Notas iniciais
Ainda não é certeza se eu postarei duas ou uma vez por semana, mas garanto que pelo menos em um dia na linda semana de vocês, a história será atualizada. P.S.: Eu ia postar ontem, mas por conta de um imprevisto, não consegui. Espero realmente que vocês gostem.

Colégio Harleston, dia primeiro de setembro de 1970

"New old school"

“Por que mesmo eu tive que me mudar de escola?” Além de seu próprio pai, Benjy havia sido o segundo a “estrear” o carro novo carro da família, claro que no banco do passageiro, mas ainda sim o cheiro do novo Esplanada Simca 1969 estava impregnado nos bancos. Aquele luxo todo por que Spencer ganhara uma promoção, e a primeira coisa a se fazer ao ter quase triplicado seu salário foi ter comprado um novo carro, e não ter comprado tinta para as paredes do andar superior de sua casa, que era o que Marlee – sua mulher – gostaria que ele tivesse feito.

“Já conversamos sobre isso Ben.” — O homem olhou para o seu filho pelo retrovisor. Spencer estava com as sobrancelhas arqueadas e, apesar das olheiras indicando uma má noite de sono, ainda havia resquícios em seu rosto de ainda estar feliz com o automóvel novo. — “É mais perto de casa, pode voltar andando se precisar. Achei melhor termos lhe mudado de escola pelo que ocorreu no ano passado, e além do mais, o ensino da Harleston é superior ao do seu antigo colégio. E veja só, a garota Vance estuda aqui desde que chegou quem sabe pode lhe apresentar para outras pessoas também.”

A vontade de Benjy era ter saído exatamente no momento que seu pai mencionou a vizinha que não lhe dirigia a palavra desde... Bem, desde seu segundo dia na Rua Baker. De início, Benjy pensou que talvez ela fosse bastante reservada, mas após as aulas terem começado, constatou que ela apenas não simpatizou, pois vira e mexe levava amigos para sua casa. Não que Benjy olhasse pela janela de seu quarto, que por acaso ficava na parede de sua escrivaninha de estudos. Não, claro que não. — “Não houve nenhum acidente, eu já expliquei mais de mil vezes. Foi um grande mal entendido.” Um enorme mal entendido, na verdade. Em um momento, um garoto do oitavo ano quase lhe roubara o dinheiro do lanche, e no outro, este mesmo garoto encontrava-se na lata de lixo mais próxima com direito a olhares estranhos e acusações hediondas sobre o que o garoto Fenwick havia feito. — “E não irá acontecer de novo, eu prometo, se isso me faça voltar para a antiga escola.”– Insistiu com uma mão levantada em sinal de promessa com seu pai. Como se fosse um escoteiro fazendo juramento.

“Você já está matriculado nessa escola filho, vai ter que ser essa. Desculpe. Vai ser uma boa experiência, já que nunca mudou de escola antes.” – Spencer sabia exatamente que era daquilo que seu filho tinha medo, mas aquela decisão foi de sua mulher, e não teria realmente como voltar atrás em pleno primeiro dia de aula.

“August e Cass não gostaram dessa ideia, você sabe, meus amigos. Eu ainda os tenho sabe...” – Apelando para o lado sentimental, Benjy voltou o olhar para baixo e tentou a cara mais triste que podia. Até que seu pai saiu do carro para abrir a porta de trás e indicar que Benjy saísse, o que o garoto o fez sem ver muita opção, pois ser pego choramingando em frente a uma nova escola não era um bom recomeço.

“Vamos logo filho, nós não temos o dia inteiro. Eu não tenho o dia inteiro.” — Corrigiu-se com um olhar severo. — “Tenho um serviço, e você sabe muito bem. Vai ter que ser esse colégio. Desculpe, mas nós, eu e sua mãe, não voltaremos atrás nessa decisão.” – Por fim, o homem fechou a porta de seu carro, sem muita força e voltou para o banco do motorista para dirigir mais quatro quarteirões abaixo até a empresa. Não tinha muito que conversar com Benjy, um dia ele entenderia as decisões de seus pais assim como Spencer teve de entender as decisões de seus próprios pais. Não seria fácil, mas ainda era apenas uma fase. — “Tenha um bom primeiro dia filho.” — Despediu-se dando partida no Esplanada para enfim sair daquele estacionamento, já havia gastado tempo demais ali. Chegaria até mesmo atrasado, e se seu chefe não fosse um conhecido, tinha certeza que correria o risco de perder o aumento, ou pior, o emprego. Sua cabeça rolaria caso perdesse aquele emprego com contas e quatro bocas para alimentar.

Após ter saído do carro, vencido, Benjy andou até a entrada da escola, mesmo que todos os seus instintos dissessem para ele virar-se e voltar para a casa o mais rápido que pudesse. Mas o que faria quando chegasse lá? Voltaria para sua cama? Ainda podia fingir uma doença, mas apenas sua mãe acreditaria já seu pai ficaria com um pé atrás e muito provável que comente a respeito para a senhora Fenwick.

(...)

Se houvesse partes do inferno na terra, o primeiro dia de aula com certeza seria um. Mesmo que este primeiro dia de aula fosse, justamente, em uma escola que não nova. Emme já havia estudado ali no colégio Harleston no ano anterior, mas isso não queria dizer que gostaria de continuar ali. Tinha consciência de que, caso ficasse muito íntima de certas pessoas, logo deveria desfazer estes laços de sua vida já que passaria muito tempo longe com pouco contato. Hogwarts, Emmeline só conseguia pensar no tempo que iria para Hogwarts. Seria ano que vem e o frio em seu estômago parecia piorar conforme a contagem dos dias ia diminuindo. Não havia significado ficar naquela escola com trouxas, mesmo que tivesse feito “amigos” que na verdade eram garotas que ela gostava de passar o tempo. Era bom ter com quem brincar e ajudá-la com algumas coisas, como era o caso das lições de casa, mas sabia que era temporário. Bem, as garotas não sabiam. Mas ainda estava no primeiro dia de aula, e até agora só conseguira ver muita gente nova na escola, algumas gritarias e corredores entupidos por pessoas que simplesmente paravam para conversar onde não deveriam.

“Ei Emme! Espere.” Ruby chamava ao longe no corredor, iria dar inicio a primeira aula e Vance apenas andava calmamente até a sala 301, onde sua turma provavelmente teria a mesma recepção do ano anterior.

“Hey Ruby, e ai como foram às férias?” – Emme perguntou por educação quando a amiga alcançou-lhe já em meio caminho da sala, o que foi de muito alívio, já que não teriam que conversar muito mais. Ruby tinha uma péssima mania de detalhes e às vezes tornava-se exibicionista sem nem mesmo perceber.

“Normais, tive que visitar um parente na França. Você não tem ideia de como é chato ficar por lá sem poder sair para fazer compras ou coisa do tipo. Mas foram apenas duas semanas até eu e minha família irmos à Roma só de passagem, foi incrível...” No geral, Emme passava a ignorar a conversa a partir dali, pois sabia que esta conversa era de apenas uma via e não precisava de uma segunda integrante. Então a garota apenas acenava nas horas certas e quase agradeceu quando chegaram à sala.

Como de praxe, a sala de aula estava praticamente lotada, por sorte ainda sobraram pelo menos três mesas no fundo, mas o problema era que todas já estavam ocupadas por uma pessoa, o que significava que sobrava espaço apenas para mais uma. Eram comuns mesas duplas naquela área, e na série que estavam os professores costumavam não se importar muito com as duplas estabelecidas no ano letivo, às vezes até mesmo cometiam o erro de colocarem grandes amigos em uma mesa.

De três salas daquele ano em específico, obviamente Benjy teria de cair na sala de sua vizinha, e foi inevitável não percebê-la ao entrar na sala por que (1) ela não era lá a garota menos imperceptível, principalmente quando chega ao lado de uma loira que simplesmente parecia não parar de falar (2) devia ter sido a última a chegar ali e finalmente (3) ela se sentou na cadeira vazia ao seu lado.

“Pensei que você estudasse em outra escola.” — Emme deixou sua mochila ao lado da mesa e voltou o olhar para Fenwick, mal o garoto sabia que ela na verdade não gostaria de ter sentado com nenhuma das outras duas pessoas que possuíam cadeiras vazias ao seu lado. Por que normalmente quem não estava em dupla com ninguém, ou era novo, ou ignorado, então era preferível colocar os conhecidos na frente de qualquer outro aluno que poderiam tornar-se indesejáveis para a sala.

“Eu era de outra escola...”– Benjy puxou a sua própria mochila para o colo e retirou dali o caderno com o estojo deixando-os na mesa, percebeu que Emme não fazia o mesmo, isso era por que a garota sabia perfeitamente que, se quisessem, não precisariam nem ao menos levar material naquele primeiro dia. Parecia um dia completamente de adaptação e livre, antes de trabalhos e coisas entediantes. — “Meu pai resolveu me mudar de uma hora para outra, também não vejo o sentido nisso. Mas pelo jeito que tá, não dá pra fazê-lo mudar de ideia”.

“Então bem-vindo a nova jaula, ainda temos um ano pela frente.”– Emme encostou-se a cadeira e sorriu travessa quando direcionou o olhar para a porta e observou o professor entrar. — “Uma hora você acaba gostando das coisas por aqui.” — Comentou baixinho apenas para que seu parceiro ouvisse e direcionou-lhe um sorriso. Parecia ser a primeira vez que conversavam de verdade, por mais de meros segundos aleatórios que apenas aconteceu por terem sido praticamente obrigados. E nem ao menos era tão ruim assim quando não incluíam sorvetes ou sucos de uva. Uma fagulha de amizade começou naquele dia em especial, no primeiro dia de aula em uma escola trouxa, mal sabiam o que lhes aguardava. Mas aquele ano havia sido bom, repleto de ótimos momentos do começo ao fim. Grupos de leitura, lições de uma casa para outra, projetos realizados com sucesso por uma dupla inteligente até demais, passeios em parques locais e sorvetes em calçadas, anjos de neve no natal e leite bem quente no começo de janeiro, espalhar folhas em quintais alheios e aguardarem ansiosamente pelo verão. Como em todos os anos, o verão ainda era o mais esperado do ano. Sempre com o seu bom clima e dias passados em piscinas e pistolas de água até a terceira semana do mês de Junho, onde as coisas começaram a mudar com uma só carta.

Notas finais
Qualquer erro, ou qualquer coisa que simplesmente estejam incomodando vocês, é só avisar eu não mordo. Beijos e até a próxima. - Lumes