Ginger and Green
2 Olhos Verdes
Notas iniciais
Eu nunca fui uma pessoa de meias palavras. As pessoas passam a vida a reclamar que sou demasiado direta e que isso por vezes pode magoar as pessoas. Não digo que não, mas há algumas coisas que não mudam.
Em criança sofri muito. Sempre fui muito calada e muito isolada e nunca gostava das brincadeiras que as pessoas da minha idade gostavam. Era amante de livros e de séries que ninguém gostava e era dona de um corpo não lá muito magro, que me distinguia das crianças da minha idade. E como consequência disso nunca tive muitos amigos.. Talvez um ou dois mas não passava daí. Até que encontrei a Ana que se mostrou carinhosa e uma pessoa em quem se podia confiar, e que em pouco tempo se tornou a minha melhor amiga durante 3 anos. Então à medida que cresci as coisas foram piorando quando descobri a minha orientação sexual. Sempre achei que gostava de rapazes até que comecei a sentir grande atração pelas raparigas mais velhas da minha escola.
Um dia atrevi-me a mandar uma carta para uma dessas raparigas a dizer o quanto gostava dela, escrevendo-lhe um poema digno de prémio. Mandei-lhe a carta e contei à minha melhor amiga, à Ana, pensando que ela nunca ia a contar a ninguém o ocorrido, porque tinha total confiança nela. Mas pensei o contrário do que realmente aconteceu, porque mal cheguei no outro dia à escola, todos os alunos se reuniram para me gozar e atirar coisa, incluindo a rapariga a quem eu tinha mandado a carta. Fiquei muito magoada com a Ana, porque ela era a única verdadeira amiga que eu tinha, e quando ela me fez aquilo senti-me traída e passei a odiar eu mesma e ela. A partir daí cortámos relações e eu nunca mais a vi.
Naquele dia fui para casa e desabei mal as minhas costas entraram em contacto com a colcha da cama. Nunca me tinha sentido tão humilhada, magoada e traída em toda a minha vida. Já não sabia fazer mais nada a não ser chorar e chorar até adormecer, a pensar nas coisas horríveis que me tinham dito, e que toda a gente já sabe o que foram. A partir desse dia comecei a comer muito mal, ficando até muito doente, mas depois recuperei. Comecei a fazer exercício e a tonificar cada músculo do meu corpo tornando-me na mulher que sou agora. Fui para a escola sempre de cabeça erguida, nunca deixando me abater pelo que eles diziam. Mas claro que com as mudanças do meu corpo as pessoas viram-me com outros olhos e esqueceram-se da minha orientação sexual e de um dia para o outro todos os que me odiavam e humilhavam, passaram a me amar e a elogiar como se fosse uma peça rara de museu. E vejam lá que até rapazes e raparigas já queriam marcam encontros comigo e fazer outras coisa não tão puritanas. Mas como eu não suporto hipocrisia e falsidade, como um bom e digno português diz, caguei neles.
Passando estes problemas todos, consegui acabar o secundário e farta de tudo e de todos mudei-me para este país desconhecido e longínquo, deixando tudo para trás. Por isso tudo o que eu passei, tornou-me na mulher que sou hoje e ajudou-me a seguir os meus sonhos. Então agradeço a todas as pessoas que me deitaram abaixo ou que pelo menos tentaram, porque isso fortaleceu-me mais e ajudou-me a definir realmente quem eu sou e ajudou-me a construir, pedra por pedra, o meu caminho até ao sucesso.
Só não tive sucesso no amor. Mas a culpa disso foi minha. Tinha tudo o que queria, mas mesmo assim ignorei e deixei o que mais amava para trás.
Submersa em pensamentos, nem me dei conta que estava sentada no chão do meu novo apartamento. Por isso aproveitei e fiquei sentada à espera que a companhia das mudanças me viesse trazer as minhas coisas como mobílias e bens materiais, porque o meu apartamento estava praticamente vazio, só com uns pequenos armários e uma mesa no meio de uma divisão.
Sem nada para fazer, mudei a minha posição de sentada para deitada e repousei o meu corpo no chão e dei de cara com um tecto branco.
O tecto fez-me lembrar os meus dias mais felizes que tinha na minha vida, desde os meus dias a brincar no baloiço que o meu pai me construíra, as horas que eu passava a ver desenhos animados a tarde inteira, o meu primeiro ano na escola e consequentemente o meu último ano. Mas pelo o meio de estas memórias e rascunhos mentais, com o cansaço da viagem e tudo isso, fechei os olhos e deixei-me levar nas memórias que tinha escondidas nas mais profundas cavidades do meu cérebro.
“Tinha eu catorze anos. Estava no meu jardim a brincar com o meu cachorro e a ouvir música. A minha mãe tinha-me avisado que naquele dia, a nossa nova vizinhança chegava. Eles eram brasileiros e eram uma família composta por um casal e por uma filha com a minha idade.
Estava em imersa em pensamentos quando de repente o meu cachorro começa a ladrar para alguém que supostamente estaria a aproximar-se daquele lugar. Eu estava deitada na relva com os olhos fechados a curtir as ondas sonoras que entravam nos meus ouvidos, que nem me ousei levantar ou pelo menos abrir os olhos para a pessoa que se estava a aproximar. De súbito, uma sombra tapa-me a luz solar criando um incómodo nos meus olhos, já habituados á luz. Então, levantei-me num pulo e comecei a resmungar com a pessoa que tapou-me o sol e que não calava o meu cachorro, quando do nada me calei.
Dei de cara com os mais puros olhos verdes que alguma vez já tinha visto, que fizeram o meu coração parar. Eram de um verde extremamente claro, com pequenos fios de azul e dourado muito discretos, afogados naquele mar verde. Nunca tinha visto nada assim e logo uma estranha chama se acendeu no meu coração outrora escuro e frio, sendo assim aquecido por aquele lindo par de olhos verdes.
Simplesmente fiquei sem palavras. Não sabia o que se estava a passar, não sabia o que era aquilo que do nada comecei a sentir. Fiquei com a mente completamente em branco. Até que o dono daqueles olhos verdes se manifestou:
— Oii, está tudo bem com você ou quer um babador e um par de óculos? – Disse ironicamente
Pareceu-me ter ouvido uma voz, mas estava tão absorta naqueles olhos que só voltei para a realidade quando uma mão atingiu a minha cara:
— Oii, já acordou? Tudo bem com você? Quer água com açúcar?- disse com deboche
— Ah?! Que foi? Quem és tu? Não, não quero nada. Eu estou bem, quer dizer.. Sim estou bem. Escusavas de me ter batido.. Não achas?
— Me desculpa mas você estava praticamente colada em mim que eu fiquei com medo de você ser uma assassina em série ou uma estrupadora de classe baixa que tive que fazer alguma coisa, né?- disse ela rindo
— Muito engraçadinha sim senhora. Poupa-me. Bastava teres gritado que eu acordava para a realidade mas ok.
— Poxa, amuadinha você ein? Nossa, não te queria ofender mas de qualquer maneira, muito prazer! Sou a Gabriella e sou a sua nova vizinha – dizendo isto, deu-me um aperto de mão
Mal a minha pele entrou em contacto com a dela, um choque atravessou todo o meu ser deixando-me completamente, como os brasileiros dizem, sem jeito.
— Não, não sou amuadinha para tua informação. Muito prazer, sou a Ariana e suponho que sou a tua vizinha – respondi e retribui o aperto, nitidamente chateada pelo atrevimento daquela menina
— Bom tenho que ir, Adriana. Foi bom conhecer você, até amanhã!
— Heii, meu nome é Ariana. O prazer é todo meu, até manhã! – Corrigi o seu erro e ouvi ela a rir-se e a pedir desculpa pela troca dos nomes
Dizendo isto, despedi-me dela e voltei a deitar-me na relva, começando a sentir novamente as ondas sonoras a invadir os meus tímpanos, e um sorriso involuntário começou a crescer lentamente nos meus lábios por lembrar-me daquele olhos verdes, até que…”
“TRIIIIIIIIIIIIIIIIMM!!!!”
Acordei num sobressalto, confusa e relativamente acelerada pelo sonho/memória que presenciei há poucos minutos. A lembrança de algo que já estava mais do que enterrado, deixou-me sem noção do espaço e do tempo.
Passado um tempo de introspecção e confusão, fui, num impulso, abrir a porta. Eram, para meu grande alívio ou talvez assim nem tanto, os senhores das mudanças com milhões de caixas à beira deles e móveis que ocupavam quase todo o meu apartamento. Mas no meio daquela feira, uma coisa me chamou à atenção. Por detrás daquela festa de armários, parafusos e principalmente homens asquerosos, pareceu-me ver algo que já não via à mais de 5 anos… Um velho e conhecido par de olhos verdes.
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