Give me love.
10 Capitulo 10
Notas iniciais
Era uma manha calma que contrastava com o mau humor de Una, que sentia os primeiros raios de sol atingirem seus olhos, a grama embaixo dela estava molhada e ela sentia leves dores no corpo quando se mexia, mas mesmo assim se sentou e colocou o arco em seu colo. Observou o parque ao seu redor, que naquele horário estava completamente vazio. Ela estava muito cansada, a noite passada havia sido cheia de trabalhos e a garota passou a madrugada flechando pessoas, no fim deitou-se no gramado do parque para descansar e acabou pegando no sono, meio embriagada pelas bebidas consumidas nas diversas festas que tinha visitado e totalmente exausta de tanto andar pela cidade. Passou os dedos pelos cabelos, tirando algumas folhas que estavam enroscadas em seus fios loiros desgrenhados e as jogando ao seu lado na grama, conferiu o celular e sorriu satisfeita com a quantidade de corações extras e missões cumpridas que havia alcançado naquela noite, e ainda era apenas quinta-feira. Finais de semana sempre geravam muito trabalho.
A melhor parte da noite de ontem foi a cabeça de Una focada demais em flechar pessoas, ignorando todos os pensamentos irritantes que haviam enchido sua mente durante toda a semana. Abraçou as pernas tremendo um pouco de frio, suas meias rasgadas e saia jeans não eram o suficiente para a manha gelada. Pessoas já começavam a aparecer em roupas de esporte para suas corridas matinais, Una começou a sentir mais exposta do que deveria naquele gramado e se levantou, atravessando o parque em direção ao café que ela havia conhecido Arth, Flora e Thom antes mesmo que eles soubessem da existência dela.
Entrou e pediu um café grande com leite e um pedaço de bolo de chocolate que estava exibido na vitrine, o café para dar disposição e o chocolate para tentar melhorar seu péssimo humor. A garota que parecia estar igualmente mau humorada atrás do balcão entregou seu pedido e Una ficou sentada por ali mesmo, comendo sem pressa. Aos poucos o lugar foi se enchendo, pessoas que haviam terminado seus exercícios no parque, outras atrasadas para o trabalho pedindo um expresso para viagem, alguns grupos tomando café juntos em mesas maiores. Sexta-feira havia começado, e isso era um bom motivo para os sorrisos das pessoas que já sentiam o final de semana começando mesmo naquela manhã fria.
Terminou de comer e passou o cartão de credito para pagar, levando para casa também um saco de pães frescos para mais tarde e um pote de geleia. Caminhou de volta para casa, com as mãos ao redor dos braços em uma tentativa de se aquecer, arrependeu-se de ter saído apenas com um suéter leve e largo ontem à noite. Ao chegar em casa se jogou na cama e nem percebeu quando adormeceu.
***
Acordou com sua barriga roncando, conferiu o relógio e já eram cinco horas da tarde. Respirou fundo e se levantou, se espreguiçando ainda aos bocejos, foi até o banheiro e jogou uma agua gelada no rosto. Verificou o celular enquanto comia um pão com geleia e respondeu as mensagens de seus irmãos e depois foi para a conversa de Flora que havia umas oito mensagens mais ou menos.
"Eei, você vai hoje, não é?
Eu 'tô MUITO ansiosa para sair com o Thom
Nossa, acho que vou vomitar
'Tá tudo bem? Você não me responde, 'tô preocupada!
Unaaaa não faz isso comigo
Espero muito que você esteja sem bateria ou coisa assim
Não desiste de mim por favorzinho
Respondee Una"
Respirou fundo e digitou uma resposta para a garota.
"Oii, ta tudo bem. Desculpa eu dormi a tarde toda kkk não se preocupe que vai dar tudo certo hoje com o Thom! E sobre a festa, não sei ainda se vou."
Minutos depois seu celular vibra com a resposta de Flora.
"Ah, não. Você p r e c i s a ir, ta?? Te encontro lá.
Se precisar de carona Arth pode te buscar, só avisar! Beijos. "
"Não precisa. Me manda o endereço e eu penso no seu caso kkk beijos. "
Bloqueou o celular e deixou o prato sujo na pia, se serviu de um copo de suco e deitou novamente na cama. Uma nova mensagem de Flora chegou com o endereço, Una checou o mapa e ficou contente por não ser muito longe dali ela poderia ir a pé. Decidiu entrar no banho para aproveitar e coletar mais penas, precisava lavar suas asas que estavam sujas de grama e barro da noite no parque.
Entrou no chuveiro passando reto pelo espelho e sentiu a agua quente cair em seus cabelos, escorrendo pelo rosto, abriu suas asas e as sentiu preencher todo o espaço do box, passou os dedos por elas molhando-as aos poucos, no caminho foi arrancando algumas penas que saiam levemente ensanguentadas e Una fazia uma pequena careta de dor, lavando as delicadas penas brancas manchadas de vermelho. Desligou o chuveiro após terminar de se lavar e depositou as penas na caixinha de prata em cima da pia e secando seu corpo com uma toalha felpuda, sacudiu suas asas que respingaram agua e gotinhas de sangue pelas paredes do banheiro.
Conferiu o celular e ainda eram sete e meia, Flora devia estar em seu encontro com Thom, se jogou na cama com as asas espalhadas pelo colchão ocupando todo o espaço. Com os dedos em suas penas novamente, mas dessa vez as acariciando, pensou em quanto tempo não usava suas asas para dar uma volta e um sorriso brincou em seus lábios quando pensou em ir até a tal festa voando. Seria perfeito, ela conseguiria extravasar um pouco em um voo noturno e poderia descer uma quadra antes da festa em algum telhado. Sorriu com a ideia, ficando mais animada.
Levantou da cama e foi até a sacolinha preta que estava no canto do quarto desde a tarde no shopping, retirou as peças escolhidas por Flora e as encarou por um tempo as arrumando em cima da cama. Foi até a cômoda e buscou por meias que ficassem legais com a roupa, pegando uma meia-calça arrastão e uma 7/8 preta, então veste conforme Flora havia sugerido e calça um coturno preto bem gasto, depois se encara no espelho. Realmente a roupa era muito bonita, o vestido marcava as poucas curvas que Una tinha, mas a camisa xadrez e a jaqueta jeans suavizavam a forma que o vestido de veludo marcava seu corpo, o que agradou a garota que não gostava de nada muito colado, as meias combinadas também haviam ficado ótimas, ela sorriu para sua imagem branca no espelho, e fazia muito tempo que não sorria para a própria imagem. Pegou um delineador preto e passou em volta dos olhos, fazendo um pequeno gatinho, que deixou seus olhos violetas realçados. Decidira se arrumar mais cedo e aproveitar o tempo para um voo noturno, até porque não fazia questão de chegar na festa antes de Flora e ter que aturar Arth sozinha.
Pegou sua bolsa e arco e foi até a sacada e se debruçou na grade coberta por trepadeiras floridas, deixou que suas asas ocupassem todo o pequeno espaço atrás delas, sentindo-as sacudir levemente com o vento que fazia, encarou o céu estrelado e a lua brilhante e tomou impulso. Por um momento pensou que não iria conseguir, que poderia ter perdido as habilidades de voo, já que fazia tanto tempo que não praticava, mas assim que seus pés saíram do chão suas asas entraram em ação e uma sensação maravilhosa percorreu o corpo de Una, um sorriso sincero ganhando espaço em seus lábios. Alçou voo para cima do prédio em que morava, parando no telhado e sentando no parapeito por um momento apenas observando a vista lá de cima, suas asas se mexiam com o vento agora mais forte, que também batia contra seu rosto. Ficou em pé e encarou a queda, lá embaixo carros passavam rapidamente pela rua devido ao horário de pico, então se jogou, abrindo os braços e sentindo todo seu corpo cair para logo depois sentir suas asas a puxando de volta para cima, esboçou um sorriso e deu uma cambalhota no ar. Agora sobrevoava os prédios da cidade e de onde estava conseguia ver o parque, a escola que havia visitado, o bosque mais ao fim da cidade, passou por entre algumas nuvens geladas e sentiu suas asas levemente molhadas, as bateu mais forte aumentando a velocidade até sobrevoar praticamente toda a cidade. Parou em cima de um prédio no centro da cidade e conferiu seu celular, havia voado por mais de uma hora, havia algumas mensagens de seus irmãos mas até agora nada de Flora, então deduziu que a garota estivesse mais do que bem, conferiu o endereço novamente e observou a vista pensando no caminho que deveria tomar, guardou o celular e alçou voo novamente, pairando sobre um telhado mal iluminado, na casa em frente adolescentes chegavam com sacolas de bebidas e coolers cheios, falando alto e rindo. Sentou-se na beira do telhado, com as pernas penduradas no ar e observou as pessoas que chegavam buscando reconhecer alguém.
Seus olhos pousaram em um garoto de cabelos pretos bagunçados e camisa preta, jeans escuro surrado e uma latinha de cerveja na mão e os olhos de uma garota prendendo sua atenção, ela sabia muito bem que aquele era Arth, mesmo sem conseguir ver seu rosto poderia muito bem imaginar o sorriso de lado que ele estaria dando para a morena a sua frente. Revirou os olhos quando reconheceu todos os movimentos típicos de flerte do garoto, que já eram óbvios para ela, levou as mãos até seu arco e retirou uma flecha colocando-a a postos para atirar e terminar com aquilo quando seu celular começou a tocar. Suspirou para o aparelho e largou a flecha de lado, atendendo o telefone.
—Oooi! Onde você está? Diz por favor que você veio. – Era Flora do outro lado da linha.
—Olá. Estou a nem um quarteirão da casa, já encontro com você. – Disse, enquanto já ia se levantando.
—Ótimo! Até já entãao. – A garota desligou e Una guardou suas coisas de volta na bolsa.
Em um pulo desceu do telhado, caindo graciosamente em pé, suas asas chacoalharam em protesto de estar no chão novamente e Una passou os dedos por suas penas com pesar. Respiro fundo e foi andando em direção a casa agora já repleta de adolescentes idiotas.
Assim que chegou no gramado da casa Arth a avistou e veio em sua direção, deixando a garota que conversava, agora com uma feição irritada.
—Eei, Una. – Disse chegando ao seu lado com seu típico sorriso.
—Oi. – Una tentou soar seca. – Você já encontrou com Flora?
—Ai, esqueci que você não gosta de mim. – Ele piscou e ela revirou os olhos. – Ela e Thom acabaram de chegar do encontrinho deles, devem estar pegando alguma bebida lá dentro.
—Ok, vou procurar eles. – A garota disse, andando em direção a porta de entrada escancarada.
—Espera, eu te acompanho! – Arth começa a andar ao seu lado.
—Não preciso que me acompanhe.
—Não disse que precisa. – Ele sorri.
Una respira fundo e tenta ignorar a presença do garoto ao seu lado. Entra na casa e vai direto para o fluxo de pessoas que entravam e saiam de uma porta, que ela julga ser aonde as bebidas estavam. Logo encontra o casal encostados um no outro com um copo em casa mão.
—Una! – Flora praticamente grita e vai até a garota.
—Olá! – Tenta soar mais animada do que realmente estava. – O que é isso? – Gesticula para o copo em sua mão cheio de gelo e algum liquido rosa.
—Uma bebida muuuito boa. Tem gosto de chiclete! – Flora ri e oferece o copo para Una que o pega.
—Deuses, isso é muito doce. – Disse depois de um bom gole, e Flora ri ainda mais. – Como você já está bêbada? Faz tipo dez minutos ou menos que você chegou. – Una ri da amiga.
Ela apenas aponta para uma bandeja de shots esverdeados em cima do balcão.
—Eu devo ter virado uns três daqueles ali assim que cheguei. – Riu.
—Na verdade foram quatro. – Thom disse logo atrás da garota, também rindo.
Una foi até a bandeja e virou dois copinhos de uma vez, fazendo uma careta, Arth ao seu lado fez o mesmo e sorriu para ela, que apenas ignorou e se voltou para Thom e Flora novamente.
***
Sua mente girava assim como a sala e eles estavam rindo e dançando, o álcool com efeito total em seu corpo e Una se sentia totalmente desligada das preocupações que sempre permeavam sua cabeça. Arth ao seu lado tentou por vários momentos puxa-la para si, aproximações sutis, mas que Una por já estar muito bêbada apenas ria para ele e negava com a cabeça, fazendo o garoto ter reações que iam de fazer biquinho a rir e revirar os olhos para ela. Thom e Flora se divertiam com a situação, e quando estavam com eles agiam apenas como amigos, o que Una agradecia, embora os olhares e gestos emitidos um para o outro deixassem bem obvio que eles eram um casal.
Uma garota de cabelos enrolados foi até eles e se encostou em Arth, fazendo o garoto virar sua atenção para ela, e logo o sorriso se formou em seus lábios, alguns minutos de conversa e os dois saíram andando de mãos dadas, o garoto olhou para trás e deu uma piscadinha para eles, fazendo com que Thom risse e as garotas revirassem os olhos.
—Ele não cansa? –Una solta. – Deve ser, sei lá, a terceira garota que chega nele hoje.
—Ciúmes? – Thom arqueia as sobrancelhas para ela, rindo.
—Você quer que eu te soque? – Ela rebate e Flora Ri.
—Eu tenho dó dessas meninas que caem na lábia dele. – Flora diz e os dois concordam, observando Arth passar a mão pela cintura da garota e puxa-la para si.
Una revira os olhos para cena e vira as costas, voltando a atenção para os amigos, que também paravam de observar o casal.
—Acho que vou dar uma volta. – Declara.
—Vamos! – Flora sorri animada e gruda nos braços de Una, que se afasta por reflexo.
—Er... Eu 'tava pensando em deixar vocês dois sozinhos um pouco. – Sussurrou para amiga.
—Não vou deixar você sair andando sozinha nessa festa! E outra, eu vou acabar dormindo na casa de Thom de qualquer forma. – Ela ri baixinho e suas bochechas já coradas pelo álcool ficam ainda mais vermelhas.
—Tudo bem então. – Una tenta sorrir e disfarçar a irritação pela garota querer ir junto.
Precisava de um momento para flechar corações e queria usar aquela oportunidade, até por que já havia deixado Arth com três garotas diferentes e não havia usado nenhuma flecha. Todo momento que parecia propicio ao acerto algo a atrapalhava, ou era Flora querendo buscar mais bebida, Thom dançando desengonçadamente e as distraindo com risos, e até uma garota bonitinha flertando com ela.
Flora a guiou até o bar improvisado na cozinha e elas se serviram de mais bebidas, Una já se sentia um tanto zonza e seus lábios começavam a formigar, sorriu com a sensação enquanto dava um longo gole na bebida gelada. Resolveram sair da casa e sentaram na calçada da frente, Flora deu um gole na bebida e deixou o copo entre as duas.
—Você beijaria o Arth? – Perguntou de repente, e Una arregalou os olhos surpresa pela pergunta da garota.
Demorou um tempo que não gostaria de ter demorado para responder.
—Não. Claro que não. – Disse balançando a cabeça negativamente como que para realçar sua resposta.
—Você demorou para responder Una. – Sorriu maliciosamente.
—Quando a gente 'tá bêbado a gente perde a noção do tempo, Flora. – Sorriu sarcástica de volta.
Flora rolou os olhos para ela, que riu com a reação da amiga. Tomaram mais um gole em perfeita sintonia e depois riram mais, completamente bêbadas. Começou a ventar e Una fechou os olhos para sentir o ar bater em seu rosto e em suas asas, sentindo suas penas balançarem com o vento e sorriu, seria delicioso um voo agora.
—O que foi? – Flora perguntou encarando a menina de olhos fechados, os cabelos brancos levemente balançando com o vento.
—Eu gosto de sentir isso. – Abriu os olhos e sorriu. – Quer voltar para lá?
Flora assente com a cabeça e as duas tentam levantar, falhando na primeira tentativa e gerando risos que dificultavam ainda mais a tentativa.
—Precisam de ajuda aí? – A voz de Thom chegou até elas e Flora olhou para trás fazendo que sim com a cabeça acompanhada de um biquinho de choro, o que fez o garoto rir.
Foi até elas e estendeu a mão para Flora, que a aceitou e foi puxada rapidamente para cima, que desengonçada caiu nos braços do namorado, rindo. Una rindo da situação foi tomar impulso novamente quando viu uma mão estendida para si, deixando seu sorriso murchar ao encontrar um Arth sorridente em sua frente.
—Não preciso de ajuda. – Declarou, fechando a cara.
—Tudo bem. – Ele continua em sua frente com a mão estendida.
Una revira os olhos e aceita a ajuda, pegando em sua mão e sendo puxada para cima, e como a amiga também perde o equilíbrio se deixando cair nos braços do garoto, que a segura em um abraço, rindo.
—Não precisa de ajuda, certo? – Ele diz com seu típico sorriso de lado.
—Cala a boca. – Ela resmunga.
—Ai, ai, esquentadinha. – Ainda a segurando, traz a garota para mais perto de si.
—Cansou de beijar a quarta menina? – Una sorri friamente e o encara, seus olhos violetas realçados pelas luzes da rua.
—Nossa, então você 'tava contando? – Ele continua com seu sorriso, cada vez mais perto.
—Thom estava. – Revira os olhos para o garoto.
Seus rostos estavam próximos demais, Una conseguia sentir a respiração de Arth em seus lábios, seus olhos escuros praticamente brilhando contra os dela. E naquele momento ela se deu conta do que não gostaria de admitir, ela adoraria beijar Arth. Balançou a cabeça como que para afastar a ideia em seus pensamentos e fechou os olhos para cortar o contato visual com o garoto. Sentiu as mãos dele descerem de seus braços para sua cintura e a respiração ficar mais próxima, então ela abaixou a cabeça e de olhos abertos novamente encarou seus pés.
—Eu queria te beijar. – Ela respirou fundo ao ouvir o garoto.
—Eu não vou ser a quinta garota. – Afirmou, se afastando lentamente dele.
—Não, você não vai. – Ele disse. — Você sabe que eu queria beijar você desde o começo.
—É, eu sei. Mas isso não vai acontecer Arth. – Ela o encarou e seus olhos pareciam tristes.
Ela saiu totalmente dos braços dele e virou as costas, entrando novamente na casa. Deu graças aos deuses por Flora e Thom terem saído de lá, embora não soubesse o quanto da cena os dois haviam presenciado e torcia para que eles estivessem em algum canto da casa se agarrando. Entrou no primeiro cômodo que encontrou aberto e se viu em um banheiro com iluminação vermelha e azul, abriu a torneira e deixou a agua escorrer em seus punhos, depois encheu as mãos em concha com agua e respirou fundo jogando-a de leve no rosto.
Se encarou no espelho, o reflexo arroxeado com a mistura das luzes e o efeito da bebida a deixava confusa, os cachos agora coloridos e os ossos da clavícula agora parecendo mais realçados. Em um passo para trás encostou na parede gelada e desceu para o chão de azulejos vermelhos. Retirou a bolsa de suas costas e segurou uma flecha em suas mãos, suas asas se abriram e preencheram todo o espaço do pequeno aposento, analisou a ponta afiada em formato de coração de sua flecha, pressionando o dedo médio de leve na região, depois forçando um pouco mais forte, até sentir a superfície furar sua pele. Encarou o dedo com um pequeno furo por onde um sangue vermelho começava a sair aos poucos e logo estava em um fino rastro de sangue, passou o mesmo pela haste da flecha, sujando-a. Encaixou-a em seu arco e mirou na direção do espelho, sentiu seus olhos se encherem levemente e uma pequena lagrima escapou, rolando por sua bochecha, limpou com o dedo deixando uma marca vermelha aonde antes tinha sua lagrima e voltou a segurar firme na flecha apontada. Encarou o teto em uma tentativa de afastar as lagrimas e respirou fundo, contando calmamente até dez, sua cabeça estava uma bagunça, cheia de pensamentos confusos e desejos impossíveis.
Ela queria beijar Arth. Ela por pouco não havia deixado que o garoto o fizesse. Por mais que ela já houvesse beijado outras pessoas antes, sentia que não poderia deixar isso acontecer com ele, parecia ser diferente. Ela sentia que era diferente. Mas ela não podia sentir, não deveria sentir, era errado, era impossível. Suas asas pareceram mais pesadas em suas costas, como que para lembrar a garota de quem ela era. Encarou a flecha que ainda segurava firmemente posicionada para o espelho, os nós dos dedos brancos pela força que fazia. Soltou a arma e ouviu o baque da mesma ao se chocar com o chão, chutou o arco e ele foi parar embaixo da pia, segurou novamente a flecha, na altura de seus olhos, virou a ponta para si e a aproximou, mirando-a no próprio peito, encostou a arma em sua pele e a apertou contra si, sentindo uma leve pontada. Suas asas cresceram atrás de si e começaram a se movimentar como se estivessem prestes a alçar voo, fazendo com que penas caíssem pelo aposento. Una respirou fundo, tentando se livrar da dor que invadia seu peito e sua cabeça, soltou a flecha e a chutou para longe junto do arco, uma pontinha vermelha fixada em seu peito. Jogou sua cabeça para trás, encostando na parede fria e encarou o teto azul.
Depois de um tempo em silencio e com a cabeça mais calma ouviu batidas na porta. Em um pequeno susto se levantou e recolheu rapidamente seu arco e a flecha, agora danificada. Ajeitou rapidamente seus cabelos, deixando-os cair um pouco mais no rosto e abriu a porta, respirou fundo e destrancou a porta, dando de cara com duas garotas, uma com as mãos na boca e a outra a ajudando a se manter em pé, as reconheceu do grupo de líderes de torcida do outro dia. Rapidamente saiu da frente, dando espaço para que as meninas passassem e fechando a porta atrás delas.
Com as mãos apoiadas e suas asas também roçando levemente nas paredes do corredor, seguiu meio cambaleando para fora do espaço, chegando a sala, onde encontrou o trio de amigos sentados em um canto. Caminhou até eles, recolhendo suas asas.
—Acho que vou indo embora.
—Você 'tá bem? – Thom pergunta, os três a encarando parecendo levemente preocupados.
—Uhum. – Resmunga sem muito som. Flora levanta e vai até ela.
—Vamos. A gente já 'tá indo também, podemos te deixar em casa.
—Não precisa. Eu vou sozinha.
—Nem pensar Una! São quatro e meia da manhã.
—Mais um pouco e conseguimos tomar café da manhã em frente ao parque. – Thom diz baixinho, o tom de voz esperançoso.
Flora ri e Una se permite sorrir, ia adorar ver o sol nascer no parque e depois tomar um café gostoso para melhorar o humor.
—Isso foi um sim? – Thom sorri largamente já se levantando. – Vou considerar como um sim.
Arth que permanecera quieto apenas se levantou e seguiu Thom que já ia em direção a saída. As garotas os seguiram e logo estavam os quatro andando no meio fio em direção ao parque.
Flora e Thom andavam na frente, com as mãos entrelaçadas, Una vinha logo atrás em passos um pouco acelerados para evitar que ficasse muito próxima a Arth que andava mais lentamente e atrás de todos. Ele estava quieto, até demais para o garoto que costumava fazer gracinhas e distribuir sorrisos. De certa forma Una compreendia o silencio do garoto, ela mesma não estava confortável com a situação, eles quase haviam se beijado, e só não tinham realmente por Una ter recusado o garoto, por mais que ela quisesse completar a ação. Agora eles estavam ali, andando pela rua em um silencio desconfortável, a poucos passos um do outro, cabeça baixa encarando o chão.
O céu começava a clarear, ganhando tons diferentes de azul e mesclas de tons arroxeados e alaranjados, eles já estavam na rua do parque e Flora soltou a mão de Thom e começou a correr na direção do gramado, Una, cansada do silencio constrangedor entre os dois, saiu em disparada junto com a amiga, que já se estendia na grama. Se jogou ao seu lado, sentindo a grama molhada. Logo Thom e Arth estavam sentados ao lado delas, esperando o nascer do sol que parecia chegar com as cores mais bonitas pintando o céu. Una encarou a cena e riu internamente ao lembrar que nesse mesmo horário de ontem ela estava deitada naquele gramado sozinha e cansada de uma noite de trabalho, e agora tinha três pessoas que ela nunca imaginaria ao seu lado, começando a perder o efeito do álcool, com um total de zero pessoas flechadas naquela noite e pensamentos embaralhados por um sentimento nunca antes presenciado, mas que teoricamente era impossível de permear sua cabeça.
***
Thom devorava ferozmente um sanduiche grelhado de queijo, enquanto Flora ao seu lado comia calmamente uma salada de frutas e observava o namorado com uma expressão de diversão estampada no rosto. Una beliscava um bolinho de laranja e Arth dava mordidas calmas em um sanduiche. Todos com grandes xicaras de café e caras de cansaço evidentes.
—Você devia ir para a escola com a gente. – Flora soltou.
—Sim! Por que você não estuda com a gente? – Thom soou animado.
Una suspirou, mas não conseguiu conter um sorriso. Arth permaneceu quieto, sem comentários sobre a sugestão dos amigos, Una sabia que isso não era nada típico do garoto, esse seria um ótimo momento para que ele soltasse alguma frase inoportuna e possivelmente a usasse para dar em cima da garota descaradamente. Se ele continuasse assim logo os outros iriam perceber que havia algo de estranho.
—Não sei... Meu pai não iria gostar da ideia. – Mentiu, já que todos os seus irmãos já haviam estudado em pelo menos três escolas por ideia do pai, ela sempre sendo a única a se recusar a isso.
—Você podia tentar pedir para ele. Se precisar eu posso conversar com ele! Sou ótima em convencer pessoas. – A amiga se ofereceu, convencida de seu poder de persuasão.
—Não precisa. – Una respondeu rápido demais e com certo tom de desespero na voz. – Ele não é uma pessoa fácil, mas vou conversar com ele.
Flora comemorou com um sorriso e palminhas silenciosas e Thom sorriu junto, Una se deixou sorrir para os amigos e depois passou os olhos por Arth que permanecera a conversa toda em silencio e assim continuava apenas encarando sua xicara de café, bebericando-a de vez em quando.
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