Ginger and Green
3 Pensamentos
Notas iniciais
Não sabia o que pensar. Tudo ao meu redor tinha parado, como se o tempo ficasse estagnado. A minha mente só se focava no que se tinha passado anteriormente deixando-me completamente à parte do que estava realmente a acontecer em tempo real.
Um dos homens que veio ajudar a descarregar a mobília e os restantes objetos abanava freneticamente a mão para tentar me chamar à realidade.
— Está tudo bem?! Está a ouvir-me?! — gritava o homem em palavras estrangeiros, tentando trazer-me de volta à realidade
Ouvindo estas palavras, acordei do meu universo alternativo e ainda assustada com os movimentos e os gritos do homem, respondi:
— Sim, está tudo bem! Desculpe, estava distraída.. — respondi-lhe levemente envergonhada
— A senhora estava muito pálida e completamente aérea e pareceu que ia ter uma paragem cardíaca
— Ai não!! Meu Deus, nem me diga isso senhor! Vá eu estou bem, continue a trabalhar!! — respondi-lhe num tom autoritário, fazendo-o encolher, e ir continuar o seu trabalho.
Móveis num lado, caixas no outro, parafusos espalhados pelo chão, enfim... Uma autêntica confusão. Era este o estado do meu apartamento. Parecia uma daquelas feiras onde as pessoas mexem nas coisas e nunca as arrumam deixando tudo espalhado. Terceira guerra mundial, resumidamente.
Passado 3 horas, a guerra tinha virado paz e finalmente o meu apartamento já parecia, bem, um apartamento mais completo. Sentia-me em casa. A decoração era bem a minha cara e cada objeto tinha um valor elevadíssimo, culpa de ter uma família podre de rica.
O meu pai sempre fora um homem de grande poder, sendo ele, o presidente de uma das mais importantes empresas de Portugal. A minha mãe sempre fora também muito conceituada no seu trabalho, trabalhando como cirurgiã no melhor hospital português. Tudo isto fez com que o dinheiro na minha família nunca faltasse. Mas faltou uma coisa essencial, ou talvez, a mais essencial: o Amor.
Apesar de ser filha única, os meus pais nunca me deram muita atenção. Maior parte da atenção que tive foi por parte da minha tia que infelizmente, já partiu.
A partir dai fui eu contra o mundo e o mundo contra mim. Andei sempre sozinha e nunca ninguém se importou realmente comigo. Mas prefiro não falar disso.
Já com tudo arrumado e preparado, dei-me ao luxo de deitar-me no meu novo sofá e ver um pouco de televisão. Mas devido à falta de descanso, deixei-me levar pelo cansaço e entreguei-me aos sonhos.
Acordei de manhã com o barulho da minha campainha.
— Mas quem é o desgraçado que anda a perturbar o meu sono de beleza? — pensei alto e fui resmungando até à porta.
Abri a porta e dei de cara com um rapaz loiro, alto e com olhos azuis. Pelo que vestia, notava-se que percebia de moda ou que era estilista. Mas era sem dúvida um homem muito bonito.
— Hey! Meu nome é George, sou o teu vizinho do lado, bem, vizinho do andar de cima — disse ele mostrando os dentes perfeitamente brancos
— Oi George! Meu nome é Ariana — disse, estendendo-lhe a mão — Muito prazer em te conhecer
— O prazer é todo meu — disse, apertando a minha mão e continuou a falar — Eu vim aqui porque disseram-me que tínhamos uma vizinha nova no andar de baixo e achei que era de bom senso vir dar as boas vindas à minha nova companheira! — disse, dando pulinhos de alegria — Espero não ter incomodado
— Ah muito obrigada pelo teu gesto de simpatia, é sempre bom conhecer os vizinhos, não é mesmo? E não, não incomodaste nada
— Queres entrar? — perguntei-lhe abrindo mais a porta
— Não obrigada, bem que eu queria mas tenho que ir embora... Que tal um jantar amanhã em minha casa?
— Por mim tudo óptimo! Aliás, até faz jeito porque não tenho comida em casa — respondi-lhe, oferecendo-me logo para ir jantar com ele
— Então amanhã ás 7:00pm no andar de cima, OK? — disse ele todo animado
— OK sim senhora! — respondi-lhe dando-lhe um beijo na bochecha
— Então até manhã Ariana, foi um prazer conhecer-te! Aposto que vamos se grandes amigos
— Xau George, o prazer foi meu! Não duvido disso!!
Despedi-me do George com um abraço e um aceno e voltei para dentro de casa. Mas antes de fechar a porta, algo atrás de mim me chamou a atenção. Um cabelo ruivo passava por mim como uma brisa leve, deixando um cheiro de flores e de fresco a pairar no ar. Aquele cabelo ruivo também me era muito conhecido. Demasiado até.
"O céu está estranho esta tarde. Nem é cinzento, nem é azul. É vermelho, com tons de laranja. Tudo indica que o calor está a chegar.
Estou em plenas férias de verão e ainda não me aconteceu nada de interessante, tirando a parte que a minha mente não para de passar imagens como um álbum fotográfico daqueles olhos verdes.
Estranho ou não, não me lembro de mais nada daquela estranha rapariga. Só me lembro dos olhos. Mas deixem pra lá.
Tenho 14 anos e a minha vida é um lixo. Os meus pais nunca estão em casa, não tenho amigos, e só tenho o meu pobre e fiel amigo Joule. O meu pequeno cão.
Sempre me culpei por ser assim estranha e solitária, mas não há maneira de mudar a minha maneira de ser, a minha personalidade. Se eu pudesse mudar digo-vos que era uma pessoa altamente social, cheia de amigos e, muito provavelmente, infeliz.
Mesmo tendo esta vida solitária, só com livros, música e universos alternativos à volta, e mesmo cheia de problemas pessoais, consigo ser mais feliz do que todos aqueles que têm imensos amigos, porque mais vale poucos do que muitos e acredito que se algum deles tiver algum problema mais grave e necessite de apoio de um amigo não irá ter nenhum, já que todos aqueles que aquela pessoa confiava, na realidade, não eram seus amigos. Por isso estou muito bem assim, apesar de tudo.
De repente a campainha toca, expulsando todos estes pensamentos, e a minha criada vai abrir. Ouço ao longe passos a vir em direção ao meu quarto, e passado uns momentos, duas batidas na minha porta.
Vou cuidadosamente abrir a porta, sempre relutante com o que possa ser. Pode ser a minha mãe, o meu pai ou até algum colega, que só vem a minha casa quando quer alguma coisa. Típico.
Coloco devagar a mão na maçaneta e vou abrindo a porta com muito cuidado, até que me deparo com um grande, liso e extremamente lindo cabelo ruivo.
Nem precisei de acelerar mais o processamento do meu cérebro para descobrir quem era. Era a dona dos olhos verdes. Era ela. De certeza."
Expulsei este pensamento e fechei a porta atrás de mim, ficando com aquele ruivo a assombrar cada pedacinho de memória que encontrava pelo caminho. Voltei a sacudir a cabeça e foquei-me no sofá à minha frente. Deixei o meu corpo cair nele, sentindo a maciez e a fofura daquele prazeroso objeto que acariciava as minhas costas e que suportava o peso morto do meu corpo.
Deixei-me levar por aquela sensação de prazer, e entreguei-me ao sono, mais uma vez. Entrando assim no mundo imaginários dos sonhos, com verde e ruivo à minha espera.
Acordei no dia seguinte levemente bem disposta, apesar de todos os sonhos que tive naquela noite. Aquelas imagens andavam a perturbar-me cada vez mais e aquele assunto já me assustava.
Com tanta correria devido ás mudanças, no dia anterior não tinha conseguido comer nada, e por isso a minha barriga já roncava a alto som, pedindo exclusivamente por uma grande e boa quantidade de comida.
Fui estrear a minha nova casa de banho, cuidando da minha higiene, ficando cheirosa e limpa, pronta para sair de casa.
Vesti uma roupa qualquer, peguei as chaves e fui rumo ao supermercado mais próximo. Apesar de ter ficado um pouco perdida naquele supermercado, consegui lidar bem com as minhas compras, trazendo de tudo um pouco, desde vegetais a bebidas alcoólicas, porque de vez em quando sabe bem estar bêbeda.
Com tantas compras que fiz, já não tinha mãos para levar aqueles sacos todos para o meu apartamento, porque tinha que subir escadas e a minha condição física, apesar de tudo, não era das melhores. Então como já estava a pregar milhões de coisas se espalharam pelo meio das escadas, quando o meu corpo decidiu que já estava cansado. Comecei a apanhar tudo quando vi duas mãos a apanharem o outro resto, poupando-me trabalho. "Deve ser o George", pensei.
O meu pensamento foi um bocado estranho, porque aquela pessoa tinha mãos demasiado femininas para ser o George, então ponderei que fosse uma mulher qualquer que vivesse naquele prédio.
Ainda estava eu a acabar de apanhar as compras quando uma mão tocou gentilmente no meu ombro. Acabei de arrumar tudo e virei-me para a pessoa para lhe agradecer, e ainda pensando que foi o George a oferecer ajuda, agradeci-lhe, ainda de olhos postos no chão para ver se me faltava algo. Então, levantei a cabeça e disse "Obrigada", ficando assustada.
Porque aquela pessoa não era o George.
Mas quem me dera que fosse.
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