Geração dos Milagres
3 Relações Sociais
Parece que havia encontrado um amigo afinal, pensei em convidá-lo, mas por algum motivo, não consegui simplesmente chamar um amigo. Por muitos anos, dedicava toda minha atenção apenas pra minha irmãzinha, ainda não conseguia prolongar uma conversa com outra pessoa. Fiquei na expectativa de que ele tomasse a iniciativa, mas parece que a mesma inconveniência se aplicava a ele. Lembrei-me da garota que se sentou atrás de mim, tentei parecer discreto e olhar pra ela de um modo a não perceber meu interesse, mas no mesmo instante, seu dedo seguiu em direção à minha bochecha.
— Ah, desculpa Harry. Eu ia chamá-lo mas você virou de repente. — ao final da frase, demonstrou um sorriso que me fez sentir algo diferente, mas não conseguia descrever o efeito que aquela garota transmitiu com seu rostinho.... de certa forma era tão... fofa.
— Ah sim, eu estava mesmo procurando alguém pra formar o trio. — tentei esconder o sentimento de carinho que havia sentido por ela.
— Não, não, é que a sua borracha caiu no chão, não se engane, até em escolas assim as pessoas insistem em sumir com os pertences dos outros. — mais uma vez disse com um leve sorriso em seu rosto.
— Ah sim, obrigado então mocinha. — dei a ideia de que não me importava com o fato dela não se interessar à se juntar comigo. Mas... ei, como alguém consegue se iludir tão facilmente? Isso me lembra o por que de ainda não ter tido sequer um relacionamento amoroso com uma garota durante tantos anos, se isso era pra ser o começo de um romance, está muito errado. Acabou se juntando à suas colegas. Sinceramente tenho que excluir a ideia de que as pessoas são como eu, e passam por dificuldades semelhantes, até por que o mundo não iria progredir com pessoas que não se comprometem a manter relações sociais.
Praticamente toda a sala já estava organizada para a atividade, é incrível ter que acreditar que era tão simples como parecia. Guilherme fez um movimento dando a entender que finalmente viria me chamar, mas apenas pegou seu lápis que havia caído no chão. Atitudes assim destroem os sentimentos de alguém solitário, ou será que fez isso para que eu perceba sua presença? Não queria ser o último a estar preparado, aproveitando minha coragem momentânea, chamei-o por impulso. Acredito que sem essa iniciativa, esse impasse iria se estender até a professora tomar providencias, o que não seria nada bom. Ele acabou convidando o garoto sentado á sua frente, parecia estar admirado com meu nível social (qualquer pessoa faria em 2 segundos).
— Qual seu nome? — perguntei por educação, pode não parecer, mas entendo minhas obrigações sociais.
— Daniel Yudi, prazer Harry. — disse após um aperto de mãos. Não estava entendendo, como todos sabiam o meu nome? Parecia exatamente com a série Harry Potter, onde qualquer pessoa já o conhecia antes mesmo de vê-lo. Além disso, foi dessa série que meus pais me deram o nome. Devido a isso, sem perceber expressei uma pequena risada, que parecia ter soado ofensivo ao Daniel. Me pergunto se era a respeito do sobrenome "Yudi", pelo apresentador de um programa infantil da TV. Ele pode ter entendido dessa forma, se fosse assim, seu apelido provavelmente seria "Playstation". Nesse momento olhei pro meu amigo (acho que poderia considerá-lo assim) e imaginei que tenha pensado a mesma coisa, o que só aprofundou ainda mais o mal-entendido.
Após isso, depois de algumas conversas irrelevantes, realizamos o trabalho dividindo-o em três partes: Desenho, História e Pintura, tendo como responsáveis respectivamente Harry, Guilherme e Daniel. Mesmo que a professora não aparente ser amigável, Artes não parecia ser uma matéria problemática, pelo menos não para nossa equipe. Estou acostumado a fazer tudo sozinho, por receio de que os outros integrantes não cumpram com sua parte, mas pela primeira vez, não considerei como uma das piores experiencias. O dia seguiu normalmente nas aulas seguintes, infelizmente o intervalo de Mayu não correspondia com o horário do meu. Guilherme agradeceu a parceria juntamente com Daniel e ambos se retiraram da sala juntos. Provavelmente devem ter se conhecido melhor, e até façam o mesmo caminho pra casa, por um momento senti um pouco de inveja. Sempre fui lerdo em relação a guardar os materiais, parecia que nesse ponto, eu me tornava perfeccionista, arrumando perfeitamente tudo em minha bolsa. Antes de sair da sala, olhei discretamente pra carteira atrás da minha, porém a garota era mais rápida (difícil é achar alguém que não me supere). Não sei ao certo por que me preocupei em olhar.... mas tentei não pensar muito nisso e me retirei, aliviado por sobreviver ao primeiro dia.
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