Gelo e Cinzas

17 Os Medos que Não Disse


Medo. Quando teve as costas cortada Youko sentiu medo de jamais puder se mover como antes, mas não dissera ninguém e sequer demonstrou. Quando os pontos puderam se retirado, ignorando a cicatriz que ainda repuxava, apresentou-se imediatamente ao Hokage, pronta para mais uma missão, com medo de sua longa recuperação condená-la a morte.

Não mostrou medo quando avô faleceu, deixando a sozinha, numa casa grande demais para uma pessoa. Nunca contou que trocou a casa por um apartamento minúsculo não por praticidade, mas por pavor. Pavor de ouvir os passos que não existiam. Pavor do vazio que se estendia pelos corredores. Pavor do silêncio que ecoava como um aviso de que ela estava sozinha no mundo. Afinal, quem a ouviria, se não o próprio medo que sentava ao pé da cama quando ia se deitar?

Entretanto, todos sabiam o quão profundo a morte de Shisui a machucara. A dor nunca cicatrizou, permaneceu aberta e congelou em algum canto dentro dela. Ouvir a voz de Itachi vibrar no peito enquanto segurava firme seu manto era estranho. Sua emoção e razão digladiavam. Sua razão berrava que era perigoso, que era errado, que ele era um familicida.

Mas sua emoção, por outro lado, se curvava. Porque o calor dele tocava exatamente onde ela sempre congelava por dentro.

A razão dizia: solte-o. Se afaste. Retome o controle.

A emoção sussurrava: Fica. Pelo menos agora fica.

— Eu vou falhar — finalmente disse, obedecendo sua razão, afastando-se do Uchiha, mas as mãos dele mantinham-se firmes em suas costas. — Yamato estará morto e o Conclave...

— Pense que falhar tentando é um fim mais honroso do que desistir por medo de falhar. — ele disse, sem crueldade, a interrompendo. — Arisa teme que você seja a Tomoe. O Conclave espera que você seja a Tomoe. A única pergunta que importa… é se você quer ser a Tomoe?

Youko apertou ainda mais os dedos sobre o manto e deitou a testa do peito de Itachi. Fechou os olhos. A escuridão por detrás das pálpebras trouxe lembranças de seu avô. Das noites de fogueira, de seus conselhos, do orgulho do nome Satozuke e do nada que havia em Yukigakure para eles.

Quando abriu os olhos, levantou o rosto e falou com determinação:

— Eu não sou Tomoe. Minha história é diferente.

Os olhos de cor ônix e profundos fitavam o dela quando ele assentiu, com um leve, quase imperceptível, sorriso em seus lábios. Suas mãos sobre a costas dela doíam devido ao frio produzido por seu corpo, mas sentia que, gradativamente, sua temperatura regulava.

— Então prove a si mesma — disse ele, em tom firme. — Que sua história é diferente.

Ela recuou só o suficiente para olhar o rosto dele de perto. Era estranho confiar em alguém que carregava tanto sangue nas mãos quanto ela carregava cicatrizes na alma. Mas era mais estranho não confiar.

O Uchiha levantou uma das mãos, com movimentos lentos, para que ela pudesse recuar se quisesse. Youko levou uns instantes até notar que podia interromper aquele contato, mas ela não quis.

E Itachi percebeu.

Para ela, a aproximação era um abrigo, um raro instante de calor num corpo que vivia brigando contra o frio. Um consolo silencioso, uma âncora para impedir a mente de despencar no pavor. Mas para Itachi… não era tão simples.

O tempo considerado longo por ele com as mãos pousadas em suas costas já era perigoso demais. Não pelo toque em si, mas pela lembrança que trouxe da visão dela no banho e Youko não fazia ideia disso. Itachi, porém, precisava de toda disciplina que tivera desde criança para manter as mãos onde estavam. O frio dela nas pontas de seus dedos. O som quase imperceptível da respiração que tremia. A rigidez inicial cedendo gradualmente… Cada detalhe era um convite perigoso.

Então o movimento dela de erguer o queixo para o olhá-lo o fez inclinar o rosto, acompanhando o movimento dela. Quase um reflexo. O tipo de aproximação que não tinha nada a ver com proteção que Youko via… e tudo a ver com desejo com o desejo que Itachi sentia.

O nariz dele quase tocou o dela. Os olhos dela subiram dos lábios dele até encontrar os olhos dele e Itachi sentiu a respiração falhar. Se ela se movesse apenas um pouco… Se respirasse mais fundo… Se inclinasse o queixo… Ele não teria forças para recuar.

— Tsc. Eu sabia.

Uma voz grave e arrastada cortou o momento como uma espada afiada. Kisame Hoshigaki estava parado a poucos metros, com a Samehada apoiada no ombro. Seu sorriso, sempre repleto de dentes afiados, parecia ainda mais predatório.

Youko arregalou os olhos e deu um passo para trás tão rápido que quase escorregou. Os olhos de Itachi, que tinham suavizado, voltaram à sua frieza habitual, fixos em Kisame com uma intensidade que faria qualquer um recuar, exceto seu parceiro.

— Não era pra você ficar com a velha? — Perguntou Itachi, fechando os olho. ,A ausência repentina do toque de Youko fez Itachi cerrar o punho ao lado do corpo.

Kisame deu de ombros, movendo a Samehada.

— E perde a oportunidade de ver você perder o BV? Nunca!

— O que?! — A indignação saiu do peito de Youko com força, em um grito em pleno pulmões. Seu rosto ficou vermelho não de vergonha, mas de raiva. Ela avançou até ele, o dedo em riste, cada fibra de seu corpo rígida de indignação. — Seu peixe podre desgraçado! De onde você tirou uma merda dessas?!

Kisame soltou um assovio baixo, divertido.

— Ei, calma aí, gelinho. Foi só uma brincadeira…

— Brincadeira? — Ela quase se engasgou com a palavra. — Eu devia enfiar essa sua espada inteira na sua boca só pra ver se você pensa antes de falar merda!

Itachi, que tentava manter a compostura, olhou surpreso para a explosão da kunoichi. Quando o canto da boca dele ameaçou esboçar um sorriso...

— E você não vai falar nada?! — Ela virou para ele, incrédula. Então empurrou Kisame com o ombro, furiosa. — Idiotas! Vocês dois. — rosnou. — Eu tenho uma missão pra cumprir! Então vocês podem ficar aí, rindo como dois imbecis, enquanto EU resolvo coisas importantes!

Sem esperar resposta, ela se virou e saiu com passos duros e rápidos, quase correndo, desaparecendo entre as árvores antes que qualquer um dos dois pudesse chamá-la. Por alguns segundos, Itachi ficou parado, os olhos fixos no local onde a kunoichi desaparecerá… até Kisame estalar a língua do jeito mais irritantemente satisfeito possível.

— Hmmm. — Começou o Hoshigaki. — Sabe... Tenho certeza que esta caidinho pela herdeira ali. E, sério, desculpa atrapalhar, mas a velha estava louca achando que ela estava cometendo suicídio. Deveria ter desconfiado depois da cena de mais cedo. — Deu uma piscadela.

Itachi fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, já sabendo que não teria paz.

— Kisame…

— Ah, qual é — o Hoshigaki ergueu as mãos, rindo. — Não me olha desse jeito. Eu vi sua cara hoje de manhã. A velha ajudando Youko no banho e você estranhamente parado perto de mais da porta.

O maxilar de Itachi tensionou.

— Você não sabe do que está falando.

Kisame gargalhou.

— Sei sim. Eu estava lá. Quer dizer, tecnicamente não lá, mas perto o suficiente pra ver você sair da casa como se tivesse levado um jutsu de paralisia. — Kisame então se inclinou, baixando a voz num sussurro venenoso: — Me diz uma coisa, parceiro… você olhou porque não conseguiu evitar ou porque não quis evitar?

Itachi virou o rosto devagar, o olhar frio, ameaçador. Kisame levantou as mãos, ainda rindo.

— Calma, calma! Não vou julgar. Só estou dizendo que, se fosse eu, também teria ficado sem reação.

Itachi respirou fundo, mas não disse nada.

— Por que não cala a boca?

***

Arisa estava na porta quando Youko surgiu da floresta. Era nítido que idosa estava agitada e antes que a kunoichi se aproximasse mais, Arisa correu ao seu encontro, agarrando-a pelos ombros.

— O que você fez? — a voz saiu trêmula, tomada de pânico. Os olhos da velha percorreram cada centímetro de Youko, em busca de cortes, sangue, qualquer sinal de que algo terrível tivesse acontecido. — Está gelada! Gelada como um cadáver! Por favor… por favor, me diga que não tentou se matar…

Youko piscou, surpresa.

— O quê?! — Ela deu um passo para trás, colocando uma mão sobre a da idosa para afastá-la gentilmente. — Arisa, eu não… eu não faria isso.

A idosa engoliu em seco, procurando nos olhos de Youko se a afirmação era real.

— Você saiu daquele jeito... — disse ela. — E depois a temperatura diminuiu muito, muito mesmo. Achei...

— Achou errado — retrucou Youko, desvencilhando das mãos da idosa, marchando para dentro da cabana.

A idosa abriu a boa para falar, mas fechou, seguindo Youko. Ela parou para olhar ao redor, notando a ausência dos homens que estavam ali pela kunoichi.

— Onde estão seus amigos?

— Amigos — resmungou Youko, enojada. — Os dois idiotas estão lá atras.

Dentro da cabana, Youko rumou para o quarto, pegando seu coldre e o amarrando na cintura. Verificou se as armas continuavam ali e se estavam afiadas. Arisa mantinha-se em pé, parada, no pequeno cômodo que servia de sala e cozinha, vendo Youko ir e vim com fúria, precisão.

Quando, por fim, a jovem parou de andar e sentou-se em frente ao irori, estendendo as mãos azuladas de frio para o fogo, Arisa tomou coragem para perguntar o que lhe incomodava:

— Você vai embora hoje? — A pergunta saiu mais suave do que pretendia, mas carregava medo.

Youko não respondeu de imediato. O fogo refletia nos olhos dela, que permaneciam fixos nas chamas.

— …É possível. — Disse, em tom baixo.

— Possível?

Youko desviou sua atenção para Arisa. A idosa tinha o semblante de preocupação e angústia. A jovem suspirou, prevendo toda ladainha de clã e pessoas há muito tempo mortas.

— Minha missão. — respondeu, simples. — Obrigada por contar sobre o Shimo no Kechigan, mas ainda tenho que acabar com o Conclave.

Arisa inspirou como se tivesse levado um golpe.

— Youko… — chamou. — Você está fraca! Precisa se recuperar! Não pode ir embora assim!

Youko deu um suspiro.

— Meu amigo pode estar sendo torturado agora, senhora Arisa, ou morto. — Sua voz saiu sombria, olhando para o fogo. — Não posso ficar parada.

— Mas você vai morrer se sair desse jeito!

Youko deu de ombros.

— Eu já perdi gente demais pra ficar com medo disso.

Arisa soltou um som de indignação, como se tivesse levando um tapa. Se agachou em frente a kunoichi, olhando para os olhos dela, que estavam fixos no fogo.

— Não fala assim! — Pediu. — Você é importante para mim. Para todos.

Youko deu um uma leve risada de escarnio. Era irônico.

— Yamato está sozinho. — Disse ela. — E o Conclave não vai parar. Se eu descansar, eles ganham tempo.

Percebendo que não seria capaz de influencia-la, Arisa deu um suspiro cansado:

— Então… você vai mesmo me deixar hoje?

Youko finalmente a encarou. Havia tristeza ali, sim, mas também determinação.

— Se eu não voltar… — começou, mas Arisa a interrompeu com um gesto brusco da mão.

— Não fala isso! Pelo amor dos deuses, não fala isso.

— Eu volto. — Youko respirou fundo. —Prometo.

— Então… pelo menos coma antes de ir. — pediu, a voz tremendo, os olhos úmidos. — É a única coisa que ainda posso fazer por você.

Youko voltou a olhar para o fogo, mas seu peito parecia menor, apertado. Sabia muito bem o quanto promessas eram frágeis como gelo fino. Então a porta da cabana deslizou com brusquidão. Kisame entrou primeiro, ofegando de tanto rir, como se tivesse contado a melhor piada do mundo para Itachi que vinha logo atrás. Youko os olhou com desprezo, pegando a cumbuca de comida com força.

**

— Então vamos embora hoje — observou Kisame, falando a cada colherada de comida. — Ótimo! Mas a velha vai ficar aqui sozinha?

Arisa estendeu a cumbuca para Itachi, que aceitou com um leve aceno de agradecimento. A disposição natural se formou quando os três se sentaram diante do irori: Youko de um lado, rígida, ombros tensos; Itachi no meio; Kisame do outro lado, mastigando alto, completamente despreocupado.

— Não tem problema. — Respondeu Arisa. — Se eu ficar aqui, ficara mais fácil pra Youko voltar.

Itachi suspirou suavemente.

— Então precisamos montar um plano. — Ele se virou para Arisa. — Você tem mapas?

A idosa aquiesceu, pondo-se de pé.

— Tenho. No baú. — Caminhou até o quarto com passos rápidos, e retornou com uma pilha organizada de pergaminhos. — São velhos demais. Algumas rotas e aldeias marcada aí não existem mais.

Itachi pegou os pergaminhos com delicadeza. A poeira e o papel fino constatavam a antiguidade do material. Kisame e Youko se aproximaram, cada um de um lado dos ombros do Uchiha, para poder olhar as rotas.

— Sabe onde fica o esconderijo deles?

Arisa negaceou.

— Nedzu aparecia de vez em quando as reuniões ou em Hyomimura. Mas onde ele, de fato, se reúne, eu não sei. Mas não é difícil encontrar um ou dois membros por aí...

— Sabemos bem — comentou Kisame, afinal ele matara dois homens do Conclave que atacaram Arisa. — O que você acha?

Youko levantou o olhar surpresa ao notar que a pergunta do espadachim era dirigida a ela. Empertigou as costas e através do que observara desde que pisara em Yukigakure, disse:

— Eles sempre deixam rastros. Movem-se em grupos pequenos, e raramente estão sozinhos. E sempre escolhem aldeias pequenas incapazes de resistir a eles e...

— Estão infiltrados com os devotos. — Completou Itachi.

— Exato. — Youko assentiu. — Não preciso saber exatamente onde Nedzu está. Só preciso achar os cães dele primeiro e eles me levam até ele. Posso até servir como isca.

— Não. — A voz firme de Itachi reverberou, trazendo um repentino silencio ao local. — Usar alguém como isca exige que ela esteja em boas condições pra poder se defender. O que não é exatamente seu caso agora.

Youko cruzou os braços, irritada.

— Eu posso lutar!

— Pode. — Itachi concordou. — Mas não está na condição ideal para provocar um grupo que age em bando. É uma estratégia viável, mas não a primeira.

Kisame sorriu, inclinando o corpo e aproximando o rosto de Youko.

— Traduzindo: você tá meio quebrada, aprendiz de nukenin.

— Sai daqui, peixe podre. —Youko empurrou o rosto dele com a mão.

Ignorando a cena, Itachi estendeu o dedo para o mapa aberto.

— Arisa, essa rota aqui… — deslizou o dedo por uma trilha quase apagada — … ainda existe?

A idosa olhou para o local apontado.

— Existe sim, mas quase ninguém usa. Fica tomada de neve até o joelho. Só caçadores passam por ali. Pelo menos passavam no passado.

— Ótimo. — concluiu Itachi. — É discreta. Podemos usar estradas assim para nos locomover entre as aldeias e vilas, se ainda existirem no caminho... Se encontramos um grupo, tiramos informações. Com informações, chegamos até Nedzu. E com isso… chegamos até Yamato.

Youko o fitou com intensidade e assentiu. O plano estava trançado. Arisa engoliu em seco, levando a mão no peito.

— Vocês ... — olhou para os três. — tomem cuidado. E cuidem dela.

Por um instante, ninguém respondeu. Youko sentiu o peito apertar com uma sensação estranha, desconfortável. Há anos ninguém pedia que alguém cuidasse dela. Ninguém supunha que ela precisasse disso. A ideia de que Itachi e Kisame pudessem carregar esse peso por ela fez seu estômago torcer. Não queria ser um fardo para os dois.

Na verdade, a missão era dela e de Yamato. Eles dois haviam sido escolhidos para isso; os outros vieram por desvio, teimosia ou predestinação. Então, no fim, era ela quem deveria cuidar deles, não o contrário.

Quando a noite caiu, os três já estavam prontos para partir. Arisa os acompanhou até a porta, segurando a lamparina com as mãos trêmulas. A cabana, aquecida pelo irori, parecia distante do mundo que aguardava lá fora. Em meio ao branco da noite, Youko não demonstrou nenhum sinal quando a linha de sua cicatriz doeu, nem deixou transparecer seu medo de que talvez não estivesse pronta. Que talvez não conseguisse proteger ninguém. Que talvez falhasse com Yamato outra vez.