– Ei, Ella, estás a ouvir?

Com isto voltei à realidade. Abanei a cabeça como que para “acordar” e olhei para a Laila, que me tinha chamado.

- Hum? — Perguntei, confusa.

A Lay lançou-me um olhar reprovador antes de responder:

- Eu perguntei se não achavas que os pedidos estão a demorar muito tempo — explicou.

Olhei em volta: estávamos no nosso café do costume, o ponto de encontro desde que somos melhores amigas, há 5 anos. É uma sala não muito grande, com um estilo retro, mesas todas redondas, em vários tamanhos, com bancos ou pufs laranjas e verdes a rodeá-las. Toda a frente é envidraçada para a luz entrar e, ao fundo, tem um pequeno palco onde às sextas-feiras há karaoke e aos sábados concertos de bandas amadoras da zona.

- Há quanto tempo é que estamos aqui? — Tentei informar-me para responder.

- Deus, estás mesmo perdida! Há quinze minutos!

Considerando que tínhamos pedido logo que entramos no café e os pedidos eram 2 lattes simples, a Laila tinha razão no que dizia.

- Ah, ok! Sim, está a demorar — respondi — Deve haver algum problema nas máquinas — acrescentei, tentando compensar a pouca atenção.

- Deve ser isso. Mas estavas a pensar em quê? — Ela levou uma mão ao cabelo ruivo e atirou-o para trás do ombro.

A Laila é linda, há que dizer. Tem imenso orgulho no facto de ser ruiva, tem um cabelo enorme e os olhos azuis, característicos da cor de cabelo dela. A emoldurar-lhe o rosto tem algumas sardas nas bochechas e no nariz. Contrastava um bocado comigo, que tenho cabelo escuro e liso e olhos castanhos.

- Em nada, tinha a mente vazia – menti, tentando parecer o mais natural possível.

Nada é algo desejável, neste caso. Relembrar certos pedaços do passado é dispensável, mas difícil de evitar.

- Hum, hum – a Lay concordou, como se acreditasse, mas ambas sabíamos que não era bem como eu tinha dito.

Finalmente, um empregado chegou com os nossos pedidos, poupando-me ao trabalho de responder à Lay, e, com os copos na mão, saímos do café de braço dado.

- Estava a ver que não, mais um bocado e não tínhamos tempo de chegar a horas ao ensaio.

- Ter tínhamos, mas não a pé.

Todos os sábados, às três, e noutros dias a horas marcadas de acordo com os compromissos de todos, eu, a Lay e mais três amigos encontramo-nos para o ensaio da nossa banda, “Álibi”. Não somos nada de mais, só uma banda de garagem amadora, mas temos algumas músicas originais e vários concertos na agenda, em bares e cafés aqui da zona.

Já a passo apressado, chegamos a casa do Derek, o nosso baixista, e fomos diretas para a garagem onde ensaiamos habitualmente. Já lá estava o Derek, naturalmente, e o Gabe, o nosso “teclas”, a ver alguma coisa no computador. Eles dois são muito parecidos a nível de personalidade, ambos hilariantes e, às vezes, chatos, mas são ótimas pessoas.

- Buenos dias, gente! – A Lay exclamou e meteu-se no sofá no meio deles, para os irritar um bocadinho.

- Boa tarde — o Gabe respondeu, quase ao mesmo tempo que o Derek, mas este fez algo do tipo:

- Boa t… Isso é café!? – e arrancou o copo da mão da Lay para beber.

Ela tirou-lhe o copo e deu-lhe uma palmada na cabeça, a rir-se.

- Olá meninos — disse, sobre os risos.

Eles responderam e eu sentei-me na carpete fofa do chão da garagem. O espaço era mais sala de estar que qualquer outra coisa, o carro nunca lá estava, por isso havia mais que espaço para os sofás, a mesa, o móvel da TV, os arrumos e os nossos instrumentos mais as colunas, à frente de uma parede com um cartaz enorme com o nome da banda.

- A Taylor? — Perguntei, referindo-me à nossa baterista.

- Vem mais tarde, tinha uns assuntos a resolver com os pais. Ligou uns minutos antes de vocês chegarem — o Derek explicou enquanto escrevia alguma coisa no computador.

- Ok… Enquanto esperamos, tive umas ideias para umas melodias novas.

- Manda vir — a Lay sorriu-me.

Fui buscar a minha guitarra e sentei-me no chão de novo, dedilhando nas cordas para ver se estava tudo a bater certo. Mostrei-lhes as ideias.

- Gostei da segunda — a Lay elogiou e começou a trauteá-la. Claro que, com a voz dela, ficou algo de fenomenal, não é por acaso que ela é a nossa vocalista.

- Yah, mas precisamos de covers novas, de atualizar o reportório. — O Gabe avisou.

Fui pousar a guitarra enquanto eles iam discutindo temas novos e ficamos naquilo bastante tempo. Paramos quando o telefone tocou. O Derek pôs-se a pé e foi a correr atender.

- Sim… Ah, olá... Não? Ok, não faz mal… está bem, depois falamos. Sim, boa sorte, xau – posou o telefone – era a Taylor. Não pode ver hoje, os assuntos a tratar “alongaram”- fez aspas com os dedos.

- Sendo assim, não estamos aqui a fazer nada, mais vale irmos indo — o Gabe concluiu.

- Pois não — concordamos.

Despedimo-nos todos, adiando a marcação de um novo ensaio para quando estivéssemos juntos com a Taylor e cada um seguiu o seu caminho. O Gabe levou-me a casa de carro, porque a minha casa fica mesmo no caminho da dele e a Lay foi a pé, dado que mora ao lado do Derek.

Quando paramos na minha rua, despedimo-nos e saí do carro. Procurei as minhas chaves de casa nos bolsos das calças e, assim que as encontrei, segui caminho até á porta onde coloquei a chave correta na fechadura e a rodei.

- Ella, és tu, filha? — A minha mãe gritou da cozinha, depois de eu bater a porta.

- Quem mais poderia ser?

- Podia ser eu! — O meu pai comentou, aparecendo à minha frente, assustando-me.

- Pai!? O que é que fazes aqui? Tu não estavas na Alemanha a fazer uma formação qualquer de culinária? — Questionei séria, ainda com dúvidas — Não… és mesmo tu?

- Quem mais poderia ser? — Imitou-me.

Saltei imediatamente para cima dele, atacando-o com um abraço forte.

- Oh, pai! Estás tão elegante! — elogiei, quando no separamos.

- Estes dois meses fizeram-lhe bem, não foi? — A minha mãe apareceu na ombreira da porta, com o cabelo loiro preso com uma mola e um sorriso lindo no rosto — Temos de festejar, hoje!

- Pois temos! — Concordei — mas o que é que estás aqui a fazer? — Virei-me de novo para o meu pai.

- Houve lá umas fachas na organização e tivemos de acabar mais cedo porque afinal um dos cozinheiros que nos ia dar aulas não sabia de nada.

- Ah, ok… depois falamos, ao jantar, pode ser? Vou descansar que estas botas estão a dar cabo de mim!

Voltei a abraça-lo e subi as escadas, já descalça, entrando no meu quarto, decidida a ligar o computador e passar lá o resto da tarde, muito protegida do frio de Fevereiro, sentada no meu sofá preto super confortável, a minha prenda de natal.

Quando me sentei, bateram à porta. A minha mãe entrou no quarto, devagar. A expressão dela mudou e eu engoli em seco, com medo do que ela pudesse dizer.

-Eleanor...

- Loise! — Exclamei, em modo de reclamação. Ela sabia que não aprecio que me tratem pelo nome completo.

- Ok, esqueci-me, Ella — ela corrigiu o que havia dito e depois sorriu de orelha a orelha — O teu pai voltou e tu sabes… Não queres, sei lá…

Estremeci ao entender o que ela queria dizer.

- Não digas mais nada, a sério, já percebi. Eu janto e vou para casa da Lay! — Respondi, aliviada.

- Nota-se mesmo que nasceste de mim!

- Ok, mãe, visões desnecessárias! — Informei-a entre risos. Ela riu um pouco comigo e sai do quarto com um olhar pervertido. Algo me diz que não vou querer ver o estado da casa amanhã.

Procurei o meu telemóvel e mandei uma sms à Laila.

«Espero que hoje possa dormir em tua casa. O meu pai voltou e a minha mãe quer matar saudades, se é que me entendes»

Carreguei em enviar e, segundos depois, recebi a resposta.

«Claro que podes! E avisa a tua mãe para ter cuidado, haha»

«Não te preocupes Lay. Estou aí às 9h30, dá?»

«Festa aqui, festa de outra maneira aí. Beijo»

Ri-me e voltei aos meus afazeres.

Notas finais
Segundo capítulo! Nada de muito interessante, só para apresentar o dia-a-dia da Ella e tal.
Mas vem aí coisa, já no próximo capítulo!
Digam-nos o que pensam! Beijo das autoras*