Gelo, por favor
4 Capítulo 4
Três meses e meio.
Esse foi o tempo no qual passou desde que encontrei um acidentado Alfonso, agora bem diferente ele não estava 100%, mas já tinha voltado a trabalhar e as visitas dos amigos e parentes para ajudá-lo eram quase raras. Por que ele estava muito bem e eu não sabia definir o que sentia com relação a isso.
Bom eu já tinha voltado para casa e Rodrigo teve a ideia súbita de chamar alguns amigos para se reunir aqui em casa. Improvisadamente um foi chamando o outro que foi chamando outro e acabou que se tivéssemos marcado não teria dado certo e não conseguiríamos ter reunido tantas pessoas.
O que me deixou inquieta foi saber que Alfonso estava aqui, na minha casa isso antes não tinha acontecido e não tinha o menor problema, mas desde que decidi responder suas perguntas e ele passou a se lembrar mais de sua vida o clima entre nós ficava cada vez mais tenso. E isso mexia comigo. Consegui contornar tudo, mas estava sem-jeito.
:- Oi? — escutei sua voz enquanto estava verificando o que ainda tínhamos na geladeira. Me virei para ver ele ali parado na entrada da minha cozinha.
:- Oi! – Comentei sem graça aproveitando e pegando uma garrafa de cerveja, me esforcei para abrir e ter uma imagem despreocupada, nada deu certo.
:- Eu te ajudo. – ele veio e abriu a garrafa com tanta facilidade que me fez sentir uma idiota. – Aqui está.
:- Obrigada, quer uma?
:- Não, ainda tenho a minha. Estou aqui tem algumas horas e esse é o momento em que trocamos mais de três palavras. – ele deu um riso pela brincadeira.
:- Estou preocupada com o pessoal, se tudo está certo. – aproveitei para beber um pouco depois da desculpa inventada.
:- Pode relaxar estar tudo bem. Perfeitinha.
Subi o olhar com a forma que ele me chamou e tentei buscar a mesma familiaridade que eu tinha ao escutar e encontrei, ele gostava de implicar comigo quando estava encanada com algo. Sempre implicou com a minha mania de perfeccionismo, ao que parece a memória dele tinha melhorado desde a última vez que nos vimos, há algumas semanas atrás.
:- Sua memória está boa. – dei um soco fraco em seu braço e seu sorriso alargou indicando que ele também se lembrava.
:- Só quando o tema é você. – ele falou e eu perdi toda minha pose, de novo aquela tensão entre nós dois estava presente.
:- E como você está? — me forcei a ignorar o que sua última frase poderia significar.
:- Estou bem como pode ver. – ele levantou os braços que o visse – Voltei ao trabalho, logo logo volto ao meu velho ritmo.
:- Não faça isso. – ele estranhou o que eu falei. – Veja bem quero que volte a trabalhar e tudo mais. Porém, não trabalhe como era antes, você se deixou absolver e estava cada vez mais difícil te ver, era só trabalho, trabalho, trabalho.
:- Você não é a primeira pessoa a dizer isso. – um de suas mãos foi parar no queixo o coçando, mania dele quando pensava ou tentava se lembrar de algo. Esmaguei o pensamento meu que me dizia o quanto ele ficava bonito quando fazia isso.
:- Isso quer dizer que tenho razão e que me deveria dar ouvidos. – fiz posse de sabida.
:- Sabe uma coisa boa de perder a memória é que as pessoas ficam mais compreensivas. Eu não me lembrava de ser tão compulsivo por trabalho.
:- Acredite você está num ponto que se te chamasse para tomar um café, você falaria que eu teria que esperar pelo menos três projetos seus terminarem.
:- Você deveria estar brava comigo. – ele concluiu tomando sua cerveja.
:- E não era para menos todo mundo estava, você não tinha tempo para nada além do trabalho.
:- Há quanto tempo eu não te via? — ele me fez uma pergunta num tom de voz estranho para a nossa conversa.
Fiz uma careta ao me lembrar de como o encontrei, das cenas no hospital, fazendo um cálculo rápido, me lembrei que ele tinha razão eu estava muito brava com ele por estar muito ocupado e não ter tempo para nossa amizade.
:- Pelo menos uns dez meses.
:- Não! – ele negou desacreditado brevemente.
:- Pois é seu ingrato. Eu não te via por quase um ano, para você ver o seu ritmo de trabalho.
:- Não tem problema. Sai comigo? — ele fez o convite inesperado e eu tive que encara-lo, estava mais próximo ainda de mim.
:- Hãn?
:- Podemos fazer o que você quiser e eu pago. Depois que saiu de casa faz muito tempo que deixamos de nos ver. Eu senti sua falta, não é a mesma coisa que trocar mensagem. Sai comigo? — ele não só explicou como repetiu o convite me deixando sem saída. Por que eu realmente fiz questão de ficar afastada esses últimos tempos, não sabia como agir perto dele depois de revelar que já namoramos.
Me poupando de uma resposta, fui salva pelo meu marido.
:- Você está aqui.
Imediatamente Alfonso e eu nos afastamos.
:- Me procurava?- deixei a cerveja de lado, tentando focar em Rodrigo e esquecer Alfonso ao meu lado.
:- Sim. Pensei que poderíamos servir os petiscos que você fez agora, vai ser bom para acompanhar a bebida. – ele foi direto para a geladeira sem da importância para a proximidade que ele flagrou minha e de Alfonso. Sou eu que estou pensando bobagem ou deve ser que eu estava dando muita bandeira.
:- Claro, eu te ajudo a servir. E não está aqui, coloquei em outra geladeira. – antes que eu pudesse me encaminhar para pegar os petiscos, Rodrigo me enlaçou na cintura e me deu um rápido beijo nos lábios.
Depois de me agradecer, eu fui imediatamente atrás dos petiscos queria ter alguma função antes de ter que encarar Alfonso, depois do meu beijo com o meu marido. Não deveria ser assim. Não deveria estar nervosa, me sentir culpada.
:- Vocês precisam de ajuda? — Alfonso perguntou e só escutei sua voz distante.
:- Não pode ficar tranquilo, você é visita, Alfonso. Pode voltar para a sala aliás, Natália está te procurando para falar de alguma cosia que vocês fizeram na faculdade.
Quando voltei Alfonso já tinha saído e Rodrigo preparava as bandejas, definitivamente eu precisava me controlar. Aquilo já tinha acontecido antes, já estive acompanhada de Rodrigo no mesmo lugar onde Alfonso estava, foi uma situação diferente, mesmo assim não tinha que estar tão nervosa.
:- Amor, começa a levar essas bandejas aqui que vou no banheiro e volto para levar o resto.
Escutei o “Está bem” dele quando já estava no caminho do banheiro, lá dentro molhei o rosto e respirei fundo algumas vezes, ensaiei no espelho dois sorrisos como anfitriã da casa e sai decidia a relaxar um pouco mais e esquecer a presença de Alfonso na minha casa.
Deu certo por que Brian levou seu violão e quando sai ele e uma galera já estavam fazendo um som, no meu quintal. Não pude resisti quando me chamaram para cantar uma música. O que eram para ser de uns três minutos acabei ficando pelo menos umas duas horas cantando com todos.
Estava cantando uma música mais antiga, um jazz de Sarah Vaughan, quando Rodrigo apareceu fazendo sinais para que o acompanhasse. Terminei a música e sob os protestos fui até meu marido.
:- Ela logo volta. – ele foi se explicando e eu apenas ria.
:- O que foi?
:- Nada, Matias está indo embora e queria se despedir.
:- Mas, está cedo para ele ir.
:- Amor, já são dez da noite. – Rodrigo riu da minha expressão de assustada, por que estávamos nessa reunião de amigos desde das três da tarde.
Matias se aproximou com a namorada Ruth para se despedir e olhando em volta notei o quanto tinha mais pessoas em casa, desde que parei para cantar perdi a noção do tempo, ainda assim muitas pessoas tinham ido embora.
:- Amor, muita gente foi embora? — eu perguntei quando ele me abraçou depois que Matias saiu.
:- Sim. Você nem percebeu por que estava cantando, mas também chegou muita gente. – Era assim mesmo quando trabalhávamos no bar fim de semana, ele me deixava cantando enquanto administrava o bar, damos muito certo assim. Aconteceu de novo nessa reunião.
:- Poxa deveria ter me aviso, o que vão pensar de mim. – Eu queria perguntar se Alfonso foi embora, mas não tinha coragem.
:- Não queria atrapalhar a cantoria, fora que o pessoal me mataria. Aproveita esse tempo para descansar um pouco por que já já eles devem te chamar para voltar.
:- Certo, eu também quero voltar logo. Vamos na cozinha estou com sede. – O chamei dando a mão para ele.
:- Quando tudo acabar depois podíamos ligar para as crianças para saber se sua irmã, já enlouqueceu ou ainda dá tempo de salvá-la. – Rodrigo comentou de Claudia que passou mais cedo e convidou as crianças para dormir em sua casa para fazer companhia a Clara e Tadeu, meus sobrinhos.
:- Não fale assim você sabe que a Claudia eles respeitam, ela tem mais experiência e pulso firme.
:- Verdade, tinha me esquecido, agora se fosse a Blanca. Não aguentaria nem cinco minutos com todos juntos.
Eu dei risada por que era uma verdade Blanca não teria essa paciência, mas anotei mentalmente de pegar meu celular e ligar para Claudia eu precisava de notícias dos meus filhos.
Rodrigo e eu voltamos a passar pelo quintal onde o pessoal ainda cantava e como ele mesmo disse, já estavam me chamando de volta, depois de prometer que voltava logo. Sempre dei uma olhada para todos os lugares para saber se Alfonso tinha ido embora mesmo, estranho o fato dele sair sem se despedir e mesmo quando comecei a cantar ele viu apenas uma ou outra música e depois não o vi mais.
Entrei com o meu marido em casa e estranhei quando ele apertou meu braço levemente e manteve o aperto.
:- Mas o que...
Olhei na mesma direção que ele e estranhei muito a cena que presenciava.
Encostada numa parede com um Alfonso também encostado, mas apenas um braço estava Andrea, eles estavam muito entrosados numa conversa bem alegre por que ambos estavam sorridentes, compartilhavam uma mesma cerveja e tinham muito assunto para a maneira que estavam, deviam estar ali muito tempo conversando. Talvez pelo tempo que eu estava cantando. Duas horas.
Todo o autocontrole que eu tive durante o tempo que fiquei evitando encontrar novamente Alfonso e mesmo responder seu convite para nos encontramos de novo. Foi por água abaixo ao ver aquela cena.
Não sabia o horário que Andrea tinha chegado na reunião e mesmo com o meu marido me abraçando, juro que não podia negar que senti foi um incomodo e louco ciúme.
Ciúme do meu ex-namorado com a ex-mulher do meu esposo.
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