God of Mischief | Loki

26 Capítulo 25: Alianças


Notas iniciais
Como estão seus lindos? Esses capitulo não tem taaaanta aventura assim, mas era muito necessário. Preparem seus corações. The end is coming. Quero dedicar o capitulo a Caçadora Cinzenta, danonevans, Mariana, Babs, Sigyn Chan Beautiful Laufeyson, Gabi Sampaio e Gabriela Bispo. Muito obrigada pelas lindas recomendações que enchem meu dia de alegria e minha mente de inspiração. Obrigada as fantasminhas que se manifestaram o/ Não se acanhem falem com a titia! Divirtam-se!!

Por mais que a joia da Mente não estivesse mais comigo, as lembranças de como havia tornado as sensações reais ainda me incomodavam de uma forma latente e nauseante. Não era possível fazer meu próprio cérebro deixar de remoer aquelas emoções, era necessário processá-las novamente com algumas adicionais às acompanhando e tornando tudo ainda mais desagradável.

Acordei agitada várias vezes durante a noite, achando ter ouvido gritos de Loki, mas ele dormia tranquilo ao meu lado. Os cabelos negros e ondulados espalhados pelo travesseiro branco, lhe emoldurando o rosto de traços firmes, o faziam parecer ainda mais bonito. Apertei meus lábios, ainda o fitando.

— Você não vai dormir? — perguntou sem abrir os olhos. Eram quase cinco da manhã. Aquilo me fez rir baixo com uma sombra de humor e me aproximar do corpo dele. O deus abriu os olhos, me encarando com seriedade, os olhos novamente esquadrinhando minhas expressões. Franziu as sobrancelhas ao se deparar com meu próprio rosto a centímetros do dele.

O sorriso desapareceu dos meus lábios em um átimo. O som dos gritos enchendo minha mente mais uma vez. Senti minhas pupilas se dilatarem. Loki levou a mão à lateral do meu rosto, com gentileza. Ele não precisava ler minha mente para saber o que era.

— Esqueça isso — comando apesar da voz branda. Meus olhos se estreitaram acusadores.

— Você esqueceu? — rebati seca. Ele apertou os lábios, insatisfeito com minha resposta.

— Isso não importa. Não tem nada a ver com seus problemas de humana e pode acreditar, já passei por situações piores — devolveu tentando me fazer calar, embora falasse muito sério.

— Importa para mim — respondi rápida como um tiro de arco.

— E por que isso? — questionou destilando veneno nas palavras, incomodado que eu o confrontasse. — Atenha-se aos seus problemas mortais — ordenou com frieza. Sorri com tanta doçura quanto podia e vi o gelo em seus olhos se partir.

— Por que isso? — repeti numa voz suave, em retórica. — Porque eu amo você — afirmei de maneira franca, me desarmando completamente.

Os olhos verdes pareceram chocados com minha franqueza, passeando agitados por meu rosto, como se buscassem sinal de mentira. Como se procurassem por deboche ou piada. Como se fossem habituados a isso. Eles poderiam procurar por mil anos e não achariam nada. Me admirava que ele próprio parecesse tão surpreso. Não era exatamente segredo, porém talvez o ato de se expor dessa maneira fosse novidade. Loki parecia ferido pelas minhas palavras. Quem sabe, a novidade estivesse em ser amado. Eu mesma não entendia algo assim.

Ficamos em um longo silêncio e assisti seus olhos se recomporem, reerguendo a muralha fria que o separava do mundo. Eu a tinha destruído por um breve segundo. Um único golpe e eu tinha visto Loki por trás de toda proteção.

— Acho que a Mente afetou o pouco cérebro que você tinha — alfinetou por fim, com uma tentativa do sarcasmo habitual. Me apoiei sobre o cotovelo, inclinando o corpo sobre o dele, meus cabelos formando uma cortina vermelha de cada lado, o obrigando a me encarar diretamente.

— Você, melhor do que ninguém, sabe que não — acusei. Sua expressão tornou-se distante. Ele desejava desviar os olhos, mas não havia para onde. — Não estou te cobrando nada. Nem espero qualquer coisa em troca — garanti o fazendo firmar os olhos nos meus. — Mas não pode esperar que eu esqueça. Que eu queira esquecer. Quando tudo isso acabar, não importa o que vá fazer a seguir. Só quero que me garanta o direito de lembrar de cada minuto — pedi enfática. Ele manteve os olhos firmes nos meus. Após um longo segundo assentiu lentamente. Soltei um grande suspiro e fiz menção de me deitar novamente, porém Loki me puxou pela nuca em um beijo calmo. Como se tocasse em cristal e eu pudesse me partir. Não tocou meu corpo, como sempre fazia, mas sim segurou meu rosto com ambas as mãos afastando os cabelos. Ele era tão doce que eu desejei que fosse tão humano quanto eu era. Um desejo tolo. Assim como eu.

Loki encerrou o beijo ainda me fitando por alguns segundos. Ofereci um sorriso que parecia dolorido até para mim, o fazendo desviar os olhos e soltar meu rosto. Me deitei em silêncio. Podíamos ouvir o som dos carros começando a circular na rua.

— Você não devia confiar em mim — disse sério, depois de um tempo.

— Agora é tarde para me avisar — redargui em um tom divertido. — Como vamos entrar na S.H.I.E.L.D.? — Perguntei mudando o assunto.

— Vá se arrumar, tenho um plano em mente — anunciou de um jeito rígido, assumindo que eu realmente não dormiria mais. Aquilo me trouxe certa animação e cansaço. Levantei e fiz um muxoxo encarando o vestido verde que a essa altura já estava imundo. Os olhos dele acompanharam os meus, entendendo minha expressão. — Não reclame. Ainda hoje terá suas roupas de volta — prometeu de um jeito que me causou calafrios.

Ele mesmo se levantou e tomou um banho rápido, antes de se vestir. Aguardei na sala, sentada em uma cadeira de frente para Jane e Thor que estavam acordados desde muito cedo também. Não trocamos uma única palavra, mas não pude deixar de reparar que Jane tinha uma única marca roxa no pescoço, pouco abaixo da orelha. Certamente alguém a tinha mordiscado com vontade ali. A mulher notou a direção do meu olhar e escondeu o rosto levemente corado atrás da borda caneca, puxando uma mecha de cabelo tentando disfarçar. Eu sorri e pisquei de uma maneira cúmplice. Um sorriso ínfimo se formou nos lábios dela antes que desviasse o olhar. Quem poderia julgá-la? Eu certamente não.

Loki entrou na sala e se sentou em uma cadeira ao meu lado. Olhou ao redor por um breve minuto, parecendo pensativo.

— Onde está a menina? — inquiriu finalmente.

— Dormindo — Jane respondeu breve. Ele assentiu parecendo satisfeito. Era realmente muito cedo.

— Irmão, como pretende retirar a Manopla do Infinito da S.H.I.EL.D.? — Thor interpelou, direto e curioso. Conhecia Loki bem demais para saber como certamente já formara uma boa ideia do que faríamos.

— A primeira questão é quão longe fica a sede daqui.

— Ahn... — Jane começou a falar incerta. Estávamos em Londres e a sede ficava em Nova York, mas os irmãos não pareciam ter noção disso. — A sede foi destruída. Passou na televisão esses dias — comentou olhando diretamente para mim. Senti minha expressão tomar-se pelo choque, assim como a dos dois homens. Disso nem eu tinha noção. Percebendo nossa atenção e curiosidade, prosseguiu: — O Hulk botou tudo abaixo.

— E o que aconteceu com ele? — quis saber, me sentindo apavorada. Eu não dava a mínima para os agentes dentro do prédio.

— Foi embora... — Ela falou. — Dado como desaparecido. Agora as operações da unidade foram transferidas temporariamente para o aeroporta-aviões.

— Como você sabe de tudo isso? — Loki perguntou parecendo abismado. Ela pegou um jornal de uma pilha e o atirou no colo do príncipe asgardiano. A foto de capa mostrava o Hulk urrando diante dos escombros em chamas do prédio. A um canto uma imagem menor mostrava um desenho de como seria o novo local. — E como chegamos lá?

— Eu não sei — ela disse dando de ombros. — A localização não foi divulgada por motivos óbvios.

— Tony me disse que ficavam em algum lugar no Oceano Atlântico acima da linha do Equador — falei me lembrando daquela conversa antiga. Os irmãos me olharam como se eu estivesse falando em grego. Geografia midgardiana talvez fosse um problema. — Mas ainda assim é uma área gigantesca para se fazer uma busca — prossegui me sentindo confusa com o rumo das coisas. Olhei para Loki esperando que ele tivesse uma solução para isso. Os olhos se estreitaram em sagacidade.

— Vocês dois estiveram lá dentro — Jane falou, olhando de um homem para outro. — Não sabem voltar?

— Digamos que eu não saí pela porta da frente a ponto de poder anotar o endereço. — Thor falou olhando acusador para o irmão. Aquilo pôs um sorriso irônico no rosto dele.

— Eu estava com um pouco de pressa... — Loki desconversou simplesmente. Claro que estava. A dominação mundial não podia esperar. Ele olhou para mim de um jeito astuto.

— Mas seu irmão também esteve lá naquela ocasião, não é verdade? — perguntou de modo ardiloso. Automaticamente percebi que ele tinha um plano.

— E como você pretende fazer isso?

— Ele negaria ajuda a você? — interpelou sorrindo, sabendo ter razão. Foi minha vez de sorrir.

Por mais que nossa relação tivesse se iniciado por conveniências, com Tony querendo impressionar a única mulher que pouco lhe dava confiança e eu querendo usufruir do bem-estar que pudessem proporcionar, quanto mais Pepper gostava de mim, mais Tony era receptivo a minha presença e no final das contas a encenação, de certa forma, tornara-se verdade. Eu passara de bichinho de estimação a algo realmente como família e a recíproca era verdadeira. Não, Tony não me negaria nada. Não hoje.

— Mas e quanto a Banner, Rogers, Barton e a Natasha Romanoff? — Foi a vez de Thor expressar a dúvida, me fazendo perceber como a lista era longa. Nesse momento Anong, entrou na sala vestindo um blusão de Jane como camisola. Vinha sonolenta e olhou para todos ao redor, antes de caminhar até mim e se sentar em meu colo, com um bom dia repleto de sotaque. Loki sorriu.

— O Gavião e o Capitão são um problema meu. A Viúva tem assuntos inacabados com Liana e posso esperar a minha vez — afirmou seguro. Thor franziu as sobrancelhas sem entender exatamente a dimensão daquilo. Eu adoraria vê-lo dar uma surra em Steve. E certamente não me esqueceria de ser muito carinhosa com Natasha. Os olhos de Anong pousaram no rosto de Loki como se pudesse entendê-lo. Lembrei a mim mesma que talvez ele realmente fosse capaz de fazê-la entender. — Mas, antes de qualquer coisa, precisamos providenciar o encontro de um pai com sua filhinha.

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Loki mais uma vez conduzia minha mente, com o auxílio da joia do Espaço, desde que soubéssemos para onde iríamos não era difícil. Assim ele guiava minha mente e de Anong. Ela era uma criança muito tranquila. Possivelmente não tinha entendido muita coisa, mas não tinha ficado assustada porque estaríamos juntas e essa parte ela entendera bem. Se algo saísse errado deveríamos voltar. Imediatamente. Sem negociar. Sem hesitar. Sem nos arriscarmos. Loki tinha sido muito enfático nisso.

Quase não reconheci aquele lugar. Não sei por quê. Talvez pela reforma que havia acontecido. Ou por não esperar encontrá-los em um lugar de tão fácil acesso. Mas pode ser que o melhor esconderijo seja aos olhos de todos. Ou talvez não estivessem se escondendo. Poderiam estar esperando que a briga viesse até eles. Era difícil entender com clareza.

Eu e Anong surgimos na sala de estar da casa no penhasco de Tony. Não havia ninguém à vista. Eu apertava o arco nas mãos, e puxei a menina para trás do meu corpo de imediato.

— Jarvis? — chamei em voz baixa, insegura.

— Seja bem-vinda, senhorita Stark — Ele respondeu reproduzindo meu tom de voz.

— Qual a programação para minha chegada? — perguntei de imediato. Certamente havia uma.

— Isolar os sistemas e a casa — falou enquanto as persianas se fechavam. — Avisar o senhor Stark e oferecer uma cerveja — informou. Aquilo me fez rir.

Mal dito isso, Tony entrou derrapando na sala, seguido de perto por Pepper. Ambos me olharam de cima a baixo com expressões puramente chocadas. Achei que o sorriso no meu rosto fosse tão grande que pudesse cair para fora dele. Ambos sorriram em resposta e correram para mim. Tony me abraçou pela cintura me erguendo do chão enquanto sua noiva se pendurava em meu pescoço, entregue as lágrimas. Minha família. De verdade. Uma família torta com um começo mais torto ainda, mas não eram todas assim? Me senti chorar como um bebê. Todo cansaço das últimas semanas se indo.

— Você está bem? — Pepper perguntou me encarando, o rosto encharcado. Seus olhos se focaram no corte da testa que eu vinha relevando a tempo demais. Ela fez um muxoxo ao ver aquilo.

— A S.H.I.E.L.D? — perguntei verbalizando minha maior preocupação olhando de um para o outro. Tínhamos pressa.

— Ninguém virá, está segura aqui — Tony garantiu me tranquilizando. — Estou hospedando Banner depois do que aconteceu. Ninguém viria até aqui com o perigo de deixar ele nervoso. Mas eles acham que estão vigiando a casa.

— E você o recebeu? — perguntei vergonhosamente chocada.

— Ele é meu amigo. — Deu de ombros. Também o considerava dessa forma, porém isso não diminuia meu medo. Então Tony piscou o olho para mim. — E eu sou o Homem de Ferro. — Aquilo me fez rir. Eu estava em casa. — Falando nisso, cadê o Homem Rena? Ele precisa ter uma boa conversa com o Mark VII.

— Loki não veio. Vamos ter tempo para conversar e eu posso pôr vocês a par das coisas — esclareci breve. — Onde está o Banner? — questionei. Pepper estava abaixada no chão conversando animadamente com Anong. Uma poliglota incrível. Se não fosse, nunca teria sido contratada como assistente do Tony e nem seria responsável pela gestão da empresa até hoje. Ela não conhecia a menina, mas algo dito por Anong fez com que Pepper dirigisse um olhar chocado para mim. Ofereci um sorriso enviesado a ela. — Onde ele está? — repeti, antes de ambos começarem a questionar.

— Final do corredor — Peps respondeu simplesmente. Segurei a mão da criança que me olhou curiosa, enquanto eu a conduzia. Bati à porta, mas não houve resposta. Me arrisquei a abri-la lentamente.

O quarto parecia não ser aberto há dias, com aquele cheiro de lugar fechado o tomando. A cama de casal estava bagunçada, havia pratos com comida praticamente intocada sobre a mesa de estudos. As persianas estavam semicerradas, dando um ar lúgubre ao recinto. Banner estava sentado em uma cadeira próxima à janela, a cabeça apoiada ao vidro olhando inutilmente pelas frestas da persiana. Tinha os olhos inchados. Visivelmente destruído.

— Bruce? — chamei em voz baixa. Ele ergueu os olhos lentamente para mim. Pareceu confuso por um segundo, como se duvidasse que eu estivesse ali. Seus olhos se estreitaram ligeiramente ao ter certeza. Me perguntei se ele me culpava pela morte de Anong. Eu esperava sinceramente que trazê-la de volta pudesse apagar essa impressão. Ele se virou ainda sentado.

— Liana — constatou breve. A menina tentava espiar, mas eu mantinha meu corpo bloqueado o caminho e segurava a porta. — De volta ao lar? — perguntou monocórdio. Ele não estava minimamente interessado.

— Eu não sou importante — respondi. — Você não está nada bem.

— Dá para notar? — comentou aleatório.

— Você conhece gratidão? — perguntei. Eu praticamente ouvia Loki sussurrando as palavras aos meus ouvidos. Novamente eu era a marionete. Banner franziu o cenho diante da minha pergunta. Assentiu levemente, com um ar desconfiado. — Conhece lealdade? — Outra pergunta do deus. Novamente ele concordou, o interesse surgindo lentamente nos olhos. Ainda precisava fazer uma última pergunta. Essa, muito minha. — Você conhece vingança?

— Eu a desejo a cada manhã — afirmou com rancor na voz, me encarando sério. Eu sorri. Empurrei a porta para trás. Anong colocou a cabeça para espiar.

Os olhos de Bruce desceram de mim para ela. Sua expressão me fez rir, ao se alternar em dezenas de sentimentos. Suas sobrancelhas se franziram e os olhos castanhos do homem a analisaram atentamente, como se fosse incapaz de compreender. Em seguida se arregalaram em choque. E por fim inundaram-se com lágrimas.

Anong gritou algo em tailandês e correu na direção dele, os bracinhos abertos. O homem levantou da cadeira se pondo de joelhos, a envolvendo em um abraço desesperado. Ele chorava alto, sem se importar. Falava frases que aos meus ouvidos soavam incoerentes, e que apesar disso não precisavam de tradução. A menina respondia a todas com o mesmo entusiasmo, entregue as lágrimas como o pai.

O homem beijava-lhe as bochechas e as mãozinhas pequenas, alternando entre as lágrimas e os risos. Outra família torta. Precisei desviar os olhos antes que eu mesma chorasse. Pepper e Tony espiavam por sobre meus ombros. Ela completamente entregue as lágrimas, enquanto meu irmão piscava repetida e rapidamente. Aquilo me arrancou um sorriso, satisfeita. Se eu tivesse feito algo de bom, estava ali diante de mim. Bruce ergueu os olhos marejados, ainda abraçado a menininha.

— Obrigado. De verdade — balbuciou sem saber o que dizer, sua voz soando tão embargada que quase não entendi. Sorri, me permitindo chorar por fim. “Sentimental”. A voz de Loki dizia travessa em minha mente. Aquilo me fez rir. Eu era mesmo.

— Posso contar com você? — perguntei afinal. Ele me olhou sério, ficou de pé e caminhou parando a minha frente, segurando a filha no colo.

— Sempre — respondeu firme. Aquilo me fez sorrir com o sorriso de Loki. Ele sabia e adorava o resultado. Alguns detalhes ainda seriam resolvidos, mas tínhamos mais dois aliados poderosos. Eu tinha um pequeno exército. Eu tinha o Hulk.

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Nos sentamos alguns minutos mais tarde na sala de estar. Narrei a eles toda a aventura que vinha vivenciando e nosso plano de invadir a sede da S.H.I.E.L.D. Os três me ouviram atentamente com expressões às vezes atentas, em outras chocadas. Era engraçado como Bruce olhava a cada poucos minutos para Anong, que ele mantinha sentada ao seu lado, e sorria completamente realizado. Quem diria que Hulk fosse um cara paternal?

Expliquei a eles o “plano” de consertar as coisas. De apagar os crimes de Loki e todo resto. Me sentia mal pela mentira, mas quando o deus tivesse as joias e governasse tudo eu sairia como a pobrezinha enganada. Os três pareciam definitivamente desconfiados. Eles não tinham a inocência de Thor.

Eu mesma usarei a Manopla do Infinito. Loki não tocará nela, posso garantir a vocês.

— Eu mesma usarei a Manopla do Infinito. Loki não tocará nela, posso garantir a vocês — repeti meu texto. Eles pareciam pesar minhas palavras, mas todos queriam me ajudar. E mais uma vez a alternativa que o deus propunha era a mais razoável. Por fim assentiram concordando. Eles invadiriam a S.H.I.E.L.D. comigo. Nick Fury que se preparasse. — Então... — continuei a falar, porém fui interrompida por Thor, Loki e Jane que surgiram sem aviso em meio a sala. Assim do nada. O mais velho trazia o corpo original de Anong nos braços e o outro carregava a mim. Assim que ele pôs os olhos em nós, me senti apagar e acordar nos braços dele. Os corpos que estavam sentados despareceram no ar. Banner e Tony levantaram chocados. Pepper apenas ficou olhando de olhos arregalados.

Os deuses nos puseram no chão com gentileza. Anong rapidamente voltou a se sentar onde estivera antes, com um Bruce atarantado lhe fazendo um interrogatório em tailandês. Ela agia com tanta naturalidade que parecia cômico, contudo já havia visto coisas demais nessa vida para se admirar.

— Desculpem — recomecei. — Usamos dois corpos caso precisássemos fugir, poderíamos voltar para os originais. — Tentei resumir como se fosse perfeitamente lógico e natural. Tony sentou bufando.

— Já mencionei que odeio magia? — declarou estarrecido e visivelmente incomodado. Eu ri e me sentei novamente em minha poltrona preta.

— Sentem, por favor — Pepper convidou sempre muito educada a despeito da chegada intempestiva. Thor e Jane dividiram um pufe branco a um canto, mas antes que Loki pudesse sentar em uma poltrona, meu irmão colocou os pés nela. Tony não era tão condescendente assim. O deus encarou as pantufas rosas, possivelmente surrupiadas da anfitriã, e seus olhos subiram encarando a face de deboche do homem. Ele voltou até mim estendendo a mão, me pedindo que levantasse. Assim que a segurei me pondo de pé, Loki se sentou e me puxou para seu colo, encarando Tony numa reprodução exata de sua expressão anterior.

— Eu vou bater nessa rena! — meu irmão disse, levantando-se novamente.

— Não vai, não! — Pepper retrucou o puxando pela barra da camiseta, para que sentasse novamente. Eu pulei para a poltrona vazia antes que eles se matassem.

— Vamos ao que realmente importa — Loki disse, chamando a atenção para si. — A Manopla estará guardada nos cofres de segurança máxima da S.H.I.E.L.D. e chegar até eles vai ser no mínimo complicado.

— Eu e Thor podemos dar conta dos agentes — Bruce garantiu — Deixamos o caminho livre para vocês chegarem até o cofre.

— Abrir o cofre é moleza — Tony emendou solícito, supondo que realmente seria um cofre. — E se não for, a gente sempre pode colocar a baixo — completou dando dois tapinhas no joelho do cientista.

— Justamente isso que me preocupa — Thor expôs. — Não me entenda mal, mas e se tudo vier abaixo?

— Não tem esse risco, Liana pode mantê-lo sob controle com Poder se for o caso. — o irmão refutou. Bruce se mexeu desconfortável. Estavam agindo como se ele fosse um cachorro raivoso.

— Tenho certeza de que isso não vai acontecer — Pepper interviu com doçura. — Mas me pergunto como planejam entrar na sede. Acho que quanto mais tempo puderem circular sem serem notados seria ideal e me parece que chegarão com os dois pés na porta.

— Realmente não podem chegar explodindo tudo — Jane concordou pensativa. — Isso praticamente derrubaria os agentes na cabeça de vocês.

— Bom eu poderia tomar, uma ou duas mentes... — Loki afirmou sorrindo mordaz.

— Nem pensar! — Thor interveio sério. — Já basta toda essa liberdade que Liana tem te dado. Você pode fazer estrago suficiente tomando apenas a mente dela.

— Você tem invadido a mente da minha irmã?! — Tony questionou exasperado.

— Ela deixa... — respondeu em um falso tom de inocência que me fez rir. Meu irmão olhou indignado para mim.

— Ficou maluca?

— A questão não é essa, Tony — desconversei tentando desviar o assunto. — A questão é como vamos entrar sem sermos notados.

— Bom... — Bruce começou, chamando a atenção para si. Meu irmão apontou com dois dedos para os próprios olhos e em seguida para os de Loki, antes de dar atenção ao cientista. — Tem uma pessoa que nos colocaria lá dentro. Bastaria dizermos que Liana está aqui. — Essas palavras foram ditas com ele me olhando diretamente. De início não entendi a quem se referia, mas então me ocorreu, como lodo sujo vindo à tona quando se revira um rio. Era assim que eu me senti quando percebi de quem falavam.

— Nem pensar — descartei com a voz carregada de desprezo. — Eu mato um por um dos agentes antes de precisar dele — adverti, o rancor se fazendo firme em minha voz. Loki levantou uma sobrancelha parecendo confuso.

— Quem...?

— Steve Rogers — Tony começou. — Você o conhece como Capitão América — explicou para o deus da trapaça.

— E qual o seu probl... — ele começou a perguntar, no entanto se interrompeu ao ver minha expressão. Eu estava fervendo e apesar disso estava corada com violência. Os olhos verdes perscrutaram meu rosto por alguns segundos. Os lábios crisparam-se. — Quem além do Capitão?

— Ninguém — Bruce concluiu, mostrando as mãos em sinal de derrota. — Apenas ele ajudaria de bom grado — afirmou, soando condescendente. Aquilo me fez grunhir irritada, batendo ambas as mãos contra os joelhos.

— Chamem ele de uma vez! — Bufei irritada me pondo de pé. — Vou tomar um banho no meu quarto e não pretendo vê-lo antes da hora, podem deixá-lo ciente. Não tenho nada para conversar com Steve — falei me afastando do grupo, já antecipando que ele gostaria de me dizer algo. Loki imediatamente veio atrás de mim.

— Você acha que vai aonde, Rena? — Tony perguntou seriamente. Nós dois nos viramos.

— Para o quarto com ela — rebateu mordaz e pausadamente. Seus olhos encaravam meu irmão como um dia tinham me encarado. Como se ele fosse algo sujo na sola do seu sapato. Divertia-lhe desafiá-lo. Tony se pôs de pé e uma das luvas de Mark VII veio até ele. Aquilo me fez pular na frente de Loki, o olhando seriamente.

— Ei! — gritei irritada. Se eu fosse o Hulk todos estariam muito ferrados. Me sentia ferver e talvez isso fosse tão óbvio que fez Tony abaixar a mão. Segurei a de Loki e o puxei pelas escadas comigo. Meu quarto estava exatamente do mesmo jeito de sempre. Fechei a porta às minhas costas e dei um soco na madeira. O deus nada fez para impedir minha pequena explosão. Ele mesmo era temperamental.

— Aquele dia no alto da S.H.I.E.L.D. você disse algo sobre ele saber de tudo que haviam feito. Achei que estivesse se referindo ao simples fato de terem apagado sua memória — Loki começou a falar sentando-se na minha cama. Seus olhos eram frios e calculistas. — Mas me parece que o crime dele foi mais grave. Que a traição dele tem um peso diferente do que eu vejo. Ele era seu namorado ou algo assim? — interpelou com um sarcasmo tão pronunciado que me flagrei erguendo as sobrancelhas. Eu poderia ter rido se o homem em questão fosse outro.

— Não foi nada demais — desmereci, tentando convencer mais a mim mesma do que a ele.

— Então vocês tiveram alguma coisa — confirmou perspicaz. Suspirei pesadamente, antes de assentir a contragosto. Não sabia se alguns beijos e alguns encontros podiam ser chamados de relacionamento. A questão é que eu tinha levado aquilo muito a sério na época, mas isso tinha sido antes de Loki. Mais ou menos. Agora só restava ressentimento.

— Não foi nada demais — repeti tolamente, abrindo a porta do banheiro ansiosa pela desculpa de encerrar aquele assunto e pela necessidade de um banho. Ele deu de ombros e se esticou na cama.

— Pelo jeito para ele foi, para vir correndo como um cachorrinho — concluiu com a voz tomada de sarcasmo e uma pontada de desprezo. Por algum motivo o jeito como ele soava me fez rir e o som da minha risada o fez olhar para mim. Deixei o vestido escorregar pelas costas e pernas, e acompanhei o olhar dele seguindo o tecido. Fechei a porta do banheiro lentamente o encarando. Tranquei-a segurando o riso e ouvi claramente quando um travesseiro se chocou contra a madeira. Deuses, como eu poderia me habituar a viver sem Loki ao meu redor?

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Shorts jeans e regata preta. Achei que nunca mais fosse vestir uma roupa assim e confesso ter me estranhado no espelho. Saí do banho me sentindo nova em folha, passei dúzias de cremes que não usava há semanas e coloquei minha pulseira e bracelete de volta aos lugares.

Eu estava preocupada com Jinggles. Esperava que meu gatinho estivesse ali, mas aparentemente não. Estava voltando à sala para perguntar a Tony onde ele estava, quando ouvi a conversa em um tom baixo.

— ...fechada. Claro que ela não vai gostar — Pepper dizia seriamente.

— Não é questão de gostar — Bruce emendou. Eles falavam muito baixo, eu mal conseguia ouvir. — ...atleta! Não uma agente! — Que maravilha. O assunto era eu.

— ... melhor... afirmar que... arrisca demais — Loki dizia em um tom circunspecto. Eu não me arriscava demais! Que coisa absurda.

` — Está decidido — alguém falou em concordância. Aquela voz fez meu coração parar uma batida, minha expressão se fechando. Como ele estava ali tão rápido?

Entrei na sala e todos estavam sentados nas poltronas. Pepper e Jane tiveram a decência de parecer culpadas. Thor e Tony as ladeavam de cada lado no sofá. Bruce estava no pufe, enquanto Anong desenhava em um caderno sobre a mesinha de centro. O desenho me lembrou vagamente uma ave vermelha voando. Loki estava de volta a sua poltrona, os cabelos em ondas sobre os ombros e vestia, para minha surpresa, sapatos sociais, camisa e um terno preto alinhado. Acho que me esqueci como respirar por um momento e ele pareceu notar, seu sorriso de canto surgindo me obrigando a desviar o olhar.

Então meus olhos encontraram os dele. Eu já tinha me esquecido de como eram azuis. Steve corou ao me ver. Eu desejei que fosse de pura vergonha mesmo. Ele vestia uma camiseta preta muito justa e calças cargo. O cheiro de sua colônia me irritava.

— Liana... — ele começou. Me virei para Tony o ignorando. Não foi planejado, mas se eu tivesse que lhe dirigir a palavra era provável que agarrasse um dos lápis de Anong e tentasse lhe furar os olhos.

— Jinggles? — indaguei simplesmente. Tony olhou de volta para o Capitão. Merda. Ele trazia uma caixa de transporte e meu gato, me espreitava com seus grandes olhos verdes, visivelmente ansioso por descer. Fui até ele e abri a caixa pegando o bichinho, me obrigando a evitar encarar o homem que o trazia. Meu gato ronronou satisfeito, ao meu toque. — Obrigada — agradeci simplesmente, tentando não soar tão seca. Ele assentiu cheio de uma expressão culpada no rosto.

— É um bom gato —comentou sem jeito. Eu apenas assenti concordando. O clima era visivelmente tenso e eu estava muito ciente de Loki nos observando com a cabeça levemente inclinada, os olhos estreitos com alguma curiosidade como se fossemos a coisa mais interessante naquela sala.

— Steve concordou em ajudar — Bruce informou tentando quebrar um pouco a tensão.

— Desde que ele passe longe da minha cabeça — rebati venenosa. Pelo canto dos olhos vi Loki sorrir. Ele tinha acesso se pedisse.

— Será que podemos conversar em particular? — Steve pediu com muita educação.

— Não tenho mais nada para falar com você — cortei fria. — Obrigada por cuidar do meu gato. E só.

— Lia... — Pepper começou tentando remediar. Ofereci a ela meu olhar mais fulminante. Eu estava muito consciente de que Loki estava atento e visivelmente se divertindo com minha recusa em conversar com o Capitão.

— Por favor... — Steve pediu segurando minha mão, sem se importar com as sobrancelhas de Loki se franzindo e seu olhar acompanhando o gesto atentamente. Se Jinggles não fosse se machucar eu teria jogado o gato em Steve. Bufei irritada, puxando-a para longe.

— Você tem cinco minutos — ofereci fria. Todos se levantaram automaticamente. Loki levantou-se da poltrona o encarando com olhos ferinos, muitas palavras estavam intrínsecas naquele olhar. Assim que a sala se fez vazia, coloquei meu gato no chão e me sentei na poltrona de couro, o olhando séria.

—Nunca vai me perdoar? — perguntou em um tom dolorido.

— Eu confiei em você — lembrei-o com um rosnado cheio de veneno. Era isso ou começar a gritar. — Você me vendeu por um pouco de tranquilidade na sua vidinha.

— Sabe que não foi assim— tentou justificar, puxando uma poltrona até diante da minha. Seus olhos pediam um voto de confiança que eu não estava disposta a dar.

— E como foi então? — questionei raivosa. — Porque do meu ângulo, foi exatamente assim.

— Eles me convenceram de que isso acabaria com o problema — falou encarando as próprias mãos, cheio de arrependimento. Tentei me lembrar de que ele era um bom homem, mas era bem difícil no momento. — Que você não saberia dos planos de Loki, nem se lembraria de que havia se aliado a ele. Você estava indo por um caminho tão perigoso e eu não sabia mais como ajudar, Loki é uma pessoa…

— Não fale dele — cortei, brusca. Steve engoliu em seco.

— Você estava exposta e cada vez mais enroscada. Isso a tiraria da mira da agência e assim eles poderiam garantir sua segurança. Achei que fosse ser bom… Você teria sua vida de volta ao normal, como deveria ser.

— Não me lembro de ter perguntado o que eu achava — rebati fria. Ele ergueu os olhos cheios de tristeza. Senti meu coração se apertar um átimo.

— Eu errei, agi como um idiota. Achei que a solução mais fácil fosse a mais certa. Se eu soubesse como você iria se sentir, não teria concordado. Achei que você fosse ficar bem... que tudo fosse ficar certo... — explicou, parecendo perdido. — Pode me perdoar?

Ele era um homem tolo e fora de sua época. Acreditava nas palavras das pessoas e não via intenções. Eu confiava que não havia desejado meu mal, mas não podia ignorar o fato de que deixou me usarem como cobaia. Que concordou com docilidade. Quando Loki notou minha ausência de lembranças sua raiva foi quase palpável. Ele nunca teria permitido. Steve havia tentado me manter perto, sem questionar os meios. Tony e Bruce haviam tentado dissuadi-los, mas eram pouco diante da organização. Ele poderia ter me defendido. Poderia ter dito que simplesmente me deixassem em paz. Claro que isso não aconteceria. Loki estaria na S.H.I.E.L.D. e eu saberia. Certamente teria ido atrás dele muito antes, porém meu direito de escolha teria sido preservado e com ele o carinho que eu havia tido por Steve. Talvez esse carinho tivesse se transformado em amor, como tudo havia indicado uma vez. Talvez ele fosse tudo. E Loki o nada. Se não fosse a joia da realidade eu poderia ter ficado oca. Sempre com o vazio me atormentando. Se Steve não tivesse concordado com Fury, poderíamos estar juntos. Ele era bom e correto. Atrapalhado e tolo, mas bom e correto. Éramos um casal interessante para a S.H.I.E.L.D., uma promessa, uma aliança. Contudo isso nunca aconteceria por um erro dele. O tipo indecisa não era parte de mim. Ele não me balançaria. Eu era incondicionalmente de Loki.

— Steve, eu entendo de verdade. Entendo que você tomou uma decisão errada, porque confiou nas pessoas erradas, mas a sua decisão me expôs. E espero que você consiga ver isso — declarei séria. Ele ergueu os olhos para mim, uma expressão de arrependimento, mas também esperançosa no rosto. — Eu quero a sua ajuda porque preciso dela, mas as coisas não vão voltar a ser como antes. O que você fez foi grave demais. Eu posso perdoar. Mas não vou esquecer.

— Não sei se quero apenas a sua amizade... — admitiu cabisbaixo. Apertei os lábios percebendo que ele criara algum tipo de história em que eu era uma mocinha precisando ser salva e aceitaria seu socorro. Não era bem assim.

— Não posso te garantir nem isso — retruquei seca. Minhas palavras o fizeram fechar os olhos com força, entendendo que não sobrara absolutamente nada entre nós a ser resgatado. — Não vou te impedir de tentar, mas acho que deve saber que amor é uma coisa que não vai acontecer. Temos uma aliança. Tão frágil quanto a minha confiança em você e somente por uma questão de conveniência — concluí me levantando para sair da sala. Ele ficou de pé e segurou minha mão me fazendo voltar.

— Então você também deve saber que eu te amo. E que eu não vou desistir — afirmou sério, me desconcertando totalmente.

Agora eu podia imaginar como Loki tinha se sentido ao ouvir aquelas palavras de mim. Como aquilo incomodava quando você não tinha interesse. O amor não era um sentimento lindo e florido. Pelo menos não desse ângulo. Eu assenti para Steve, desviando o olhar. Se ele queria esse tipo de ilusão eu podia entender. Afinal, não era essa minha situação com Loki? Insistir numa luta perdida? Por mais que Steve tentasse, insistisse e se esforçasse, a imagem de príncipe encantado estava destruída.

Ele continuava me segurando, os olhos azuis procurando os meus, desejando que sua declaração me fizesse repensar. Aquilo estava me constrangendo. Soltei minha mão com gentileza, apertando os lábios em uma recusa silenciosa. Steve levou a mão ao meu rosto, em um pedido.

— Farei as coisas do jeito certo, dessa vez. Somente… me deixe tentar de novo. Do zero — sugeriu em uma tentativa de que eu pudesse aceitar arriscar reconstruir aquela relação. Em outro tempo, em outra vida, essa teria sido a decisão mais segura. Quando fiz menção de pedir distância, fomos interrompidos.

— Acho que seus cinco minutos acabaram — Loki falava encostado à parede com displicência. O olhar assassino não concordava com isso. Ele se aproximou e me puxou gentilmente pela mão, passando os braços pela minha cintura, me trazendo perto de si. Simplesmente ignorou a presença de Steve e eu soube instintivamente que aquela cena não seria bem recebida. O Capitão ergueu as sobrancelhas parecendo finalmente entender que se no passado não houvera nada entre nós, isso havia mudado. — Tudo bem? — perguntou em um tom calmo e seguro, o rosto próximo ao meu. Eu assenti, breve com um pequeno sorriso que fui incapaz de reprimir diante do comportamento de Loki. Isso era o que eu achava que era?

— Ela não é um brinquedo — Steve falou irritado.

— Depois de tudo o que você fez, quer realmente me ensinar a como tratar uma mulher? — Loki perguntou com desprezo, o olhando de lado. Senti a sirene soar em minha mente.

— Faria bem aprender uma ou duas lições. Pode começar aprendendo a protegê-la — alfinetou, olhando o corte em minha testa e a cicatriz em minha perna. Loki me pôs de lado e se aproximou de Steve, o encarando nos olhos com frieza, desprezo e desafio.

— É engraçado ouvir isso de quem achou correto deixarem abrir a cabeça dela, porém reconheço o erro. Às vezes acabo me esquecendo como os humanos são frágeis. Como formigas — comentou com frieza o olhando de cima a baixo. — Mas parece que ela conseguiu me perdoar o suficiente para querer estar nos meus braços — prosseguiu com crueldade. Me senti corar como um pimentão ao ouvir aquilo. Levei as mãos à manga do paletó, tentando chamar atenção, no entanto ele nem sequer me notou. Não notou porque Steve o acertou em cheio com um soco no rosto.

Aquilo fez Loki sorrir, levando a mão à mandíbula e eu gritar com o susto. Ele revidou o soco com tanta força que jogou o soldado por cima de uma mesinha de centro que se partiu em pedaços.

— Chega! — gritei, mas eles não me ouviam. Steve se levantou massageando, fechando as mãos em punhos.

— Você a exibe por todo lado como se fosse um troféu, um objeto. Em algum momento se lembra de que Liana é uma pessoa com sentimentos? — acusou. Não pude evitar deixar meus olhos correrem para Loki em busca da sua reação, vendo-o apenas abaixar levemente a cabeça com um olhar afiado e a mandíbula tensa. — E quando você enjoar? E quando voltar a Asgard e a deixar aqui, sozinha? Já se perguntou sobre como ela vai se sentir? Mas você provavelmente não se preocupa com nenhuma dessas coisas — atirou as palavras como facas. Elas atingiram o alvo em cheio, mas não sem antes me cortarem também. Por um segundo muito, muito fugaz eu vi o olhar do deus parecer perdido. Em seguida um sorriso repleto de escárnio. A lança de Loki surgiu em suas mãos e Steve pegou o escudo que estava encostado à parede.

— Chega! — repeti, apavorada com o rumo que aquilo estava tomando. — Ficaram malucos?! — esbravejei, mas ambos se mediam com tanta atenção que me ignoraram sumariamente. — Tony! Bruce! — gritei tão alto quanto pude, pedindo ajuda antes que eles se matassem. Antes de eu mesma pegar o arco e intervir. Corri para a porta do corredor e a abri com força. — Alguém aqui! Thor! — chamei insistente. Maldita casa enorme. Fui forçada a olhar para eles ao ouvir o impacto da lança contra o escudo.

Steve empurrou a lâmina para longe de seu corpo com o escudo e aproveitou o impulso para um chute na lateral do tórax do adversário. O impacto teria me deixado sem ar nenhum, mas Loki apenas cambaleou dois passos e o olhou com raiva renovada. Ele ergueu sua arma, atingindo a mandíbula do adversário em cheio com a base dourada. O soldado mal teve tempo de ceder ao impacto antes que o deus a fizesse voltar com pressão contra a cabeça do homem o atirando ao chão. Steve podia ser o super soldado, mas Loki era um deus. Suas forças não tinham comparação.

O príncipe asgardiano caminhou calmo na direção do Capitão. Eu teria que me colocar no caminho, percebi invocando o arco. Isso se o Homem de Ferro não tivesse surgido na sala atingindo o deus em cheio no peito, no momento em que ele erguia a lança. Thor o puxou pelo pescoço para trás. Os olhos do deus não se desviavam do alvo. Eu conhecia aquele olhar como o meu próprio.

— Você precisa de terapia para raiva. Bruce deve te ajudar nisso — Tony começou apontando para Loki, enquanto a máscara do capacete subia. Voltou-se para Steve que se colocava de pé. — E você precisa de alguém para te proteger da Pepper quando ela souber que quebrou a mesinha. Eu não posso te ajudar nisso.

— E você pode explicar o motivo da briga — Thor pediu, olhando para mim. O irmão o afastou empurrando para trás, os olhos ainda acompanhando cada movimento de Steve, apesar da lança ter sumido.

— Orgulho ferido — respondi com honestidade, sem muitos detalhes. Todos ainda pareciam esperar que algo acontecesse. — Steve, você é meu aliado? — perguntei firme. Ele assentiu sem olhar para mim.

— Sou seu aliado — confirmou tenso. Aquilo me bastava, assenti agradecida e puxei Loki pelo braço o fazendo subir as escadas. Eu podia sentir os olhares nos acompanhando. Quando entramos no quarto ele bateu a porta irritado. Eu podia ver a fúria fervendo em seus olhos.

O deus se sentou na beirada da cama, encarando a parede com olhos assassinos. Larguei o arco de volta ao chão e me sentei ao lado dele, puxando uma de suas mãos. Aquilo atraiu seu olhar para mim. Por um segundo achei que fosse me retrair, mas a verdade é que eu não tinha medo dele, mesmo em seus momentos de fúria. Ao invés disso eu sorri meu melhor sorriso. Assim que fiz isso vi seu rosto se desarmar.

— Nós vamos conseguir — falei confiante, sem mencionar o que acabara de acontecer. Ele assentiu encarando a parede novamente. O silêncio se fez presente mais uma vez. Amanhã tudo acabaria de um jeito ou de outro. Invadiríamos a S.H.I.E.L.D. e tudo acabaria. A respiração pesava em meu peito diante daquele pensamento. Ele próprio parecia estar em um daqueles momentos de mente cheia. Na verdade, depois de visitar a mente dele eu me perguntava se ela ficava vazia em algum momento.

— Você vai sofrer? — Loki perguntou tão de repente que praticamente cuspiu as palavras.

— Como? — perguntei abobalhada, surpresa pela pergunta. Ele me olhou sério, virando-se totalmente na minha direção. Tinha um olhar estranho. Seus olhos sempre frios, pareciam congelados. Estavam anuviados e cansados. Havia pesar e tristeza. A acusação de Steve o incomodava.

— Você vai sofrer? — Ele repetiu a pergunta. Mesmo sua voz soava estranha. Loki realmente queria a resposta. Dizer a verdade me deixaria exposta como um nervo. Talvez o deixasse preocupado, talvez não. Mentir seria desprezá-lo. Eu sabia muito sobre ele para saber como aquilo o atingiria. Responder aquela pergunta era como escolher entre ferir a ele ou a mim. A decisão era simples.

— Vou — respondi, desviando os olhos, antes que ele visse a fragilidade neles. Loki passou uma das mãos pelos cabelos, encarando o teto. Permaneceu em silêncio por um segundo a mais.

— Por quê? — interpelou tornando a me olhar.

— Porque eu amo você. Achei que já soubesse disso — repeti aquela afirmação com tanta naturalidade que cheguei a me admirar. Era óbvio que eu o amava. Era natural o amar. Aquelas palavras o fizeram franzir o cenho, como se eu tivesse atirado uma pedra contra ele.

— Você deveria ter medo de mim — afirmou sério. Aquilo me fez rir involuntariamente.

— Criança de Midgard, lembra? — rebati com algum senso de humor.

— O tempo inteiro — respondeu sério. Aquele revide me atingiu de uma maneira que eu não esperava. Steve estava enganado. Loki pensava em todas aquelas questões que ele havia exposto. Pensava até mesmo em questões que eu, como principal afetada, não havia pensado. Ele era o planejamento. Ele era o raciocínio. E mesmo assim não existia uma solução para nós. Amanhã tudo terminaria de um jeito ou de outro. Eu não tinha tempo a perder com autocomiseração. Me inclinei tentando beijá-lo, mas o deus afastou o rosto alguns centímetros, me fazendo parar. — Você devia parar com isso, Liana. — Aquela velha afirmação sem efeito.

— Você devia querer que eu parasse — respondi como sempre, sem recuar, deixando a ele a prerrogativa de encerrar a distância entre nós. Os olhos dele encontraram a minha boca, que eu mordia levemente.

— Mas eu não quero — afirmou antes de me beijar. Loki me puxou para seu colo, pousando as mãos em minha cintura. Ele se deitou me levando junto, por cima dele. Interrompeu o beijo antes que se tornasse quente demais e não pudéssemos mais parar. Meus cabelos caiam nas laterais do rosto dele como se fossem cortinas, nos isolando. Adoraria que isso fosse possível. O relógio da bomba que éramos estava correndo depressa. Me deitei ao lado dele, destruindo aquele isolamento. Sua mão foi em busca da minha de maneira tão natural que demorei a perceber. Para minha surpresa ele puxou a foto do edital da Puma de dentro do bolso.

— O que você está fazendo com isso? — perguntei me jogando por cima dele, rindo enquanto tentava tirar a foto de suas mãos. Ele riu aquela sua risada que me derretia inteira. Eu não conseguiria tomar o papel, então tapei os olhos dele com as mãos e comecei a beijá-lo repetidamente.

— Essa não é você — afirmou, tentando olhar.

— Claro que sou eu! — respondi destapando os olhos dele e tornando a tapá-los.

— Você parece mais atenta quando está mirando — falou pensativo me fazendo corar levemente com sua observação. — Seu cabelo não é liso assim e você tem sardas — comentou reflexivo. Tornei a destapar os olhos dele, rindo tolamente.

— Então você reparou nisso? — perguntei mordaz.

— É difícil não reparar quando está sempre tão perto de mim.

— As pessoas que fizeram as imagens mudam algumas coisas para deixar a modelo mais bonita. Por isso está diferente.

— Então não deviam ter mudado nada — afirmou sério. Aquilo me fez baixar a guarda. Ofereci um sorriso sem graça em resposta.

Tornei a me deitar ao seu lado e ficamos um de frente para o outro. O tempo estava contra nós. Ele me olhava concentrado. Quase como se... como se tentasse memorizar meu rosto. Como se quisesse gravá-lo definitivamente em sua mente. Ficamos por horas daquele jeito, apenas olhando um para o outro. Sua mão acariciava meu rosto, deslizando pelos braços e passeando por minhas costas.

Eu me distraí contornando as sobrancelhas dele com a ponta dos dedos, brincando com as pontas dos cabelos negros, esporadicamente beijando-lhe a boca macia. Algo estava para se quebrar e sabíamos. Ele era lindo e eu não queria perder um único segundo. Queria ficar ali para sempre. Loki trouxe minha mão aos lábios, a beijando com gentileza. Esse gesto me fez fechar os olhos sentindo algo ruim se enroscar no meu peito. Ele encostou a testa na minha. Adormecemos assim.

Nosso tempo estava acabando. Eu era frágil como uma formiga. Eu era nada. Mas o colocaria no topo ou morreria tentando. Nosso tempo estava acabando.

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Tiros. Flechas voando em várias direções. Os gritos de Loki ecoando. Os gritos de Natasha os abafando. Minha risada soando cruel. Uma sensação de paz. Vingança. Uma ave vermelha voava no céu descendo sobre os inimigos, furando olhos, dilacerando. Uma serpente deslizava sorrateira em meio a guerreiros que desabavam sem sequer notarem o que os tinha acertado. Éramos o caos.

A Manopla reluzia desejosa de unir-se com as joias. Com a Manopla e a minha permissão ele poderia usá-las. Tínhamos vitória. O som de bombas. Nada nos derrotaria. Os gritos de Natasha ainda ecoavam e aquilo me deliciava. A sensação de poder. Eu estava acima dela. Acima de toda minha raça. E acima de mim havia apenas ele. Mas não importava. Éramos iguais.

A ave continuava atacando e levando a morte por onde passava. Sem hesitar. Sem pensar. Sem sentir. Mas a serpente precisava se elevar. Para dominar e destruir, a ave precisava lhe dar poder. Assim que se voltou para curvar-se diante do réptil, uma sequência de estampidos altos. Os gritos de Loki. Uma dor lancinante e muito real me atingiu. A ave despencou do céu, caindo em meio à escuridão.

Acordei com meu próprio grito. O deus se sentou na cama, agitado. Instintivamente me abraçou. Eu me sentia tremer. Era uma das poucas adultas premiadas com o terror noturno. Apesar disso... Aquilo era diferente.

Pepper abriu a porta do quarto, preocupada. Percebi que todos estavam atrás dela. No mínimo deviam achar que Loki estava tentando me matar. Ela olhou atentamente e viu o deus me abraçando. Ele fez um gesto mandando que fossem embora. Assim que ela fechou a porta, acariciou meus cabelos.

— Foi um pesadelo. Só isso — afirmou de forma branda. Meus olhos encontraram os dele. Eu estava em pânico, mas não como acontecia quando eu tinha minhas crises. Loki franziu as sobrancelhas, parecendo perceber além. — Foi só isso?

— Uma ave — falei numa voz fraca. Ele me encarava com uma expressão crítica nos olhos. — Ela caía do céu. Uma serpente se erguia — concluí, incapaz de dar mais detalhes. Ele era filho de Frigga e entenderia perfeitamente bem. A expressão do deus se tornou dura.

— Isso não vai acontecer — prometeu firme, beijando a minha testa, me fazendo deitar, junto a ele novamente.

Suas palavras me trouxeram tranquilidade. Ele me protegeria. Tudo ficaria bem. O deus acariciava minha mão num gesto tranquilizador. Não demorei a dormir novamente, estava cansada e precisava estar pronta para amanhã. Tive a impressão de que Loki permaneceu acordado vigiando meu sono. Apesar disso, a imagem continuava nítida em minha mente. Uma ave com seu voo interrompido. Uma ave despencando. As trevas a engolindo. O fim.

Notas finais
26/12/2023 Eu ainda estou por aqui, podem deixar seu oi, que eu vejo, viu?