Glowing in the Dark
2 1 Capítulo
Notas iniciais
Rua Baker, 19 de Junho de 1969.
"Leave a light"
“Nós precisamos mesmo ir?” A voz da pequena Vance foi, a única que ecoou na sala de estar praticamente vazia. Samuel Vance, seu pai, estava logo adiante, também rodeado de algumas caixas ainda pela recente mudança. Samuel e Emmeline, sua filha, haviam mudado para a Rua Baker fazia-se poucos dias, eram completamente novos naquela região londrina. Anteriormente moravam no sul da Inglaterra, mas por conta de um acidente de meses antes, foram obrigados a se mudarem enquanto ainda podiam.
“Você sabe que devemos Emme. Foi uma gentileza desses vizinhos terem nos convidado.” O senhor Vance não tinha mais de trinta anos de idade, mas por conta dos acontecimentos dos últimos meses, parecia ter envelhecido pelo menos cinco anos. O que lhe rendeu alguns cabelos grisalhos dentre as madeixas louras. “Além do mais, você precisa conhecer pessoas novas por aqui, ainda faltam dois anos para Hogwarts. E até lá, você irá estudar em uma escola local, onde provavelmente fará amigos. Mas por hora, ainda que sejam férias, pode fazer um esforço para se enturmar aqui na Rua.”
“Mas ainda podemos almoçar na lanchonete na esquina, parece mais atraente do que em outra mesa de jantar com outras pessoas completamente estranhas a meu ver.” Emmeline possuía apenas nove anos de idade e era a primeira mudança que fazia em sua vida, e não gostaria de tê-la feita pelos motivos que fez. Tinha toda ajuda do mundo, que uma criança não deveria ter, mas o trauma fora suficiente para praticamente romper uma parte de sua inocência. A morte de Samantha Vance ainda pairava sobre a família como nunca.
“Nada de lanchonete, isso não faz bem contando que você comeu só porcaria nesses últimos dias. Um dia eu ainda aprendo a cozinhar como...” – Interrompeu-se em meio à frase. Por um momento até mesmo considerou cozinhar como a sua mulher. Mas isso claramente nunca aconteceria. Bom, teriam que seguir em frente de um modo ou de outro. “Vamos, estamos prontos. A casa é logo ali ao lado. Você vai adorar, Spencer trabalha na empresa há anos, ele que indicou a casa. Não são completos desconhecidos, querida.” — Por mais dócil que fosse o tom de seu pai, Emme tinha certeza do que ouvira e não deixaria passar tão barato. Era pequena, certamente, mas a sua memória raramente falhava e talvez pudesse usar algumas coisas de chantagem futuramente como meios de desculpas para não ir à escola, ou possíveis reclamações. Era filha única, via-se no dever de encher a vida de seu pai de caprichos. Dependiam apenas um do outro, sem nenhum outro parente. Samuel era viúvo. Sua esposa, Samantha, fora morta em sua antiga casa. Tiveram de sair por conta do pesar de tal morte em uma criança de apenas nove anos. Mas antes disso, era uma família feliz. Emmeline não fora planejada, mas nunca foi indesejada, nunca mesmo. Samantha era praticamente infértil e como monumento de sua vida, deixara apenas sua criança no mundo. Não que os Vance fossem menos felizes. Mas o acontecimento fora recente.
Ainda na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Samuel Vance — nascido-trouxa — e Samantha McGregor — mestiça — se conheceram e viveram um romance inaceitável para seus pais. Partindo do princípio, os pais de Samuel eram bastante rigorosos no quesito religioso, e seu próprio pai declarou uma abominação qualquer coisa que envolvesse a magia que um de seus cinco filhos possuía. Sendo então condenado a deixar sua própria casa para concluir os estudos em uma escola adequada, Sam teve de viver na casa de sua tia-avó que morrera quatro meses depois de seu último ano em Hogwarts. Então, não tinha ninguém. Nem seus pais mantinham contato direto com sua vida. Quem diria seus quatro irmãos.
Já Samantha crescera como um caso perdido. Possuía um irmão mais velho típico encrenqueiro e seu pai morrera de câncer meses depois dela própria nascer. Sua mãe, enterrada em drogas ilícitas após a morte de seu querido marido, não solicitou uma educação adequada para seus filhos, mas desde pequena Samantha aprendera a se virar sozinha. Nunca foi o suficiente. Tinha ajuda de Daniel, seu irmão, sempre um apoiando o outro até que Daniel sumira no mundo quando a garota completou treze anos e só acabou sendo visto há poucos dias antes do incidente que acabara com a vida de Samantha. Ainda eram de origem francesa, boa parte da família possuía o sangue esquentado italiano e também a opção de irem para escola de bruxaria de Beauxbatons, para onde Daniel deveria ter ido aos seus onze anos, e também de onde foi expulso no ano em que completou doze.
(...)
A Rua Baker possuía muitas casas parecidas, costumava ser um centro industrial até mudarem este centro para outra cidadela próxima e programarem aquela para vilarejos. As casas pareciam de bonecas, impecáveis e admiráveis. A casa dos Fenwick não era tão diferente das outras. Spencer Fenwick era um típico trouxa que trabalhava em uma empresa que administrava as vendas de materiais específicos para a escola, indústria qual Samuel Vance administrava por herança ainda de sua tia-avó. Já Marlee Fenwick tratava apenas de cuidar de suas três crianças, duas das quais ainda novas demais para frequentarem a escola. Anna e Candice eram duas adoráveis irmãs, a primeira com um ano e a segunda com três anos de idade, sendo então Benjy o irmão mais velho, possuindo oito – dois dias para nove — anos de idade. Todos normais para uma família londrina de classe média alta, antepassados bons, e futuro também previsivelmente bom.
“Benjy cheque o forno para mim querido!” – Marlee gritou para o filho. A mulher encontrava-se na sala de jantar, distribuindo os talheres ao lado dos pratos enquanto mantinha o olho em Candice que insistia em tentar fazer Anna de boneca. “Querida, não tente pegar sua irmã no colo.” – Soltando o resto dos talheres sobre a mesa, Marlee pegou Anna em seu colo e procurou por Spencer na sala de estar assistindo ao jogo de domingo.
“Acho que está queimando mamãe...” – Benjy estreitava os olhos para o fogão que havia acabado de queimar sua mão e que exalava um forte cheiro de carne fora do ponto. Pelo jeito teriam que pedir pizza novamente.
Marlee nunca errava o ponto na cozinha, pelo menos não antes de decidir ter três filhos pequenos. Sempre se preocupava com todas as refeições do dia e quase nunca dependia de ninguém. Cativou Spencer Fenwick exatamente por causa disso, Marlee Spielgerman raramente dependia imensamente de alguma coisa. E a única vez que admitiu depender de algo fora no dia de seu casamento, lindo e perfeito em igreja com votos diante ao padre e Deus. Spencer e Marlee conheceram-se na Universidade de Cambridge, ambos com notas excelentes e comportamentos formidáveis. Típicos prodígios. Casaram-se apenas após a permissão de ambas as partes das famílias e esperaram por dois anos para terem o primeiro filho. Politicamente corretos e tradicionalistas patriarcais.
(...)
“Eu acho que eles não estão em casa. Quer saber, eles devem ter ido à lanchonete. Podemos ir lá checar e...” Emmeline interrompeu-se no meio da frase, pois a porta havia finalmente sido aberta por um garoto que aparentava ter sua idade. Ela não esperava exatamente por isso, imaginava um casal de velhos resmungões com histórias de netos e bisnetos para dar e vender. Não passara em sua cabeça uma família bonitinha e formada, praticamente sem problemas.
“Ei, você deve ser o Benjy. Certo? Seu pai me falou sobre você.” Samuel tomou a iniciativa vendo o constrangimento de sua filha em ter sido pega sugerindo uma mudança de planos. Emme ficou consideravelmente aliviada quando o garoto desviou o olhar e acenou para seu pai.
“Sim, podem entrar. Só teve um... Incidente, mas a comida já vai chegar.” – Benjy deu um passo para o lado para que pudesse receber as visitas. Imaginou que receberia uma família inteira não parte dela como só uma garota e um homem, não teriam uma mãe ou alguma irmã como ele tinha? Bom, alguns davam mais sorte que outros. Depois de serem devidamente apresentados e uma breve conversa sobre a família Vance, um pouco estranha por sinal. Todos se dirigiram para a sala de jantar.
Acabou por ser servida pizza, de uma pizzaria dali há duas quadras, o clima na mesa não fora um dos melhores já que Spencer só conhecia Samuel e Samuel só conhecia Spencer. Além de o único lugar vago que sobrara para Emme sentar-se fora ao lado do garoto que provavelmente ouvira todas as palavras que saiu de sua boca ainda na porta de sua casa. Ficou constrangida de início, mas depois de alguns pedaços de pizzas até arriscou algumas palavras. Até então seu pai respondia por ela como se ela própria não estivesse ali, começou a tomar palavra e entre uma ou outra parte de uma frase durante a sobremesa acabou virando a colher de sorvete na calça de Benjy. Falha número dois em apenas um dia.
Candice e Anna tinham uma mesinha à parte de montar para que ambas comessem refeições a parte também, o que incluía mais vitaminas que os adultos e suas gordurosas pizzas. Spencer gostava da companhia de seu quase chefe, já que Samuel não fazia realmente parte de sua área, mesmo que fosse dono de quase tudo daquela indústria, ainda havia sócios e mais sócios, e Fenwick gostaria de tornar-se um apenas com aquela aproximação do topo. Marlee ficara extremamente envergonhada em servir pizza de almoço, mas após explicar sua situação com o frango e as batatas negras como carvão, foi perdoada por não ter causado nenhum tipo de intoxicação nos mais novos vizinhos. O que gerou risadas e piadinhas a respeito.
Depois do sorvete de flocos em sua melhor calça, Benjy retirou-se da mesa alegando que iria ao banheiro e procurou esconder o acidente de Vance para que seu pai não ficasse bravo com ela, seria muito ruim então sair de fininho e não remoer muito era uma boa opção. Afinal, a bebida ainda era suco de uva e o vestido de Emmeline parecia ser particularmente especial.
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