Notas iniciais
Espero que gostem.

As persianas balançavam ao vento, o sol da manha gélida já raiava na Grande São Paulo. Já ouvia-se os barulhos do trafego matinal sempre carregado, os ônibus que passavam, as motos, os caminhões. Ali naquele apartamento no centro antigo da cidade não se ouvia os pássaros cantando, nem pessoas cantando, apenas o barulho urbano de pessoas sempre atrasadas. Era 6:50 quando Mathias despertou de seu sono breve de apenas 3 horas, desnorteado não sabia bem se levantava ou continuava a dormir, mas a responsabilidade de compromissos já o despertara a mente, mas não o corpo. Relutante levantou, o corpo de um homem 30 anos já travado. Esticou o máximo possível suas costas, coçou a barba, tirou a camiseta suada e já fria. Pela sua janela avistou o caos da metrópole. Era assim todos os dias, para Mathias seria assim para sempre. O vento que entrava por sua janela era gélido e cortante, marcava treze graus em seu relógio de mesa. Apesar do vento importuno conseguiu acender seu Marlboro vermelho e puxou um longo e prazeroso trago, o primeiro do dia e sempre o melhor. 7:20 e a maquina de café apitou, uma grande jarra de café fumegante o esperava, somente assim para despertar algo em seu corpo. Tomou duas xicaras grande de café sem açúcar e se aventurou a tomar um banho frio, no fim não conseguiu lavar a cabeça e seus cabelos ondulados, espessos e escuros estavam um tanto oleosos e cheirando a cigarro, não que ele se importasse com o estado deplorável de seu cabelo. Vestiu a roupa social que pelo menos lhe caia bem, porem ainda não parecia se encaixar com aquilo. Quem o visse diria que era melhor ele trocar a camisa e as calcas por uma camiseta e calcas jeans, sim ele queria também porem como gestor tinha um trabalho a cumprir e pessoas para comandar e um chefe esperando determinados resultados geridos de longas e exaustivas reuniões todas as sextas como essa que ele logo se encaminharia. 7:50 e finalmente conseguiu descer o elevador cheio de vizinhos desconhecidos e embarcar em seu carro financiado em parcelas eternas. O transito o esperava e o resto de um maço também, nove cigarros depois chegara ao prédio onde trabalhava todos os dias. Cumprimentou com a frieza cotidiana todos que o brevemente conheciam, apesar de gestor Mathias não era um bom comunicador apenas quando estritamente necessário, e nessas horas o pânico o abatia mesmo assim fingia a si mesmo que era besteira, afinal sem aquele emprego ele passaria fome, seu apartamento e carro seriam tomados pelo banco e ele viraria mais um mendigo nas ruas. A reunião correra bem, algumas indiretas de outros gestores sobre como “a comunicação poderia se tornar uma arma eficiente se usada de maneira correta” ainda o afligia e o fazia pensar muito. Sua enxaqueca chegava sem pré anúncios e sabia que ainda faltavam muitas horas para voltar para casa. Só queria um banho frio, remédios, comida fresca e sua cama acolhedora. Almoçou um miserável lanche natural com verduras cozidas e desfiadas que não tapeou sequer a sua fome, estava impaciente e quando não estava com um cigarro na boca se tremia por inteiro de impaciência, raiva e dor. Desde quando a vida adulta seria assim, tão enfadonha? Quando era 16:00 horas Matias saiu do prédio empresarial, apressou se para evitar o congestionamento no estacionamento do prédio mas sabia que o trânsito lhe esperava na primeira travessa e no primeiro farol. Quando realmente diminuiu a velocidade quase parando, acendeu um cigarro e desligou o som. Até as coisas mais prazerosas se tornavam irritantes nas horas erradas. O seu celular vibrava no console do carro, o visor mostrava um nome que a muito não via, nem sabia que o tinha na sua agenda até então. Pegou o telefone e refletiu se atenderia “Paulo” dizia o identificador, mas era mesmo ele? Sua boca estava contraída e seus olhos semicerrados, como se forçasse a lembrança de uma memória a muito reprimida. De repente sentiu o cheiro de grama cortada no ar e se viu mais uma vez sendo puxado pelas arestas do passado.

O sol brilhava fortemente no alto do céu, a temperatura estava beirando os 37 graus, nada que fizesse o fazia sentir se refrescado. Estava irritadiço, com as mãos tremendo pela falta de cafeína e nicotina constantes. Apesar dos tenros 24 anos era o mesmo Matias de 30, nada de diferente a não ser a marca de cigarro barata e fraca e o corte de cabelo exageradamente longo, bagunçado e principalmente seu rosto encovado. Ali já estava começando a sua decadência de vida devagar e alma vazia. O calor dentro de casa já era insuportável resolveu sair para se encarapitar em baixo de uma sombra qualquer. Quando saio de sua casa e atravessou a rua, parou num terreno que estava para vender há anos, ali as crianças vizinhas usufruam de um parquinho precário que ele mesmo e mais um amigo haviam construído há muitos anos. Agora só restava um balanço de madeira cheio de musgos e com as cordas azuis muito emendadas. E o resto do que um dia fora uma casa da árvore esplendidamente bonita e avançada em conceito de construção para dois garotos de 13 anos. Somente a base ainda permanecia, completamente desgastada. A escada e todo o resto sumira. O cheiro daquele lugar era mágico, pois apesar de morar em frente ao seu quartel de brincadeiras, as lembranças vividas eram substituídas por outras e outras. Aquele cheiro proeminente só se sentia poucos dias no verão. Grama recém cortada, flores silvestres e pinhas que caiam das árvores. Aquele conjunto lhe trazia grande inspiração e memórias de uma infância e adolescência incógnitas. Era como se lembrar de outra vida, não parecia que ele havia vivido tudo aquilo. Era como ter contato com as memórias de outra pessoa. Mas não podia se enganar eram suas próprias memórias obviamente.

Ali parado balançando devagar com certo receio do balanço ou do tronco se quebrar com seu peso adulto, estava Matias vislumbrando o espaço – tempo que o universo lhe permitia. Olhou para o lado leste do terreno e observou a casa laranja, em tom berrante de uma cenoura madura. Os portões de ferro branco, uma pequena ladeira que acessava a garagem, um portãozinho simpático e uma escada ladeada de flores silvestres e pequenos arbustos conduziam a uma enorme porta de madeira trabalhada em detalhes talhados a mão. Aquela casa que ele conhecia tão bem agora era apenas um vislumbre por entre as árvores. Surpreso notou um movimento, o ranger do portãozinho cessou suas dúvidas. Ali tendo dificuldade em fechar o portão e trancar com a chave, estava Paulo segurando embrulhos entre o queixo. Quando finalmente conseguiu fechar o portão percebeu os olhos observadores de Matias. Para a sua surpresa Paulo não só acenou mas arrumando as caixas embrulhadas em papel berrante e colorido nas mãos, veio cautelosamente ao seu encontro como se ele mesmo estivesse pensando no porque estava fazendo aquilo. Matias percebeu que ele não mais subia por a uma escadinha escavada a mão na terra por eles mesmos, estavam tão altos que apenas uma pernada os levantavam os sessenta centímetros a cima. Matias não pode controlar um sorriso aberto, sua mente parou de divagar e ele só conseguia observar os passos calculados se Paulo em sua direção. Quando o torturante caminho acabou, Paulo se equilibrou num balanço ao lado, mas não se balançou, permaneceu imóvel com os pés pressionando a terra provavelmente com medo de que o galho cedesse agora com o peso dos dois.

— é bom te ver aqui de novo, como nos velhos tempos. – Paulo finalmente disse num tom melancólico, não parecia excitado, nervoso, feliz apenas indecifravelmente melancólico. O sorriso de Matias murchou.

— é sim... velhos hábitos nunca mudam – disse num muxoxo mais sem graça ainda que Paulo. Este pareceu surpreso e fitou os olhos oliva de Matias que logo desviou.

— você se lembra quando fazíamos fogueiras aqui? Colhíamos palha e pinha e alguns gravetos colocávamos fogo e ficávamos nos aquecendo e assando doninhas até bem tarde quando caímos no sono em cima de blocos de concreto. – Paulo disse num tom nostálgico que Matias também pode sentir, balançou um pouco e as cordas e o galho rangeram. Ele se lembrava de tudo.

— como eu posso esquecer? Fui picado por aranhas umas milhões de vezes enquanto catava palha. Sem falar nas inúmeras intoxicações por comer cogumelos de gás assados. – acrescentou Matias rindo, Paulo riu também. Há tanto tempo que os dois não riam, há tempos não se viam ou se quer se falavam. O calor escaldante suava seus corpos imóveis desconfortavelmente, até que Paulo apontou para as caixas já molhadas com seu próprio suor com certa vergonha.

— Eu tenho que levar isso para a casa de doações. Bem foi legal te ver... É de novo... a gente se vê por aí? – ele disse se levantando nervoso e olhando para os lados como se quisesse fugir. Nunca houve tanto constrangimento entre os dois. Matias olhou para os olhos azuis lânguidos do homem à sua frente, depois para seu maxilar um pouco disforme e irregular que a barba ligeiramente grande e espessa ajudava a disfarçar.

— claro que sim. A gente se vê sim... aliás você está ótimo. – Paulo se surpreendeu e institivamente passou a mãos sobre o queixo e os dedos longos percorreram o maxilar agora anguloso.

— obrigado... certo, eu preciso ir. Até mais. – com um aceno amigável Paulo saiu segurando os embrulhos e se distanciando cada vez mais da vista de Matias. Ele só ficou se perguntando como ele conseguia caminhar em baixo daquele sol, naquela temperatura. E em como seus olhos pareciam tranquilos e não tão devastadores como antigamente, esse detalhe o deixou intimamente muito em paz.

O vibrar do celular em suas mãos e a buzinada que levou do carro de trás o despertou da furtiva viagem as lembranças passadas. Ele acelerou e atendeu a chamada, o coração a milhão.

— Oi? Matias? – A voz grossa soou meio entre cortada na chamada. Matias demorou um pouco para responder trocando a marcha.

— Sim, sim... Paulo? Que surpresa cara! – ele tentou parecer entusiasmado comedidamente.

— vou ser direto. Preciso da sua ajuda, me encontre na minha casa. O mais rápido que você poder – Matias sentiu suas mãos tremularem levemente, um início de pânico o tomou e um vazio no estômago foi finalmente sentido. A voz de Paulo era rígida, alta e com um resquício de desespero contido, como se escondido por estar muito constrangido e ruborizado.

— certo, sim... Eu vou para casa me trocar, eu estou preso no trânsito. Passo em casa e vou para aí, mas o que aconteceu? – Matias disse num tom rápido e breve, com medo que o interlocutor desligasse.

— venha com essas roupas, qualquer que esteja. Não posso comentar por aqui, só venha rápido. – Matias fitou o trânsito parado ao crepúsculo colorido da metrópole. Seu celular pendia na sua mão, “chamada desligada” dizia o visor. Matias deu seta e costurou nas faixas da marginal atoladas, entrou numa avenida ainda apinhada mas menos movimentada, um atalho que devia dar certo. Apesar do medo que o afligia pelo desconhecido e pelo desespero na voz de um amigo, não tão amigo agora, ele se sentia na obrigação de ir ajuda – lo. Enquanto o tráfego se descarregava devagar, o mais rápido possível Matias dirigia para uma cidadela interiorana no subúrbio de São Paulo. A velocidade não era sentida, apenas um resquício de vento que esfriava seu rosto pálido.

Notas finais
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