Gelo, por favor
3 Capítulo 3
Tinha acabado de arrumar toda a cozinha e voltei para o quarto quando presenciei uma cena que me deixou paralisada.
Alfonso estava em pé no meio do seu quarto com Inácio no colo o ninando com uma música inventada que tinha uma melodia calma e passava uma tranquilidade notando que ele tinha dormido Alfonso parou de cantar olhando o menino deu um beijo em sua testa bem carinhoso, com cuidado ele se aproximou da cama e colocou um Inácio calmo e adormecido. Ele tinha todo o zelo de um pai.
Foi esse meu pensamento quando fui pega por ele observando a cena, ambos ficamos constrangidos.
:- Eu.. Deixei tudo arrumado. – Foi o único comentário que me escapou.
:- Certo, obrigado. Vou sair para que você possa descansar. – Foi o que disse assim como eu ignorando a cena anterior, passando desejou uma boa noite e me deixou no seu quarto.
Entrei e olhei o meu pequeno dormindo, tomei uma decisão, fui até a cama e a abaixei até que ficasse um nível que não resultasse uma queda de Inácio. Olhei todo o quarto seguindo o meu sexto sentido já havia procurado em alguns lugares quando o que eu sentia era curiosidade, mas não encontrei e tinha certeza que deveria estar ali. Alfonso pelo o que eu me lembrava era bem cuidadoso ele deveria ter guardado em um lugar reservado, mas fácil. Olhei mais uma vez todo o quarto.
:- É claro como eu não pensei nisso antes. – Fui direto ao seu closet e o abri encontrei as roupas alguns caixas e numa gaveta bem discreta com uma abertura diferente encontrei o que antes eu buscava.
Achei ali algumas cartas, objetos pequenos e fotos. Ainda que a curiosidade me fizesse olhar para uma coisa ou outra fiz o que tinha que fazer selecionei algumas fotos e fechei a gaveta, dei uma última olhada em Inácio e sai do quarto deixando a luz acesa e a porta entre aberta.
Caminhei em direção a sala como suspeitava ele estava acordado e olhava a janela. Aproveitei esse momento para pensar em tudo.
Fazia exatamente dois meses quando encontrei Alfonso em Los Cabos, completamente desnorteado e com um corte profundo na cabeça. Mais tarde naquele mesmo dia descobri que assim como eu, ele tinha ido a cidade a trabalho com uma pequena equipe, no começo da tarde, ele sofreu um acidente no mar e na sua queda bateu a cabeça na lancha antes de cair na água.
Ninguém sabe como Alfonso se perdeu da lancha e foi parar na praia onde eu o encontrei, a pancada em sua cabeça o fez perder grande parte de sua memória.
E faz exatamente duas semanas que depois de seu acidente, me pediram ajuda, de tudo o que Alfonso se lembrava em sua maioria eram coisas que ligava a mim. Então por decisão dos médicos, amigos, familiares e minha, decidimos que eu ficaria com Alfonso ajudando em sua recuperação. Mudando minha vida.
:- Sabe de uma coisa. – Eu falei entrando definitivamente na sala tentando parar com essa mania de ficar o observando. – Estou sem sono e resolvi que temos que conversar.
:- Mais? Tudo o que mais fazemos é conversar.
:- Sim, mas dessa vez vai ser diferente.
:- Posso ser sincero numa coisa? — ele me ignorou e se levantou para logo se sentar novamente no meio da sala em no chão. – Eu penso que você deveria ir embora. – Não só a convicção com a qual ele falou, mas a escolha das palavras que fez, me assustou.
:- Por quê?
:- Tem que voltar a viver sua vida. Não quero que mais ninguém fique a minha mercê, eu estou bem apesar de tudo e sabemos que consigo me virar sozinho. Quero que volte para a sua casa.
:- O que pensa que esta dizendo? — Perguntei irritada e ele se assustou. – Saio da minha casa e venho te ajudar e é assim que me agradece?
:- Veja bem não quero que você... – ele percebeu o quanto tinha sido rude com as palavras e queria mudar seu discurso, eu aproveitei para provoca-lo.
:- O que é Alfonso? Você é um mal agradecido, isso sim. Ingrato!
:- Hei! – ele se levantou se alterando e caindo na minha armadilha. – Não sou ingrato, eu posso ter me expressado mal, me desculpe por isso. O que eu não quero que as pessoas atrasem suas vidas por minha causa, estou melhor agora.
:- Está melhor somente agora por que justamente as pessoas atrasaram suas vidas.
:- Não me entenda mal, Dulce, poxa eu sou agradecido pelo o que fazem por mim. Só não quero que continue dessa forma, estou fazendo o tratamento estou seguindo a risca cada indicação ainda assim estavam de certa forma permaneço parado, minha evolução esta parada e tenho consciência de que talvez minha memória completa não volte. Não quero que as pessoas mudem sua vida por minha culpa. Veja bem o seu filho. Por Deus ele está fora de casa.
:- Está pensando em largar tudo e parar o tratamento? Você não está se esforçando.
:- O que? — sua voz saiu gritada ele se aproximou ainda mais. – Não estou me esforçando o que está pensando que estou brincando e que a memória funciona da seguinte forma, apenas apertar o botão liga e desliga? — Ele falou baixo, mas estava irritado e foi irônico. Aquilo era um bom sinal.
Eu fiquei em silêncio de propósito e o ignorando caminhei até o lugar onde ele antes estava sentado e me sentei.
:- Você nota a sensação de familiaridade?
Ele confuso juntou a sobrancelha.
:- Note. – eu incentivei.
E ele parou por um momento e novamente ficamos em silêncio, logo ele fez uma expressão confusa e nessa hora que eu entro em cena para ajudá-lo.
:- Nós dois já quase discutimos, num passado nessa mesma sala, eu te chamei de mal agradecido e você explodiu comigo. – soltei o riso por que era por um motivo bobo.
:- Fui um tolo. – ele soltou voltando para se sentar ao meu lado, já calmo. – Pensei que conseguia aguentar aquela barra e resolvi fazer tudo sozinho, não foi bem por aí e você me ajudou. Afinal não poderia fazer um comercial sozinho.
Abri um sorriso feliz por que era justamente essa lembrança que eu tinha, toda vez que ele conseguia se lembrar de algo era assim, eu abria um sorriso.
:- Esta vendo você se lembrou. O que eu quero que entenda de uma vez por todas, que todos os seus amigos não estão sendo obrigados a te ajudar, fazemos por que queremos. E você não está parado, se não percebe a cada dia se lembra de uma coisa nova e pode ser pouco, mas é de grão em grão de areia que temos uma praia.
Ele ficou calado me olhando, nesse momento eu não sabia o que sentia.Mentira, eu ignorava o nervosismo e procurava pensar em Rodrigo, nem sempre dava certo. Como agora.
:- Resolvi que você merece passar de mais um estágio, eu vou ser mais direta e vou responder suas perguntas. Aquelas perguntas.
Desde que comecei a ajudar Alfonso tudo foi mecânico, ele se lembrava de coisas aleatórias como um restaurante que comeu, um país que visitou, um brinquedo que teve era bom, mas isso não fazia aquietar o seu coração que buscava a constante resposta para sua pergunta. Quem ele era?
Geralmente ele ás vezes fazia algumas perguntas que eu o deixava pensando para tentar se lembrar sozinho, essa tática não deu certo. Teria que ajuda-lo com isso.
:- Qualquer pergunta minha?
:- Sim.
:- Me diz um pouco sobre sua vida? – eu imediatamente estranhei achei que ele fosse perguntar algo dele. – Não sei me faz um resumo como se fizesse algum tempo que não nos vemos e como amigos que somos, eu preciso saber da sua vida.
Sem se dar conta ele descreveu exatamente como estávamos. Éramos amigos que vez ou outra raramente nos encontrávamos. Incomodada decidi pensar em algo importante a dizer, tudo tinha que ser um estímulo para que ele recuperasse a memória.
:- Eu sou uma mulher que se encaminha para casa dos quarenta, sagitariana, trabalho com eventos e isso faz da minha vida uma loucura, sou casada há três anos com Rodrigo, temos um filho chamado Inácio de dois anos que é furacão. – ele e eu trocamos um sorriso, Inácio tinha deixado sua marca no apartamento de Alfonso. – tudo o que eu faço é por amor ao meu filho. Minha rotina é doida assim como do meu marido, ele é diretor de uma operadora de telefone e isso faz com que nos desdobremos para conciliar tudo, conseguimos no final das contas. – soltei um riso estranho e procurei sempre ignorar o olhar de Alfonso quando mencionava Rodrigo. – Ah nós dois temos nos finais de semana uma pratica de se dedicar aos nossos hobbys, ele tem um bar e eu sou vocalista de uma banda.
Alfonso não falou nada eu acho que ele queria que eu falasse mais. Tentei pensar em algo relevante e ele me fez uma pergunta.
:- Quem é Andrea? — me roubou a atenção. – Escutei algo sobre ela por aí, imagino que não faça parte da minha vida e sim da sua.
:- Tem razão. Andrea é a ex- mulher do meu marido, mãe do meu enteado de nove anos, Catho.
:- Sente ciúme? — ele perguntou com uma cara estranha, era uma expressão que ele fazia quando se lembrava de algo. Talvez alguma lembrança nossa, por que essa conversa já aconteceu antes, ele só não se lembrava.
:- Já passei dessa fase. – dei um sorriso.
:- Quando eu penso em Andrea eu lembro de acidente de carro. – ele soltou esse comentário. E eu dei outro sorriso.
:- Uma vez nos encontramos e eu comentei que Andrea sofreu um acidente de carro e foi complicado pelos danos em seu corpo e ela passou um tempo morando conosco. Você me ajudou com conselhos naquela época. – Me lembrei que só aceitei engolir meu ciúme e cuidei de Andrea depois de escutar Poncho.
:- Café do Léo. – ele fez uma careta me olhando. E eu afirmei com a cabeça o incentivando. – Nos encontramos lá quando tivemos essa conversa. “Eu sei que você tem um enorme coração e que sua vontade de ajudar, vai ser maior que o seu ciúme.” Ele me surpreendeu repetindo uma de suas frases.
:- Exatamente, ponto para você Herrera.
:- Poncho.
:- O que?
:- Meu apelido. – Eu ri da expressão de descoberta dele, se lembrando do próprio apelido.
:- Agora são dois pontos, quem não está evoluindo mesmo?
Ele sorriu e eu não estava preparada para o que vinha a seguir.
:- Por que tudo o que eu me lembro geralmente é sobre você, sempre busco você como minha associação de realidade e também do que eu sou. Acho estranho por que pessoas da minha família, minha mãe, meu pai, irmãos. Até mesmo outros amigos, eu não faço essa associação. – Estava mais uma vez confuso.
:- Nós convivemos muito tempo. – Soltei essas palavras abaixando a cabeça e me lembrando do que eu segurava nas mãos. Chegou a hora dele saber uma grande verdade. – Fomos muito próximos, na realidade te conheço desde que tinha quinze anos e você era um rapaz de dezessete, sei muito da sua vida por que também fomos namorados. Aqui essas são algumas fotos nossas da época em que estivemos juntos. – mordi o lábio inferior e entreguei as fotos que ele tinha impressas e guardadas em seu closet, deixei que a notícia impactasse a cabeça dele.
Secretamente fiquei feliz por que na gaveta tinha algo de suas outras namoradas depois de mim. Mas, eu que tinha mais fotos, cartas e alguns objetos. Não deveria mais fiquei contente.
:- Nossa. – ele falou olhando as fotos de uma forma nova, como se reconhecesse. – Isso faz sentido agora.
:- Por que diz isso?
:- Desde o primeiro dia do acidente lá no hospital quando você ficou comigo até agora, eu tive algumas outras lembranças das quais eu não falei com mais ninguém. Achei errado depois de descobrir que você é casada.
:- Quais lembranças? — Perguntei fechando os olhos me repreendendo internamente, eu sou casada, isso não deveria ser importante.
:- Algumas. – ele falou incerto e eu permaneci de olhos fechados. – Estávamos na praia estava muito quente, eu cai em cima de você rimos de algo. Ou outra vez que te abracei por trás num show de alguma banda. Ou quando escutei de sua mãe, só pode ser sua mãe por que ela é você envelhecida, em alto e bom som que não aprovava nossa relação. – ele soltou um riso que foi contagioso, apesar do nervosismo que me rondava – Quando eu vi você mudar o cabelo. Quando eu abri a porta desse apartamento e jantamos juntos. – eu senti uma vontade imensa de abrir os olhos e encará-lo queria enxergar o mesmo brilho no olhar, porém não consegui. Estava mergulhada na experiência de me lembrar do casal que nós fomos, nas lembranças dele. Engoli a seco com suas próximas palavras. – E depois desse jantar estávamos no quarto eu tirei sua blusa e...
Parou por um momento e a lembrança era revivida na minha cabeça.
:- Eu desliguei as luzes e fomos iluminados por velas. Eu parecia mais nervoso que você, parecia que era... Minha primeira vez.
Calculei um tempo de segurança para abrir meus olhos e olhar para o lado, Poncho estava do meu lado com uma expressão de dor. Ele segurava forte as fotos nas mãos, mas era sempre assim quando ele tinha uma lembrança mais forte. Tão abalada quanto ele, me levantei e peguei seu remédio e aproveitei para colocar água da jarra num copo de costas, levando um tempo para me recuperar.
Voltei e lhe entreguei.
:- Tome beba, vai melhorar. – ele me encarou mais demorou um tempo para pegar, aumentou a expressão de dor e imaginei que ele estivesse com uma forte enxaqueca. Fora o fato que ele deveria estar se lembrando mais alguma coisa, só que não me contaria.
:- Preciso ir, vou ter um dia cheio amanhã tenho que descansar. – Voltei a falar quando ele pegou o remédio e tomou, mencionando o dia que teria por acaso não ficaria com ele, era o dia de mudar a reserva de pessoa para os seus cuidados. – Boa noite, Poncho.
E sai sem entender o que ele murmurou, caminhei depressa para o seu quarto onde estava instalada. Inácio ainda dormia tranquilo, aquele dia busquei ele e o trouxe. Demorei para dormir pensando no cara que estava na sala, mesmo que não devesse, naquele momento eu parecia estar como Poncho. Num estado de amnésia. Me lembrei da menina que eu era quando namorei Poncho, menina essa que eu busquei esquecer no dia em terminamos e eu sai de sua casa. Menina essa que eu me esqueci depois que superei o fim do namoro e virei amiga de Poncho, agora eu era uma mulher casada e apaixonada por Rodrigo.
Por que carajo estava tão abalada com Alfonso se eu já tinha esquecido essa menina que eu fui?
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