Glowing in the Dark
4 Capitulo 3
Notas iniciais
Residência dos Fenwick, 17 de Junho de 1971.
“New beginning, new secret”
Rapidamente, as penas riscavam os cadernos desgastados e aquela era a única fonte sonora no quarto. Não apenas uma pena, duas, duas penas que riscavam dois livros com quase as mesmas palavras nas respostas do dever de matemática que não deveriam existir apenas por serem férias. Dever de férias, quem foi o idiota que inventou esse tipo de coisa? Ainda havia pelo menos cinco matérias restantes que poderiam ocupar pelo menos uma semana dos três meses que teriam até a volta as aulas. Mas a verdade, a verdade mesmo, era que aquela lição só seria necessária para uma pessoa depois das férias, Emme imaginava que seria para Benjy já que as aulas do garoto retornariam normais e ela iria para Hogwarts como se estivesse indo a um internato. Samuel até mesmo já preparara documentação falsa e todas as coisas necessárias para tirá-la do colégio Harleston e transferi-la para a escola de Magia e Bruxaria.
Então fazer aquelas lições era completamente desnecessário, para uma pessoa daquele cômodo. Pelo menos até ouvirem o som de alguém batendo na porta, esperando um minuto até abri-la devagar para revelar o pai de Benjy, ainda vestido para uma partida de golfe que o pai de Emme havia insistido para que o primeiro participasse. — “Benjy, você pode vir aqui um minuto?” – O homem falara em um tom sério, como se ainda estivesse descrente em alguma coisa e, pelo visto, bastante surpreso até o presente momento. Seu tom era baixo, como se sussurrasse um segredo. E pelos passos contados por Emme, eles foram até o quarto ao lado para conversarem em particular. A garota não tentou ouvir ou coisa assim, mas tinha certo receio do que poderia ser.
(...)
“Eu já disse milhões de vezes que eu não tenho ideia do que isso significa!”– O tom de Benjy já começara a se alterar de acordo com a insistência de seu pai. Não era realmente possível que o garoto tivesse arrumado todo um cenário e uma brincadeira para que uma carta chegasse ao correio e fosse destinada a ele. Uma escola de magia? Sério? Parecia trote, realmente, mas Benjy não costumava passar trotes, principalmente quando se tratava de coisas sobre sua família.
“Não me interessa. Isso aqui...”– Spencer balançou a carta com um selo roxo preso a uma de suas extremidades. Aquilo se tratava de seu filho, e coisas daquele tipo não eram diárias. Bruxaria, em particular, nunca passou pela cabeça de um Fenwick. Na verdade, nenhum, pelo que Samuel soubera, teve algum contato com aquele tipo de anormalidade. — “... Parece ser bastante real, eu já falei com a sua mãe e ela mencionou um tio. E acho que Sam, digo, o senhor Vance viu quando eu recebi a carta pela manhã. Ele deve ter mencionado algo com a filha, por favor, se ela souber de algo, amenize a situação. Não precisamos fazer tempestade em copo d’água.”– Seu tom era mais calmo, como se aos poucos, bem aos poucos mesmo, aceitasse a situação. Marlee mencionara realmente um tio, um tio de segundo grau que tivera ligações suspeitas com o ministério e outro tipo de ministério que os parentes não comentavam muito a respeito. Pelo jeito, se houveram bruxos, eram todos muito bem encobertos, principalmente com a opção de internatos e reformatórios infantis. Talvez pudessem apenas dizer que Benjy foi a um reformatório após o incidente em outra escola que começara a fazer sentido aos poucos. Peça por peça, Benjy Fenwick nunca chegou a jogar um garoto em uma lixeira de escola, nunca.
“Agora o acidente faz mais sentido, e até mesmo o copo quebrado da semana passada.”– O garoto estava sentado na cama dos pais, enquanto seu próprio pai permanecia em pé, olhando-o como se houvesse algum sinal exterior que o sinalizava como bruxo. E, como o imaginado, não havia nada. Nenhuma verruga, crescimento nasal ou cabelos grisalhos.
“Foi o que Dumbledore explicou. Os sinais bruxos vêm de pequenas manifestações de magia que agora corre em sua veia. Ou sempre correu, não sei.” — Um suspiro escapou-lhe pelos lábios quando o senhor Fenwick sentou-se ao lado do filho. - “A notícia boa é que não tem mais lições para fazer.” – Um sorriso travesso iluminou-se no rosto do homem e parecia uma cópia de carbono nos lábios de seu filho. Quase o mesmo sorriso e humores idênticos.
(...)
Quando liberado do pequeno interrogatório feito pelo seu próprio pai Benjy correu para o seu quarto e encontrou Emme quase na mesma posição, sentada ao lado da cama em cima de travesseiros e com pelo menos dois cadernos no colo. – “O que foi?” – Ela perguntou sem erguer o olhar e fazendo questão de parecer não estar interessada no que estava acontecendo. As paredes ainda eram finas, mesmo antes de Emme ter colocado uma orelha nela para tentar ouvir o que acontecia no outro cômodo, e a curiosidade ainda era grande demais, mas o orgulho continuava sendo maior do que qualquer sentimento.
“Nada... Hm. Acho que não precisamos mais fazer essas lições.”
“O que? Mas estávamos quase terminando e você precisa delas, eu não estarei aqui o verão inteiro e com certeza não estarei algumas semanas antes das aulas começarem... “ — Vance até continuaria se não fosse abruptamente interrompida.
“Não vou ficar aqui depois das férias.” – Mencionou casualmente ao atravessar o quarto para juntar o restante dos livros jogados entre sua cama e a escrivaninha, estava pensando em até fazer uma fogueira com eles e dançar em volta para não atrair para sua vida de novo.
“Como assim não vai?”– Emmeline ergueu o olhar, para o amigo, com uma sobrancelha perfeitamente delineada e arqueada para demonstrar a sua ‘breve’ curiosidade.
“Pelo jeito vão me colocar em um internato.”
“Não vai ser o único.” - A garota jogou o livro de lado e tirou o resto de seu colo para que pudesse deitar no carpete macio e aproveitar o tempo que suas mãos tinham para descansar do trabalho pesado de escrever folhas e folhas de uma coisa desnecessária. Pensava estar fazendo aquilo pelo amigo, mas na verdade queria apenas compensá-lo o tempo que não poderia estar com ele na escola.
“Então por que ainda está resolvendo os exercícios de matemática comigo se não vai ficar mais por aqui?” – Se a situação fosse contrária, Benjy duvidava muito que ajudaria Emme. Talvez só se ela pedisse, mas no caso, ele nunca precisava pedir algo para haver uma boa ação como aquela.
“Não reclame, estou só ajudando um amigo. Isso é sempre bom de fazer, além do mais, sua mãe faz um ótimo cappuccino, então digamos que é trabalho comprado.”
Ambos riram, mas Benjy não fez questão de contar a amiga sobre qual internato iria estudar, ela realmente não precisava fazer. O que na verdade era um segredo incomum, já que Emme sequer pensou em mencionar a carta que recebeu ainda naquela manhã.
Estação King’s Cross, dia primeiro de setembro de 1971.
“Millions of miles from home”
“É sério que você vai me fazer atrasar para o expresso?”– Impaciente Emmeline esperava na porta de sua casa com o malão, lotado de seus novos materiais, aos seus pés. Estava ansiosa, não conseguia aguentar o frio em seu estômago e a sensação de que deveria estar pulando de um pé para o outro com um sorriso no rosto, mal podia esperar para aprender toda a mágica do novo mundo. O senhor Vance raramente utilizava a mágica no dia a dia, no fundo ainda tinha vergonha, mas dava a desculpa que não precisava ser um bruxo a todo o momento, que poderia ser apenas um trouxa pelo tempo que quisesse. Caso os avós de Emme tivessem ajudado seu pai, talvez ele não estivesse querendo apenas voltar a ser trouxa e evitar o futuro de suas próximas gerações. Samantha parecia ter levado o resto da mágica que ainda lhe restava.
“Espere um pouco filha, estou fazendo seu lanche.”– Samuel Vance tivera que gritar de sua cozinha para que sua filha o ouvisse, realmente estava terminando de colocar uma fatia de queijo no lanche antes de fechá-lo e embrulhá-lo em papel alumínio. Em pouco tempo o carro da família estava dirigindo em direção à estação King’s Cross, era um pouco longe da Rua Baker então tiveram de sair pelo menos uma hora antes da partida do Expresso de Hogwarts. Mas o que não notaram foi o outro carro ao lado acabando de sair da garagem e seguindo exatamente o mesmo caminho.
(...)
Benjy estava definitivamente confuso, aquele mar de gente, muitos agitados para irem ao seu destino e outros apenas perdidos como ele. A mão de sua mãe em seu ombro era como o único gancho no mundo que o puxava daquele mar, como um tendão de Aquiles. Por onde diziam que ele devia seguir mesmo? Uma parede? Elas deveriam ser sólidas, certo?
Talvez tivesse sido apenas uma ilusão, mas Fenwick viu de relance o senhor Vance seguindo o caminho entre as plataformas nove e dez. Mas a sua visão fora ocupada por um casal e de repente Samuel Vance não estava mais ali. — “Está mesmo escrito que é em uma plataforma inexistente que esse tal expresso levará nosso filho?” – Parecia ser a quinta vez que Marlee fazia esta pergunta ao marido que andava logo atrás com Anna em seu colo e segurando a mão de Candice.
“Pelo jeito sim. Preste atenção naquela coluna ali.”– Spencer apontou para a coluna entre as plataformas nove e dez, poderia ter sido ali a nove três quartos que mencionavam no bilhete. Surpreendentemente, depois do que pareciam ter sido cinco minutos, notaram a movimentação estranha ao redor daquela coluna um tanto afastada. As pessoas pareciam apenas encostar-se a ela e depois apenas não apareciam mais.
“Deve ser ali mesmo.” – Andando devagar, Benjy andou com os pais em direção à plataforma onde teve de atravessar, o primeiro contato com a magia, mas seus pais não puderam passar. Eles tinham de deixá-lo ali, afinal, ainda era o único bruxo da família e, pela lógica, os bruxos não deixariam aquela passagem exposta para que os não bruxos pudessem atravessá-la livremente.
(...)
Sozinha em um vagão afastado, Emme precisou esperar por mais dois minutos até que a porta fosse aberta novamente por duas garotas. A que estava na frente era loira, alta, seu cabelo batia nos ombros e seus olhos eram azuis como o céu de uma manhã clara e nada podia impedir que seu sorriso também brilhasse como o sol. A segunda, um tanto mais atrás, tinha os cabelos castanhos e os olhos, um tanto mais claros que os cabelos, deveriam ficar verdes ao sol. Ambas sorriam e andavam próximas como se já fossem amigas antes dali, como se estivessem contando os dias para estarem ali juntas como estavam. –“Podemos ficar por aqui? Os outros vagões estão lotados.” – A loira perguntara com uma de suas perfeitas sobrancelhas arqueada, antes que Emme pudesse apoiar o livro em sua perna já havia erguido o olhar e assentido para que elas entrassem. Ambas aparentavam ser mais velhas.
“E a propósito, eu me chamo Alice, e essa é Marlene.” – Alice dissera entrando na cabine com seu malão e um vestido florido, algo feliz parecia exalar dela, como se não houvesse tempo ruim quando ela estava por perto. Ambas, Marlene e Alice deixaram os malões no suporte e acomodaram-se lado a lado, no banco oposto esperando pela resposta da garota que já estava ali antes, com longos cabelos castanhos e olhos da mesmíssima cor, sua saia era azul e batia nos joelhos, sua blusa era branca de botões com alguns detalhes floridos, levava um livro consigo um livro simples com capa bege e desgastada que levava o título Hamlet.
“Sou Emmeline, podem me chamar de Emme.”– Emme deu de ombros e apoiou os pés no espaço do banco oposto. Sorriu de forma calorosa antes que iniciassem uma longa conversa pelo caminho, milhas longe de sua casa onde poderia ser quem quisesse.
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