Ghosts Also Love
3 Dando uma de Sherlock Holmes
Agora de noite, a casa ganhava um novo tom assombrado. As flores tinham um aspecto esbranquiçado com a luz da lua, e a casa... estava escura, inabitada...
Mas...
Tomei um susto, joguei o corpo para trás como se me impedisse de ver aquela cena. A bicicleta atrapalhou as minhas pernas, que se enroscaram com todo o fervor da surpresa. Tropecei. Bati contra a bicicleta. Tombei no chão molhado da grama. E ganhei novos arranhões no braço e um lindo galo na cabeça.
Levantei e esfreguei os olhos com força, querendo acreditar que eu estava ficando louco.
Quem dera.
Na terceira janela, do lado esquerdo da mansão, bem no segundo andar. — justo o local onde vimos aquela misteriosa garota. — a luz amarelada do quarto, piscava como se lutasse para brilhar, embora estivesse gasta. E lá, bem na frente da janela quebrada, uma linda garota me olhava.
Eu me aproximei mais, estava agora mais ciente de que eu tinha que me arriscar... Porque eu não estava de frente com ela, se eu visse a porta da frente abrindo, talvez eu devesse correr, mas lá... Tão distante, por que ter medo? Seria uma boa hora para saber quem ela era?
Parado a mais ou menos dois metros da casa, olhei para cima, e a menina ainda me olhava. Desta vez, me preocupei em analisar seu físico.
Olhos cor de âmbar, arregalados e sem brilhos, quase mortos. Cabelos opacos e desgrenhados, os laços quase caiam, tentando se manter firme em sua cabeça.
Enquanto eu observava, ela foi se afastando lentamente, suspeita de algo. Meu corpo congelou, o que ela iria fazer? Mas eu simplesmente não pude me mexer, eu queria que ela abrisse a porta e se deparasse comigo, eu queria saber sua, não sei como, história de terror.
Meu pedido foi ouvido. E enquanto sentia meu estômago fervilhar de adrenalina, a porta se abriu com um rangido forte, mas rápido, e bem a sua frente, com os mesmos olhos arregalados e ansiosos, se via a garota da foto, a garota do quarto, Alison Montgomery em seus perfeitos 15 anos.
-Ah, é... bem... Eu não sei como atender as pessoas... — Pensou, mais consigo mesma do que comigo. — Ahn... Faz tanto tempo que isso não acontece! Ok! Olá, pode entrar! Quer dizer... Eu sei que eu morri, mas...
-Hei, espera! Mas... você não vai me assustar nem fazer "buu" — Falei, imitando um monstro e gritando como um retardado. Ela riu, e seu riso tilintou de forma graciosa. — Acho que estou ficando louco... — Murmurei, me virando. Talvez eu devesse realmente esquecer aquela história como meus outros amigos fizeram.
-Não! Eu... Por favor, fique! — E sua voz pareceu embargada, parecendo conter lágrimas. — Você é o único louco que retornou depois de ver assombrações aqui!
Meus pés pararam, não me virei, só comecei a pensar comigo mesmo.
Ela não parece uma má pessoa, ou uma má fantasma... Mas e se estiver blefando? Quer dizer... Ela pode ser uma fantasma querendo comer almas ou Alison não tenha morrido... Mas espere... Ela aparenta ter 15 anos! Se ela estivesse viva, teria no mínimo 23!
Suspirei. Quer dizer, eu estava no meio da noite, sozinho, dando ás costas a um fantasma desesperado. O que mais poderia acontecer?
-Ahn... Ok... — Murmurei, chateado. O que mais aconteceria para eu me tocar que deveria ter fumado algo que não vi. Completamente louco!
-Isso! — Gritou Pulando animada. Depois pareceu envergonhada, e se encolheu, preocupada com as unhas de repente. — Quer entrar? Bem... Não repare na bagunça! Ninguém limpa isso a alguns anos! — Disse, rindo da sua própria piada. Eu não conseguia rir, estava com medo demais.
Nós entramos na sala principal, que ainda me dava arrepios, mas aparentemente não tinha nada de diferente do dia anterior. O mural de fotos com suas teias de aranha, o sofá corroído por traças e a lareira. Ah meu deus! A lareira crepitava aconchegantemente e seu fogo aquecia todo o lugar. Mas... na véspera estava desligada, e a casa toda estava gelada.
Alison apareceu do meu lado tão despercebida, que pulei para trás assustado. Seus olhos agora pareciam animados e ela mantinha um sorriso firme no rosto.
-Você vai me ajudar? — Perguntou, caminhando uns passos á frente com os pés descalços, impedindo-me de continuar a andar.
-Mas... Você precisa de ajuda para o que? — Perguntei. Ela girou graciosamente e seu vestido rosa estufou como um botão de flor, o laço preto no pescoço ricocheteou em seus cabelos.
Ela foi até o mural de fotos e tirou a carta anexada, a que eu tivera tanta vontade de ver.
-Hm... Vamos ver... — Murmurou. Pigarreou e ajeitou a postura, como se fosse recitar uma ordem extremamente séria:
Bem vinda ao meu pequeno jogo de Halloween, Alison.
Que coisa assustadora, não é? Morrer bem no dia das bruxas! Numa passada pela madrugada... Vou lhe avisando: Não sou seu assassino, sou algo bem mais assustador do que qualquer coisa, com certeza. Todo ano nós escolhemos alguém que morreu exatamente no Halloween para enfrentar nosso enigma! Parabéns, você foi sorteada! Há uma razão para que seus pais e nem os outros funcionários da casa estejam ai, com você. E é exatamente isso: Os outros foram mandados, sem nem passar por um julgamento, para o inferno. Sim! Todos eram pessoas horríveis, não mereciam nem uma chance de se provarem dignos de uma via pós morte pacífica! Mas você, minha cara, fora a mais pura da casa inteira, e merece ter uma chance no céu.
Há uma coisa que terá de fazer para se libertar dessa sua pequena prisão! E o enigma é justamente isso: Descobrir qual é essa coisa!
Espero que tenha sorte e ajuda nesta sua busca!
Atenciosamente,
Morte.
-Hm... Mas nunca soube qual era o motivo porque, bem... Não sou de pensar muito nessas coisas, e eu até gosto de viver aqui! Minhas flores crescem a cada dia! Estão tão bonitas! — Falou ela, com a voz meiga que nos assustara no dia seguinte.
Peguei a carta de sua mão, muito apavorado para pedir "por favor". Reli cada linha cuidadosamente, e minha mente pulsou na palavra morte. Alison continuava me olhando, as mãos cruzadas atrás, cheia de expectativa.
-Wow! Quer dizer... Morte, Morte mesmo? — Perguntei, com a expressão de alguém que acabara de ser eletrocutado.
-Ah! Eu acho que sim, não é? Eu estou aqui, sou uma alma penada ou sei lá mais o que... Por que não pode existir uma Morte, certo? — Respondeu, despreocupadamente.
-Sim... — Então parei, pensativo. — E... O que você precisa para sair daqui? Tem alguma idéia? — Perguntei, me lembrando dos meus pensamentos á noite, em minha casa.
-Ah, eu pensei em uma bem lógica! Que vi em vários filmes... — Alison ponderou bem o que ia dizer. — Que eu precise descobrir algo sobre aquela noite... Só não sei o que!
Ah, que coisa mais louca! Lá estava eu, ajudando uma pessoa morta a sair da Terra! Repensei em sair correndo da mansão e esquecer tudo que havia feito aquele dia, mas era impossível! O mistério me chamava para desvendar aquela assombração!
-Talvez precise descobrir... Quem a assassinou. — E antes que ela hesitasse, disse: — Ninguém nunca soube, Os jornais dizem que fora um crime muito bem pensado.
Alison finalmente pareceu angustiada, quase que triste. Era tão sorridente para alguém que nunca teve uma vida completa.
-Ah... Provavelmente. — Concordou, retomando sua postura de felicidade.
Comecei a olhar pela casa, a procura de pistas, de algo que se relacionasse ao dia.
-Ok, o que você lembra daquela noite? — Perguntei a ela, tentando pensar como um detetive ou coisa parecida.
Ali fitou as janelas da sala, vagando o olhar pelas colinas do outro lado da estrada.
-fora na madrugada de 30 de outubro. Eu estava dormindo... Minha mãe terminava de escrever o artigo para o jornal na biblioteca, e meu pai, se não me engano, estava no seu escritório, analisando um caso... Ele era advogado. Bem, era ai que eles se encontravam quando fui dormir e quando... — E então ela preferiu sorrir ao invés de pronunciar aquelas palavras.
-E os empregados? Eles também morreram, não é? — Continuei com a investigação.
-Ah sim... Todos que estavam na casa.
-E quantos empregados tinham na casa?
-Deixe-me ver. — E fez uma pequena conta nos dedos. — Tinham dois cozinheiros, Klaus e Riviérre, duas empregadas, Cecília e Irenna, um mordomo, Remo... Ah sim! E o jardineiro, meu amigo... Pierre Russeau... Eu regava as flores com ele e nós ficávamos conversando... — Seu rosto se contorceu um pouco, como se lágrimas silenciosas e invisíveis estivessem escorrendo por ele.
-Ahn, entendo. — Disse, sem graça.
Olhei para o meu relógio de pulso que indicava, assustadoramente, 03:30 da madrugada.
-Me desculpe! Tenho que ir antes que sintam a minha falta. — Avisei-a.
-Tudo bem... Mas... — E sua expressão ficou séria. — Me prometa algo?
-O que?
-Que vai voltar amanhã para podermos continuar. — E sua mão tocou a minha, como se pedisse para ficar.
Eu já tinha feito tantas loucuras... Que mal faria continuar com só uma?
-Prometo. — E dei um meio sorriso, um tanto apavorado.
-Boa viagem, então! — Desejou-me, aos pés da porta, com seu sorriso forçado e estridente.
Acenei enquanto ia até a minha bicicleta rosa, e pedalava pela escuridão á fora, que já não me amedrontava tanto... Porque o perigo já se fora.
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