Gibbs

2 Capítulo 02


Capítulo 02 –

O fato é que Hiro também tinha casa. Ele morava com os pais.

E toda vez que não estava com sua amiga de infância, seu âmago doía. Ele nunca amaria ninguém, ninguém como a Kyoko. Nem mesmo dinheiro, ria consigo mesmo.

Ele queria casar com ela um dia. Sustentá-la, que ela enchesse a casa de filhos e filhas.

Deus, como a amav—

— Takahashi-kun – a voz do ruivo Minamino tirou-lhe o foco – Lá estão Kyoko-chan e Kaike-san. Vamos lá dar oi. – Ele o puxou pela manga do uniforme.

Aquele... Aquele... Chamando-a pelo primeiro nome, tendo-lhe conhecido há um dia! E a Rimeko, ele tratava da forma correta. Que ódio!

Hiro olhava para Minamino e sabia que se fosse para Kyoko escolher, o melhor amigo de anos perderia. Ela não gostava de loiros, já deixara isso claro uma vez em que Rimeko e ela estiveram falando das “preferências de cabeludos”.

Cabeludos... Hiro nem era cabeludo! Suas madeixas eram curtas, e bem curtas.

Rimeko e Kyoko riam em frente aos seus armários, Hiro e Minamino se juntaram dando bom dia e aquele garoto veio andando em sua direção.

— Erm... Com licença... Algum de vocês viu meu livro de História? Tô ferrado sem ele hoje. – coçou a nuca cheia de cicatrizes.

— Aqui! – Kyoko foi entregando. – A Rimeko achou e exigiu que lhe fosse entregue.

Os olhos de Rimeko ficaram do tamanho de pires. Ah, Kyoko, você pagaria caro...

— Agradeço às duas. – ele fez uma reverência.

— Não agradeça à mim coisa nenhuma! – disse Rimeko, irada, dando mais bandeira ainda.

Kyoko revirou os olhos. Bem como todos, até Minamino, que mal conhecia Rimeko.

— Então fique com meus sinceros cumprimentos.

— O quê?! Não quero nada seu, pirralho!

Todos explodiram em gargalhada. Eles tinham a mesma idade.

— Qual seu nome? – inquiriu Hiro.

— Samuel. E o de vocês?

Alguém soltou um gritinho, chamando atenção e a turma olhou. Era um garoto tão bonito que até parecia uma menina. Os cabelos eram tão loiros que chegavam a ser quase brancos, olhos azul-celeste, quase cinzas e unhas esmaltadas. Provavelmente contra o regulamento da escola...

— Ai, que nojo! Que coisa é essa? Vai estudar aqui? – referindo-se a Samuel.

Rimeko finalmente se moveu. Foi em direção ao garoto e deu-lhe um massivo tapa na cara. Devia ter dado pra ouvir o barulho do Brasil. O menino segurava a face com olhos lacrimejantes, sem dizer palavra.

— Também não estou com paciência pra imbecilidades – soltou Rimeko, irritada, comparando suas unhas com as do garoto disfarçadamente.

Kyoko, Hiro, Minamino e inclusive Samuel estavam espantados, no mínimo. Seus rostos pareciam caricaturas.

— D- desculpe, eu – começou o menino bonito – Eu não sabia que ele tinha uma namorada.

Kyoko, Hiro e Minamino gargalharam sem querer. Samuel tentou desfazer o mal-entendido, mas Rimeko não deu tempo.

— EU NÃO SOU NAMORADA DE NINGUÉM, SUA CHALEIRA AMBULANTE! CHEGA NA ESCOLA APITANDO! SABIA QUE É CONTRA AS REGRAS DISCRIMINAR OS OUTROS?

O garoto estava apavorado.

— Mas eu levei um susto...

— Não interessa, são imitação fajuta de RuPaul!

O garoto se inflamou.

— Antes RuPaul a tentar imitar Ayumi Hamasaki e sair parecendo Koda Kumi!

Antes que alguma desgraça acontecesse, até Samuel segurou Rimeko, que arrancaria os olhos do loiro chaleira. Agora tudo saíra do rumo.

O menino pegou seu material e saiu, olhando para trás triunfante, jogando um beijo.

Faltou pouco para Rimeko não dar um berro. Pouco.

***

Samuel só pôde conversar com o grupo no intervalo para o almoço.

— Eu—eu posso me defender... Não façam isso por mim. Vocês não merecem se enredar nisso.

— Então por que está aqui e trouxe sua marmita junto? – Rimeko perguntou aborrecida.

— Rimeko-chan, não seja indelicada – solicitou Kyoko, ao passo que Hiro e Minamino suspiravam.

Um segundo depois, dois onigiris voaram na cabeça de Samuel.

— “Eu posso me defender... Não façam isso por mim” – imitou Rimeko, com fala de bebê.

Estava grudento e ele tentava tirar.

— Okay, Kyoko, dessa vez eu—falou Hiro.

Mas Kyoko não estava mais lá.

— Ai, Deus... – Minamino apertou entre as sobrancelhas e a ponte do nariz. Kyoko estava falando com cinco garotos mais altos até que ela. Os mesmos garotos que praticaram ijime antes.

— Como se atrevem a desperdiçar comida boa? E na cabeça do nosso amigo? Seus monstrengos!

Os garotos a olhavam, intrigados. Então, desataram a rir.

— Com licença, estou recolhendo isso – Kyoko disse.

— Mas é minha marmita!

— Ei! Menina! Devolve meu almoço!

— Sua louca!

— Camarão empanado! Isso aqui vocês não vão jogar na cabeça de ninguém, não! Sabem como faz pra dar o ponto de fritura? Se precisarem de alguém que faça marmitas profissionais, me contatem! Aqui, pela escola mesmo.

Eles se olhavam confusos, enquanto Kyoko levava toda sua comida.

— Nunca mais perturbem nosso amigo. Seus ogros!

Kyoko voltou para a mesa com cinco marmitas e todos os amigos chocados.

— Olha, camarão empanado! – Shuichi foi metendo a mão.

Rimeko deu um tapa na mão dele e a comida caiu.

— Ficou louca Kyoko-chan? E se esses garotos enormes resolvem dar o troco?

— Estou jogando cartas com o destino, Rimeko-chan – todos já estavam comendo.

Rimeko deu de ombros e comeu o camarão empanado que Minamino ia pegar.

— Kyoko... O que acontece que, quando se trata de ijime o mundo para pra você? – perguntou Rimeko, mastigando. – Guarda algum segredo de mim?

— Olha lá, é aquele garoto dos armários! – Hiro interrompeu fortuitamente, já que o mesmo vinha na direção deles.

— O que quer? – perguntou Rimeko.

Ele olhou para Samuel.

— V-vim me desculpar. Agi como um porco, por mais bela que eu seja. – e estendeu a mão para o garoto queimado.

— Sim, você é uma bela criatura. Posso beijar-lhe a mão?

O garoto ficou pasmo. Bem como todos lá.

— Me daria essa honra? – o garoto loiro perguntou.

E Samuel beijou a palma.

— Oh!

— Ai, Jesus Cristo. – Rimeko tapou os olhos e todos davam risadinhas abafadas.

— Qual é seu nome? – perguntou Kyoko.

— Podem me chamar de Asato. Esqueci minha marmita e vi que vocês roubaram cinco, daqueles gigantes gostosões!

— Seja bem-vindo, Asato – cumprimentou Hiro.

***

Durante a aula de Química, Midokawa Nekoi estava sendo extremamente gentil e cordial com Kyoko. Ela lhe tocava os cabelos e ele sorria. Às vezes davam-se as mãos. Ninguém parecia se importar.

— Aikawa-kun.

— Hmmm... Eu prometo cozinhar para o senhor, sensei... E sairemos juntos, iremos ao parque...

— Aikawa!— a voz se fez mais incisiva, não alta, mas potente.

Oh Deusa. Ela estivera sonhando. E se estivesse falando?!

Ele não parecia satisfeito.

— Durma em casa, e não durante a aula. Ou durma em outras aulas. Você já é uma péssima aluna que só tira nota alta por causa da sua parceira de laboratório, não pode se dar ao luxo de não prestar atenção.

— Isso não é nada sutil, Sensei – reclamou Rimeko. – O senhor não sabe sobre a vida dela pra fazer acusações.

Enquanto isso, os garotos altos da marmita tentavam ouvir o máximo que podiam e a classe toda decidia se era ou não, um bafão.

— Quer entrar na berlinda, Kaike-san? Por ela?

Kyoko estava com lágrimas nos olhos, mas pela Deusa que não as deixaria escorrer. Que decepção, nunca imaginaria que seu Kitsune no me de óculos redondos pudesse assumir olhos azuis tão glaciais.

— Quero falar com a senhorita após a aula, Aikawa.

Os cinco garotos se sentiram vingados.

Ela olhou Midokawa nos olhos, com seus olhos esmeralda brilhantes, sem uma lágrima sequer e disse numa voz que não deixava dúvidas:

— Não irei a parte alguma. Estarei aqui.

Ele sorriu e a luz fez reflexo em seus óculos.

Um dos garotos altos, o mesmo de cabelos longos, castanhos e olhos verdes, sentado perto, sussurrou:

— Agora vai, com toda sua arrogância.

Rimeko, pela primeira vez em sua vida, se sentia perdida.

***

A aula acabou e Kyoko tremia de tão mal que podia andar, pois suas pernas estavam bambas pelo nervoso. Ah, mas esse gostinho ela não daria àquele professor metido.

— Tem certeza de que não quer que a gente fique? – perguntou Samuel.

— E vocês acham que ele iria deixar? A Rimeko já me perguntou isso. Está chorando no banheiro. Asato, você consegue entrar? Ela tá muito mal, se culpando por ter me deixado dormir.

— Sem problemas! Até porque eu nunca vou ao banheiro masculino.

— Ehe... – Hiro engoliu o espanto.

— Aikawa! Dispense seus amigos! Acha que isso aqui é parquinho?

— Tchau, gente.

E Kyoko fechou a porta.

— Tranque a porta, Aikawa. – a voz dele de repente ficou macia, aveludada... Será que ele era Bipolar?

— Por quê?

— Porque estou mandando!

Definitivamente era.

— Bem.... – Midokawa pigarreou – nós temos que conversar. E dependendo, vamos fazer uns jogos também?

— Jo- jogos? Tipo, experimentos?

— Imagino que pra você, uma jovem vestibulanda de 17 anos, sim. – ele sorriu, enigmático.

A atmosfera no ambiente se tornou abafada. Kyoko ficou tonta. Midokawa se aproximava. Demais. Tocou-lhe os cabelos e passou o dedo indicador numa linha pelo rosto dela. Kyoko suspirou.

— Estamos aqui há uma semana... Eu vejo como me olha desde o primeiro dia. Como se eu fosse uma de suas tortas. Meu emprego está em suas mãos agora, Kyoko. Mas se eu não satisfizer essa fome...

O coração de Kyoko quase saltava pela boca.

— Deixe-me sair!

— É isso o que quer? Não é o que seus olhos dizem.

Ele a beijou, um beijo ávido, como num manga josei, daqueles dos quais não se pode escapar. Ela ficou sem fôlego, sem coerência, sem chão. Puxava os cabelos de Nekoi como sempre sonhara fazer, com desespero, colava seu corpo ao dele, tomava-o.

— Uau... – ele mal conseguia respirar – devagar com o cabelo, minha ruiva, ou acabo careca antes de o semestre acabar!

— Vamos... Vamos fazer isso o semestre todo?

Ele deu um risinho.

— O que acha que estamos fazendo aqui, Kyoko? Bem, eu fiz tudo errado. Era para namorarmos. Mas acho que você está interessada em se divertir.

— Não! Quero namorar!

— E depois casar?

— Sensei, o senhor é maluco? Nem me conhece!

— Ah, mas conheço. Uma noiva caridosa que cuida dos que precisam e sabe cozinhar. Eu lhe daria o mundo. E vamos nos conhecendo pouco a pouco. Se você não gostar de mim, eu me afasto.

Ela o abraçou, olhando nos olhos azuis que agora estavam cálidos.

— Eu estava sonhando com você durante a aula. Odeio sua matéria, mas de você, gosto muito.

Ele sorriu.

— Por quê? – segurando-a pelos ombros, analisando-a.

— Acho que... Porque você é surpreendente.

Ele a olhou de forma terna e beijou-lhe a testa. Então o nariz, os lábios, o pescoço, fazendo carícias com os lábios por lá. Abriu a blusa de seu uniforme e Kyoko ficou encabulada.

— Se ainda for muito cedo... – ele pediu permissão.

Kyoko não usava bojo. Midokawa acariciou-lhe os seios, beijou-os por cima do sutiã e ela se sentiu quente por todo o corpo, inclusive lá embaixo.

Que foi o próximo lugar onde ele tocou.

Nem ela se tocava. Nunca. E enquanto ele o fazia, saíam lágrimas dos olhos de Kyoko, ela tentava se conter para não gemer alto, berrar, dar vazão a toda aquela emoção e desespero.

Ela estava saciada e exausta, nem conseguia mais ficar de pé. Ele lhe colocou sentada numa cadeira.

— Ah, Kyoko-chan! Eu vou te mostrar um mundo do qual você não vai mais querer escapar!

***

Kyoko demorou mais de uma hora na sala e saiu com cara de pateta, tentando disfarçar. De repente, se viu cercada pelos amigos.

— Então, como foi?? – inquiriu Rimeko.

— Erm... Horrível! Ele descascou! Eu me contive para não sair correndo, mas ele trancou a sala por que sabia que eu fugiria!

— Crápula! – exclamou Samuel.

— Sentimos muito, Kyoko – disse Minamino.

— Aula não é lugar de dormir – admoestou Hiro.

— Cala a boca, CDF de merda – reclamou Rimeko. – Hoje você dorme lá em casa, Kyoko-chan.

Asato parecia estar com algum problema. E também com uma mala.

— Algo o incomoda, Asato? – perguntou Hiro.

— Meus pais me deram um ultimato. Disseram que se eu não deixasse de ser gay, eu seria expulso de casa. Aí acharam meus esmaltes, maquiagens, chapinha e antes que destruíssem tudo, botei tudo numa mala que coubesse, mas não tenho para onde ir.

Rimeko revirou os olhos. Sabia no que daria isso.

— Ah, você pode ficar na minha casa! – exclamou Kyoko. – O Hiro praticamente nem tem residência fixa!

Nisso que ia dar. Kyoko emprestando o imóvel a qualquer indigente.

— Valeu, Kyoko! Eu tava ferrado! Juro que vou achar uma casa logo!

Geralmente esses indigentes não achavam residência, de acordo com Rimeko, e a casa de Kyoko não chegava a ser um Hotel Cápsula, mas não era do tamanho da Mansão da outra.

— Hoje vou dormir na minha casa – disse Hiro. – E a Kyoko não gosta que mexam nas coisas dela, mas pode comer o que quiser.

— Como é sua família, Samuel? – perguntou Kyoko. – Você nunca nos falou sobre eles.

Ele olhou para o chão antes de responder, com o rosto contorcido, diante da pergunta repentina.

— Não é. Pereceram todos num incêndio na Alemanha, minha Terra Natal. Só eu sobrevivi. Eu e o Testamento do meu pai. Serei um homem muito rico. Por isso vim estudar no Japão, o mais longe possível. Pra esquecer. Mas tudo me lembra...

Kyoko correu, chorando, e o abraçou. Todos ficaram pasmos com essa atitude explosiva, inclusive Samuel.

— Ei, tá tudo bem... Não sofra mais que eu.

— Kyoko-chan, cada um nessa vida tem seu quinhão – retrucou Rimeko.

— Exato. Não chore, Kyoko-chan. E depois, tenho amigos como vocês.

— E amigas também. – sorriu, surpreendentemente, Rimeko.

Samuel chorou emocionado.

***

Enquanto toda essa cena se passava, Midokawa Nekoi estava sentado atrás de sua mesa sentindo a fragrância de Kyoko nos dedos. Era algo de doce com almiscarado...

Da próxima vez, ele a provaria.