da passagem, quando o deus colocou o corpo diante do meu, bloqueando o caminho. Merda.

Fiz a única coisa a me ocorrer. Eu não dispararia uma flecha contra ele. Mesmo que minha vida dependesse disso. Então atirei o arco com força, contra seu rosto. Loki tentou apará-lo com a mão e, como eu sabia que aconteceria, o peso que a arma assumiu o derrubou no chão. Apenas eu podia empunhá-la e Loki não sabia disso. Aproveitei o meio segundo conquistado e corri para o buraco nos escombros. Joguei as pernas para frente, aproveitando a velocidade como impulso, protegi o rosto com os braços deslizando pelo chão. O buraco era grande o suficiente para que passasse, mas meu braço sem armadura ficou completamente esfolado.

Assim que passei para o outro lado me levantei apressada e recomecei a correr, um dos braços esticados para trás, desejando o arco de volta. Ele passou pelo buraco na parede e se chocaria contra minha mão, porém no momento em que Loki se fez visível acima dos escombros, com um floreio das mãos um brilho verde as tomou e assim como a minha arma, tirando-a da rota para longe.

O arco feito por Tony era atraído por mim, mesmo com o desvio, tornou a encontrar rumo em minha direção. Loki atirou a lança contra mim. Me joguei atrás de uma pilastra e ouvi a arma a atingir com violência, no momento em que a minha própria finalmente chegava às minhas mãos. Eu não podia acreditar nisso.

Loki era muito rápido, e antes que eu pudesse recomeçar a correr ele estava ao lado da pilastra com sua arma em punho. Fez um movimento amplo e tudo que eu consegui fazer foi empurrá-la para longe do pescoço com a haste do arco. A ponta da lança abriu um corte que, com sorte, não seria muito fundo, subia em diagonal da sobrancelha até a raiz dos cabelos. O sangue escorreu por sobre o olho turvando minha visão, mas eu sabia que precisava continuar correndo. Ele me mataria.

Quando tentei correr novamente, Loki me segurou pelos cabelos trançados e puxou de volta, me fazendo soltar um grito agudo. Tropecei e caí no chão aos seus pés. Me encolhi contra a pilastra, as lágrimas se misturando ao sangue. Não queria acreditar que aquele era ele.

— Para — choraminguei, assustada. — Para Loki, por favor... — pedi em pânico. Ele ergueu a lança e eu fechei os olhos, erguendo os braços sobre o rosto numa tentativa inútil de proteção. Estava acabada.

O golpe não veio. Eu não sabia o porquê. Abri os olhos lentamente, abaixando os braços, o encarando. Loki me olhava visivelmente horrorizado. Eu não entendia a razão. Afastei o sangue dos olhos e percebi que não era para mim. Era algo acima da minha cabeça. Quando olhei entendi claramente o motivo. Havia uma grande ave de asas abertas entalhada na pilastra. Frigga. Aquela era a única pilastra decorada em todo salão. A deusa sabia que aquilo aconteceria. Sabia nos mínimos detalhes. Ela o havia parado.

Me sentei lentamente, tremendo dos pés à cabeça. Os olhos dele desceram do desenho para mim. Parecia chocado. Seu próprio comportamento o chocava. Finalmente ele percebeu a influência da joia. Loki abaixou a lança lentamente, as sobrancelhas franzidas, seus olhos corriam por todo meu corpo e se demoraram no corte na testa e no braço esfolado. Eu tinha terror estampado nos olhos e ele podia ver isso muito claramente. Loki se abaixou diante de mim, e eu encolhi as pernas para longe dele. Ele engoliu em seco.

— Liana... — chamou num tom baixo, estendendo a mão na direção do meu rosto. Aquilo me fez reencontrar o mínimo de dignidade que eu tinha. Acertei o braço dele com a haste do arco, com toda a força que pude reunir, o afastando. Ele pareceu nem sentir. As sobrancelhas dele se curvaram lhe dando uma expressão triste.

— Não. Toque. Em. Mim. — sibilei entredentes. Ele tornou a se levantar e se afastou alguns passos. Me ergui do chão lentamente. Caminhei na direção dele, apertando o arco com firmeza nas mãos para impedi-las de tremer, sentia tanta raiva que queria gritar. Assim que estava diante dele, levei uma das mãos à lança e ele nada fez para impedir. A puxei colocando a lâmina contra a lateral do meu pescoço. A raiva corria em mim como um veneno. — Você quer a joia? — perguntei numa voz baixa, o olhando nos olhos. — Você quer a maldita joia? — repeti, minha voz se elevando. — Pegue então! Pegue essa porcaria! — gritei histérica. — Prometo ficar parada! Corte logo e pegue sua maldita joia! — berrava, as lágrimas escorrendo e se misturando ao sangue no meu rosto. Loki largou a lança, afastando os olhos de mim. Eu a atirei no chão, irritada.

Me escorei na pilastra novamente, os soluços vindo altos. Nenhum de nós se moveu. Eu queria ir embora dali. Queria que Loki sumisse da minha frente. Ergui os olhos para ele, que me encarava com uma expressão que eu havia visto apenas uma vez em seu rosto e somente quando ele falara da mãe. Arrependimento. Fui até ele, minha expressão dura como uma rocha.

— Eu vou embora — avisei numa voz fria, que não parecia a minha. — Nunca mais apareça na minha frente. Nunca mais olhe para mim — disse, sentindo o veneno em cada palavra. — Você é tudo aquilo que eu queria achar que não fosse. Você é tudo aquilo que lhe disseram. Você é horrível — falei, atirando as palavras como facas contra ele. Sua expressão tornou-se vazia, oca. Eu fiz uma reverência num misto de deboche e desprezo. Abri minha mão e então eu não estava mais ali.

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Estava no campo aberto diante da casa de lugar nenhum. Sentia que desabaria e me arrastei para dentro antes de acontecer. Ao fechar a porta deslizei me enroscando no chão, em desespero. Eu queria estar morta. Eu entendia meu pai. Eu queria morrer agora, ali no meio do nada.

Como Loki podia ter feito aquilo? Eu sabia ter sido influência da joia, mas pouco importava. A joia apenas o havia atiçado. Estimulado um comportamento que era dele. Tentara me matar. Eu, burra, não havia me defendido. Claro que eu não o acertaria, mas poderia ter morrido como Frigga, lutando com alguma dignidade. Havia desistido de tudo por ele. Eu não tinha mais nada. Nada. Não tinha nenhum lugar para onde voltar que não aquela casa. Desejei estar morta. “Os deuses conseguem o que querem e vão embora.’’

O que mais me doía era ser burra ao ponto de ficar procurando justificar seu comportamento. Tentando me convencer de que aquilo era parte de quem ele era, de sua natureza. Mas não podia aceitar. Ele havia tentado me matar. Eu havia enchido a boca para falar que Loki nunca havia erguido uma arma contra mim e agora estava ali, atirada no chão. Menos que um fantasma.

Puxei a aljava das costas e peguei uma flecha dela. Sua ponta era repleta de veneno. Me perguntei se doeria, a encarando com melancolia. Quanto tempo eu duraria sozinha? Que tipo de fim me esperava? Estava com medo. Levei a ponta até a altura da minha jugular. Fechei os olhos. A atirei longe irritada. Eu não era meu pai.

Me obriguei a levantar largando as armas no chão. Me arrastei até o banheiro despindo as roupas, no caminho. Pela primeira vez consegui arrancar a armadura em menos de cinco minutos. Enchi a banheira e me lavei na água fria. Eu estava entorpecida, não sei quanto tempo fiquei olhando a esmo. Meu cérebro não parecia servir para nada. Saí, espalhando água pelo chão. Parei para me encarar em frente ao espelho. O corte em minha testa era grande, mas não muito fundo. Se eu cuidasse direitinho talvez nem ficasse cicatriz. Inspirei buscando auto controle e comecei a limpar aquilo com água oxigenada. Ardia muito. Cobri tudo com pomada cicatrizante e uma gaze.

No quarto encontrei um vestido longo e branco, feito de organza leve e delicada. Ele se atava atrás da nuca e tinha mangas soltas e abertas nas laterais, muito longas. Havia uma pequena ave vermelha e dourada bordada próxima a lateral direita do decote em v. No lado esquerdo uma cobra verde e prateada lhe fazia par. Eu fiquei descalça e me olhei no espelho. Menos que um fantasma.

Fui para a sala e achei a mesa servida, embora para uma única pessoa. Me perguntei qual seria o motivo daquilo, já que não havia nenhum guerreiro de Asgard ali. Eu estava completamente sozinha. De qualquer forma, não tinha fome. Não tinha nada.

Me deitei sobre o sofá, e me vi encarando uma flauta transversal esquecida sobre uma poltrona. Desejei sentir raiva, mas havia apenas tristeza e dor. Dormi ali mesmo.

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Não houveram dias seguintes. Houveram momentos seguintes. Eu não desejava nada. Não sentia nada. Apenas dormia e entre um cochilo e outro chorava, comia alguma coisa qualquer, lutava contra a apatia e chorava mais um pouco. Sempre estivera pronta para a separação, para a rejeição, mas nunca havia me preparado para o que estava vivendo. No fundo sabia que a joia teria esse tipo de influência em um homem como ele, mas por algum motivo idiota eu achava que Loki me daria algum valor. Eu era uma idiota apaixonada.

O dia veio e se foi em flashes indistintos e eu era incapaz de fazer qualquer coisa além de me afundar em mim mesma. Nem sequer coloquei um novo curativo depois que o antigo caiu durante o sono. Eu havia dito coisas cruéis. Não devia estar arrependida, mas estava. Sentira vontade de feri-lo como ele fizeram a mim.

Às 3 horas da manhã já não conseguia mais me manter dormindo. Pensei em levantar e tomar algum remédio. Talvez conseguisse dormir mais. Me sentia pesada e sem energia apesar de todo aquele tempo deitada.

Levantei e então percebi a chuva lá fora, torrencial e fria. Eu queria um banho de chuva. Antes de sair me permiti ligar o aparelho de som que havia na sala. Eu não fazia ideia de como ele funcionaria ali, mas funcionava. Uma música cantada numa voz feminina com poderosas guitarras encheu meus ouvidos. Aumentei o volume a ponto de realmente precisar sair da casa.

Caminhei pela chuva, sentindo-a encharcar o vestido e meus cabelos. Ergui meu rosto para o céu, fechando os olhos e suspirando com certo alívio. Me sentei, abraçando os joelhos e apoiando o queixo sobre eles. Fiquei ali por quase meia hora, ouvindo as músicas se alterarem no som. Um raio caiu ao longe. Por um segundo me perguntei se poderia ser Thor, mas eu tinha certeza que não. Eu estava em lugar nenhum, completamente isolada. Sozinha.

Uma melodia lenta, começou a tocar e levantei decidida a trocar. Não precisava de nenhuma música como aquela para me deixar mais para baixo. Era bonita e melodiosa, mas terrivelmente triste.

Estava pronta para voltar para a casa quando mais um raio caiu, iluminando o campo e me permitindo ver o seu contorno contra as árvores. Como ele havia chegado até ali eu não sabia. Não conseguia mover um músculo. Teria vindo para buscar a joia? Eu não estava interessada em me defender. Estava apenas cansada demais.

Loki caminhou lentamente em minha direção. Estava completamente desarmado. Nem sequer vestia a cota encouraçada. Estava encharcado pela chuva e tinha uma expressão de cansaço. Parou diante de mim e tudo que consegui fazer, foi desviar o olhar, encarando meus pés. Ficamos ali parados na chuva sem falar nada. Eu sabia porque ele estava desarmado. Loki não precisaria dizer. Eu apenas não sabia se conseguiria perdoar. Não sabia se conseguiria esquecer e fingir que nada tinha acontecido. Tocou meu queixo me fazendo erguer os olhos para ele. Eu apenas imaginava minha expressão de dor. Loki tinha as sobrancelhas franzidas, o que lhe dava um ar de tristeza. Me perguntei se estaria me manipulando, mas se fizesse isso saberia. Ficamos parados, sem encontrar as palavras certas para dizer.

Loki segurou minha mão esquerda, na sua e ficou olhando a pele ferida com uma expressão estranha. Apertava os próprios lábios. Por fim, ergueu a mão na lateral, até a altura dos ombros. Levou minha mão direita até seu ombro esquerdo a deixando ali. Sua mão desceu até a minha cintura. Me olhava como se pedisse permissão. Eu não sabia o que fazer.

Lentamente começou a me conduzir no ritmo da música. Fechei os olhos com força, dando um sorriso fraco. Não era possível que fosse a mesma pessoa. Me fez girar, trazendo-me mais perto, beijou minha testa, sobre o corte com delicadeza. Em seguida, beijou a mão que mantinha segura na sua. Por fim, aproximou o rosto do meu, mas não me beijou. Se eu quisesse, devia fazer isso. Apenas se eu quisesse. Era minha escolha. Um direito meu. Ele estava pedindo perdão, mas era meu direito perdoar. Achei que não conseguiria, mas tê-lo ali diante de mim completamente desarmado, não apenas de armas físicas, tornava tudo mais simples. O amava e isso era simples. Eu o beijei. E pela primeira vez ele não estava sedento. Era suave e gentil, como se eu fosse me quebrar ao menor toque. Talvez fosse mesmo. Ele segurou meu rosto nas mãos e se afastou minimamente, encostando a testa na minha, os olhos fechados com força.

— Nunca mais... — murmurou. — Essa joia...

— Eu sei — respondi e tornei a beijá-lo. Sentia como se uma tonelada tivesse saído das minhas costas. Não havia vazio. Eu não estava mais sozinha. Ele se afastou me olhando. Estava encharcada até os ossos.

— Você vai ficar doente — falou num tom baixo. Ofereci um sorriso apagado. O segurei pela mão e entramos na casa, pingando água pelo caminho. Com um meneio luminescente, Loki encerrou a música enquanto fui para o quarto trocar de roupa. Ele ficou parado no meio da sala, parecendo perdido. Voltei vestindo apenas o roupão branco e lhe entreguei uma toalha. Loki apertou os cabelos com ela. Estavam abaixo dos ombros.

— Seu cabelo está comprido — comentei em um tom baixo. Havia um clima tenso entre nós. Ele passou a mão sentindo os fios.

— Corta para mim? — Não era uma ordem e sim um pedido. Eu ri baixo. Ele poderia muito bem fazer aquilo, mas eu não estava nada disposta a informá-lo disso. Loki simplesmente conjurou uma tesoura pontiaguda e afiada, a entregando de boa vontade em minhas mãos, ocupando uma poltrona. Ele não questionou o que eu faria nem com o cabelo, nem com a tesoura. Ele confiava em mim, como eu desejava confiar nele.

Adorava os cabelos compridos que ele tinha, então apenas os encurtei para a altura que lembrava de quando ele estava na prisão, um pouco acima dos ombros.

Assim que terminei, larguei a tesoura a um canto e segurei a raiz dos seus cabelos, próximo a nuca. Me inclinei para beijá-lo e Loki me puxou para seu colo. Suas mãos encontraram a pele das minhas coxas e as seguraram com firmeza, enquanto seus lábios desciam por meu pescoço, sua respiração acelerando quente e desejosa contra minha pele. Era tão fácil estar ali com ele.

Loki afastou o roupão, deslizando comigo para o chão, enquanto eu mesma puxava a blusa por sobre a cabeça dele incapaz de desprender-me de seus olhos. Seus lábios me procuraram com gentileza e volúpia, enquanto as mãos passeavam por meu corpo, apertando e acariciando cada centímetro de pele que encontravam.

Mordisquei sua orelha, meu toque descendo perigosamente por seu peito, fazendo a pele se arrepiar e prosseguindo por barriga e abaixo. Soltou um suspiro alto enquanto eu o tocava, me puxando ainda mais para perto, seus lábios procurando meus seios, sua língua acariciando os mamilos intumescidos, me fazendo fechar os olhos rendida a ele. Eu arfava, meus dedos se enroscando nos cabelos escuros, meus gemidos preenchendo seus ouvidos, após afastar-se de minhas mãos para me tomar para si. Era óbvio que estava perdoado.