Gelo e Cinzas
3 Sombras sob a Neve
O fogo era refletido nos olhos leitosos do homem cego já de idade avançada. O cheiro do peixe sobre o fogo invadia as narinas da criança sentada ao lado, que se remexia da cadeira ansiosa para comer. Mesmo com sua condição limitante o homem não deixava a criança se aproximar do fogo. Era ele que tirava do fogo e colocava para assar.
— Abra as mãos. — Pediu ele com a voz rouca e a criança obedeceu. Tirou o peixe do espeto e pôs direto na mão da criança. Estava escaldante, mas a criança não reclamou, soprou de leve e abocanhou um pedaço com gosto.
O idoso pôde sentir o vento frio que saiu dos lábios da criança. Ele não tivera o privilégio – ou a maldição – de nascer com Koori no Chikara. Mas sua única neta nascera após tanto tempo sem ver tal Kekkei Genkai manifestada. Por muito tempo acreditara que a habilidade de seu clã estivesse extinta.
Mas após tanto tempo compensava ter um herdeiro da Koori no Chikara?
— Está bom?
— Muito gostoso, vovô — respondeu de boca cheia. — O senhor não vai comer?
— Agora não. — Cutucava o fogo com um graveto. — Hm... Que dia mesmo você vai participar do exame genin?
— Semana que vem, vô. Na próxima segunda. — Mordia cada pedaço com paixão. O avô sorriu.
— Ah, sim... — balançou a cabeça, lembrando-se. — Pode me prometer uma coisa?
Ele inclinou a cabeça em direção Youko, com seus olhos leitosos mirando os castanhos dela.
— Prometo, vô. — Limpou a boca com a costa das mãos. — Qualquer coisa.
O idoso acariciou a cabeça da neta e sorriu.
— Seja cuidadosa com o seu poder. Nem todos entendem o Koori no Chikara como nós, e muitos temerão o que não compreendem.
A menina assentiu. Não era a primeira vez que o avô lhe falava sobre ter responsabilidade com sua kekkei genkai.
— Eu sei, vô.
— Você vai ser uma grande ninja, Youko. — disse, vislumbrando um futuro incerto. —Uma portadora orgulhosa da nossa linhagem.
A criança sorriu amplamente enquanto comia o que restava do peixe.
— Obrigada, vovô. Eu vou fazer o meu melhor!
Youko despertou com o peito dolorido com a lembrança de seu amado avô no tempo em que a iludia e a enchia de orgulho.
Não sinto raiva. Não mais. Então não precisa sentir por mim ou por aqueles que já se foram, Youko. Já aconteceu. É passado. Ele falara isso a ela ao descobrir a verdade que o patriarca se recusara a lhe contar. Se não fosse por Shisui estaria na ignorância até agora.
O silêncio do porão, anteriormente agitado e cheio de vozes, indicava que ainda era alta madrugada e todos dormiam. Afastou o sono e sentou-se, ao seu lado Yamato dormia refastelado na parede no navio, com a cabeça tombando.
Juntou os joelhos no peito e os abraçou. Na penumbra do porão, ficou vigilante aguardando o dia raiar.
***
Os gritos das gaivotas chamaram atenção de Youko assim que a primeira luz da manhã desceu ao porão pela abertura da escada. Estavam chegando.
O ninja ao seu lado bocejou e coçou os olhos ao acordar.
— Dormir muito, não foi? — Esticou os braços, se espreguiçou.
— Sim, mas talvez essa seja a última vez que teremos uma noite tranquila. — E dardejou seu olhar frio ao homem. — Mas na próxima me acorde quando for dormir.
Coçando a cabeça, Yamato deu um sorriso sem graça sobre o olhar gélido de Youko.
A kunoichi deixou o porão, seguindo para cima do navio para ver o que os aguardavam lá fora. Mesmo com o céu nublado, apoiou-se na amurada forçando os olhos a enxergar o que havia a frente. Distinguia poucas coisas, tais como o píer, montanhas ao fundo e o branco da neve que predominava aquele lugar.
Ao olhar o redor via os tripulantes e passageiros bem agasalhados e tremendo de frio. Entanto, para Youko, era só um vento gélido contra seu rosto como uma brisa fresca da manhã. O frio intenso não lhe assustava, seu corpo sempre fora adaptado a ele e olhando para o continente que se aproximava entendia o porquê.
O capitão gritou e a tripulação começou a se preparar para aportar o navio. Yamato apareceu ao seu lado trazendo consigo as mochilas. O ninja tremia de frio mesmo com roupa apropriada e manto para se aquecer.
— Isso é pior que o País da Chuva. — comentou, tiritando.
— Não exagere. — Seus olhos estavam fixos na cidade que se abria a sua frente. — A coisas piores por aí.
Yukigakure era diferente do que Youko esperava. O pouco que seu avô lhe falara e das informações contidas nos pergaminhos dado por Tsunade, não esperava que fosse tão comum. Repleta de pessoas andando para todos os lados, crianças correndo, cachorros latindo e gatos miando. Havia lojas, bares e casas, todos com os telhados inclinados para evitar o acúmulo de neve. Ela viu barracas de rua vendendo peixe e bebidas quentes, castanhas doces e biscoitos salgados, lojas de artesanatos e roupas de frio.
Conforme andavam pelas ruas, Youko olhava para tudo e todos desconfiada, pronta para sacar sua arma. E, ainda assim, desejou ter vários olhos para ver todos os detalhes. A banalidade e o cotidiano da aldeia lhe causavam estranheza. Ver as pessoas conversando, comercializando, passeando pelas ruas onde tempos atras seu clã originou e foi massacrado lhe parecia errado.
— Com licença — A voz de Yamato chamou sua atenção. O Ex-anbu conversava com uma vendedora de castanhas. — Onde podemos achar um lugar para passar a noite?
A vendedora, uma senhora coberta de roupas de frios dos pés à cabeça, apontou para um edifício de três andares na próxima rua. Yamato curvou-se e comprou suas castanhas como agradecimento.
— É errado falarmos com eles como meros turistas... — sibilou Youko, sombria. — Não devemos chamar a atenção.
— Não estamos chamando a atenção. — contornou Yamato, jogando uma castanha torrada a boca. Ofereceu o pacote a Youko que recusou. — Agora, se olhar para todos como um cão furioso com certeza chamara a atenção.
Youko tentou mudar sua expressão, mas era inútil. Não conseguia caminhar por entre todas aquelas pessoas sem olhá-las com o olhar enviesado. Aprendera assim e não seria agora que iria mudar.
O dono da estalagem era um velho miúdo e enrugado que os olhou com suspeita no início, como Youko temera, mas permitiu que dividissem um quarto.
O aposento era pequeno, sujo, mas serviria. Sentada sobre o tatame, Youko abriu o mapa dado por Tsunade. O papel marcava as vilas e aldeias atacada pelos rebeldes. Os dois procuravam uma ligação, entanto pareciam ataques aleatórios do que algo planejado.
— E se formos ao castelo? — Yamato apontou para o centro de Yukigakure no mapa, onde o desenho de uma fortaleza chamava a atenção. — Falar com o senhor feudal? Os ataques são para ele, acredito eu.
— Ainda assim... Não faz sentido. — Observou Youko, matutando. — As vilas atacadas são pequenas e longe demais da capital. Se o senhor feudal fica sabendo desses ataques são dias ou semanas depois do ocorrido. — Traçou uma linha com o dedo onde ficava o palácio e onde ficava a vila atacada mais próxima. Não conhecia Yukigakure, mas a distância era de dois dias, aproximadamente.— Talvez ele nem se importe.
— Amanhã vamos para este lugar. — Yamato apontou o dedo para o pequeno círculo, representando uma aldeia de nome Kori, ao norte da capital. A estrada daquela pequena aldeia ligava a que fora atacada, mas ainda assim a distância era grande entre elas.
Houve uma batida na porta. Rapidamente, Youko dobrou o mapa e o guardou, e Yamato deslizou a porta. Era um menino, de rosto sujo e roupas quentes que esperava do outro lado da porta.
— Sim?
O garoto pigarreou, envergonhado.
— O almoço e o jantar é lá embaixo! Se atrasar não come. — E saiu correndo.
— Algum momento vamos sentir fome — disse Yamato fechando a porta. Caminhou até a janela e olhou o cenário lá embaixo. — Vou lá fora. Estarei de volta antes do jantar.
Pulou do parapeito para os telhados cobertos de neve com o capuz do manto sobre a cabeça. Youko fechou a janela, verificou o movimento do corredor e, reclusa no cômodo, voltou a abrir o mapa. Seus olhos vagavam por cada nome dentro de Yukigakure. Seus dedos seguiam as estradas desenhadas como veias e artérias de um corpo. Imaginava qual daquelas pequenas aldeias seu avô nascera.
Houve duas batidas na janela. Youko abriu a janela lentamente, seus olhos encontrando os de Yamato do outro lado. Seu rosto estava corado pelo vento frio, mas seus olhos eram sérios quando disse:
— Eu os encontrei.
Homens e mulheres vestidos de brancos aos pés à cabeça entravam em um estabelecimento comum. Não era uma atitude suspeita, mas tudo era suspeito em um lugar desconhecido. E assistiam tudo isso do alto de uma árvore.
— Vou lá. — Avisou Yamato tomando a frente.
Youko não objetou e, o observando de longe, assistia a um dos homens de branco bater no ombro de Yamato amavelmente ao ser abordado por ele, e o convidou a entrar.
Youko franziu o cenho com a cena. Quem seria tão gentil com um completo estranho?
Saltou da árvore para o chão e foi ter com ele.
— Fomos convidados. — Yamato respondeu ao Youko se aproximar.
Para surpresa de ambos, o local era uma taverna velha. Todas as mesas estavam ocupadas e nem todos ali estavam vestidos de branco, tal como os dois e não chamaram a atenção ao entrar. O cheiro de álcool era forte, mas não havia ninguém bebendo embora copos estivessem disposto nas mesas.
Com os capuzes do manto sobre a cabeça, Youko e Yamato ficaram próximos a porta, ambos de braços cruzados e alertas a qualquer ação suspeita.
— Como os descobriu? — sussurrou a ele.
— Apenas desconfiei. — respondeu. — Muita movimentação em um local tão pequeno. Posso estar errado, mas não custa nada ver o que irá acontecer aqui.
Youko aquiesceu, embora temesse perde tempo assistindo uma reunião familiar.
A porta foi fechada pela última pessoa a entrar e que sorriu amavelmente para os dois e se juntou a uma mesa no meio do recinto. Os ninjas se olharam. A conversa que acontecia ali era comum, trivial, e todos se cumprimentavam amigavelmente. Se houvesse um algum grupo radical com certeza não era eles.
— Silêncio! — uma voz masculina gritou, sobrepondo a cacofonia presente. — A anciã vai falar!
Os murmúrios na taverna cessaram quando uma mulher idosa se levantou da cadeira com a ajuda de uma bengala e de um jovem garoto a segurar seu braço. Ela deu um pigarro antes de falar:
— Nos reunimos de novo, irmãos, em memória da nossa amada Tomoe! — Começou a idosa, sorrindo e abrindo os braços. — Tomoe que foi uma guerreira valente, uma protetora e mãe. Ela sacrificou muito por todos nós, e é com gratidão que nos reunimos para honrar sua memória e seguir seus ensinamentos.
Ela juntou as mãos e abaixou a cabeça numa oração, os demais repetiram o gesto. O silêncio perdurou por um minuto.
— Enfrentamos tempos difíceis! — Voltou a falar. — Inimigos antigos e novos ameaçam nossa paz. Precisamos nos manter unidos, firmes em nossa causa, como Tomoe ensinou! Sabemos que se estivesse viva ainda continuaria nos amando incondicionalmente. Eu a conheci. Lembro de sua beleza única, dos olhos azuis e a pele branca como a neve... — abaixou a cabeça, tristonha. — Era os filhos dela para ser nosso daimio, não o inútil que acha que tem o direito de sangue para governar. Nossa senhora tinha o direito por poder. Por divindade. — Fez uma pausa e sua voz saiu embargada. — E agora não temos nada...
— Por pouco tempo, anciã! — Alguém gritou.
O silêncio foi rompido com a algazarra que se iniciou. Todos passaram a grita, bater nas mesas e protestar suas opiniões.
— Nedzu nos dará força de novo! — Um homem gritou em meio a balburdia.
— Tomoe voltara!
Os gritos vinham de todos os lados. Todos exaltados e influenciados pelas palavras emocionada da anciã. Eram só pessoas manipuladas pelo saudosismo que não viveu, observou Youko. A anciã era a única pessoa mais velha ali, então os demais sequer viram tal Tomoe. Criaram uma fé em um morto, pensou Youko.
— Não a nada aqui. — disse ela a Yamato. — Vamos.
Entretanto, antes que pudesse pôr a mão na maçaneta, o grito que se seguiu os paralisou.
— Morte a Konoha!
A sala mergulhou ainda mais no caos. Mesas foram golpeadas e gritos de ódio contra Konoha ecoaram. Yamato puxou ainda mais o capuz sobre o rosto, cobrindo seu protetor de testa e Youko recuou-se ainda mais contra parede, esgueirando-se para fora.
— Onde pensam que vão? — Um homem perguntou ao vê-los precipitando porta a fora. — Fiquem! Ainda não acabou. Temos bebidas.
— Entramos no lugar errado. — Yamato respondeu, forçando um sorriso amarelo.
Iam saindo quando a mão pesada do homem pesou sobre o ombro de Youko, puxando-a de volta com brutalidade.
— Fiquem... — Movimento fez o capuz da kunoichi cair para trás revelando seu rosto e, consequentemente, mostrando sua bandana. O homem arregalou os olhos com horror vendo algo pior que a morte. — Cães de Konoha!
Com o dedo apontado para Youko, a atenção de todos foram para eles. Youko ficou sem reação, paralisada no lugar e com medo, afinal eram civis e não os atacariam. Entretanto, Yamato reagiu rápido quando um homem correu na direção deles e com um chute na barriga o jogou contra os demais. O corpo tombou sobre uma mesa, derrubando canecas e provocando mais gritos.
A ação teve consequência. Homens revoltosos vieram para cima deles.
— Youko, rápido! — Yamato gritou, acordando a Kunoichi de seu estupor.
Youko concentrou seu chakra e iniciou uma série de selos de mão. Enquanto os selos eram executados, uma energia gélida começou a se espalhar pelo local vindo do corpo da kunoichi. Bateu a mão no chão com força, formando uma fina camada de gelo no piso de madeira. O pessoal ao fundo percebeu tarde demais a técnica, pois o gelo já se solidificava rapidamente sob seus pés.
Saiu para fora correndo atrás de Yamato. Os transeuntes na rua assistiram a cena atônicos quando os dois irromperam porta fora seguido pelo grupo misto de homens e mulheres atrás deles.
Com suas habilidades ninjas, foram capazes de despistar o grupo, mas não a notícia que se espalhou mais rápido que eles. Voltaram a entrar no quarto da estalagem apenas para pegar as mochilas e saírem.
Foram de telhado em telhado, esgueirando-se em becos e vielas até sair da cidade. Já não ouviam a balburdia. Na verdade, não ouviam nada naquela floresta branca e de árvores altas. Estavam longe o suficiente a ponto de perderem a noção de onde estavam. O lugar era uma floresta imensa.
— Achamos rápidos os radicais. — Comentou Yamato com o peito subindo e descendo, ofegante. — Já sabemos onde eles se concentram.
Youko tentou engolir a própria saliva, mas com a garganta seca sentia que engolia agulhas.
— Agora só falta a arma. — disse ela, ofegante. — E pega aquela velha.
Yamato sentou-se sobre o galho da árvore e lamentou:
— Perdemos a oportunidade de comer um bom guisado quente.
— Você se preocupa com isso? — A kunoichi levou a mão na cintura, incrédula no que ouvia.
— Você não? — Arqueou as sobrancelhas ao mirar os olhos castanhos furiosos dela. — Sei que não sente tanto frio assim, mas comida quente fez diferença.
Ela balançou a cabeça e revirou os olhos.
— Vamos sair daqui — deu-lhe as costas. — Se não você vai morrer de frio.
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