Por entre as copas altas das árvores, a claridade se infiltrava entre as folhas, numa tentativa débil de romper a opressão da floresta fechada. O trio avançava pelos galhos. As vezes paravam, breve pausas apenas para recuperar o fôlego, e logo retomavam a corrida.

Em uma das pausas, Youko saltou de galho em galho até o topo de uma conífera. O ar rarefeito queimou os pulmões quando chegou ao topo. A visão não fora das melhores. Para onde olhasse, havia apenas uma imensidão de árvores e terrenos nevados. Nenhuma vila. Nenhum sinal de movimento.

Saltou para o chão, pousando levemente e ao se aproximar dos dois, notou que Itachi já observava o entorno com atenção, chegando à mesma conclusão de Youko sem precisar subir nas árvores.

— Não há sinal de nada por quilômetros. — Disse a kunoichi. — Só mata fechada e neve.

— Essa área não eram para estar assim. — Observou o Uchiha. — Não há evidencia de nada que tenha alterado a vida selvagem desse lugar. Não tem marca de incêndios. Nem caçadores.

Kisame bufou alto, cravando a Samehada na neve.

— A gente anda há horas! Uma vila, um barraco, qualquer coisa devem aparecer em algum momento! — Reclamou. — Tô começando a ficar incomodado em ter que mijar perto dela!

Youko franziu o cenho enojada e cruzou os braços.

— E eu estou profundamente incomodada com a possibilidade de ter que enxergar seu pau microscópico no meio da neve.

Por um breve um momento houve silêncio. Kisame piscou uma vez, duas, três vezes e então explodiu em gargalhadas.

— HA! — levou a mão ao abdômen. — Cacete, essa foi boa!

Youko apenas revirou os olhos. A risada de Kisame ecoou pela floresta, quebrando a opressão do lugar. Itachi, por sua vez, desviou o olhar de volta para a trilha, mas o canto de seus lábios tinha uma curva quase imperceptível, que ele tratou de suprimir rapidamente.

— Se já terminaram — a voz de Itachi cortou a risada de Kisame, trazendo a seriedade de volta —, precisamos continuar. Ficar parados nos torna alvos.

Eles retomaram a marcha com um pouco mais ânimo. A brincadeira de Kisame e a resposta de Youko tinham quebrado uma fina camada de gelo entre eles. Continuaram por mais uma hora quando algo no chão chamou atenção de Itachi.

Ele parou de repente.

— Esperem.

Ajoelhou-se, afastando a neve com a mão. Sob a camada branca, revelou uma pedra escura, parcialmente enterrada.

— Uma lápide… — murmurou.

— E não é a única — observou Kisame, andando mais adiante.

Ele chutou a neve acumulada e expôs outra pedra lisa, marcada por símbolos antigos e desconhecidos, com uma inscrição quase apagada.

— Isso é um cemitério. — Disse ele.

Youko olhou ao redor. Não havia cercas, muros ou qualquer demarcação, apenas pedras irregulares entre as árvores. Uma tristeza profunda e ancestral emanava do local. Itachi abriu o mapa fornecido por Arisa. O ponto onde estavam era marcado por um símbolo estranho, desconhecido, mas a descoberta tornava seu significado claro.

— O mapa marca este cemitério, creio eu. E nada mais. — disse ele.

— Arisa disse que o mapa era velho — lembrou Youko. — Vilas pequenas não costumam durar muito.

Kisame fungou.

— Especialmente se algo anda matando gente por aqui.

— Se há um cemitério, há uma comunidade. Ou havia. — Concluiu Itachi, guardando o mapa.

Youko se aproximou de uma das pedras mais próximas, a mais desgastada. Passou os dedos sobre as inscrições, sentindo as ranhuras ásperas que falavam de paz e proteção para alguém há muito tempo partido. Um arrepio que não era do frio percorreu sua espinha. Havia uma melancolia pesada naquele chão, um eco de perdas que ressoava com algo dentro dela.

— Vamos seguir a trilha das lápides. — sugeriu ela, apontando para a direção onde as pedras pareciam mais concentradas. — Elas devem nos levar a algum lugar.

*

Seguiram em silêncio por mais vinte minutos, o número de lápides aumentando gradualmente, até que finalmente avistaram. Por entre as árvores, uma fina coluna de fumaça subia em direção ao céu. Logo depois, as primeiras construções de madeira escuram surgiram.

Eles pararam no centro do que parecia ser uma praça improvisada, cercada por construções cujas madeiras rangiam sob o peso da neve acumulada. Os moradores com suas compras, segurando as mãos de seus filhos e vendedores nas barracas pararam com a chegada deles. Usando os mantos sombrio da Akatsuki e Youko com capuz para ocultar o rosto, os moradores dirigiam olhares desconfiados e assombrados.

Uma das paredes de um estabelecimento estava forrada de cartazes. Movida por um impulso, Youko deixou os dois por um momento e se aproximou.

Ela encarou a imagem por longos segundos. Era uma experiência surreal ver seu próprio rosto distorcido por traços grosseiros e linhas duras. A cicatriz no pescoço fora transformada em um sulco grotesco, seus olhos desenhados com uma frieza que ela não sentia. Ainda assim, a intenção era inconfundível.

“Procurada por assassinato e terrorismo.”

— Terrorista… — sussurrou, dando um sorriso de escarnio por debaixo do capuz.

Uma sombra grande caiu sobre o cartaz.

— Nossa… — Kisame se inclinou para analisar melhor. — Te estragaram legal. Ao vivo você é mais bonitinha.

Ela lançou um olhar seco para ele.

— Isso era pra ser um elogio?

— Claro que era. — Ele apontou para o retrato. — Aqui você parece que dormiu mal por umas três semanas. Olha esse olho torto… e esse pescoço? Se eu fosse você, processava.

— Cala a boca...

— Calma, famosa. Pelo menos agora você entrou oficialmente no clube dos procurados. Deixou de ser aprendiz de nukenin. Eu tive que matar meu mestre pra tomarem coragem de imprimir um cartaz meu. O que acha, Itachi?

Youko olhou por sobre o ombro para o Uchiha. Por algum motivo, a kunoichi quis saber o que ele pensava sobre o desenho malfeito dela. Diria que pessoalmente era mais bonita?

— Ficar parados aqui não nos trará respostas — disse ele, num tom baixo que cortou o ar gelado. — Precisamos de um lugar para não sermos vistos.

Ele indicou com um leve movimento de cabeça uma construção de dois andares na extremidade da praça, um pouco maior que as outras, de onde saía a maior parte da fumaça que viram antes. Uma placa de madeira gasta balançava acima da porta, rangendo com o vento, com um desenho quase apagado que lembrava uma tigela fumegante.

— Uma estalagem ou casa de chá — observou Kisame, ajeitando a Samehada no ombro com um gesto casual que fez dois moradores recuarem aos tropeços, com medo da arma. — Espero que sirvam algo mais forte que água quente. Estou começando a criar gelo nas escamas.

O trio começou a caminhar em direção ao estabelecimento. A multidão na praça se abriu diante deles. Ninguém ousava cruzar o caminho daquelas figuras imponentes e assustadoras. Youko manteve a cabeça baixa, o coração batendo um pouco mais rápido, não por medo dos aldeões, mas por uma sensação estranha e persistente que a acompanhava desde o cemitério.

Itachi empurrou a porta pesada de madeira. O interior estava mergulhado na penumbra, aquecido por um grande fogão de pedra no centro que estalava com lenha queimando. O cheiro de ensopado ralo e cerveja barata. Havia cerca de meia dúzia de mesas, a maioria ocupada por homens de aparência rude, provavelmente lenhadores ou caçadores locais, debruçados sobre canecas.

Assim que o trio atravessou o portal, o zumbido baixo de conversas morreu instantaneamente. Todas as cabeças se viraram. Atrás de um balcão, um homem corpulento de avental sujo, que servia uma bebida, parou com a jarra no ar. Seus olhos se arregalaram ao notar as nuvens vermelhas nos mantos negros.

— Estamos... estamos sem mantimentos — o homem disse, a voz saindo mais rouca e trêmula do que pretendia. — Não podemos servir forasteiros.

Kisame deu um passo à frente, seu sorriso de tubarão se alargando na penumbra do local.

— Que falta de hospitalidade. E nós que viemos de tão longe só pelo famoso chá de... — Ele olhou ao redor, com um ar de falsa contemplação — ...deste lugar encantador. Temos dinheiro.

Ele jogou uma moeda no balcão. O som do metal batendo na madeira ecoou como um trovão.

— Queremos uma mesa no canto — disse Itachi.

O homem ponderou, olhando da moeda para o nukenin da Névoa. Com um suspiro resignado, ele pegou a moeda e apontou com a cabeça para uma mesa vazia no extremo do local. Youko se sentou de costas para a parede, Itachi à sua esquerda e Kisame à direita.

O estalajadeiro trouxe três tigelas de algo que parecia mais água turva do que sopa.

— É… o que temos.

— Já vi coisas piores — murmurou Kisame, aceitando o prato.

Os homens das outras mesas cochichavam baixo demais para serem ouvidos, mas alto o suficiente para serem notados. Olhares rápidos iam e vinham. Um deles demorou mais que os outros. Era um sujeito magro, com barba rala e roupas gastas, sentado perto da janela. Seus olhos não estavam nos mantos da Akatsuki, mas fixos no capuz de Youko.

Quando ela ergueu a tigela para beber um gole, o movimento fez o tecido do capuz escorregar, revelando uma faixa pálida de seu pescoço. Ela reagiu rápido, levando a mão ao pescoço, praguejando mentalmente seu descuido. Seu olhar, afiado pela tensão, varreu a sala e prendeu-se no homem da janela. Ele se levantou devagar, fingindo ajustar o casaco gasto, e caminhou até o balcão. Seus lábios se moveram em um sussurro rápido demais para o estalajadeiro perceber que não era sobre comida ou bebida.

— Alguém me reconheceu.

— É o que acontece quando vira uma nukenin. — Kisame disse, sem tirar os olhos de sua tigela.

Youko dardejou um olhar gélido a ele, que ignorou. Ao olhar para Itachi, notou que, mesmo comendo, ele prestava atenção na conversa no balcão. O homem de barba rala deu uma última olhada no trio, seu rosto estava pálido e então saiu.

— Não levante — Itachi disse a Youko, calmo, prevendo sua reação.

Youko puxou um pouco mais o capuz para frente.

— Vamos embora.

— Ainda não. Termine de comer.

Não demorou para a porta da estalagem abrir de supetão.

Três homens entraram, pisando forte no assoalho de madeira, trazendo consigo o ar gelado da rua. carregavam espadas curtas presas às costas.

— Guardas… — murmurou Kisame.

O estalajadeiro pareceu aliviado ao vê-los. O mais alto dos três avançou um passo.

— Recebemos denúncia de forasteiros suspeitos — disse, com voz firme, olhando diretamente para os três. — Pedimos que se identifiquem e cooperem.

— Somos viajantes. — Itachi respondeu a voz baixa, sem olha-los.

O guarda estreitou os olhos.

— Uma vila em ruínas, gente desaparecendo… e três “viajantes” aparecem do nada?

— Você! — Chamou o segundo guarda de repente, apontando o dedo para Youko. — Tire o capuz!

Todos os olhos se voltaram para Youko. A tensão, que já estava em um fio, agora se tornou um cabo de aço esticado até o limite. O estalajadeiro recuou para trás do balcão. Os outros clientes congelaram, alguns com expressões de medo, outros de expectativa.

A kunoichi manteve a cabeça baixa por um segundo a mais Seu olhar captou o movimento do terceiro guarda, que não falara nada ainda. Sua mão, discretamente, ia para um pequeno objeto às suas costas. A espada curta.

­— Tudo bem. — Ela disse, levantando as mãos em um gesto pacífico, os dedos próximos da borda do capuz. —Eu tiro.

Ela puxou o capuz para trás em um movimento lento. O que os guardas viram não foi apenas o rosto de uma mulher jovem. Viram a cicatriz pálida e distinta no pescoço. Viram os olhos frios e determinados. E, por um segundo, viram a expressão no rosto de Itachi, que agora os observava com a impassibilidade de um juiz da morte.

Foi o suficiente.

—É ela! Pegue...

Ele nunca terminou a ordem. Itachi se moveu primeiro.

Um instante ele estava sentado, no seguinte, estava de pé entre a mesa e os guardas. Sua mão esquerda agarrou o pulso do guarda que ia para a espada, torcendo com um movimento seco e preciso. O som de um osso rangendo foi abafado pelo grito sufocado do homem.

Kisame não ficou para trás. Ele ainda estava sentado, mas sua perna chutou a mesa para frente com força bruta. A pesada mesa de madeira voou como um projétil, atingindo o guarda que apontara para Youko no peito e arremessando-o contra a parede com um baque surdo.

O líder, recuperando-se do choque, desembainhou sua própria espada curta com um grito de raiva.

— Assassinos!

Ele atacou Itachi, uma estocada rápida direto ao coração. Com um movimento que parecia despreocupado, ele desviou a lâmina com a parte de metal de seu shuriken, que apareceu em sua mão de repente, e então chutou a lateral do joelho do guarda. O som de algo se partindo foi horrível. O guarda caiu, gritando.

A luta durou menos de um minuto e três guardas estavam no chão: um com o pulso quebrado, choramingando; outro atordoado e com prováveis costelas fraturadas contra a parede; e o líder, com o joelho deslocado, rangendo os dentes de dor e fúria impotente.

A estalagem estava em silêncio absoluto, exceto pelos gemidos dos homens.

— Patético. O Conclave ao menos manda gente que sabe segurar uma arma.

Youko permaneceu em seu lugar, observando a cena. Ela não havia precisado mover um músculo. Itachi e Kisame haviam neutralizado a ameaça com uma eficiência brutal e assustadora.

— Vamos sair daqui. — disse Itachi.

Mas assim que botaram os pés para fora, notaram que a pacata e desconfiada vila havia mudado. As poucas lanternas que ainda ardiam foram apagadas simultaneamente por uma rajada de vento sobrenatural, mergulhando a praça na penumbra cinzenta da tempestade de neve que se avizinhava.

— Eles estão aqui… — murmurou Kisame.

Itachi ergueu o olhar para o céu encoberto.

— Cuidado!

O aviso veio junto com o ataque. Do meio das nuvens baixas, lanças de gelo negro começaram a cair, cortando o ar com um assobio mortal. Não eram feitas da pureza cristalina do gelo natural, mas de algo corrompido, denso, carregado de chakra hostil.

O primeiro impacto explodiu contra o chão da praça, erguendo uma nuvem de estilhaços congelados. O segundo teria atravessado Youko. Itachi se moveu antes que ela pudesse reagir. Ele a puxou pelo braço com força, a prendendo contra seu peito, girando o corpo para usar suas costas como escudo, enquanto Kisame brandia a Samehada em um arco largo, as estilhaçando.