Gelo e Cinzas

4 O Último Refúgio


Seus pés afundavam na neve fofa. A trilha que até então pretendiam seguir em direção a Kori havia sumido e prosseguiam sem rumo até ficar o mais longe possível de Yukigakure. O objetivo era que aqueles radicais os esquecessem, se fosse possível, claro. E por isso queriam “desaparecer” da região.

Um dia inteiro de caminhada mostrara a eles que Yukigakure era um lugar cruel. O único centro populacional centrava na aldeia litorânea, o restante era um vasto território repleto de neve e frio, árvores mortas e o som assustador do vento branco. Encontravam de vez em quando propriedades abandonadas e vilas pequenas, isoladas, com moradores desconfiados.

— Yamato — Youko chamou. Ela seguia alguns passos à frente, as calças pretas já brancas pela neve. Ela apontava para uma casa cercada por muro improvisado de madeiras velhas. Na chaminé da casa saia fumaça, um sinal de vida após tanta caminhada. A kunoichi voltou na direção do ninja. — Tire sua bandana. Não vamos andar com isso por aqui.

— Não podemos... — Relutou ele, orgulhoso demais para abandonar o símbolo da Folha.

Ela desamarrou o próprio protetor de testa e jogou na mochila. Ao ver a relutância de Yamato, estendeu a mão, exigindo que entregasse a ela.

— Não... — começou ele, tentando justificar.

— Já deu tudo errado, e não vou deixar acontecer de novo! Vamos bater naquela casa, pedi para passar a noite e inventar uma história. — Ainda assim o ex-ANBU se mostrava resoluto. — Por favor, Yamato, me dê. Não me faça tirar isso da sua testa a força.

Ele deu um suspiro e a contragosto retirou, entregando a bandana a Youko. A kunoichi guardou na mochila, ajeitou-a nas costas e rumou em direção a casa.

A propriedade era pequena com o telhado coberto de plantas de arroz. Ao fundo havia um cercado para algum animal que já não habitava ali há um bom tempo. Bateram na porta e esperaram. Uma mulher abriu uma fresta e os olhou com desconfiança.

Youko e Yamato se curvaram.

— Perdão por incomodá-la, senhora — começou Youko. — Estamos viajando e não temos onde dormir. Poderia nos ceder um local para descansar?

— Há um celeiro lá no fundo — resmungou a mulher, ríspida. E fechou a porta.

**

— Essa história de primos não serviu pra nada. — Resmungou Yamato, sentando-se no chão frio do celeiro abandonado. Uma parte do teto havia caído e acumulara neve no chão, e a outra continuava intacta. O que sobrara de feno estava congelado. — Pode devolver minha bandana?

— Não! Agora fique quieto e não fale nada suspeito. — Ordenou ela. Youko tinha um jeito peculiar em ser silenciosa e observadora e em outros momentos ser autoritária. — Lembre, estamos de luto pelo nosso avô.

Encostaram na madeira velha que servia de parede para o celeiro, dividiram as pílulas para cessar a fome e assistiram a neve cair. Iriam ficar de vigiar a noite toda mesmo que a única alma ali fosse a dona da casa, pois dormir era impossível naquele frio. Youko era imune ao frio, mas reconhecia que se fechasse os olhos ali, não os abriria no dia seguinte.

De repente, sobressaltando Yamato, Youko desencostou da parede e pôs-se de joelho e começou a rezar um mantra. Yamato quase protestou, mas calou-se ao ouvir o som de passos se aproximando do celeiro. A mulher vestida com um vestido preto grosso com um casaco de pelo sobre os ombros apareceu na entrada.

— O que estão fazendo? — Indagou ela, os olhando com os olhos semicerrados, desconfiada.

Percebendo que Youko prosseguiria em seu papel, Yamato respondeu:

— Minha prima está rezando — A mulher não pareceu satisfeita com a resposta pois mantinha seu olhar de julgamento dirigido a Youko. Yamato continuou: — Nosso avô faleceu há pouco tempo, e o desejo dele era andar por toda Yukigakure, mas ele era acamado e nunca realizou seu sonho... Estamos fazendo isso por ele. Perdão se a incomodamos.

O ar quente que saiu de sua boca se condensou no ar, e ela enrubesceu, envergonhada por pensar mal deles.

— Não... Não estão incomodando — disse, sentida pela história. — Eu que peço desculpas. Vim para convidá-los para entrar. As noites costumam ser horríveis, bem sabem, e não queria acordar e encontrá-los mortos.

— Ao menos estaríamos perto de nosso avô. — comentou Youko por fim, abrindo os olhos e sorrindo a ela. — A senhora é muito gentil.

Yamato a olhou incrédulo, surpreso com sua arte cênica. Ele, com tanta experencia ninja, não atuaria tão bem como ela.

A casa modesta tinha poucos moveis. O chão batido da entrada queimava um irori, onde um gato preto se aquecia deitado ao lado. Sobre o irori uma panela estava pendurada por uma corda no teto onde o cheiro do ensopado era convidativo. Ao redor, galinhas ciscavam as migalhas jogadas no chão.

Foram convidados a se sentar e a mulher os serviu com a sopa. Embora a pílula enchesse a barriga e desse a sensação de saciedade, comer algo quente fora muito bem-vindo aos dois.

— Vocês são de onde? — A mulher perguntou, levando a colher a boca.

Yamato ficou em silêncio, comendo, e apenas olhou de viés para Youko, pois deixaria tudo para ela responder.

— De uma fazenda da capital. — respondeu ela. — Você mora aqui sozinha?

Ela negaceou. Era uma mulher jovem, vestida muito bem para enfrentar o frio de Yukigakure.

— Meu marido está viajando a trabalho. Daqui duas semanas ele deve retornar. Aqui também é uma fazenda, embora não pareça. — Deu um sorriso triste. — As galinhas foram os únicos animais que aceitei ficar, vendi todos os outros. Aqui é muito frio para cuidar sozinha.

— Imagino... — Youko observou os animais a rodar pelo cômodo. — Qual a sua opinião sobre... aquele pessoal da Tomoe? — Arriscou sem saber que nome o grupo tinha e sem saber se ela fazia parte dele, mas precisava de informações.

A mulher inclinou a cabeça, sem entender.

— Não conheço nenhuma Tomoe. É alguma vendedora? Soube que vem muitos de outros países.

— Aquele pessoal que odeia Konoha. — Falou Yamato, por fim. — Encontramos com eles no caminho, como... nosso avô não saia de casa, não tínhamos conhecimento sobre eles.

— Oh, sim! Agora sei do que estão falando! — Exclamou. — São umas pessoas doidas, não? Meu marido concorda em parte com que eles falam, mas é muita política envolvida e prefiro ficar de fora. As vezes eles fazem uma peregrinação até aquela mansão abandonada da vila Hyoumura.

Os ninjas trocaram olhares rápidos. Em nenhum lugar das informações dada por Tsunade mencionada o nome de tal vila. O desejo de abrir o mapa e verificar a localidade daquele local assomou o peito de Youko.

— O que tem naquela mansão? — perguntou ela.

A mulher levantou-se e agachou-se na frente a fogueira de chão para mexer na sopa.

— Foi a mansão do clã Yukiryuu. — respondeu. — Já vi uma vez, e acho que antes de ser incendiado foi uma bela de uma mansão. Diziam que eles queriam ser os donos de toda Yukigakure, mas querer não é poder, já diz o ditado. — Ofereceu novamente uma colherada da sopa, mas gentilmente foi recusado e então pôs-se de pé. — Vou arrumar um quarto para vocês. Desculpe, mas não perguntei o nome de vocês.

— Me chamo Yamato e ela, Youko.

— É um prazer. — Ela curvou-se. — Sou Aiko.

O quarto era no fundo da casa, pequeno, mas coube dois futons para eles. Desta vez, Youko dormiria e Yamato faria vigia mesmo que fosse dentro da casa de uma simples mulher e seus animais.

— O que acha da mansão? — Youko perguntou com um sussurro, temendo as paredes finas da casa enquanto arrumava-se para deitar-se.

— Vamos pra lá amanhã. — Decretou o ninja.

Youko deslizou para baixo das cobertas e adormeceu sentindo calor demais dentro daquela casa, enquanto Yamato, mesmo pondo a coberta sobre os ombros, tremia de frio.

**

— Foi o que ouvir... — uma voz de mulher sussurrava. —Mortos não ressuscitam, Aiko, então só pode ser uma coisa.

— Uma coincidência, Umi, nada mais. — Aiko respondeu, impaciente. — Você mesma me disse que eles querem criar algo que imite os poderes dele. Talvez seja só uma demonstração.

— Eles não fariam uma demonstração usando bandanas de Konoha!

A menção a aldeia fez Youko sentar-se no futon sobressaltada. Yamato, parado a porta, levou o dedo aos lábios pedindo silêncio e encostou a orelha para ouvir mais. Como Youko temia, as paredes ali eram de fato finas.

— Estão falando sobre nós... — sussurrou ela, engatinhando até ele.

Yamato aquiesceu.

— Vamos embora. — disse ela, com uma repentina ansiedade batendo no peito. — Se essa mulher esteve na taverna naquele dia ela irá nos reconhecer.

— Não vai...

— Nossas roupas...

— Youko! — Yamato pronunciou firme seu nome, aprendendo a atenção dela em seus olhos. —Havia gente demais lá dentro para nos reconhecer.E você está com as bandanas, sem elas somos apenas primos, não é?

Ela engoliu em seco a aquiesceu. Estava deixando a ansiedade falar mais alto, imaginando situações demais e se assustando por nada. Dobrou os futons, pôs a mochila nas costas e abriu a porta do quarto. Na cozinha, Aiko estava sentada ao lado de uma mulher mais velha, de cabelos pretos com mechas cinzas.

Temeu que ela lhe reconhecesse mesmo com as garantias de Yamato que isso não fosse acontecer, mas ao olhá-la minuciosamente, não lembrava de tê-la visto na taverna. Na verdade, gravara apenas um rosto naquele local, o da líder dos rebeldes.

— Vocês acordaram cedo! — Aiko se levantou do chão, surpresa. — Vou preparar o café. Umi, esses são Yamato e Youko, eles estão de passagem por aqui.

— Não se preocupe, senhora Aiko — disse Youko, impedindo-a de agachar-se em frente a fogueira onde uma chaleira estava pendurada. —, já estamos indo. Agradecemos profundamente a hospitalidade. — curvaram-se a ela.

A mulher ficou surpresa com a repentina partida dos dois, mas mesmo assim Aiko começou a mexer na despensa da cozinha, retirando alguns mantimentos e os enrolando em um tecido.

— Levem. — Estendeu o embrulho a Youko. — Só posso oferecer pouco, mas sei que até concluir o desejo do avô de vocês estarão bem e bem alimentados. Se possível, voltem aqui daqui duas semanas. Meu marido costuma trazer os peixes que não vai vender e fazemos uma fogueira para assá-los.

— Será um prazer, senhora Aiko. — Disse Yamato, curvando-se. Quando empertigou as costas olhou-a nos olhos. — Poderia nos informar como chegamos a Hyoumura?

Saíram com os olhos de Umi, a vizinha de Aiko, sobre suas costas. Youko temia que a capa de frio fosse reconhecida, embora a vestimenta fosse muito comum por ali. Seu medo não era ser atacado por ninjas de Yukigakure, com eles poderia lutar. Mas sim por civis, pois não teria coragem de atacá-los. Sua política pessoal condenava ataques a civis, independente se a fúria deles fosse motivada por medo ou estigada por algum lunático que, sim, merecia morrer. Para ela, civis deveriam estar fora de qualquer guerra.

Pelas informações dadas por Aiko, chegariam em um dia na vila se prosseguissem a viagem a pé e pela estrada que passava atrás por detrás casa. Yamato queria ir correndo para chegar muito mais cedo ao local, mas o receio que subia a espinha de Youko o impedia e ele respeitava a decisão dela. A mulher ia andando e observando tudo, alerta até a mudança do vento que os castigava. Estaria ficando paranoica?

O cenário mudou ao anoitecer e estava diante de uma floresta silenciosa e branca. As árvores eram altas e as folhas estavam cobertas pela neve. As raízes frondosas eram escondidas pela neve que acumulara no chão. Definitivamente longe de qualquer ser vivo, Youko aceitou ir correndo pelos galhos.

O atraso deles os fizeram chegar a Hyoumura ao amanhecer do dia seguinte. Do alto da encosta, onde a floresta terminava, vislumbraram uma paisagem desolada, coberta por neve e que ecoava um silêncio antigo e perturbador.

A mansão, mesmo parcialmente queimada, ainda se erguia como um monumento solitária no centro da vila, com suas paredes escurecidas contrastando com o branco imaculado da neve. As demais casas foram construídas ao redor, pequenas e grandes, e estavam todas abandonadas, cobertas pela neve que alcançava até os joelhos.

Nenhum homem ou mulher ali. Nenhum animal. Se de fato acontecia peregrinação até aquela região fora há muito tempo, pois as únicas pegadas deixadas da neve eram a deles.

Como um alerta, Youko curvou o corpo e retirou a kunai da perna. A cicatriz em sua espinha doía em um aviso silencioso de perigo. Yamato, por sua vez, praguejou. Algo no silêncio profundo havia mudado.

— Isso não está certo — Youko murmurou, seus olhos examinando avidamente cada detalhe da paisagem desolada. — Tem mais alguém aqui.

Yamato franziu o cenho, seu instinto shinobi alerta para qualquer sinal de perigo.

— Vamos... — ele começou, mas foi interrompido pela shuriken lançava em sua direção.

Ele saltou junto a Youko para o telhado de uma das casas, ágeis e alertas. Como que surgido do nada um o homem trajado todo de cinza estava no telhado da casa em frente.

— Por que nos odeiam tanto?! — Ele gritou com a voz carregada de raiva. — Não fizemos nada pra vocês nós invadirem!

Youko apertou a kunai com mais firmeza.

— Não estamos aqui para causar problemas — Yamato falou, sua voz calma contrastando com a tensão no ar. — Estamos apenas de passagem e fomos direcionados até esta vila.

O homem desconhecido riu e cuspiu no chão. O movimento que ele fez foi rápido e Youko pôde captar que seu adversário tirava mais uma shuriken da roupa.

— Acham que somos o que para nos enganar, seus cães?!

Youko trocou olhares com Yamato, ambos alertas a espera de mais inimigos surgirem. O movimento de cabeça de Yamato foi minúsculo, e Youko entendeu, pois no instante seguinte já não estava mais do lado dele, mas ao ar, em um salto largo, lançando suas kunais contra o homem.

O inimigo, porém, mostrou-se ágil, evitando os ataques com movimentos precisos. Com um gesto rápido das mãos, ele convocou uma tempestade de shurikens afiadas, lançando-as na direção de Yamato com velocidade.

O ex-ANBU agiu instintivamente, concentrando chakra em suas mãos e formando uma parede de madeira para interceptar as shurikens.

Focados em um único homem, não perceberem até o ataque vindo por trás começar. Youko desviou com agilidade, mas ainda fora cortada no braço por uma das shurikens lançada por homens que emergiam das sombras. E todos usavam cinza.

Por sobre o ombro, via Yamato acirrado com o homem desconhecido. Precisavam dar um jeito de saírem dali e rápido.

Com sucessão de movimento das mãos, a temperatura corporal de Youko caiu drasticamente, e o clima frio passou a vir também dela. Ajoelhou-se no chão fofo com os olhos fixos nos homens que vinham da floresta acima.

Com um punhado de neve em mãos, apertou-os firmes e quando os inimigos ficaram próximo o suficiente jogou a bola de neve na direção deles.

A bola, inocente, dividiu-se em pequenas lâminas que voou em direção aos seis. Três desviaram, mas ainda assim saíram feridos. Outros três tiveram partes do corpo atravessado. Ajoelhados, levando as mãos aos ferimentos, eles gritaram ao perceber que a ferida congelava e, gradualmente, o corpo também.

Sua kekkei genkai era limitante. Seu corpo aguentava o frio do ambiente, independente da temperatura, mas não o frio produzido pelo próprio corpo. De repente, o primeiro homem saltou para longe, recuando, e levantou a mão chamando atenção dos comparsas.

— Não a machuquem! — Apontou diretamente para Youko e voltou a lutar com Yamato.

A surpresa do momento congelou os movimentos de Youko por um instante, mas logo fora forçada a retomar a defesa diante dos ataques incessantes dos comparsas.

Um veio correndo aos gritos para intimidá-la com uma espada curta, Youko não se moveu até o último instante. Quando a espada cortou o ar onde seu pescoço estivera instante antes, Youko já não estava mais lá. Seu corpo girou com a elegância evitando o golpe por um fio de cabelo.

A kunai mergulhou sob a costela direita do homem, encontrando o caminho perfeito entre os ossos. Girou a lâmina sentindo cada camada de tecido e músculo se rasgar.

Quando arrancou a kunai, um jorro de sangue quente pintou a neve de vermelho vivo. Seu oponente caiu de joelhos primeiro, depois de bruços, com os dedos se contraindo como aranhas.

Sem perder tempo, Youko correu até Yamato, juntando-se a ele no telhado. Os dois lutavam lado a lado, repelindo os ataques com uma sincronia até que algo estranho foi arremessado na direção deles.

Um objeto negro bateu no telhado e rolou, balançando levemente. Era apenas uma esfera... ou parecia ser. Youko olhou aquilo confusa. Havia algo errado com aquilo.

Seu corpo reagiu antes que sua voz saísse. Ela agarrou o braço de Yamato. Ele compreendeu instantaneamente, os olhos se arregalando no milésimo de segundo antes do inferno se abrir.

A bomba explodiu.

O som veio primeiro e depois a pressão, esmagando seus pulmões contra as costelas. Youko viu Yamato ser arremessado contra ela, seu corpo transformado em projétil humano. Eles colidiram com o chão numa mistura de membros entrelaçados, ossos rangendo sob o impacto.

Ainda estava consciente quando a fumaça começou a se dispersar. Tossiu uma vez, os olhos semicerrados entre fuligem e neve derretida.

Youko tentou mover os dedos. Nada. Seu corpo era um peso morto. Yamato, sob ela, respirava em pequenos arfos. Vivo.

— Que porra é ela? — Ouviu um deles dizer antes de apagar.