Gelo e Cinzas
5 Herança Esquecida
Desde criança, ele sempre fora rápido e surpreendente habilidoso. O prodígio do clã. Youko sabia que jamais alcançaria sua velocidade ou igualaria suas técnicas, mas não se magoava com isso. Pelo contrário, gostava de vê-lo à frente, porque assim nunca o perdia de vista.
De repente, ele parou sobre um galho. Ela chegou meio segundo depois, esbarrando no ombro dele.
— O que foi? — Sussurrou, curiosa, espiando por cima de seu ombro.
Shisui agachou-se, e levou um dedo sobre os lábios. Youko soltou um riso nasal quando viu o que se desenrolava lá embaixo: cercados por árvores e mato alto, Itachi treinava Izumi.
— Então isso que você queria me mostrar. — Youko brincou, mas a voz perdeu o humor ao ver Izumi rir, o rosto corado. Não sabia se era do treino ou da proximidade do Uchiha. — Acha que ele gosta dela?
Shisui nem hesitou:
— Não tanto quanto ela.
A resposta a pegou de surpresa. Ela virou-se para ele, os dedos apertando a casca do galho.
— Gosta de mim? — A pergunta era sincera e dize-la foi como retirar um peso que carregava a um tempo dentro do coração.
Seus olhos ônix, decorados com cílios altos, viraram-se para ela. Youko conhecia seus próprios sentimentos por Uchiha Shisui com a mesma clareza com que conhecia o corte de suas próprias kunais. Mas ele? Ele sempre fora um livro aberto, franco em tudo menos nisso.
— Muito.
Uma palavra e o coração de Youko parou. Depois disparou, violento, como se quisesse fugir do peito. O calor subiu-lhe pelo pescoço, queimando as orelhas, e seu sorriso escapou antes que pudesse contê-lo. Ela desviou o olhar, mas não adiantou: as bochechas estavam em chamas, e Shisui viu. Ele sempre via.
***
Recobrou a consciência sentindo todo o corpo fraco, débil e uma dor de cabeça pugente. Se não conhecesse todos os truques e golpes baixos, jamais teria noção que havia desmaiado com uma bomba de gás. Mas algo que estava estranho. Não conseguia mexer suas mãos totalmente. Ainda de olhos fechados, pois doía a menor tentativa de abri-los, mexeu as mãos e encostou em outra. Os dedos eram grossos e o breve contato fez com que os dedos desconhecidos fechassem sobre o seu.
— Ya... Mato... —O nome saiu em um arranhado, a garganta queimando como se tivesse engolido brasas.
A luz era uma agressão quando finalmente abriu os olhos. O local parecia abandonado, não havia moveis além das cadeiras onde ela e Yamato estavam sentados. Suas mãos estavam amarradas com força atrás da cadeira. Um de costa para o outro. A pouca luz vinha do teto alto do recinto, de um furo minúsculo no telhado velho e de onde caia flocos de neve.
— Merda. — Youko praguejou.
Virou o pescoço o suficiente para ver Yamato com a cabeça tombada, adormecido, e apertou os dedos dele com força. Tal como ela, mexeu-se atordoado e confuso.
— Fomos capturados. — Ela informou e deu um sorriso com desdém. — Isso já é um progresso.
— Onde eles estão? — Yamato, com o olhar confuso, escaneou o local.
— Não os vi... — respondeu, então ponderou ao sentir a presença mais alguém. — Mas não estamos sozinhos...
Youko soltou os dedos de Yamato e concentrou em seu chakra a fim de congelar as amarras, mas parou assim que ouviu passos se aproximando.
A porta rangeu ao se abrir, revelando a silhueta curada da anciã da taverna, seu candeeiro projetando sombras dançantes nas paredes. Youko sentiu um repentino ódio subir ao reconhecê-la, pois para ela a idosa, se não era líder dos radicais, era a que mais influenciava os ataques e, com certeza, sabia onde estava a arma.
Entretanto, a idosa tinha um estranho brilho nos olhos ao olhar para Youko. Admiração? A kunoichi franziu o cenho.
— Não queremos fazer mal a você, senhora. —Yamato quebrou o silêncio, chamando a atenção dela para ele. — Não viemos em guerra.
Virou o candeeiro para Yamato, iluminando seu rosto com alguns cortes e sujeita devido a luta. O brilho em seu olhar sumiu de repente ao se dirigir ao ninja.
— Disseram que foram vocês dois que invadiram a reunião.
— Não fizemos por mal. — Disse ele. Mexeu os pulsos amarrados. — Se nos soltar, podemos explicar tudo.
A resposta veio de trás da porta, antes mesmo que ela se abrisse:
— Não caia das armadilhas deles, velha.
O homem que os atacara entrou, seu rosto agora exposto sob a luz trêmula do candeeiro. Sem o capuz cinza, seu rosto era anguloso, com olheiras sob os olhos castanhos. Os lábios eram finos e franzidos e a expressão era taciturna.
— Eles são inimigos.
O alerta dado pelo homem não surgiu efeito na idosa que parecia encantada pela kunoichi de Konoha. Youko encolheu os ombros.
— Tomoe age de forma estranha, Ida... — falou, sonhadora, com os fixos em Youko. Avançou, tocando os dedos nodosos em uma ferida no rosto da ninja. — Menina... qual é seu nome?
Pensou em inventar, mas era apenas uma civil que, assim como eles dois, poderia estar refém daquele homem chamado Ida.
— Youko... — Respondeu, cautelosa. — E o seu?
— Arisa. — Se ajoelhou diante dela, erguendo o candeeiro para iluminar o rosto da kunoichi. — Não vejo nenhum traço... — Olhou minuciosamente para o formato do rosto, os olhos castanhos, o cabelo negro como a noite. — Você pinta o cabelo?
— Não...— Franziu as sobrancelhas. — A senhora está bem?
Impaciente, Ida agarrou o braço da velha com força, erguendo-a como um fardo.
— Volta pra casa, velha, não tem nada aqui pra você! — Ralhou.
Youko olhou por sobre ombro para Yamato, mas nem ele entendia o que se passava. A cena que se desenrolava diante dos ninjas de Konoha era confusa.
— Mocinha, você matou quatro homens. — Disse a velha, desvencilhando da mão de Ida e voltando a ser aproxima de Youko.
— E vão me matar como ‘justiça’? — Escarniou, soerguendo uma das sobrancelhas.
— Obvi... — Ida começou, mas Arisa o interrompeu om um grito.
— Não! Jamais Mas... o modo como fez... O que usou para matá-los?
Novamente, Youko olhou para Yamato buscando algum sentido naquilo.
— Jutsu...?
Arisa ajoelhou-se novamente, ainda mais perto desta vez.
— Youko, certo? — Seus olhos brilhavam com uma luz quase febril. —Seu jutsu... é idêntico a kekkei genkai do clã de Tomoe.
— Creio que esteja confundido, senhora. — Continuou com o cenho franzino.
— Não. Nunca confundiria. — Disse, convicta. — Eu vi corpos congelados daquele jeito quando era criança. Era assim que os membros do clã lutavam. — Seu olhar perdeu-se por um instante, como se visse fantasmas. — Quando você congelou os pés daqueles homens... foi como se Tomoe tivesse voltado.
Youko soltou uma risada seca.
— Não sou reencarnação de ninguém.
— Mas é descendente dela!
Youko questionou a sanidade da idosa. O fervor naqueles olhos era quase assustador. Respirou fundo, controlando-se, pois não desejava ser desrespeitosa com a idosa.
— Meu clã tem origem aqui, sim, — disse. — mas foram exterminados, pelo que soube.
Arisa inclinou-se ainda mais, seu hálito quente atingindo o rosto de Youko:
— Seu sobrenome é Yukiryuu...?
Franziu o cenho e negaceou. Nunca ouvira tal nome.
— Satozuke.
Como que puxada por uma mão invisível, a idosa ficou de pé e cambaleou para trás, sendo aparada por Ida para não cair.
— Não... Não pode ser! — Seu rosto estava pálido, as mãos trêmulas. — Você é parente de Saito Satozuke?
O coração de Youko parou. Vovô. A imagem do homem cego, suas mãos ásperas ensinando-a a amarrar uma kunai, surgiu em sua mente com dolorosa clareza.
— Ele ainda estava vivo? — Questionou a idosa, levando a mão ao peito. — Era um dos cavalariços, eu lembro... A irmã dele tinha a Kekkei Genkai, mas ele, coitado, nasceu sem. — Seus olhos encheram-se de lágrimas. — Naquela noite horrível achei que tinha sido morto. Então ele fugiu para Konoha... Como ele está?
Sua raiva esmoreceu dando lugar a uma dor antiga.
— Ele morreu há cinco anos... — respondeu. O toque dos dedos de Yamato sobre os seus a trouxeram de volta. — Agora pode nos soltar?
Então, com uma força surpreendente, Arisa agarrou o braço de Ida.
— Solte ela, Ida! — Exigiu, segurando o braço do homem. — Ela é a nossa esperança! Não acredito nisso... uma Yukiryuu vivendo com os inimigos!
— Satozuke. — Youko a corrigiu, irritada. — Meu clã é Satozuke.
— Você tem irmãos? — Arisa perguntou, ignorando a queixa da kunoichi.
— Por que não nos soltam pra conversamos direito? — Yamato interveio, seu tom de voz calmo contrastando com a tensão no ar. Seus pulsos se mexiam discretamente contra as cordas. A conversa o estava entediando e ficar numa sala minúscula ao lado do homem que os atacara não dava uma sensação tão boa.
— Não tenho... — Respondeu Youko encarando-a com os olhos semicerrados, desconfiada com tanta pergunta. A anciã não se conteve. As perguntas jorraram como um rio transbordando sobre seus pais, seu nascimento, cada detalhe de sua vida
.— Eles morreram! Senhora, é melhor soltar a gente...
Arisa implorou para Ida a desamarrasse, com as mãos unidas em súplica.
— Case com ela, Ida. — A repentina mudança de assunto fez os três soltarem um som de espanto. — Oh, esse seu amigo é seu namorado?
As bochechas de Yamato coraram levemente com a suposição. Por outro lado, Youko fez uma careta.
— Pra que quer saber tanto da minha vida? — Youko rosnou.
— Eu tenho certeza de que você é uma Yukiryuu! A última do clã de Tomoe. Mas não pode ser a última... — Os olhos de Arisa baixaram para o ventre de Youko. — Você tem filhos?
Youko sentiu o sangue ferver em suas veias. Fechou os olhos, deixando seu chakra fluir. O ar tornou-se gélido, o vapor de sua respiração condensando em nuvens brancas.
— Nos soltem, ou eu congelo isso aqui tudo antes que alcancem a porta. — Ameaçou.
Ida riu, um som seco e sem humor.
— Tente — ele desafiou, os dedos acariciando o cabo de sua kunai. — , e se não conseguir, arranco seus olhos e depois sua língua.
— Ida! — A velha gritou horrorizada. — Seu monstro! Não acredite nele, mocinha. Eu te ajudo. — Rápida, a senhora pegou uma das kunai de Ida presa na cintura e cortou as cordas cânhamo que prendiam as mãos de Youko. — Seus dedos são frios... — Os de Tomoe também eram assim. — Arisa murmurou, maravilhada, apertando as mãos libertas da kunoichi.— Ida, eu vou levá-la comigo.
Youko arrancou suas mãos do toque da anciã, pondo-se de pé com um movimento fluido.
— Só saio daqui com ele. — Declarou, apontando para Yamato.
— Você disse que ele não era seu namorado, então por que se preocupa com ele? — Os olhos da velha brilharam com urgência fanática. — Você tem que se preocupar com o pai de seus filhos.
Youko revirou os olhos e empurrou a velha para o lado. Agachada a cadeira de Yamato, tentando desamarrá-lo, sentiu a lâmina fria encostar em sua garganta.
— Tente e eu corto sua garganta.
A lâmina de Ida pressionava sua garganta, mas Youko não recuou. Seus olhos, frios como o gelo que dominava seu chakra, encontraram os dele sem medo.
— Você realmente acha que vai me impedir? — Ela sorriu. — Eu posso congelar seu braço antes que você sinta o primeiro arrepio.
Ida hesitou por uma fração de segundo, e foi o suficiente. Arisa aproveitou o momento, colocando-se entre os dois.
— Parem! — Suas mãos trêmulas se ergueram, como se pudessem segurar a tensão no ar. — Youko... se você vier comigo, eu garanto que seu amigo será solto. Ida, avise o Nezu se quiser, mas ela fica comigo.
Youko não tirou os olhos de Ida.
— E como eu sei que ele saira daqui vivo?
— Eu juro por Tomoe! — A velha apertou as mãos em súplica. — Ele não será tocado. Mas você... você precisa vir. Eu tenho que te mostrar tudo. Todas as coisas que Tomoe guardou.
— Senhora, não! — Youko protestou, mas então se ajoelhou.
— Por favor... — Implorou a chorar
Yamato debateu-se contra as cordas.
— Youko, não faça isso. — A voz dele era firme, mas ela percebeu a preocupação por trás. — Eles não vão cumprir a palavra.
Ela sabia que ele tinha razão. Mas também sabia que estavam encurralados. Com um suspiro, Youko relaxou os ombros.
— Tá bem. — Ela olhou para Arisa, fingindo resignação. — Eu vou com você.
— Youko! — Yamato gritou.
— Mas. — Ela ergueu um dedo, a voz cortando como uma lâmina. — Se ele não estiver livre em cinco minutos, eu congelo tudo aqui— Seu olhar fixou-se em Ida. — Começando por você.
Arisa acenou freneticamente.
— Sim, sim! Faça como ela diz, Ida. — pediu a idosa, insistente. — Solte o homem e não o machuque, por favor. Depois vá até a mansão. — Seus olhos úmidos voltaram-se para Youko. — Juro pela alma de Tomoe que nos guiou até aqui que nada de mal acontecera com ele.
O homem resmungou, mas obedeceu. Com um movimento brusco, sua kunai cortou as cordas de Yamato, que esfregou os pulsos marcados, os olhos nunca deixando Youko. Ela podia quase ouvir seus pensamentos: "O que diabos você está fazendo?"
Youko manteve seu olhar firme sobre os dele para transmitir confiança de que podia confiar nela
— Vamos.
A velha sorriu, aliviada, e puxou seu braço. O toque dela era estranhamente maternal, e isso a perturbou mais do que a ameaça de Ida. Yamato ficou para trás, seus olhos escuros acompanhando sua saída.
Com o candeeiro na mão, a idosa a levou ao cômodo adjacente, onde moveis estavam tombados, janelas quebradas e cacos de vidro pelo chão.
— Vamos por aqui. — Agachou-se próxima a porta e abriu um alçapão. — É mais rápido.
Youko desceu a escada íngreme de madeira logo atras de Arisa. Sem o candeeiro, estariam no mais total breu lá embaixo. A passagem por debaixo da casa era lamacenta, com um forte cheiro de musgo e um vento insistente que as empurrava para trás.
— Onde isso vai dar? — Youko levantou o braço para proteger o rosto do vento cortante.
— Na mansão.
— Todas as casas têm uma passagem pra lá?
A idosa aquiesceu.
— Isso explica muita coisa — observou Youko, supondo que a peregrinação mencionada por Aiko acontecesse por ali.
Uma escada reta de madeira levava a outro alçapão. Arisa o abriu relevando um aposento amplo, escuro e de teto alto. O silêncio ali reinava. As portas eram de correr, feitos de papel translucido, alguns rasgados e algumas portas queimadas.
— O que aconteceu aqui? — Conseguia imaginar a opulência do local com o pouco que sobrara intacto.
— Fomos atacados no meio da noite — respondeu, seus olhos vagando pelo aposento. — Ninguém esperava... Pelo menos eu não. Venha quero te mostrar uma coisa. Fara você acreditar no que eu digo.
Com dificuldade, Arisa empurrou a porta, revelando outro aposento parcialmente tocado pelo fogo. O teto não tinha caído por pura sorte, pois as largas vigas de madeira estavam torradas. Passaram por outro cômodo e mais outro até entrar em um onde o passado ainda resistia.
O fogo não chegara ali, aparentemente. O chão de madeira e o teto estavam intactos, apenas sujos de poeira e teias de aranhas que tremulavam com a corrente do ar. Arisa caminhou até um pequeno armário preso a parede.
Ao abrir as portas de madeira desgastadas com cuidado quase cerimonial, revelou uma tapeçaria antiga. O kamon do clã.
Youko sentiu o ar sair de seus pulmões. Era o brasão de seu clã, o Satozuke, mas a cor era diferente. Seus pés a levaram até o armário antes que percebesse, os dedos estendidos, tocando o tecido desbotado.
— É o brasão do meu clã... — Sussurrou. — Por quê?
Arisa abriu um largo sorriso diante do choque de Youko.
— É o brasão do clã Yukiryuu. — Ela apertou as mãos conta o peito. —Você é uma Yukiryuu!
Youko recuou, sacudindo a cabeça em negação. Nada fazia sentido. Compreendia que o avô não lhe contara a verdade por medo, temendo uma retaliação de sua parte, mas até os arquivos secretos de Konoha registrava seu clã como Satozuke. Não Yukiryuu.
O brasão com um dragão mordendo a própria cauda era o mesmo, a diferença era cor. Aquele à sua frente era em um azul em um fundo branco. O dos Satozuke era dourado sobre vermelho-sangue. Como poderia haver tamanha semelhança?
— Meu avô me contou que meu clã foi massacrado pelo Segundo — Ela fechou os olhos, revivendo aquele dia terrível, quando confrontara o velho após Shisui lhe mostrar a verdade —Disse também que não havia nada aqui para poder voltar. Mas esse nome... nunca surgiu.
— Os Yukiryuu foram exterminados por ordem do Nidaime de Konoha. — Arisa pronunciou com nojo. — Acredita em mim agora?
Youko permaneceu em silêncio, os olhos grudados no kamon. A lembrança veio nítida: O avô, cego e envelhecido, ensinando-a a bordar o kamon em suas roupas. “Ainda temos que ter orgulho do nosso pequeno clã.” Ela, adolescente, costurando o dragão dourado em um haori novo, sonhando que, em breve, usaria o uchiwa dos Uchiha junto. Quanta inocência.
— Meu avô disse que nossa Kekkei Genkai era perigosa. Eu estava marcada para morrer a qualquer sinal de rebeldia civil...
— De fato vocês eram poderosos. Podiam conjurar nevasca, congelar um homem até a morte ou transformá-lo em uma estátua de gelo com um simples toque. Todos tinham medo..., mas os adoravam. — Abriu os braços, sonhadora. — Amava andar por essa mansão de cima a baixo, atender as mulheres e ajudar os homens. Eu concordei quando Tomoe disse que a mansão era pequena demais e que o palácio do xogum deveria ser deles. Yukigakure deveria ser deles. Tudo deveria ser deles. Mas... Aquele Hokage... aqueles ninjas vieram a noite e não pouparam ninguém. Eu era só uma empregada a meio a tantos outros e podemos fugir, mas o que aconteceu a essa vila foi hediondo. — Tomou as mãos as Youko. — Você veio para vingá-los, não?
Youko arrancou as mãos do seu toque.
— Não sou uma Yukiryuu. — Seu tom era cortante. — E nasci em Konoha. Jamais atacaria a aldeia onde nasci.
— Mas atacaria onde seu clã surgiu? — Questionou, inclinando-se para frente. — Mataria pobres pessoas que creem na esperança do seu clã?
— Que esperança? — Arqueou as sobrancelhas. — Vocês têm uma arma cruel. Congelaram pessoas e aldeias inteiras só para tomar o poder? Isso é ser tão cruel quanto o Segundo.
A velha pestanejou, confusa.
— Que arma? — indagou. — Nós não usamos armas. Só fazemos oração e peregrinação.
Youko franziu a testa.
— Você não é líder dos radicais?
A idosa negaceou veementemente.
— Sou apenas a porta-voz de Tomoe. Reúno pessoas que tem paixão por ela, e de como temos esperança de alguém os vingar, mas não matarmos ninguém... — Seus olhos escureceram. — Você está nos confundindo com o Nedzu.
— Quem é Nedzu?
O som de passos espantou Youko. Havia abaixado a guarda. Absorta nas palavras de Arisa, não percebera outra presença na sala. Não teve tempo de reagir. A pancada na têmpora foi precisa e brutal. Luzes explodiram em sua visão, o mundo inclinando-se violentamente. Seus joelhos atingiram o chão com um baque surdo, as mãos tentando inutilmente amortecer a queda.
Arisa estava diante dela, a boca aberta em um grito que Youko não conseguia ouvir. A escuridão a envolveu como um manto pesado, arrastando-a para o abismo. Seus dedos se contraíram uma última vez no chão de madeira, arranhando a superfície envelhecida.
Yamato...
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