Entrou na velha estrada que cortava caminho, quando estava perto do antigo condomínio seu coração foi parando, junto com o barulho das sirenes das ambulâncias que iam ali entrando, sem parar para averiguação rotineira, pegou carona e entrou não sabendo o que esperar ao virar a primeira curva sinuosa a direita. Entrou na antiga rua sempre tranquila, até agora que as ambulâncias paravam no meio fio procurando a casa que o haviam chamado. Matias acelerou mais que o limite da rua residencial permitia e parou com um tranco na frente do portão branco de ferro, extremamente igual há tantos e tantos anos. Paulo estava na frente da porta com uma mochila e uma mala a cunha, seu rosto manchado de lágrimas e de manchas escurecidas, um tipo de fuligem estranha. Seu rosto não parecia o mesmo, estava disforme numa expressão ardida, desesperada. Ele ouviu as sirenes e se adiantou correndo descendo as escadas para o pequeno portão o abriu e correu para o carro, saltando com força no banco dianteiro e logo subindo o vidro escuro. Matias não sabia o que falar, apenas o observou por alguns segundos antes de Paulo girar a chave e num grito de desespero dizer:
— graças a Deus deu tempo, anda logo o que você está esperando? – Matias tremulou antes de dar partida, deu a volta na rua sem saída e desceu a grande avenida que cortava as ruas perpendiculares, sua mente a mil queria saber o que estava fazendo mas sua boca negava – se a perguntar algo.
— certo, vamos pela saída do clube. A portaria dali não exige mais os crachás, já que não existe mais entrada só saída. Ande logo, Matias. – a voz inquisidora de Paulo agora o atormentava e o deixava a flor dos nervos.
— Eu quero saber porque eu estou agindo como um piloto de fuga e porque diabos o tanto de ambulância na nossa antiga rua? – Matias conseguiu falar enquanto com o máximo de cuidado que a velocidade alta deixava, fazia as curvas sinuosas. O tempo parecia passar lentamente e já não se podia ouvir o barulho das sirenes e o lugar voltara a ser recanto de sobriedade e tranquilidade.
— Eu não sei... tudo aconteceu muito rápido e eu me desesperei! Liguei para a ambulância... olha eu não sabia o que fazer! Só sei que precisava sair dali e só você poderia e pode me ajudar. – Matias nada entendeu mas sabia que algo muito muito errado tinha acontecido. Tentou bloquear todas as coisas absurdas que sua mente disparava, não adiantava se ansiar por algo que poderia saber em segundos. Já alcançavam a portaria vazia onde passaram devagar e com sucesso. Ninguém os viram passar para a pequena rodovia que ligava pequenos bairros.
— O que aconteceu exatamente? Se explique logo Paulo. Que loucura é essa? – Matias continuava num ritmo rápido em direção a rodovia principal, onde rumaria para sua casa por um caminho diferente.
— Ele caiu. Eu não sei como eu fiz aquilo, ele perguntou sobre aquele ocorrido... eu... eu... Não sei, eu o empurrei e ele... ele caiu! – a mente dos dois homens vibravam. Matias brecou fortemente e jogou o carro para o acostamento e ligou o pisca alerta. Não conseguia raciocinar, escutar aquelas coisas e dirigir em fuga por algo que ele não tinha feito.
— explica isso direito antes que eu te largue aqui a mercê da sua própria sorte. – Matias vociferou socando com força o volante encourado. Paulo suspirou e as lacunas da sua memória revibrou a sua mente.
A manhã gélida no interior amanheceu mais gélida que de costume. A sua casa nunca teve calefação mas agora sentia que já estava na hora de instalar algo tão banal mas útil. Aquela casa grande rebarbava as memórias de infância e juventude, onde passava horas investigando cada cômodo que sua mãe trancava e cada pequeno quarto reservado para as antiguidades e antiquários que sua família excêntrica guardava para posteriores leilões de vizinhos e velhos conhecidos que sempre invejavam os objetos nas reuniões e jantares nas casas uns dos outros. Agora aquela casa era apenas um concreto frio, sobre um terreno macilento e grande onde se encontrava sozinho, solitário em meio a tantos objetos inanimados e somente ele vivo. Sentia falta dos seus pais ali, mesmo que proibindo seu total usufruo da casa, sentia falta da tranquilidade juvenil de apenas aproveitar o dia brincando ou jogando, deplorando ou explorando. Era somente ele, parado no tempo, tomando conta da sua única propriedade. Da única coisa que lhe restara para cuidar e para viver, não podia reclamar, não tinha propriedade para isso. Algumas lembranças ele guardava imaculadas em um pequeno sótão, onde nunca visitava. Após a morte de seus pais adotivos ele reuniu todos os seus pertences pessoais e guardou de forma precária naquele sótão. Os objetos de valor leiloou na vizinhança, como seus pais faziam com pertences de parentes falecidos. Nenhum testamento fora deixado, ele era o único filho, nenhum parente distante reclamou os relicários e a fortuna tão bem escondida, nem ele mesmo sabia que sua vida mansa provinha de pomposos fundos bancários. A morte prematura de seus pais apenas aprovava na mente de Paulo que ele não podia fazer nada para mudar seu destino e por isso mesmo vivia mansamente, lentamente, deixando que cada artifício e detalhe do seu destino fosse cumprido como deveria ser. Mas naquela manhã gélida não pode prever, não pode adivinhar que a guinada que a sua vida daria naquele momento, seria a sua queda livre. Naquela manhã gélida tão igual a tantas outras manhãs, algo de diferente aconteceu. Seu café parecia mais amargo, a casa mais fria, os cães mais silenciosos, tudo parecia um prenúncio de tempestade, tempestade cósmica que assolaria aquele lugar. Naquela manhã um homem de chapéu coco amarelo demais e paletó estampado de abacaxis tocava a campainha da casa cenoura madura. Quando Paulo assustado olhou pela fresta da cortina bege e grossa percebeu: ele tinha que dar um fim em tudo.
Se empertigou no sofá, o corpo tenso e ereto sua mente trabalhando a milhão e traçando um plano perfeito e rapidamente. Calçou seus chinelos, apertou o roupão de seda vermelha contra a cintura e se adiantou para a porta grande e pesada. Abriu-a e o sol invernal matinal o irritou os olhos, continuou seu caminho até as escadas e as desceu parando de frente ao portão onde o chapéu coco o esperava. Reparou na sua pança proeminente quase estourando os botões do paletó. Um sorriso amarelo estampou a cara rechonchuda do chapéu coco. Paulo abriu o portão e se encarapitou, os tornozelos cruzados e o peito cheio de desconfiança.
— em que posso ajuda – lo? – perguntou lânguido, encarando vorazmente os olhos âmbar do chapéu coco. Este deu um pequeno salto para frente entusiasmado e pensativo.
— meu garotão! Não se lembra do seu tio Valter? Eu costumava de trazer chocolates, sempre tão magrinho! Eu sempre dizia a minha irmã para te alimentar direito como fomos! – deu uma risada pavorosamente alta que fez Paulo olhar ao redor ainda ouvindo o eco do chapéu coco retumbar para seus ouvidos. O encaminhou para dentro da casa antes que algum vizinho zombeteiro os visse ou ouvisse.
— Ah sim... bem eu me lembro um pouco do senhor sim, mas o que o traz aqui? Não o vi no enterro? – mentiu descaradamente, não se lembrava de nenhum traço gordo daquele homem, nem dos seus chocolates. Chapéu coco deu uma risadinha constrangida com sua pergunta bem colocada e ele se sentou no sofá grande e imaculadamente branco.
— justamente isso garoto, não pude ir no enterro, sabe como é eu queria mesmo ter ido... ah, a minha irmã Dulce, coitada! Coitada! Tão trágico! – ele disse sobressalente, gesticulando rapidamente com as mãos eufórico. Paulo desconfiado observava cada olhar de esguelha do chapéu coco, tateando seus artifícios e sua memória ao mesmo tempo.
— lembro da minha mãe dizer que não nos visitava muito pois morava longe, o que veio fazer aqui tão fora da sua rota normal? Quero dizer, tem anos que eles morreram... Não está tarde demais para dizer os pêsames? – Paulo disse arriscando um tom enfático e delicado o máximo que ele podia. Se deliciou com a surpresa evidente do chapéu coco, que olhava para a esquerda sem parar, procurando um modo conivente e convincente de mentir.
— Estava de viagem, lembrei desse belíssima o lugar e num acesso inspirador quis passar aqui para ver meu sobrinho, aliás você está bem garoto! Muito bem, muito bem! – chapéu coco disse rapidamente, se embolando em algumas palavras. A situação já estava deixando Paulo nervoso, queria que aquela visita acabasse logo e já maquinava na sua mente como deveria terminar aquilo depressa e precisamente.
— quer dar uma olhada na casa comigo? Faz tanto tempo que o senhor não vem aqui, minha mãe gostaria de mostrar as coisas que mudamos, mas já que ela não pode fazer isso eu mesmo o acompanho! – Paulo disse num falso entusiasmo, chapéu coco se levantou com dificuldade mas claramente feliz por algo estar dando minimamente certo. Os dois caminharam lentamente pela casa, chapéu coco reparava na falta de objetos nas estantes, nós aparadores e mostradores de mármore bruto, apesar de não acrescentar nada sobre isso. A casa era grande e tinha cheiro de capim santo e naftalina que parecia irradiar de portas trancadas. A parte final do tour entediante se dava no grande quintal gramada e circundado por uma enorme e profunda piscina, eles ladearam o quintal, Paulo não conseguia conter o sorriso amarelo nos lábios, as mãos suavam discretamente. Chapéu coco olhava tudo com muito furor e surpresa. Observe a piscina com cuidado, era grande e larga. Os azulejos eram de um azul escuro quase preto, a borda quase transbordava e parecia mesmo sob a luz fraca do sol, funda. Um pequeno pânico o tomou, nunca gostará de piscinas. Se afastou caminhando devagar ao redor até chegar perto de um canil com aparência abandonada mas muito limpo. Dois grandes cães estavam deitados na parte coberta, dormindo tranquilamente.
— essa é a minha parte favorita da casa, a piscina. Gosto de ficar aqui com os cães nos dias quentes. – Paulo acrescentou finalmente se sentando em uma mesinha de madeira empoeirada levemente. – Eu não sei porque parece tão surpreso, aqui fora não mudou tanta coisa.
— Ah sim, não mesmo... É... eu só estou lembrando da minha irmã, sua mãe. Ela gostava mesmo daqui, me lembro de você pequenino, magro magro... Se recusava a comer qualquer coisa que sua mãe fizesse, só andava com aquele garoto... um de cabelo ensebado. Eu me lembro dele sim, você adorava ele. Sua mãe ficava muito irritada pois você só queria comer a comida da mãe do garoto. Que tempos, que tempos! – ele afirmou com um olhar pedido. Paulo se assustou com a veracidade daquilo. Como um impostor poderia saber daqueles detalhes? Sua mente lhe pregara uma peça, chapéu coco era mesmo seu tio. Um tio muito próximo que se mudou para longe e suas visitas rareavam conforme foi crescendo. Agora um pequeno chamuscado de memória lhe acometia: um homem volumoso de cabelos volumosos também, trazendo pilhas de comida para criança mas nenhum brinquedo.
— Sim... tio Valter? Porque não fica aqui hoje? Você é o primeiro parente que vem me visitar em todos esses anos, eu me sinto sozinho nesse lugar tão grande. Seria um prazer tê-lo aqui. – seus olhos emitiram um falso brilho, chapéu coco emitiu um prazer vibrante que Paulo reconheceu rapidamente, eles sorriram e se encaminharam para a grande cozinha. Paulo lhe ofereceu uma taça preenchida com um líquido amarelado e brilhante. Chapéu coco tomou um gole prazeroso e se sentou em uma das baquetas.
— Não irá se servir, garoto? – indagou tomando mais um gole longo, Paulo recusou com a cabeça e sentou também, seus dedos tilintavam no mármore claro, sua ansiedade a mil. Precisava agir e precisava fazer isso rápido.
— O que realmente veio fazer aqui? – disse num tom inquisitório, sua voz com um timbre completamente alterado. Valter soltou um grunhido, seu rosto tomou uma expressão constipação e ele se segurou nas bordas do mármore. Paulo não se conteve em abrir um sorriso irônico e expressamente divertido com a reação do tal tio Valter.
— O que? Como assim? Garoto... eu sei que toda essa reclusão pode ter feito você... Como posso dizer, depois da morte de seus pais você pode ter... ficado meio transtornado! É normal em nossa família, logo te digo. Nada que acompanhamento adequado não resolva. – chapéu coco tentou se equilibrar na banqueta muito pequena para suas grandes ancas que escapuliam para fora. Seu rosto muito vermelho e os olhos arregalados mostravam a surpresa que Paulo tanto queria, e agora o desespero de Valter era palpável. Os segundos se arrastaram como correntes do tempo e logo Valter grunhiu de novo, como um animal sendo abatido. Seus olhos reviraram nas pálpebras e ele tossiu uma pequena quantidade de sangue misturado com saliva. Paulo assistia a cena aflito e ao mesmo tempo vitorioso.
— O quê? O que você está fazendo? O que tinha aqui... – mais um soluço, mais uma tosse repentina e mais sangue espirrava em jatos empapando o mármore. Paulo deu batidinhas irônicas em suas costas largas, o semblante calmo mas irado.
— Não importa muito agora não é? Já que isso que você, displicentemente, bebeu não há chances de reversão. – mais gorfos de sangue e saliva voavam pela cozinha, deixando máculas onde caiam, Paulo só conseguia pensar na sujeira que teria de limpar depois. – Eu sei que veio aqui pelo dinheiro, seu velho imundo! Acha que não sei da conspiração que existe nessa família tão mercenária quanto foram meus queridos entes pais? Acha que não sei que veio aqui para me tomar tudo que tenho por direito?
— eu não... Você entendeu errado... Por favor, o livro! – chapéu coco murmurou entre as gorfadas violentas e enquanto seu corpo mole brandia pesadamente e ruidosamente no chão. Se debateu na frieza do chão e rapidamente seus olhos vibraram e estacaram fixos num ponto do teto. Seu corpo parou de debater. O ar se extinguira e apenas Paulo respirava. Quando percebeu que o velho mercenário jazia morto no chão manchado de grande quantidade de sangue o corpo de Paulo automaticamente começou a agir. Retirou vários produtos de limpeza de dentro do armário, separou vários panos, colocou as luvas de látex, a máscara de tecido. Limpou depressa e precisamente a banqueta e o mármore. Sua mente estava estarrecida, suas narinas apenas sentiam o cheiro metálico e forte de sangue que eram puramente insuportáveis misturados com cloro e outros desinfetantes. Com muita dificuldade conseguiu arrastar o corpo de Valter até o quintal, deixando rastros inoportunos de sangue. Com uma força sobre humana, jogou seu corpo pesado dentro da piscina que transbordou um pouco. Rapidamente o corpo desceu para o fundo e pouco depois boiou. As últimas palavras de Valter reverberam em sua mente “o livro” como ele sabia? Somente ele e Matias sabiam da existência daquele artefato. Deixando o resto do pensamento de lado ele limpou o resto, estava quase concluído. Ligou para a ambulância e em um falso desespero deu parte do suposto afogamento trágico.
O olhar de Matias era feroz e raivoso como de um animal selvagem se preparando para o ataque.
— Não pode ser. Eu não acredito em você, simplesmente não acredito. Ele caiu então? Sem mais sem menos? Sem um empurrãozinho? Inventa outra cara. Saia do meu carro agora antes que eu te denuncie nesse momento! – vociferou Matias que ouvia as ameias as desculpas e o falso desespero de Paulo. Este controlava sua mente ao máximo, se reprimindo por saber que seria difícil enganar alguém tão próximo, que convivera tanto e que o conhecia tão bem.
— se quer que o livro esteja a salvo, você tem que me proteger. Somos os fiéis e você não pode ir contra isso. Eu não fiz nada de errado, apenas aquela nossa antiga bebida foi o empurrãozinho, nem sabia que funcionaria! Você sabe que nunca testamos! Eu pensei que ele queria dinheiro mas ele queria o livro! O livro! Ande raciocine, ele sabia do perigo que correria ao ir atrás de mim. Você acha que ele não contou para ninguém? Ele queria o livro. Alguém o quer! – sua voz explodiu como um estrondo, um caminhão passou rápido ao lado deles fazendo o carro vibrar. Matias queria lhe socar a face, queria correr longe daquele espécime nojento de ser humano. O livro era sua prioridade, e agora aquela escória. Sem dizer mais nada, sem retrucar e sem debater ele deu partida no carro e seguiu o trajeto para sua casa. Paulo sentia – se internamente satisfeito, até ali tudo ocorrera bem e continuaria dando certo se nada em sua apatia o entregasse. “muvilum cerca alvus” entoou em sua mente e sentiu o volume se abranger em seu casaco, sentiu a quentura do livro, sentiu que estava a salvo.
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