Give me love.
9 Capitulo 9
Notas iniciais
Segundas-feiras eram sempre um tedio mortal para Una. O dia mais corrido para os mortais comuns, mais atarefados e com menos tempo para o amor, o que significava mais tempo para a garota fazer exatamente nada. Pensou em ir ao cinema e ver alguma coisa, mas já havia visto todos os filmes em cartaz, rolou na cama a manhã inteira pensando em coisas que poderia fazer aquele dia. Na hora em que a fome bateu ela se levantou com um grunhido e foi até a pequena cozinha do apartamento, que consistia em uma bancada com alguns bancos altos, um espaço bom para pessoas que costumam preparar refeições em casa e tudo que era necessário para isso. Disso ela não podia reclamar, seu pai havia montado um ótimo apartamento para ela.
Pegou uma panela e colocou agua para ferver, quebrando lá dentro alguns fios de espaguete, abriu a geladeira e selecionou alguns tomates e pegou um potinho de molho pesto, picou lentamente a fruta e depois colocou os pedaços em uma frigideira, junto do molho e mais alguns temperos. Sentou em cima da bancada enquanto esperava que o macarrão cozinhasse e olhou seu celular que havia passado a manha completamente em silencio e assim continuava. Pensou em Flora, Thom e Arth e no que eles estariam fazendo no momento, provavelmente na escola. Deveria mandar uma mensagem para a nova amiga? Por um momento ela pensou que sim, mas logo se deu conta que não tinha ideia do que conversar com a garota. “Deuses como eu sou enferrujada em socializar. ” Bufou.
E então lhe ocorreu uma ideia. Ian era a pessoa mais social que ela conhecia em toda a família, superava até Apolo, que antes de conhecer seu irmão, Una podia jurar que era a pessoa mais solta, comunicativa, falante e que adorava uma oportunidade de se aparecer que conhecia. E seu irmão ficaria radiante se ela pedisse sua ajuda para se tornar uma pessoa mais amigável, aliás ele já havia insistido para que isso acontecesse diversas vezes.
Mas ela se pegou pensando se isso era realmente algo bom, que ela queria mesmo fazer. Una havia vivido um bom tempo sem ninguém aqui, e era ótimo. Alguns pensamentos solitários vinham a sua mente? Claro que sim. Mas ela logo os espantava com alguns disparos de flechas. Desde que ela havia se comunicado com aquelas novas pessoas ela podia notar mudanças em seu próprio comportamento e até certos pensamentos agora não vinham mais, ela pode presenciar tão de perto o efeito de suas flechas na vida das pessoas que agora parecia querer mais, querer ver até onde iria a história daquelas pessoas. Ela já não pensava mais no amor como apenas uma forma de se vingar em não o sentir, ela conseguia ver mais o sentimento como algo puro e incrível, e o melhor de tudo era que sua necessidade de sentir parecia menor. Ela sentia agora, não o amor de suas flechas, mas felicidade, amizade, conforto perto de pessoas, coisas que ela nunca havia sentido antes, mesmo com a amizade de seus irmãos, aquilo era algo totalmente diferente.
Sorriu com tais pensamentos e foi até a geladeira pegar um refrigerante e conferir a massa que já fervia, desligou o fogo e despejou a agua quente na pia e logo depois o macarrão na frigideira, misturando tudo e arrumando seu prato. Sentou em um dos bancos altos e encarou os espaços vazios ao seu lado enquanto comia e de repente sentiu uma vontade de convidar Flora, Thom e até Arth para uma visita, logo em seguida se auto repreendeu com a ideia ridícula de chamar alguém para a sua casa, ainda mais o garoto.
Lembrou da cena daquela manhã no quarto dele, ela vestindo uma camiseta dele, que encostado na porta só de toalha na cintura deu um daqueles sorrisos que já haviam se tornado típicos dele. Aqueles olhos castanhos combinados com aquele sorriso de lado deixavam o garoto mais bonito ainda e depois de ter tido a visão dele apenas com uma toalha na cintura, agua ainda escorrendo pelo seu corpo totalmente magro e forte, ela suspirou com a lembrança e depois balançou fortemente a cabeça para afastar aquela linda imagem de sua mente. “Para com isso, Una. ” Repreendeu a si mesma. Mas não poderia negar que o garoto havia conseguido sua atenção, o que significava risco, o que significava se fechar para ele que já havia conseguido muito de sua atenção, isso era um perigo para Una.
Terminou seu prato e o deixou dentro da pia, ouviu seu celular apitar e foi conferir o aparelho rapidamente, com uma pontinha de esperança inegável. Mas era apenas seu pai mandando um endereço, suspirou e abriu o mapa que agora aparecia na tela. “Bom, pelo menos agora eu tenho um trabalho”, pensou, indo pegar suas coisas.
Vestiu uma calça de moletom preta e uma regata curta soltinha toda cortada cinza, cheia de furinhos, e um tênis, pendurou sua bolsa-aljava nas costas, pegou novas flechas e completou a munição da bolsa. Caminhou pelas ruas movimentadas devido ao horário de almoço, os pequenos restaurantes quase lotados pelos funcionários do comercio e das empresas que ficavam por perto, Una conferiu o mapa que apontava para o que parecia ser uma escola um tanto longe, uma boa caminhada. Colocou seus fones de ouvido e deixou uma playlist aleatória tocando enquanto andava observando as pessoas vivendo a sua volta.
Vários casais aproveitavam a pausa do almoço para sentarem juntos em algum restaurante de decoração bonita, com varandas cheias de plantas e mesas. Adolescentes corriam de uniforme pelas ruas, entrando em alguma rede de fast-food se empurrando e rindo. Cenas de cotidiano que Una já havia se acostumado a presenciar.
Chegou a fachada de uma escola e parou em frente, conferindo o mapa em seu celular e afirmando estar no local certo. Um grande portão de ferro todo trabalhado estava aberto, com um caminho de pedrinhas levando a entrada da escola, um grande prédio de três andares com um bonito jardim em volta, onde era possível ver alguns adolescentes uniformizados de gravata e camisa, garotas de saia e meias altas e garotos de calça padronizadas, Una torceu o nariz para o padrão tão obvio e seguiu o caminho para a entrada, deixando que seus instintos de caçadora entrassem em ação e a guiasse. Passou pela recepção onde uma senhorinha se encontrava prestando atenção em um computador em sua frente, no qual ela digitava rapidamente, e entrou em um corredor com pouca iluminação para uma escola, foi andando com os dedos roçando na parede fria, se deparando com várias salas vazias com cadeiras meio desarrumadas, pelo horário as aulas deviam ter acabado já, os alunos que ainda estivessem por ali com certeza era por conta de aulas extraclasse. Suspirou de frustração, seria mais um casal clichê de nerd do grupo de estudos e popular jogador de futebol? Ou os cansativos casais populares que causam inveja em todos? Revirou os olhos e dobrou a esquerda na bifurcação que o corredor havia se transformando, trombando com alguém.
Com um grande susto levantou-se rapidamente e sentiu seu corpo gelar, preparando a voz mais fria que pudesse para qualquer interação que a pessoa pudesse tentar, e quando olhou para o garoto que ainda estava no chão ela reprimiu uma risada irônica. Só poderia ser.
Arth a encarou meio confuso e no chão, depois deu um sorriso de lado que Una havia até acostumado, o sorriso que ele usava para flertar com as garotas e que constantemente o dirigia para ela.
—Olha só. Não esperava te encontrar por aqui. – Ele ainda sorria.
—Posso dizer o mesmo. Não queria ter esse desprazer. – Ela diz de cara fechada, lembrando-se da promessa que fez a si mesma de não deixar que ele se aproximasse mais dela.
—Nossa, que bicho te mordeu Una? – Seu sorriso murcha.
—Nenhum. Vai ficar aí no chão igual tonto?
—Blé, já ‘tô levantando sua chata. – Ela revira os olhos para ele, que levanta e chega mais perto. – Então, o que faz em meus domínios?
—Pode ir saindo de perto. – Ela diz seria, se desvencilhando do braço que o garoto passava ao redor de seus ombros. –Meu pai pediu para eu conferir as escolas da cidade.
—Hm, alguma possibilidade de começar a estudar aqui? – Seus olhos ganham um leve brilho, por mais que tente falar com desinteresse.
—Não. – Ela responde seca. –Bom, péssimo o nosso encontro, agora se me dá licença, tenho mais coisas a fazer.
—Meu deus, cadê toda aquela evolução que tínhamos feito no fim de semana?
—Ressaca o nome, certo? – Ela ri, meio sarcástica e sai andando deixando um Arth totalmente bobo a encarando.
Ela estava um tanto furiosa com seu pai por manda-la na escola do garoto. Lembrou do mesmo tentando passar o braço em seus ombros e dando os típicos sorrisos de lado e pensou em como ele poderia ser tão sem noção. Continuou andando até se encontrar em um grande pátio de concreto que estava totalmente vazio, atravessou o lugar e chegou a um espaço de refeitório, onde pela porta conseguia ver algumas mesas ainda cheias, procurou Flora ou Thom com os olhos, mas não os encontrou. Seguiu mais um pouco e chegou a entrada dos ginásios de esporte, onde um grupo de líderes de torcida se aqueciam e alongavam, sentiu que estava no lugar certo e sentou em uma das arquibancadas para observar.
As garotas usavam saias de prega bem curtas e rodadas amarelas e tops azuis com o símbolo do colégio, uma coruja estilizada e cinco estrelas embaixo dela. Todas elas estavam muito concentradas em seus exercícios e algumas conversavam entre si, apertou os olhos em duas garotas alongando lado a lado, uma ruiva de cabelos longos e uma morena de cabelos curtos e repicados, hora ou outra seus olhos se encontravam e a ruiva ficava levemente corada. Sorriu para as duas e quando ia se levantar percebeu alguém se aproximando.
“Não pode ser.” A garota bufou ao ver Arth sentando ao seu lado.
—O que foi? – Pergunta sem paciência.
—Nada. Só ‘tô esperando meu treino começar. – Ele diz indiferente, se encostando na arquibancada de trás.
—Não sabia que era líder de torcida. – Ela dá um sorriso frio, e ele revira os olhos.
—Nhá, não tenho um alongamento tão bom. – Ele ri encarando uma das meninas que pisca para ele e sorri. Una revira os olhos.
—Incrível.
—É, eu sei. – Ele sorri convencido para ela, que não resiste dá um soco leve em seu ombro.
—Será que voltamos ao normal aqui? – Ele ri e ela lhe dá outro soco, esse um pouco mais forte.
—Esse aqui é nosso normal. O soco é quando você consegue ser mais besta que o normal.
—Nossa, garota. Assim eu apaixono. – Ela congela e o encara, mas ele começa a rir – Relaxa, eu ‘tô brincando. Meu deus, parecia que você tinha visto um fantasma Una, eu não sou tão ruim assim, vai. – A cutuca no braço, tentando tira-la do olhar assustado.
—Você precisa parar. – Ela diz e se levanta sem dizer mais nada, indo em direção ao próximo galpão do ginásio.
—Ei! – Ela escuta o garoto gritando, mas entra no local e torce para que ele não a siga.
Se depara com duas piscinas grandes e preparadas para receber os alunos, uma rede cheia de bolas e aparatos de exercícios aquáticos ao lado de bancos de madeira pintados de azul marinho. O ambiente tinha um forte cheiro de cloro e uma cor inteira azulada por conta dos azulejos e as luzes dentro da piscina que refletiam a cor em todo o lugar, uma sensação de úmido impregnava o lugar. Una andou até a beirada de uma das piscinas e sentou no chão, tirando os tênis e as meias, subiu a calça de moletom até os joelhos e colocou as pernas na piscina, a água estava gelada e provocava uma sensação gostosa na pele, então ela se deitou nos azulejos frios e respirou fundo encarando o teto azulado. Como iria se livrar do idiota do Arth? Era a questão que agora inundava sua mente. O garoto parecia que não iria deixa-la em paz por um bom tempo. “Nossa garota. Assim eu apaixono. ” A voz ecoou em sua mente e ela sentiu um arrepio passear pelo seu corpo. “Que erro”, pensou. Lembrou de como ficou nervosa ao ouvir a frase saindo dos lábios dele, congelando assustada com a possível ideia de algo assim acontecer relacionado a ela. Lembrou também da flecha partida que habitava o garoto, ela precisaria dar um jeito rápido naquele problema antes que algo pior acontecesse. Mas agora precisava focar nas garotas que estavam na quadra ao lado, balançou a cabeça para afastar todos aqueles pensamentos e se levantou, tirando os pés da agua e andando em direção a quadra novamente, agora descalça e com os tênis na mão.
Na quadra avistou Arth em campo, vestindo um uniforme amarelo com um número de jogador e o símbolo da escola em azul marinho, seus cabelos castanhos agora realmente bagunçados, e não aquele típico desarrumado charmoso que ele sempre usava. “Deuses, até assim todo suado ele consegue ser bonito” resmungou em seus pensamentos, se repreendendo depois, “foco garota”. Observa as meninas que agora estão em frente a arquibancada fazendo passos ensaiados e treinando gritos, seus olhos encontram as duas garotas que continuavam bem próximas mesmo em suas posições de coreografia e em seguida busca com o olhar um ponto estratégico para atirar as flechas, parando em um ponto ao lado da porta dos vestiários e onde as arquibancadas acabavam, tinha menos focos de luz ali e era difícil alguém virar sua atenção para lá. Foi andando colada a parede, dando a volta na quadra e chegando até o local, agachou no chão e retirou uma flecha de sua bolsa, ajeitou seu arco e entrou em posição, arrumou sua postura, posicionou a flecha e puxou a corda, mirou bem na garota ruiva que nesse momento ria para a morena que fazia alguma graça para ela, respirou fundo e soltou a corda. Não se preocupou com a distância que estava das garotas, a flecha acertou o peito da ruiva e explodiu em purpurina, logo já puxou a flecha par e repetiu o procedimento vendo o mesmo ocorrer com a morena, ela pode ver o brilho lilás cruzar os olhos delas que sorriam uma para a outra agora, sentiu seu celular vibrar em seu bolso e sorriu com mais uma missão cumprida. Sentou no canto da arquibancada mais baixa e calçou seus tênis novamente, depois se deixou assistir um pouco o jogo e o treino das meninas.
Tentou ao máximo prestar atenção aos treinos, mas seus olhos sempre passavam tempo demais focando em Arth. O garoto era um ótimo jogador, e a cada lance certo que fazia as garotas que agora assistiam ao jogo soltavam gritinhos e sorrisos para ele que retribuía os sorrisos. Una revirava os olhos cada vez que o garoto piscava para uma das meninas, e foram muitas as reviradas de olhos naquele jogo. Ao perceber que o treino estava no fim, ela se levantou e saiu andando em direção a porta que voltava para o corredor, não pode deixar de procurar as garotas flechadas com os olhos e as encontrou indo para os vestiários juntas, a ruiva com os braços nos ombros da morena, sorriu para a cena e saiu do ginásio.
Sentiu sua barriga roncar e decidiu entrar no refeitório, não teria problema nenhum em uma pausa para o lanche em uma escola praticamente vazia. Chegou até um moço simpático atrás do balcão e pigarreou.
—Oi, licença. Eu estou conhecendo a escola e gostaria de saber se posso comprar um lanche aqui. – Tenta soar o mais simpática que consegue.
—Claro, fique à vontade! – Ele sorri simpático e a entrega um cartãozinho. – Use isso para passar na catraca e depois pagar!
—Obrigada. – Una dá seu sorriso mais esforçado e pega o cartãozinho, nele está escrito “visitante” e tem o símbolo do colégio.
Ela passa pela catraca e pega uma bandeja, vai passando com ela pelas diversas opções exibidas no grande balcão, pegando uma salada de frutas, um sanduiche de queijo e um suco que havia em uma máquina ao lado. Paga a refeição para o homem simpático e senta em uma das mesas do canto mais afastado. Ouve risadas ao fundo e olha para a porta, o salão é invadido pelas líderes de torcida, agora com calças de moletom azul marinho e os tops de torcida, as garotas vão até o balcão e se servem ocupando depois uma das mesas maiores no centro do refeitório. Una não parece ser notada por nenhuma delas, que agradece mentalmente por isso. Elas conversam e riem alto, fazendo gracinhas uma para as outras e dividindo a comida, elas parecem totalmente alegres. A ruiva e a morena estão ali, lado a lado entretidas em uma conversa que parece só delas, por mais que todas as garotas estivessem ali.
Una termina sua refeição e deixa a bandeja em uma mesa especifica para isso, jogando as embalagens no lixo e sai do refeitório, dando uma ótima olhada para as garotas que continuam animadas. Se encontra novamente no grande pátio que agora tem alguns garotos com o uniforme de futebol conversando com algumas meninas e outros garotos, seus olhos procuram Arth mas não os encontra, continua andando e torcendo para que não seja notada, quando está quase na porta que a leva novamente para os corredores com salas ela encontra Arth encostado no muro do outro lado com uma garota ainda em seu uniforme de torcida encostada nele, seus lábios roçando o pescoço do garoto que falava algo no ouvido dela, Una sentiu seu rosto esquentar enquanto encarava a cena, de repente os olhos dele encontraram com ela, que ao perceber voltou a andar em direção a porta, querendo sair o mais rápido possível de lá.
“Burra. Você podia ter aproveitado o momento para usar uma das flechas e resolver o problema! ” Pensou irritada enquanto andava a passos largos para a saída. Empurrou a porta que dava para a secretaria e a mesma senhora ainda se encontrava ali, mas agora lendo um livro. Agradeceu mentalmente por ela continuar distraída e não perceber sua presença enquanto ela deixava aquele lugar.
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