Gibbs
1 Capítulo 1
Capítulo 01 –
Kaike Rimeko acordou se espreguiçando, estalando os ossos. No espelho do seu massivo guarda-roupa, seu reflexo não era dos melhores.
Pelo menos era o que ela achava. A mesma pintinha abaixo do olho esquerdo, e olhos azul-piscina encarando-a, com cílios que pareciam estar eternamente usando rímel. Pegou seu celular caríssimo e sem esperar com que sua voz deixasse de ficar rouca e discou.
— Alô – outra voz igualmente rouca pelo sono.
— Hiro?! Que diabos faz aí? — Hiro bocejou.
— Você acha que a casa da Kyoko é pensão porque ela ganha o próprio dinheiro? Eu posso não ganhar o meu, mas esbanjo uma fortuna! Mas minha família é intragável, menos meu irmãozinho, que eu nunca sei onde está!
— Muita informação pras 4:12 da matina, Rimeko-chan.
Rimeko se deu conta do quanto estava solitária. E Kyoko deveria estar dormindo àquela hora.
— E Kyoko?
— Está fazendo um bolo.
Rimeko levou a palma à testa, mas tão forte que deixou uma mancha vermelha.
— Me deem cinco minutos.
Esses cinco minutos se converteram a uma hora e meia, com Rimeko escovando metodicamente seus cabelos lilases Lápis-lazúli, uma cor quase mágica. Todos sempre a admiraram, com aquele porte de rainha e suas roupas de haute couture, que infelizmente, ela não podia exibir na escola.
Mas seja lá onde fosse, ela era a mais popular.
Chegando à casa de Kyoko, um furacão ruivo atendeu a porta. Nunca deixava de lhe encantar, mesmo naquele pijama de coelhinhos e combinados à aurora.
Ela abraçou a amiga.
— Devo ficar com ciúmes? – zombou Hiro.
Já Hiro... Podia bem confundir as coisas.
Os cabelos de Kyoko estavam completamente embaraçados e ela estava toda desarrumada.
— Acordei às 3:30 da manhã com desejo de bolo de chocolate. Daí Hiro-chan veio reclamar do barulho e estava com uma cara tão estranha, não falou nada!
— A cara “estranha” devia ser porque eu queria o bolo, Kyoko-chan.
Rimeko não estava nem um pouco interessada na imbecilidade da amiga. Conhecia Hiro desde antes dela e Kyoko ainda não percebia.
— Guardamos um pouco para você.
Rimeko enfiou um pedaço enorme na boca.
— Rimeko-chan! – reprovou Hiro.
— Acha que ligo para sua opinião? Kyoko, me empresta sua escova de dentes.
E Hiro percebia que, por mais anos Kyoko e ele se conhecessem, não havia competição entre ele e Rimeko.
***
Eles estudavam numa escola pública chamada Meiou High. Kyoko adorava o uniforme: Era rosa.
Ao entrarem na sala, o professor de Química, Midokawa Nekoi fez a bobagem de fazê-las se apresentar. Rimeko parecia ter feito curso de Oratória. Kyoko tremia e olhava para um ponto fixo.
Até que viu um.
Um garoto ruivo, como ela, mas com os cabelos de coloração diferente. Bem diferente.
Então, ele sorriu.
Sentindo um frêmito que durou um segundo, sorriu de volta.
Até que, atrasado, entrou um aluno.
Ele usava uniforme como todos os garotos garbosos da escola de 17 anos, exceto que a expressão não combinava com o traje. Muitas garotas gritaram, garotos sugaram o ar e quase todos cochicharam...
O garoto tinha poucos fios de cabelos, insignificantes, não tinha lábios, a pele destruída e cheia de queloides por queimaduras. Começaram a fotografá-lo até que o professor interrompeu o espetáculo, ameaçando tirar nota até o fim do ano para quem procedesse assim.
O coração de Kyoko acelerou. Uma partícula que nunca esteve lá, um átomo, quark, próton, nêutron ou seja lá o que fosse, brotou e ela reparou nos olhos azuis glaciais de Midokawa-sensei, naqueles cabelos loiros, longos, que ela queria puxar e Kyoko sentiu algo lá embaixo...
Midokawa deu um tapa na mesa de Kyoko, acordando-a.
— Não é que eu queira atrapalhar seu devaneio, Aikawa-kun, mas a aula já começou.
Ele se voltou e Kyoko podia jurar que havia em nos lábios do sensei um sorriso safado.
***
Durante o almoço, Hiro, Kyoko e Rimeko almoçavam na sala como sempre. Conversavam banalidades.
O garoto ruivo se aproximou e se apresentou, acintosamente.
— Olá, sou Shuichi Minamino. Quero ser amigo de vocês.
Rimeko escarneceu.
— Você tem cara de playboyzinho. Não estamos interessadas.
Hiro riu. Kyoko interveio depressa demais.
— Estamos, sim!
Minamino chegou junto.
— Então acho que está decidido. Já estou cheio de receber cartas de amor vazias, bem como elogios. O que você acha de mim, Kyoko-chan?
Kyoko olhou para Nekoi guardando os materiais e se aprontando para ir embora com aqueles Kitsune no me que escondiam seus olhos azuis glaciais e corou.
— Acho que de ruiva já basta eu.
Shuichi riu. Parecia ter gostado da resposta.
— E aí? – desafiou Hiro. – Não vai perguntar o que eu acho?
Minamino suspirou pesadamente e alegou:
— É que eu gostei muito da Aikawa. Se ela respondesse como uma daquelas meninas, ficaria decepcionado.
Todos ficaram tão chocados que suas caras assumiram formas grotescas de espanto.
Menos Kyoko, que riu.
— E por que gostou de mim?
— Pelo seu sorriso. É o mais doce que já vi.
Kyoko não pôde evitar sorrir.
— Como eu disse, de ruiva já basta eu.
Uma comoção na sala distraiu os quatro. Kyoko tremia ao ver uma cena que a perturbou, envolvendo cinco garotos.
— Ijime?! Aqui?! Hiro-chan, o que devemos fazer?
Hiro segurou-lhe as mãos frias e encorajou:
— Você sabe o que fazer.
Kyoko foi direto à cena do crime. O garoto queimado estava sendo perturbado pelos colegas, de modo que eles rasgavam seus materiais.
—OOOOYYYYYY! PAREM COM ISSO!
Eles olharam para aquela ruiva magrela e começaram a rir.
— E se não pararmos? – um garoto alto, de cabelos castanhos desafiou.
— Eu faço vocês pararem!
— Você e que exército?
Minamino, Hiro e Rimeko apareceram imponentes.
Os abusadores largaram as coisas do garoto.
— Dane-se, não vale à pena mesmo – cuspiram, saindo.
O pobre coitado chorava e catava seus materiais. Kyoko ajudava.
— Obrigado.
— Já chega, Kyoko, eles já foram embora. Você não quer ninguém carente em cima de você – falou Rimeko.
O garoto que sofreu ijime se voltou para ela imediatamente com toda a dignidade possível:
— Eu não a conheço, menina, mas me parece que está falando de si mesma.
E se foi.
Rimeko ficou enregelada e cheia de raiva.
— Se não é playboyzinho por fora, é por dentro...
— Rimeko-chan, você viu o que disse?
Ela bateu cabelo.
— Kaike-san é... sempre assim? – perguntou Minamino.
— Não. Só quando gosta de alguém. – sorriu Hiro.
— Mas eles nem se conhecem!
— Ela provavelmente o associou a Kojiro.
— O que vocês estão falando aí? Não gosto que fiquem falando pelas minhas costas! Ah, minha nossa! Ele esqueceu o livro de História! Toma, Kyoko-chan, você entrega, ele gostou mais de você.
Kyoko apenas pegou o livro.
— Rimeko-san é muito bondosa, inclusive quando se arranha a superfície. Você vai ver, Minamino. Ela é grossa com todos de que gostam mais.
— MINAMINO! Eu li meu nome nos seus lábios! Podem parar de fofocar, vocês dois!
Shuichi sorriu, de forma cálida. Rimeko arqueou uma sobrancelha.
— Vem, Kyoko-chan. Hoje você dorme lá em casa.
Kyoko deu um risinho e aceitou.
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