Gelo, por favor
5 Capítulo 5
:- Flores, mais pétalas de flores, Rosa, por favor! — ela pediu para a sua assistente que imediatamente falou com o responsável pelas flores. Quando Rosa voltou com o responsável eu acariciei meu queixo pensando rapidamente. – Quero que jogue as flores exatamente do lado da passarela seguindo um caminho como se fosse uma extensão.
Apontei exatamente como eu queria que ele fizesse, que ele tivesse o mesmo pensamento que eu. Sorri quando ele terminou o trabalho e ficou melhor do que eu imaginava, estava coordenando todos na montagem de um evento de moda que aconteceria num dos hotéis mais luxuosos da cidade.
Tudo estava saindo como o esperado, mas eu me mantinha firme e extremamente detalhista, eram os detalhes que faziam uma enorme diferença. Me sentia um maestro a frente de uma orquestra. Por pensar nisso.
:- Quero que os músicos já se posicionem e comecem a ensaiar. – Pedi pelo rádio observando o local do evento. Certo até agora estava tudo indo muito bem, o evento começaria em uma hora e tudo tinha que estar perfeito.
:- Dulce? — me virei para ver quem era.
:- Melissa! – Sorri imediatamente ao ver minha amiga e também sócia.
:- Querida quero lhe apresentar Ralf, nosso cliente é só o estilista que está apresentando toda essa coleção que ainda vai estar nas lojas em breve. – ela falou sussurrando agregando valor para Ralf que em minha frente abriu um sorriso pois escutou tudo.
:- Muito prazer em conhecê-lo. – Antes que eu pudesse estender a mão para manter uma postura profissional, ele veio e me deu um abraço apertado.
:- O prazer é todo meu em conhecer a mente brilhante por trás dessa toda organização. – ele ainda estava sorrindo e lhe retribui tinha um ar elegante em tudo, na fala, na vestimenta, nos gestos como se tivesse nascido assim.
:- Muito obrigada, na verdade eu fico agradecida e confesso que fiquei curiosa em lhe conhecer.
:- Jura? — ele levantou a sobrancelha curioso e me instigando a falar mais.
:- Sim, quando eu recebi de Melissa as suas ideias de como queria o seu evento. Logo percebi uma pessoa que sabe a mensagem que quer passar para as pessoas. Uma ousadia inconsciente, por que essa ousadia se esconde na calma. As cores. Como queria o ambiente eu logo pensei no...
:- Mar! – ele completou o meu pensamento certeiro, tinha me empolgado ao falar, mas quando nos encaramos percebi que estávamos em sintonia eu compreendi a essência do que ele queria para o seu evento.
:- Exatamente. Pelas suas exigências e anotações pensei em algo da natureza e nada melhor que o mar para representar o que você queria essa ousadia que se esconde numa onda calma que molha a areia e quando volta para o mar pode se transformar numa onda gigante e causar estragos ao invés de admiração.
:- Nossa! É verdade que não viu minha coleção?
:- Essa que será apresentada, lamento dizer que não, eu fiz uma pesquisa das outras coleções suas e devo dizer que admiro sua arte, seu trabalho. Mas, para essa coleção resolvi me fazer uma surpresa.
:- Uma escolha realmente perigosa, se você errasse no que eu queria, poderia arruinar todo o evento. – disse me avaliando — Gostei de você! – ele soltou. É uma pessoa criativa, de talento e sensibilidade. Ah se eu fosse hétero, você não me escaparia tão facilmente.
Ele falou num tom tão misterioso que fez com que eu e Melissa que se mantinha calada rissem. Apenas agradeci, pensando na possibilidade dele ser hétero, era um homem muito atraente. Interrompendo nossa breve conversa meu celular começou a tocar e pedi licença para atender.
:- Pronto?
Não escutei nada além de alguns ruídos, por um momento pensei que fosse brincadeira ou até engano. Porém, após escutar o barulho de algo se arrastando e um gemido de dor, escutei meu nome.
:- Dulce... – ele disse numa voz arrastada. E depois escutei a queda de algo de vidro quebrando no chão.
:- Meu Deus o que está acontecendo?
:- Dulce..- soltou um gemido de dor mais alto. – Eu.. Eu.. Preciso de ajuda. Por favor, vem me ajudar.
:- Poncho? — meu coração estava disparado ao reconhecer sua voz e ao pensar que algo ruim estava acontecendo com ele. – Poncho, me diz o que está acontecendo?
:- Eu..estou sentindo muita dor. Muita dor. Eu preciso que me ajude.
:- Claro. – foi nesse momento que devo ter assustado as pessoas ao meu redor por que Melissa se aproximou com uma expressão de preocupação. – Se acalma e tenta me dizer onde está.
:- Estou em casa. – ele dessa vez deu um urro de dor. – Vem aqui por favor.
E desligou a ligação. Me deixando desolada em preocupação, não falei mais nada e olhei o celular para comprovar que ele tinha desligado.
:- Dulce o que está acontecendo?
:- Eu preciso que me ajude, Melissa. – ela assentiu logo – Tenho que sair. Eu realmente preciso sair, preciso sair.
:- Tudo bem, eu fico no seu lugar não tem problema, você já me disse tudo que vai acontecer vou ter a ajuda de Rosa, não se preocupe com o evento.
Procurei com Ralf com o olhar e ele por sorte estava por perto ainda e presenciou toda a cena.
:- Peço mil perdões tive agora uma emergência, eu queria muito ver sua coleção, mas Melissa vai continuar meu trabalho e o seu evento de lançamento será um sucesso. – eu falava depressa e para minha surpresa ele me abraçou novamente.
:- Querida se acalme. Imprevistos acontecem, não se preocupe conosco tenho certeza que tudo dará certo. Se mantenha serena e já te adianto dizer que quero marcar um encontro com você, repito gostei de você. – e ele meu deu um beijo na bochecha e sorriu.
Que me fez sorrir também por ele ter sido atencioso, se fosse algum outro cliente não me entenderia. É eu também tinha gostado dele. Antes de sair realmente eu dei as instruções a todos e dei instruções especiais a Rosa e Melissa, para que mesmo sem-minha presença tudo saísse perfeito.
Entrei num táxi e tentei ligar algumas vezes para Poncho, mas ele não me atendia. Eu tentava manter minha calma para quando chegasse em sua casa e ele estivesse passando mal eu o ajudasse de melhor maneira possível. Pensei em ligar para uma ambulância, mas a ideia foi deixada de lado primeiro eu tinha que ver o que tinha acontecido com ele.
A corrida do táxi levou os mais tensos vinte minutos do meu dia, paguei logo o taxista e correndo me dirigi a porta da casa de Poncho. Dei três batidas firmes e altas para que ele soubesse que tinha chegado, comecei a pensar o pior e foi nesse momento que a porta se abriu.
A cena foi impactante.
Pelo que pude ver a sua casa estava toda desarrumada e alguns objetos de vidro quebrados no chão e ele estava o reflexo de sua casa, estava com a roupa completamente amassada, molhada. Os cabelos desgrenhados e o rosto extremamente vermelho. Numa tonalidade viva como se o sangue de todo o seu corpo só circulasse ali em sua cabeça.
:- Poncho. – soltei entrando na casa, batendo a porta e jogando minha bolsa em qualquer lugar. – O que aconteceu? O que está sentindo?
:- Dor! – ele falou num tom que me fez engoli saliva rapidamente. Me aproximei mais e comecei a olhar ele todo.
:- Está ferido em algum lugar?
:- Não. Eu..Ahhhh. – Soltou um gemido de dor e com uma mão tocou a cabeça se agachando.
:- O que foi Poncho? — Sinceramente não sabia como estava ainda calma, mantendo o controle da situação. Me abaixei com ele que se curvou provavelmente pela dor que sentia.
:- Eu estava bem e de repente comecei a sentir dores de cabeça, como se tivesse atirado uma bigorna nela. A dor é constante. Nenhum remédio para e ela piora e vai e volta e Ahhh. – dessa vez ele soltou um grito e com os braços me puxou.
:- Precisamos ir no médico então.
:- Não!!! – encostou o rosto no meu busto e antes que pudesse brigar com ele comecei a sentir algo me molhando justamente onde estava o seu rosto. E fiquei assustava quando levantei a mão para tocar sua cabeça e ver o que estava acontecendo.
Ele deu um outro grito mais alto de dor e me abraçou de uma forma sufocante, me esmagava em seus braços e então vieram os soluços e gemidos de dor e lágrimas. Era isso que me molhava. Poncho começou a chorar descontroladamente enquanto me abraçava e tudo o que eu fiz foi retribuir o abraço na medida do possível e esperar. Isso mesmo eu esperei que ele chorasse e gritasse tudo o que estava pesando dentro de seu corpo.
Desde o acidente não soube nenhuma notícia de Poncho estourar dessa forma, algumas discussões sim, mas estourar por sua situação não aconteceu, até agora. Com uma mão passeei em suas costas e deixei que ele chorasse.
Não sei quanto tempo levou, mas ele me apertava no começo dizendo com o corpo para que eu não o deixasse ali sozinho e com o tempo foi se acalmando e até que o choro desesperado foi se convertendo em apenas lágrimas calmas que escorriam ainda cada vez mesmo.
:- Poncho? — ele demonstrou que me escutou soltando um suspiro que bateu em meu pescoço já que ele agora tinha a cabeça apoiada no meu ombro. Passei uma mão por suas costas num longo afago. – Se sente melhor?
:- Sim. – a voz saiu abafada e ele ainda se apoiava em mim.
:- O que aconteceu?
Demorou para que ele me respondesse aos poucos foi desencostando e quando olhei seu rosto e expressão tive vontade de puxa-lo de novo para meu colo.
:- A minha memória.. — Ele abaixou o rosto que estava muito vermelho ainda. – Ela voltou. – ele levantou a cabeça e tudo que foquei foram os seus olhos, eles estavam de uma maneira que nunca vi em todo esse tempo que nos conhecemos. As veias estavam mais fortes deixando um tom avermelhado, inchados, os olhos sempre foi uma mistura do verde e do castanho, mas agora estavam num verde hipnotizante, convidativo.
Se era possível como algumas pessoas acreditavam, eu inclusive, eu vi sua alma nos olhos e a minha vontade era de cuidar dele para sempre, por que não aguentava ver uma pessoa que amo, sofrendo.
Não consegui falar nada apenas colocar com muito cuidado sobre seu rosto justamente na cabeça que devia ser o ponto no corpo onde ele mais sentia dor.
:- Tudo. Tudo veio de vez, eu nunca senti algo assim antes. Mas, agora eu me lembro de tudo as lembranças não deixam de surgi em minha cabeça, estão todas embaralhadas, são momentos da infância, da juventude, do acidente. – ele fechou com força os olhos e eu reprimi a vontade de pedir que ele ficasse calado, mas eu entendia que ele precisava falar.
:- O que eu faço?
:- Fica comigo. Por favor, eu.. Não entendia o que estava acontecendo e tomei os meus remédios, nada funcionava. As dores ficaram muito fortes e minha visão turva. Eu comecei a tentar desviar a dor para outro lugar por que não aguentava mais, e olha como está minha casa. – eu dei uma olhada em volta negando com a cabeça- Não adiantou. Só pensei em você para que me ajudasse.
:- Eu vou ficar com você, mas temos que chamar seu médico Poncho. Eu não posso te medicar, ele tem que te avaliar.
:- Tudo bem, vamos chama-lo, mas você vai ficar comigo hoje? — ele parecia desesperado com a possibilidade de que eu ficasse longe dele.
:- Eu fico. – deixei isso bem claro por que era a minha vontade tanto quanto a dele.
Então buscamos o número do médico dele, o levei até o seu quarto que parecia o lugar mais intacto da casa e melhor para acomoda-lo. Ele tinha tomado uma quantidade maior de seus remédios, não sei como ele não tinha capotado em qualquer lugar da casa. Enquanto ele estava deitado na sua cama eu falava ao telefone com o seu médico e aproveitei para falar com Melissa que não voltaria mesmo hoje, mas fiquei aliviada ao saber que tudo estava saindo como o meu planejado.
A ligação mais difícil foi para Rodrigo, ele não gostou que eu ficaria fora de casa uma noite, porém se convenceu quando eu expliquei toda a situação.
Todas as ligações foram feitas comigo andando de um lado para outro no quarto, mas a última eu fiquei de costas para a cama assim que me virei, encontrei um Poncho tranquilo, menos vermelho parecia ter adormecido, também pudera ele tinha tomado muito remédio.
Me aproximei da cama e me sentei do seu lado acariciei seu peito e me assustei quando ele levou sua mão até a minha e segurou.
:- Pensei que estivesse dormindo.
:- Quase. Parece que hoje tudo está vindo demasiado e de repente. – com o polegar acariciava minha mão.
:- Quando você ficar melhor ainda vou te dar uma surra por me matar de tanta preocupação. – ele que não tinha os olhos abertos, abriu um sorriso torto que logo terminou para ele voltar uma expressão séria ainda que cansada.
:- Obrigado por tudo. – ele abriu os olhos e eu me aproximei mais para escutar melhor, agora eu tinha meu coração disparado tudo por culpa dele. – Não sei o que seria sem você na minha vida. Sempre.
:- Para de ser assim..
:- Assim como? — ele apertou minha mão com a sua.
:- Tão bobo. Eu sei que se fosse o contrário você faria isso e muito mais. Tenho certeza.
Não falamos mais nada e ficamos apenas nos olhando, eu tinha receio de momentos assim. Eles significavam tanto e tinham um poder de te desestabilizar.
:- O pior da minha memória voltar assim, são os sentimentos que vem junto com as lembranças. É como você se encontrasse consigo mesmo e sentir isso é muito duro.
:- A forma como tudo aconteceu foi violenta. – comentei e ele assentiu não sei se só por meu comentário ou por eu ter me aproximado ainda mais e com minha outra mão acariciei seu rosto.
:- Me sinto tão confuso e perdido. E o pior de tudo são tantas informações que fica difícil saber quem sou eu.
:- Você está tão apressado, acabou de ter a memória de volta e já quer responder uma pergunta que muitas pessoas não sabem responder. Que eu não sei responder e nem passei por momentos complicados como os que você passou.
Ele não me disse nada a respeito do que eu comentei ficou me encarando de uma forma diferente e me senti algo estranho ao que parecia que ele também sentia.
:- O dia em que nos conhecemos foi tão bonito.
Imediatamente me lembrei daquele dia foi inevitável foi num encontro com várias pessoas, amigos em comum, um piquenique e o dia estava lindo céu aberto, verão tinha um sol que nos aquecia na temperatura ideal, tinha muita comida, música pessoal tinha levado violão, gaita e improvisaram uma bateria, muitas risadas. Foi um dia lindo.
:- Aproveita que sua memória voltou e se lembre de encontrar sua vergonha na cara. – sorrimos um para o outro. – Você namorava Virginia.
:- Nos conhecemos aquele dia e não fizemos nada demais, conversamos apenas e isso não estraga minha lembrança, ainda que negue foi um dia muito bom.
:- Mágico. – eu defini e ele concordou com um aceno de cabeça de leve com um careta.
:- Mágico, definitivamente. Tivemos muitos dias mágicos.
:- Tivemos? — Uma voz em minha mente gritou nesse momento, não deveria ter perguntado isso só instigaria algo que não deveria acontecer e que já estava acontecendo.
:- Sim. Com certeza tivemos. Só que de todos momentos um esta na minha cabeça e que vai e volta e agora está muito presente. – ele falou arrastado parecia um pouco distante.
:- Qual? — mais uma vez eu brincava com algo perigoso.
E ele me surpreendeu mais uma vez com o gesto mais bonito que se pode ter quando se gosta de uma pessoa, ele levantou a cabeça e encostou seus lábios nos meus. Como fez no dia do nosso primeiro beijo.
Uma feliz surpresa que no começo não tive reação até que naturalmente fechei os olhos e me deixei levar por este ato tão precioso. Tirei minhas mãos dele e movi até sua cabeça e devagar abaixei até que ele encostasse na cama novamente e só então desencostei meus lábios para arrasta-los nos dele de um lado ao outro para cima ele aproveitou para abrir o dele, nossos hálitos se somaram e ele aproveitou para puxar com os seus lábios e suspirou e abriu mais a boca e com uma mão puxou meu pescoço para o eu encontro finalmente iniciamos um beijo.
Um beijo que só ele sabia dar, que só eu sabia dar, só nós dois sabíamos fazer acontecer.
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