Geração dos Milagres
2 Guilherme
Estava na terceira carteira da ultima fileira, não havia um motivo específico para a escolha, apenas parecia ser eficiente para não chamar atenção. Infelizmente alguém parecia se aproximar, no entanto era uma garota. Não que fizesse tanta diferença, afinal tenho um histórico nada romântico sobre alguns anos atrás, quando ainda me importava em tentar criar laços. Ela se sentou atrás de mim, mas minha atenção se voltou para frente, quando alguém estranho chamou pelo meu nome.
— Ei Harry, pelo visto passou também hein, sabia que conseguiria, sempre foi inteligente. — disse se aproximando, mas embora suas palavras fossem gentis, sua expressão passava uma imagem de desânimo, o que teria feito com que me recordasse dele.
Não havia mencionado, mas aos padrões da sociedade, parece que sou acima da média assim como Mayu, pois ambos passamos em um teste para entrar na escola onde estudamos, onde aparentemente a demanda é baixa. Deixando isso de lado, seu nome era Guilherme, percebi pela sua expressão sem vida. Éramos amigos na terceira série, ele sempre foi um bom aluno, não seria surpresa encontrá-lo ali.
— Ah sim, quanto tempo cara. — tentei expressar felicidade, mas não seria 100% mentira, minha vida se resumia a minha irmãzinha e meu quarto, então encontrar alguém que se sente bem (mesmo com uma expressão assustadora) conversando comigo, de alguma forma me deixava feliz.
— Vamos recomeçar nossa amizade, pode ser? Seria um problema ter que começar novas amizades logo no ensino médio, pelo menos para pessoas como nós. Mas enfim, em que posição você passou, pra entrar aqui? Fiquei em quinto.
Fiquei impressionado. Mesmo que minhas memórias sobre ele sejam de alguém inteligente, conseguir tal posição era realmente impressionante, sua pontuação deveria ser incrível. Eram apenas cento e vinte vagas, onde a maioria sequer chegava a acertar metade da avaliação.
— Entrei em décimo primeiro, não me dou muito bem com provas desse tipo. — tentei parecer convencido de que poderia ter feito melhor. Mas o que estava fazendo? Eu normalmente não ligo para quem fez mais pontos ou algo do gênero, acabei fazendo um comentário competitivo sem perceber.
— A aula já vai começar, vou sentar na sua frente se não se importa. — prosseguiu colocando sua mochila encostada na parede. Era alguém de poucas palavras, então pra conversa ter se estendido até aqui, ele deve me considerar muito (iludido).
Havíamos esquecido da garota, porém nenhum de nós teria coragem de tomar uma atitude, aliás essa palavra é o medo de qualquer anti-social, "atitude", apenas a pronuncia já me desmoralizava completamente. Um garoto sentou-se na frente do Gui (espera, por que já apelidei ele?), e como eu era o terceiro da fileira, esse garoto acabou sendo o primeiro, o que pra mim seria péssimo, aumentariam as chances de que em alguma dinâmica eu fosse o primeiro a participar. As primeiras 2 aulas foram normais, com as devidas apresentações, ao menos esse ano não foi preciso levantar e se dirigir à frente de todos. Na terceira aula, como sendo aula de Artes, a professora entrou como se fosse uma rainha. Aquilo me deixou constrangido, e sequer entendi o motivo, mas de qualquer forma, ela passava um ar ameaçador. Foi a primeira a não exigir apresentações, mas inesperadamente explicou a primeira matéria do ano, e como se estivesse se segurando pra isso a vida toda, pediu a todos que formassem trios para uma "pequena atividade em grupo", isso era o que dizia ela.
Particularmente não gosto de trabalhar em grupo, e depender de outras pessoas pra atingir uma nota aceitável. Nesse momento pensei em Mayu, e em como ela estava se saindo em seu primeiro dia, e se também foi pressionada a encontrar colegas dispostos a fazer um trabalho em equipe. Bom não era como se ela fosse um caso perdido como eu, pelo contrário, Mayu sempre fez sucesso pelas escolas que frequentamos. Enfim, não havia escolha, a não ser aceitar as condições de quem ordena.
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