Gibbs
4 Capítulo 04
Capítulo 04 –
Esses eram os piores para Kyoko: dias de chuva. Traziam com seus respingos toda a melancolia do passado. E para piorar, ela sentava bem ao lado de uma das janelas, não conseguindo prestar atenção na aula de Inglês.
Até que alguma coisa dura atingiu sua cabeça ruiva. Ela olhou para o chão e viu uma borracha.
Quem fora?
Mas o culpado não fazia questão de se esconder. Era o garoto de cabelos longos e castanhos, um dos que ela roubara a marmita.
Ele a olhou como um predador encara a presa. Kyoko ficou paralisada por alguns instantes.
Mas não, não era mais aquele tempo. Kyoko pegou a borracha do chão e atirou na testa dele. Tentou não gargalhar. Não teria dado tão certo nem se ela tivesse mirado! E o garoto agora estava com um terceiro olho. Era hilário!
Será que ninguém estava vendo aquilo?
Ele literalmente tremia de raiva. Ou ódio. Kyoko lhe sorriu e fez joinha.
Kyoko não sabia, mas o garoto jurou acabar com ela...
***
“Aquela maldita!”, pensava Sashikko Yamigumi sobre a ruiva. “Vou dar o troco! Mas ela nunca está sozinha!”
Então, ele teve uma ideia brilhante.
Antes da aula de Química, foi abordá-la.
— Aikawa. – pigarreou – Aikawa-san?
— O que você quer?
Era aquela garota intrometida, de cabelos de cor exótica e absurdamente alta.
— Pode deixar, Rimeko-chan. Do que precisa? Uma borracha?
Rimeko ficou sem entender, mas Sashikko rangeu os dentes. E sorriu, educado.
— Você é engraçada. Lembra que disse que cozinhava? Preciso de marmitas para todos os meus amigos.
— Bem, metade do pagamento é adiantada.
Sashikko já contava com essa e reuniu economias até de seus amigos.
— Que tipo de marmita quer? Tenho um cardá—
— Confio em você, já que teve o bom gosto de roubar as que eu faço. – ele deu uma piscadela.
— Você?! Faz marmitas?
— Por que é tão chocante assim? Sei que tenho cara de marginal, mas sei me virar.
Rimeko franziu o nariz.
— Deveria lavar a cueca. Dá pra sentir daqui.
— Muito agradável, sua amiga. Bem, é minha deixa. Como faço para buscar?
— Deixo na sua casa.
Sashikko saiu satisfeito, mas se sentindo um pouco culpado. Percebeu que afinal, Aikawa não era má pessoa. Eles provocaram primeiro.
***
Kyoko estava se arrumando para entregar a encomenda e Asato estava no ar-condicionado de calcinha por causa do calor extremo.
— Não tem medo que o peguem assim? O Hiro vem aqui toda hora!
— O Hiro já me viu assim. Ele gritou, o insensível! Diante de uma beldade como euzinha!
Kyoko sorriu e balançou a cabeça negativamente. Checou-se no espelho. Estava usando um vestido verde, presilhas em formato de coração, cabelos soltos. Tudo muito discreto.
— Se ligarem, diga que já volto!
Asato arregalou os olhos.
— Vai sozinha praquele antro?
— Você nem sabe onde é!
— Tchau Asato, divirta-se!
Ele olhou para o endereço colado na geladeira. Sabia, sim.
***
E na mesma hora em que Kyoko chegou de bicicleta, tudo aconteceu tão rápido! Ela só tivera um vislumbre do loiro alto que andava com Yamigumi e ele lhe tapou a boca e arrastou para trás de um beco.
Muito conveniente, aquele beco bem ali, onde o restaurante jogava detritos.
Ela lutou e esperneou e levou um tapa.
Estavam todos lá. Os cinco.
Um moreno puxou-lhe a franja para encará-la. Os olhos de Kyoko lacrimejaram.
— Desculpe, Kyoko... – disse Sashikko. — Ele parecia ter levado uma surra.
— Seu... covarde...
— Eu não tive escolha! Eles me matariam! E a você também.
Quando um deles foi enfiar a mão por baixo da saia dela, Kyoko chutou tão alto que nem sabia que podia alcançar.
“Só o Sensei pode me tocar assim!”, sua mente gritava.
Um de cabelo marrom segurava Sashikko, e ele lutava.
Kyoko estava desesperada e o mais estúpido era que só pensava em Midokawa. Será que ele ficaria com nojo dela agora? Será que se continuasse gritando o nome dele em sua mente ele apareceria do nada como um Príncipe para resgatá-la?
“Eu quero meu Príncipe Encantado aqui.”, Kyoko chorou, quando o loiro lambeu-lhe o pescoço.
De repente, todos ouviram um forte ruído de uma moto.
Kyoko deu uma cotovelada no estômago do loiro que a tocava de forma imprópria e gritou:
— Hiro!
Hiro, Rimeko e Shuichi Minamino brigavam perto da Feirinha com os marginais. Sashikko se juntou, inclusive Kyoko. Dois dos garotos altos foram nocauteados e os outros três saíram correndo.
— Como vocês souberam? – Kyoko estava a ponto de desmaiar.
— Asato – respondeu Rimeko. – Ele nos ligou achando que você estava demorando demais. Venha, entre na limo.
Kyoko hesitou.
— Eu... Eu preciso ficar sozinha. Posso chamar um táxi?
Seus amigos a olharam complacentes e anuíram, desconfiados.
***
— Kyoko?
Midokawa ouvia suspiros, barulhos de choro do outro lado do celular.
— Kyoko?! O que houve?
— Eu... Aconteceu algo. Você está ocupado agora?
— Nunca, pra você! Quer que eu vá busca-la?
— Não, só me diga onde mora...
***
Nekoi abriu a porta e ao ver o estado de Kyoko, ficou pasmo. Já sabia o que acontecera.
— Fique à vontade, Kyoko. Eu... eu não sei bem...
Ela deu um risinho.
— Nada aconteceu. Eu pensei em você o tempo todo.
Ele a abraçou e ela se sentiu plena.
A casa de Nekoi era espaçosa e ao que parecia ele gostava de colecionar. Tinha uma estante repleta de Funkos. E os papéis de parede todos tinham a ver com Quadrinhos.
Adorei sua casa. Eu sou mais Otaku, fujoshi, mas o Coringa é o máximo.
Midokawa a olhava com ternura por cima dos seus óculos redondos.
— Não devia pronunciar palavras como “fujoshi” publicamente, Kyoko-chan.
Kyoko abriu um sorriso enorme.
— Você me chamou de “Kyoko-chan”!
Ele a beijou com carinho e ela aprofundou o beijo. Midokawa a pegou no colo e Kyoko se encontrava num ambiente onde havia vários Action Figures, Comic Books...
E uma cama.
— Bem, eu não quero força-la a nada nem deixa-la traumatizada—
Kyoko praticamente se atirou sobre ele. Nunca estivera tão feliz.
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