Itachi soltou Youko com cuidado, empurrando-a para suas costas. Em posição de defesa, a kunoichi perscrutou o local em alerta, procurando a origem do ataque. O trio sabia que vinha acima deles, ou nos telhados à frente, ou das copas das árvores onde começava a floresta.

O braço direito de Youko pulsou quando outro ataque veio. Ela saltou para trás no mesmo instante em que uma fina lança de gelo se cravou no chão onde estivera segundo antes, estilhaçando-se em cristais cortantes.

— Aparece! — Rugiu Kisame, sua voz ecoando entre as árvores. — Venham receber surra de verdade!

E eles vieram. Homens em trajes cinzas saltaram dos galhos para os telhados. Em segundos, uma dúzia deles os cercava. As armas refletiam a luz pálida: lâmina curvas feitas de gelo solido, lanças com pontas cristalinas, agulhas translucidas presas aos pulsos.

— O Conclave cumprimenta os ilustres viajantes — disse uma voz suave e arrastada vinda de trás da linha de atacantes. Um homem mais velho, de cabelos grisalhos e olhos azuis, avançou. Não carregava arma alguma. Suas mãos estavam cruzadas atrás das costas. — É imenso prazer finalmente conhecê-la, Yukiryuu Youko.

Youko encarou o desconhecido, seus dedos fechando-se com força nas mãos. O chakra reagiu contra sua vontade. Por um instante, o ar ao redor dela estalou, formando uma película fina de gelo que rachou sob os próprios pés.

— Yukiryuu? — ela repetiu, a palavra saindo como um cuspe. — Não sabia que o Conclave tinha intimidade o suficiente para me apelidar. — Ela inclinou a cabeça, um movimento lento e deliberado. — Mas já que você gosta tanto de nomes… como prefere ser chamado? Cachorro? Lacraia?

O sorriso fino do homem não se desfez, mas seus olhos se estreitaram.

— Tão jovem e tão amarga... A linhagem de Tomoe perdeu a elegância.

— Sorte minha não ser da linhagem dela. Mas sei ser educada — Ela deu um passo à frente, o queixo erguido. — Você veio me cumprimentar pessoalmente. Que honra. Mas não me disse seu nome. Ou o Conclave acha que morrer anônimo dói menos?

Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso, e bateu palmas.

— Brava! Como era de se esperar da última herdeira. Mas hoje não é dia de matar. É dia de colher.

Com apenas um gesto mínimo com a cabeça, o ataque foi começou, coordenado e brutal. Metade dos homens carregou contra Kisame, tentando sobrepujá-lo com números, enquanto outros lançavam uma saraivada de agulhas de gelo em Itachi, forçando-o a se defender. E três dos mais ágeis se lançaram diretamente sobre Youko, suas lâminas buscando incapacitá-la, não matar.

Youko lutou. Seu gelo contra o gelo deles. Ela congelou o braço de um, espetou o pé de outro com uma estalactite que surgiu do chão. Mas cada vez que suas técnicas colidiam, ela sentia um pouco de sua força ser drenada pelas armas utilizadas pelos inimigos. O líder apenas observava, seus olhos de gelo analisando cada movimento dela, como um cientista observando um experimento.

Kisame, cercado, começou a rir. Seus golpes de taijutsu eram agressivos e pesados. Os gritos de seus oponentes eram horripilantes ao terem ossos quebrados e órgãos danificados.

— Isso! Agora sim! — Exultava o nukenin da Névoa.

Itachi era um fantasma. Ele se movia entre os agulhões de gelo, desviando, contorcendo-se, seu shurikenjutsu perfeito cortando tendões e mãos. Mas mesmo ele estava sendo forçado a recuar, a se afastar de Youko, pressionado pela quantidade de ataques dirigidos a ele.

Foi então que o líder agiu. Enquanto Youko desviava de um golpe e congelava a perna de outro, ele simplesmente apareceu atrás dela. Não houve som. Foi como se ele se reconstituísse a partir do frio do ar.

Suas mãos se fecharam em torno de seus pulsos. O toque foi como ser mergulhada em um lago eletrizado. Uma dor excruciante e penetrante percorreu seus braços, seguida por um vazio terrível. A "fome" dentro dela gritou, mas não de desejo, mas sim de terror. Ele estava selando o fluxo, congelando-o em suas próprias veias, criando uma prisão de gelo dentro de seu próprio corpo.

— Chega de brincadeiras, criança. — A voz dele veio em seu ouvido.

Youko tentou desvencilhar, mas cada mínimo movimento lhe causa dor. Suas pernas cederam. Ela viu Itachi, a uma distância, seus olhos escarlates se arregalando de uma fúria cega que ela nunca vira antes. Ele se lançou em sua direção, ignorando uma lança de gelo que rasgou seu manto, mas dois homens do Conclave se jogaram em seu caminho, sacrificando-se para detê-lo por um segundo crucial.

Viu Kisame rugir, tentando abrir caminho até ela, mas uma parede de gelo espessa e súbita surgiu do chão, cortando seu avanço.

O líder a envolveu em um abraço profano. O mundo ao redor dela se distorceu, as cores esmaecendo para tons de azul e branco. O som dos combates ficou abafado, como se ouvido debaixo d'água.

— Muito agradecido pela visita de vocês, colegas — a voz do líder ecoou.

Itachi parou no local onde ela estivera instantes antes, sua respiração visivelmente ofegante. Seu punho estava cerrado com tanta força que gotas de sangue pingavam de sua palma onde as unhas a haviam perfurado.

Kisame arrombou a parede de gelo com um único golpe da Samehada, que agora parecia zangada e faminta. Ele olhou ao redor, para os corpos caídos e a ausência gritante.

— Porra! — Rosnou. — Eles a levaram.

**

Youko abriu os olhos com dificuldade, sendo cegada pela luz branca que vinha de cima. Sua nunca ardia de dor do golpe que levara a deixara inconsciente. O cheiro forte de álcool e desinfetante invadiu suas narinas, fazendo a cabeça latejar e o nariz arder. Quando tentou levar a mão ao rosto, sentiu o choque frio de metal nos pulsos. Estava presa. Não por cordas, mas por braçadeiras de aço que envolviam seus pulsos e tornozelos, fundidas à própria maca onde estava deitada

Olhou ao redor alarmada. A sala onde se encontrava era inteiramente metálica, do chão ao teto, e sem janelas. As paredes eram lisas demais, polidas a ponto de refletirem sua imagem distorcida. Seu braço direito latejava com uma dor profunda. Sem as bandagens para protegê-lo, conseguia ver as sequelas do Shimon no Kechigan: veias azuis correndo por toda sua pele.

Youko tentou forçar os pulsos e as braçadeiras reagiram numa explosão de luz.

A dor que se seguiu veio com uma convulsão interna, uma sensação de mãos invisíveis esmagando a estrutura do corpo de dentro para fora, triturando articulações, rachando medula, moendo nervos. O corpo de Youko arqueou contra as amarras num espasmo violento, os músculos contraindo-se sem controle. O grito que saiu foi horrível. O ar lhe foi arrancado dos pulmões. As veias azuladas de seu braço pulsaram grotescamente, inchadas. Pontos negros invadiram sua visão, dançando em círculos caóticos, enquanto um gosto metálico se espalhava em sua boca.

— Não lute, Yukiryuu Youko... — a voz arrastada do homem ecoou pela sala. — O metal de que essa cadeira é feita foi forjado para supressão de chakra. Quanto mais você resistir, mais rápido ele drenará sua força vital. E não é isso que queremos, certo?

Quando a dor finalmente cedeu, ela ofegou, o peito subindo e descendo em movimentos curtos. Lágrimas quentes escorriam por suas têmporas, infiltrando-se nos cabelos. Ela não sabia quando tinha começado a chorar. Não importava.

Tentou novamente, não com força bruta, mas com um fino fio de vontade, tentando produzir uma película de gelo, minúscula, entre sua pele e o metal.

Youko soube que gritava, mas não ouvia sua própria voz. Apenas a sensação horrível de seu corpo sendo estraçalhado por dentro

— Tsc.Tsc. Tsc... —A voz comentou, sem emoção. — Que teimosia.

Youko tremia e lutava para respirar, para suportar a dor, quando uma seção da parede a sua frente, que parecia perfeitamente lisa, deslizou para o lado sem um som. O homem de cabelos grisalhos entrou. Em seus olhos pálidos, Youko via não crueldade sádica, mas uma curiosidade intensa e desapegada, como a de um cientista estudando um inseto raro.

— Uma qualidade admirável, se não fosse tão autodestrutiva.

— Vai... se... Foder! — Ela cuspiu as palavras entre respirações quebradas, entre os lábios e garganta secas, com o gosto de sangue na boca.

Ele arqueou levemente as sobrancelhas.

— Que boca suja. — balançou a cabeça, num falso desapontamento. — Minha avó dizia que mulheres educadas não usam palavras feias. Ela ficaria profundamente decepcionada com as de hoje em dia. — Então fez uma pequena mesura teatral. — Meu nome é Shiro.

Parou ao lado da maca, tocando de leve o metal com dois dedos.

— E, por favor, tente não se debater tanto. Esta estrutura foi projetada especificamente para suprimir chakra como o seu. — inclinou-se, aproximando o rosto do dela. Seus olhos azuis claros engoliam os dela. — Se insistir… seus próprios canais vão começar a queimar por dentro. E o cheiro não costuma ser… agradável.

Youko o encarou. Seus olhos castanhos, inchados pelas lágrimas, ainda guardavam uma brasa. Pequena, mas acesa.

— Você... fala muito... — ela conseguiu dizer, cada palavra um esforço. — Pra quem... vai... morrer.

O sorriso de Shiro vacilou por um instante.

— Engraçado — ele murmurou, endireitando-se. — A maioria das cobaias perde o senso de humor depois da primeira sessão.

— Não sou... sua cobaia.

— É exatamente o que é. — Ele se afastou, pegando uma prancheta que estava sobre uma superfície lisa. — Yukiryuu Youko. 20 anos. Última portadora conhecida do Shimo no Kechigan. Órfã, criada pelo avô, falecido há... — ele consultou a prancheta como se lesse um cardápio — ... seis anos. Ninja de Konoha. Procurada por assassinato, terrorismo e... — ele ergueu os olhos — ... associação com a Akatsuki. Seu currículo é impressionante. Uma pena que esteja do lado errado da mesa.

— O lado... errado... — Youko riu, um som rouco e quebrado que terminou em tosse. — Você tortura pessoas... e fala em lado errado?

Shiro a observou com a cabeça inclinada, como um pássaro estudando uma minhoca.

— Não torturo. Experimento. Há uma diferença.

— Qual?

— A intenção. — Ele se aproximou novamente, mais devagar desta vez. — A tortura busca causar dor. O experimento busca conhecimento. A dor é apenas... um efeito colateral. Às vezes inevitável.

Ele tocou o braço dela novamente, onde as veias azuis pulsavam fracamente sob a pele.

— Seu corpo é um livro, Youko. Um livro escrito em uma língua que achávamos perdida, mas de repente ficamos sabendo de sua existência. Um milagre! O retorno de Tomoe, alguns disseram. — Com o dedo contornava as veias de seu braço. — Durante anos, acreditamos que a linhagem de Tomoe havia morrido com ela. E então, do nada, um relatório. Uma kunoichi de Konogakure condenada à forca. Diziam que era apenas mais uma usuária de Hyōton, dessas que surgem de vez em quando em linhagens bastardas. Mas eu insisti. Eu pedi mais informações.

Ele ergueu os olhos para encontrar os dela, e pela primeira vez Youko viu algo diferente naquelas pupilas claras. Não era apenas curiosidade. Era fascinação. A mesma que um colecionador teria ao encontrar uma peça única.

— Você não é apenas mais uma usuária de gelo, Yukiryuu. Seu sangue... — ele apertou levemente o braço dela, sentindo o pulso — ...seu sangue é puro. Direto da fonte. Os mesmos marcadores, os mesmos padrões, a mesma assinatura que Tomoe deixou gravada no gelo do santuário.

Youko sentiu o estômago revirar. O que ele dizia? Que santuário?

— Você sabe o que isso significa? — Shiro continuou, a voz agora mais animada, mais humana. — É uma continuidade. Um fio que atravessa décadas, que sobreviveu à extinção do clã e chegou até você. — Ele soltou o braço dela e deu um passo para trás, os braços abertos num gesto quase teatral. — Você é um milagre, Youko! E eu tive a sorte e a honra de ser o primeiro a estudá-la.

— Honra — Youko repetiu, a palavra saindo como um cuspe. — Me prender numa cela e me torturar... isso é honra para você?

Shiro inclinou a cabeça, o entusiasmo não diminuindo.

— Você não entende. E não espero que entenda. Para você, isso é dor. Para mim, é descoberta. Informações preciosas que vão nos ajudar a compreender a natureza do Shimo no Kechigan.

Youko como ele gostava de falar, de explicar, de se vangloriar. Notou como cada pausa era calculada para dar peso às palavras. Notou como os olhos dele brilhavam não apenas com inteligência, mas com a necessidade de ser reconhecido como inteligente. Ela guardou essa informação. No fundo do peito, junto com o ódio, junto com a promessa de vingança, ela guardou cada pequena falha que descobria nele.

— Você já imaginou o que pode fazer com esse poder? Não apenas criar gelo, mas controlar o frio absoluto. Paralisar inimigos. Congelar o tempo e o espaço. Tomoe chegou perto disso. Mas você... você pode ir além. Se nos deixar ajudar.

— Ajudar. — Youko riu, um som seco e amargo. — Vocês querem me usar pra destruir tudo, isso sim. — Seus olhos vagaram pelo local. — Onde está a arma?

Shiro deu um sorriso e canto, cruzando os braços.

— O nosso querido trunfo está em vários lugares, mas o principal, que usaremos em você, está na capital te aguardando.

Ele estendeu a mão para um pequeno carrinho metálico ao lado da maca. O ranger suave das rodas soou alto demais no silêncio da sala. Sobre a bandeja, agulhas longas, seringas vazias e uma cheia e pequenos frascos rotulados com símbolos que Youko não conhecia.

— Mas chega de conversa, quero saber que segredos suas células contam...

A primeira agulha se aproximou de seu braço direito, onde as veias azuis eram mais proeminentes. Youko lutou contra as algemas novamente, ignorando a dor lancinante, o brilho sufocante. Era inútil. O metal apenas a prendeu com mais força.

— Assim você só vai se machucar...

Ele se inclinou, preparando o braço dela para a agulha com a eficiência de quem já fez isso centenas de vezes.

— Ele vai matar todos vocês — Youko sibilou.

— Ah, o Uchiha? —Ele deu de ombros despreocupado, o que fez o sangue de Youko ferver ainda mais. — Talvez. Mas esta instalação está a quilômetros sob a terra, protegida por camadas de gelo e aço. Ele pode vir. Talvez até chegue perto. Mas para cada passo que ele der em nossa direção... — ele pressionou levemente a agulha, apenas o suficiente para ela sentir a ponta — ...nós aprenderemos mais sobre você. E quando ele finalmente chegar... — a agulha perfurou a pele — ...você já não será mais a mulher que ele conheceu.

Youko viu seu próprio sangue começar a fluir pelo tubo transparente, preenchendo a primeira seringa com uma lentidão cruel. Shiro observava, fascinado.

— Lindo — ele sussurrou, mais para si mesmo do que para ela. — Nunca vi nada igual. O brilho, a viscosidade... é arte, Youko. Seu sangue é arte.

Ela quis responder. Quis cuspir, xingar, ameaçar. Mas as palavras não vieram. A exaustão, a dor, a violação de ter seu sangue retirado, tudo se acumulou num nó na garganta que impedia qualquer som além da respiração ofegante.

Ele ergueu a primeira seringa cheia contra a luz, admirando o conteúdo como avaliaria um pergaminho raro.

— Quando terminarmos aqui, esse sangue vai para a capital. Vai alimentar o núcleo. E você... — ele baixou a seringa, olhando para ela com aquela expressão de cientista diante de um espécime único — ...você vai ter contribuído para algo muito maior que sua própria existência.

A segunda seringa encheu. Depois a terceira. Youko perdeu a conta depois da quarta. Mas notou quando houve a troca de frascos vazios por um com líquido branco.

— Descanse agora, Yukiryuu. Seu corpo vai precisar de energia já que teve a infeliz decisão de se mexer muito. Amanhã, tentaremos algo mais profundo... — Deu uma piscadela.

O líquido branco começou fazer efeito imediato ao entrar em contato com o sangue. Youko não sentiu sono, o que teria sido uma benção naquele momento. Sentia que apagava aos poucos.

A dor foi a primeira a desaparecer. Não diminuiu aos poucos, simplesmente deixou de existir, como se nunca tivesse estado lá. Depois, seus braços deixaram de doer. Depois, parou de senti-los. O formigamento subiu pelo peito, pelos ombros, pelo pescoço. Seu corpo estava se tornando uma coisa distante, uma carcaça que não lhe pertencia mais.

Então, nada.