Gibbs

3 Capítulo 03


Capítulo 03 -

Uma menina, ruiva, cabelos na altura dos ombros. Atiravam pedregulhos nela.

— Não, parem, por favor!

Uma grande pedra atinge-lhe a testa e sangra muito.

— Conta pra Diretora, como da última vez, Esquisita! Ou chama seus pais!

Os rostos cruéis, impassíveis, sorriam.

— Isso se você tivesse pais.

A garota, agachada, subjugada, chorava.

Uma voz parecia ter vindo do além.

— Agora vocês foram longe demais!

— Hiro! Vem defender a Esquisita, vem! Vai ficar marcado que nem ela! Mas se quer saber, ela não vai ter um minuto de paz enquanto estudar aqui!

A menina ruiva tampava o rosto sangrando e chorava.

— Pois eu estarei sempre ao lado dela!

As crianças cruéis pareceram hesitar.

— Então melhor você ter quatro olhos e oito nas costas.

— Kyoko! KYOKO!!!

Kyoko acordou com a camisola rosa de seda de Rimeko grudada no corpo, enquanto a outra a sacudia.

— O- o quê?

— Você estava tendo um pesadelo. Você estava gritando! O que você estava sonhando?

— Eu... eu não lembro...

Num gesto rápido, Kyoko pegou a lixeirinha de Rimeko e vomitou.

— Okay, definitivamente tem alguma coisa errada aqui. O que o Midokawa fez a você?

Kyoko tossiu, limpando a boca.

— Não foi o sensei. Eu... foram aqueles insetos...

— Kyoko, você não está fazendo sentido.

De repente, Kyoko deu um berro que veio da alma.

— Deusa, Kyoko! O que você guarda?

— Preciso escovar os dentes.

Entrou no banheiro e ficou duas horas chorando. Rimeko não foi incomodá-la.

***

No dia seguinte, aulas de Japonês Duplo, Matemática, História e Química Dupla, para a mortificação de Kyoko, Química parecia não parar.

Nekoi a olhava agora de forma diferente. Afável. Ela sorria para ele, discretamente. Mas eles tinham que conversar.

Rimeko nunca estivera tão preocupada. Mas não ousava perguntar. Não se sentia confortável com sua melhor amiga guardando segredos, mas cada um tinha seu passado.

Kyoko fez o possível para errar o trabalho mais fácil e ainda estragar a performance de Rimeko e ficar depois do fim da aula.

Midokawa trancou a porta e começou:

— Eu percebi. Você está perturbada. Arrependida.

— Não! Apenas... confusa.

Ele se aproximou, perigosamente.

— Confusa?

— Alguém já gosta de mim.

Nekoi riu alto.

— Ora, dane-se!

— Não é bem assim, sensei...

Sem querer, Kyoko começou a chorar, assustando-o. Ele deu-lhe lenços de papel.

— Obrigada.

— Kyoko-chan, se você gosta dessa pessoa, fique com ela – ele sorriu, segurando-a pelos ombros.

— Eu gosto é de você.

Agora quem estava confuso era ele.

— Quando eu era criança, tive um amigo que me ajudou. Sofri ijime. Escondiam e destruíam minhas coisas, me espancavam, me botavam apelido. Esse amigo dedicou a vida escolar a me proteger. Eu não tinha mais pais para me proteger, eles haviam morrido num acidente de carro e também não tinha outra família.

Ele a abraçou apertado e beijou-lhe os cabelos.

— E suponho que esse “amigo” seja Hiroshi Takahashi?

Kyoko empalideceu.

— Não é difícil concluir, Kyoko. Ele a segue como um cachorrinho.

— Eu não posso magoá-lo...

— Ele fez o que fez porque quis. E alguém como você, eu, Rimeko, Hiroshi e Minamino ajudamos Samuel Rosenberg. Agora pare de palhaçada e vamos ficar juntos.

Os lábios de Kyoko formaram uma linha fina. Ela assentiu e se jogou em seus braços.

— Só para constar, Samuel é nosso amigo.

— Tanto faz. – Nekoi levou os lábios aos dela.

***

Rimeko tocou a campainha da casa de Hiro. Uma moça loira de meia idade atendeu.

— Oh, querida Rimeko! Entre!

Rimeko tirou os sapatos e perguntou por Hiro. Ela disse que ele estava no quarto dele, jogando.

Rimeko deu duas batidinhas na porta e ouviu “mãe, é o rango?”

— Não, é a Rimeko. E eu quero uma boa conversa, Hiro.

O rosto dele se modificou.

— Então o momento chegou. Senta na cama.

O quarto de Hiro era pequeno. Uma cama de solteiro, uma poltrona, um guarda-roupa e um laptop.

— Não tenho tempo pra gracinhas. O que aconteceu com Kyoko? Ela teve um pesadelo ontem, vomitou e chorou durante duas horas no meu banheiro. E dormiu lá dentro.

— Meu Deus.

— Isso não é nem metade.

— Achei que ela já tivesse superado isso!

Rimeko já estava irritada. Perguntou o que Kyoko deveria ter superado e disse que exigia uma resposta rápida, pois sendo amiga dela tanto quanto ele, não era justo que ficasse no escuro.

Hiro respirou fundo.

— Kyoko sofreu ijime da primeira à oitava série. Como ela era menor de idade e órfã, o governo escolhia a escola.

— Como vocês são burros! Por que não reportaram o caso às autoridades?

— Pois reportamos. Ela só poderia sair com guardião legal. E mamãe não conseguia os papéis porque ela legalmente ainda tinha pais. Até que quando Kyoko completou catorze anos conseguimos reverter isso. Não chore, Rimeko.

— E eu a conheci naquela escola maldita, porque era de riquinho! Achei que tivesse sido a primeira a conhece-lo!

— Pois é, Kyoko tentava ficar longe de mim por orgulho, mas se ficasse a um metro era um papel de “me chute” que colavam nas costas dela. Se bem que aos dez anos, quando você chegou e era popular e ficou amiga dela, a situação amainou por causa do seu status. Mas nos colocaram em turmas diferentes, e me dá pavor ao pensar no que acontecia com ela sozinha lá.

Rimeko soluçava.

— O que passou, passou, Rimeko-san.

— Não acredito que não soube do maior sofrimento da minha melhor amiga.

***

Kyoko estava ao telefone, alegre e sorridente, falando com uma voz melodiosa.

— Então eu mereço uma nota mais alta. Aaaahn... Como você consegue ser imparcial? Vou puxar seu cabelo com mais força. – ela riu.

A campainha tocou.

— Sensei, a gente se fala depois. Alguém chegou. Não, haha, nem se for o Hiro. Tchau, minha Torta Chiffon.

Era Rimeko. Um tanto surpreendente, já que era sempre o contrário, Kyoko na casa da outra. Mais surpreendente ainda era Rimeko estar se atirando em seus braços aos prantos.

— O que—o que é isso, Rimeko-chan?

— Eu fui à casa do Hiro. Sei do que se trata o pesadelo.

Kyoko ficou muda.

— Posso entrar?

Kyoko anuiu e Rimeko tirou os sapatos.

— Por que nunca me contou, Kyoko?! Por que nunca me pediu ajuda?

— Eu não sei! – Kyoko gritou, um grito que saiu de seu coração. – Tampouco sei porque deixava que fizessem aquilo comigo! Nunca entendi porque quis ser minha amiga, a amiga da perdedora, a amiga da Esquisita! – Kyoko berrava aos prantos.

— Kyoko, minha Kyoko... – Rimeko tinha lágrimas nos olhos.

As duas correram para o abraço uma da outra, chorando, soluçando.

— Se você tivesse sido honesta, ao menos poderia ter tido uma rede de apoio, Kyoko-chan. Chega de segredos, certo?

Kyoko ficou apavorada. Como faria essa promessa? De tudo o que Rimeko poderia pedir, tinha que ser isso?

Bem...

— Chega de segredos. – mentiu Kyoko.