Gelo e Cinzas
20 Cativeiro
Notas iniciais
Não havia vestígios de Youko em lugar algum. Era como se houvesse evaporado. Sua existência suspensa do mundo. Em contrapartida, a do Conclave, se procurasse bem, encontrava membros em cada vila e aldeia. Mas, para fúria de Itachi, a grande maioria parecia os novatos do bando, ordenados a proteger ou tumultuar os lugares pobres e longe da vista do shogun.
— EU NÃO SEI! — O grito estridente e doloroso veio seguido de uma pancada crua e, então, silêncio.
Kisame abriu a mão que agarrava o pescoço do homem, que caiu como um saco mole no chão. O rosto estava desfigurado pelos punhos do nukenin da Névoa. Equimoses e inchaços o deixaram irreconhecível, mas a roupa dele era tão reconhecível quanto o manto preto com nuvem vermelha dos dois. Era ninja do Conclave.
Descobriram por acaso que um casebre, na divisa entre a vila onde foram emboscados com a floresta, servia como uma espécie de “esconderijo”. As armas deixadas para trás e até peças de roupa indicavam isso. Vigiaram o local até a chegada de alguma pessoa, seja ela civil ou não, prontos para fazer perguntas e exigir respostas.
— Bem, os gritos deu a entender que ele não sabia pra onde levaram ela. — Kisame disse, sacudindo a mão que tinha alguns respingos de sangue. — Pelo jeito, esse aqui era um novato ou algum tipo de batedor.
Itachi deu de ombros. O que aquele homem era ou o que deixará de ser não importava a ele. Importava ter um norte para seguir.
Ao dar as costas para o morto, sua visão captou um movimento estranho na janela quebrada do local. Caminhou até ele, e ao olhar para fora ouviu um grito infantil sendo abafado. Agachado debaixo da janela, havia uma criança embrulhada em roupas de frio e com um gorro marrom na cabeça. Ela estava com a mão na boca e olhava aterrorizada para o Uchiha, que deu de ombros a sua existência.
— Vamos embora daqui. — Disse a Kisame.
Ao saírem, passaram pela criança ainda agachada na neve, amedrontada demais para se mover. Seus olhos, grandes e infantis, os seguiram.
Já estavam mata a dentro, sentindo o poder do frio de Yukigakure com seu vento afiado, mas tentando ser indiferente a ele e a presença inocente que os seguia desde o casebre. Então Itachi parou primeiro, Kisame logo atrás mas nenhum dos dois viraram para trás para confrontar quem ousava os seguir.
— Vai continuar nos seguindo? — A voz de Itachi soou alta e fria.
Não houve resposta. Calmamente, ele então se virou. A sua frente havia apenas a neve branca, suas pegadas e as árvores altas, mas escondido atrás de um dos troncos sabia que havia uma criança.
Foi a vez de Kisame virar. De braços cruzados, ele exigiu:
— Saia! — Sua voz soou retumbante.
Então pôde ser ouvido um lamurio assustadiço e, devagarzinho, surgiu um gorro marrom e um rosto pálido atrás de uma árvore.
— Quer morrer, criança? — Kisame deu um sorriso sinistro.
Assustada, a criança voltou a se esconder detrás do tronco. O nukenin da Névoa bateu o pé com força na neve. Se sua intenção era afugentá-lá, não deu certo. Respirando fundo, ela saiu detrás do tronco e timidamente arrastou os pés até estar o que considerara uma distância boa dos dois. Uma distância que desse para correr e se embrenhar na matar.
Itachi notou o quanto a criança estava pálida. As mãos sem luvas estavam azuis e tremiam violentamente, mas não sabia se era de frio ou de medo.
— Eu... Eu...
— É gago? — Kisame perguntou ríspido.
Encolhendo-se de medo, a criança balançou a cabeça, negaceando.
— Por que está nos seguindo? — Itachi perguntou. — Aquele homem era seu parente?
Kisame deu um sorriso irônico.
— Acho que ele veio buscar vingança, Itachi.
Mexendo os lábios para tentar falar, novamente a criança negaceou.
— Então o que você quer?! — Gritou Kisame.
A reação da criança ao grito de Kisame foi encolher mais ainda. Abaixou a cabeça e cerrou os olhos com força, como se temesse levar uma surra.
— Eu... Eu vi... — Balbuciou. — Não! Eu ouvi! A mulher que estava com vocês… — Ele levantou a cabeça, os olhos grandes e infantis os mirando com pavor. — Quero ver ela. Por favor, me levem até ela!
O silêncio que caiu sobre o local era pesado. O semblante impassível de Itachi tornou-se sisudo. Uma aura cruel vinha dele, Kisame sentia.
— A mulher — continuou a criança. — do cartaz... Eu... Ouvir dizer que ela estava com vocês. Por favor.
Os Nukenin trocaram um breve olhar. A criança os olhava com grande expectativa, os olhos brilhando.
— Fomos atacados ontem à noite. Como ouviu sobre ela, mas não sobre o ataque?
Ele encolheu os ombros.
— É que… não é a primeira vez… que tem ataques por aqui…Mas foi a primeira vez que falaram dela aqui na vila! Meu vizinho contou. Ele estava no bar na hora e viu vocês… Por favor, quero ver ela!
Algo no pedido da criança tocou no fundo de Itachi, pois seria o mesmo que faria se alguma identidade salvadora existente. Também quero vê-la, pensou.
— Ela não está aqui — Itachi disse, a voz baixa.
A expectativa nos olhos infantis sumiu no mesmo instante em que o brilho de seus olhos sumiram.
— Por que você quer saber dela? — Perguntou Kisame.
A criança engoliu em seco.
— Ouvi dizer… que ela pode ser a reencarnação de Tomoe... E achei que... Achei que se eu a levasse para o santuário ela me abençoaria. — Respondeu. — Minha avó dizia que Tomoe encheu as pessoas de bênçãos quando era viva. Que todos tinham saúde e dinheiro. Que Yukigakure era a aldeia mais segura. — Ele falou tudo isso muito rápido.
Itachi franziu o cenho. Quanto mais se entrava nas entranhas de Yukigakure mais ouvia lendas sobre um clã que de cura e benção não tinha nada.
— Merda! — Praguejou Kisame. — Youko nunca falou nada sobre isso! Então além de sobrevivente de um clã extinto, ela é rica?! — Itachi revirou os olhos.
— Que santuário é esse?
— O santuário de Tomoe. — Respondeu como se fosse a coisa mais óbvia. — Não conhece?
Novamente os dois se entreolharam. Um santuário dedicado a Tomoe. Conheciam os devotos que peregrinavam pela região, espalhando esperanças falsas sobre um futuro inexistente, mas nunca souberam de um templo. Sequer Arisa, a líder dos devotos, comentara isso a eles, ou a Youko, supunhava.
— Sabe o que é o Conclave? — A criança aquiesceu a pergunta de Itachi. — E eles sabem da existência desse lugar? — Novamente aquiesceu.
— Nos leve até lá então. — Disse Kisame. Ao notar que a criança parecia hesitar. — Precisamos ver o lugar antes da nossa amiga — completou ele, com um sorriso enviesado.
A criança abriu a boca como se a justificativa fizesse o total sentido. Então correu pela neve, acenando para os seguissem. Itachi e Kisame foram logo atrás.
*
O imaginário de um santuário que Itachi tinha era que todos seguiam um padrão de arquitetura, com portais vermelhos, caminhos de pedra, edifício de madeira e incensos queimando por todos os lugares, semelhante àquele do Distrito Uchiha. Mas as duas pedras verticais escrito “Aqui Jaz” em frente a um buraco escancarado no chão não parecia um santuário. Parecia uma cova.
Itachi parou alguns passos de distância, os olhos percorrendo todo local. Notava-se levemente uma escada de madeira no buraco, cristalizada pelo gelo.
— Isto não é um santuário — Seu cenho estava franzido ao falar. — É um túmulo.
— É um santuário, sim! — A criança bateu o pé, ofendida. — É um lugar sagrado! Importantíssimo! — Então sua voz diminuiu. — Mas não dar pra entrar...
— Como não? — Kisame se aproximou da borda, esticando o pescoço para ver melhor. — Tô vendo uma escada aqui.
A criança deu dois passos curtos, cautelosos, e esticou o pescoço também.
— Está tudo congelado aí dentro. A escada também está, se você olhar bem. Não é todo mundo que consegue descer e voltar sem ter um dedo ou uma orelha queimada. — Ergueu a cabeça e fitou os dois. — Dizem que Tomoe está lá embaixo.
O olhar dos dois se encontraram imediatamente. Arisa informara que Tomoe fora a última pessoa que usou o Shimon no Kechigan, levando parte do clã com ela enquanto outra era massacrada por Konoha. No entanto, jamais pensou em encontrar ou estar diante do suposto local em que a líder do clã Yukiryuu, agora adorada quase como uma deusa pelos devotos, estivesse ali debaixo de seus pés. E Youko não estava ali para ver isso.
— Tem coragem de entrar nisso aí? — Kisame indagou. Itachi estava com o pé pronto para pisar no primeiro degrau congelado.
Tal como o nukenin, a criança o olhava com curiosidade. Descer era perigoso. Era um caminho quase sem volta. Os homens que vira descer diziam coisas estranhas, como a existência de monstros, de sons e cheiros estranhos que causavam alucinação e de que Tomoe estaria em algum lugar lá embaixo, mas não era certeza, pois não aguentavam o frio de uma geladeira que jamais dera indícios que derreteria.
Itachi sentiu o peso daqueles olhares sobre ele.
— Tenho.
**
A luz nunca se apagava. Era sempre branca, fria e invasiva. Youko perdera a noção de quantas vezes acordara naquela sala metálica e quantas vezes fora apagada. O tempo não existia ali, eram apenas ciclos de dor e silêncio.
A parede deslizou com um som suave, e Shiro entrou com as mãos atrás das costas e um largo sorriso no rosto.
— Como está minha querida companhia? — Cantarolou, olhando-a de cima a baixo. — Acho que uma cama confortável a faria dormir melhor. Mas você não vem se comportando bem para merecer, não é mesmo.
Os olhos exangues de Youko miraram os de Shiro. Seus lábios brancos e rachados não se moveram para responder, mas o ódio que ardia respondia por ela.
— Nada a dizer hoje? — Ele inclinou a cabeça, fingindo surpresa. — A última vez que acordou, me chamou de monstro. E de filho da puta, também. E de várias outras coisas criativas. Estou quase decepcionado com seu silêncio.
Nenhuma reação, apenas o som irregular da respiração dela. Shiro a observou por alguns segundos… e então seus olhos brilharam, interessados.
— Sabe o que mais me fascina em você, Yukiryuu? — Ele se endireitou, começando a circular ao redor da maca. — Sua resistência. Tenho que elogiar o ótimo treino que Konoha deu a você. Com certeza devem sentir orgulho. — Então deu um sorriso cruel, diminuindo o tom de voz. — Não. Não é? Não sentem nenhum orgulho. Tenho certeza que devem se perguntar como deixaram uma Yukiryuu viva!
Youko não esboçou nenhuma reação. Não mexeu um menor músculo em seu rosto. Guardava força e energia, pois uma hora ou outra Shiro iria vacilar e se preparava para esse momento.
— Que bom que tem amigos. Ou será só indivíduos que estão cumprindo uma missão e que, infelizmente para eles, não podem voltar sem você? Por que o que seu amigo anda fazendo só pode ser isso. Pois duvido que de fato algo daquela pocilga se importe com você de verdade.
Youko não conseguiu permanecer parada ao Shiro terminar de falar. Ela ergueu um pouco a cabeça com o cenho franzido.
— Itachi...? — Sua voz soou fraca e rouca.
— Ah, Esse não. — Shiro fez um gesto deliberado com a mão, como se afastasse uma mosca. — O outro.
Os olhos de Youko, antes turvos pela exaustão e ódio, dilataram com uma intensidade repentina. A palavra de Shiro cortou a névoa de dor e desorientação como uma lâmina. O outro.
Yamato.
Um tremor diferente percorreu seu corpo, não de dor ou calor, mas de uma emoção pura e crua. Alívio. Esperança. Sentiu lágrimas se formarem em seus olhos, mas resistiu o suficiente para não deixar transbordar.
Shiro sorriu, vendo a reação dela.
— Ah, que comovente! Quer ver seu amigo, é? Ele perguntou por você, sabe? Inúmeras vezes. Até parar. — A pausa foi calculada para que ela preenchesse os espaços com os piores cenários. — Ele é… resistente. E diferente de você, estou louco para matar ele!
— Onde… está ele? — a pergunta saiu em um sussurro rouco.
— Perto. Muito perto, infelizmente. E, francamente, está sendo um pé no saco. —Ele começou a circular novamente, gesticulando as mãos enquanto falava. — Seu amigo... destruiu um esquadrão inteiro. Sozinho. Usando aquela madeira amaldiçoada dele. — Shiro parou, virando-se para encará-la. — Você sabia que ele pode criar florestas inteiras do nada? Eu sabia, tecnicamente. Mas ver é outra história. Ele está procurando por você, é claro Tem sido bastante... vocal sobre isso. Grita seu tempo todo. "Youko! Youko, onde você está?" Coisas assim. Muito dramático. Quase comovente.
A informação explodiu na mente de Youko como um raio. Seu coração doía ao passo que acelerava. Ele está me procurando.
Ele não era uma vítima. Não era um prisioneiro. Yamato estava lutando e procurando por ela. O alívio foi tão intenso que por um segundo ofuscou toda a situação que se encontrava. Shiro percebeu a mudança. Viu o brilho que voltava aos olhos dela, os lábios que se separaram ligeiramente para sorrir. E algo em sua expressão endureceu.
— Ele é teimoso — Shiro continuou, sua voz agora carregando irritação. — E caro. Matou alguns de nossos melhores. Gente que levou anos para treinar, anos para preparar. Gente que não pode ser substituída! —Ele se aproximou, parando ao lado da maca, olhando para ela. — Mas você sabe o que isso significa, não sabe? Quando ele finalmente chegar aqui, se chegar... não vai encontrar você. Vai encontrar uma recepção preparada. Vai encontrar homens com sede de sangue. Com sede de vingança. E vai morrer tentando salvá-la. É até romântico. Muito romântico, na verdade. Muito trágico. Muito…
Não terminou a frase. Porque Youko reuniu o pouco de força que lhe restava: cada gota de energia, cada centelha de ódio, cada fragmento de orgulho que ainda queimava em seu peito e cuspiu em seu rosto.
A saliva o atingiu em cheio, escorrendo lentamente por sua bochecha. Shiro ficou estagnado, mudo. Youko não queria ouvir a voz irritante de Shiro. Não queria ouvir suas ameaças, suas provocações, suas palavras envenenadas. Queria ver Yamato. Queria vê-lo são e salvo. Seu rosto pálido, marcado por hematomas e cortes, ganhava cor com a esperança que ardia em seu peito. Seus olhos, antes turvos, agora brilhavam com uma intensidade que desafiava a dor.
Por outro lado, Shiro ficou imóvel por um longo segundo, com os olhos arregalados de incredulidade. Ninguém fazia aquilo. Ninguém tinha coragem de fazer aquilo. Ele era Shiro, o braço direito de Nedzu, o homem que quebrava vontades como quem quebravam galhos.
E aquela mulher, aquela casca vazia de gente, acabara de cuspir em seu rosto. Lentamente, Shiro levou a mão ao rosto, sentindo a umidade. Olhou para os próprios dedos molhados como se não reconhecesse o que via. Seu rosto, antes uma máscara de civilidade e controle, começou a se desfazer Youko esboçou um leve sorriso ao vê-lo aturdido. Um sorriso de triunfo.
Sem aviso, sem contenção, seu punho atingiu o rosto de Youko com uma força que vinha de algum lugar primitivo e cruel.
A cabeça dela foi para o lado com a violência do impacto, a nuca batendo contra o metal da maca num baque surdo que ecoou pela sala. E então veio o choque.
A corrente elétrica disparou a, ativada pelo movimento brusco, e seu corpo arqueou involuntariamente. Os músculos se contraíram em espasmos violentos, as mãos acorrentadas se fechando em punhos, os dedos dos pés se encurvando. O gosto metálico do sangue inundou sua boca instantaneamente, quente e salgado, misturando-se ao gosto de queimado que agora impregnava sua língua.
O choque cessou tão rápido quanto começou, mas seu corpo continuou tremendo, os dedos ainda crispados, os dentes rangendo contra a força que já não estava ali.
Por um momento, sua visão tornou-se um borrão de luzes brancas e sombras dançantes. Os ouvidos zumbiam, um som agudo e constante que abafava todos os outros. A dor explodiu em seu rosto como fogo, irradiando da maçã do rosto para toda a cabeça, descendo pelo pescoço, encontrando-se com o eco elétrico que ainda percorria seus membros.
Mas ela não emitiu um único som de dor.
Shiro estava transfigurado. O cientista elegante e foi devorado por algo hediondo. Ele ofegava, o peito subindo e descendo em espasmos, enquanto limpava o rosto com as mãos trêmulas. A saliva de Youko em sua pele parecia queimá-lo mais do que fogo.
— Você é um resto de nada, Youko! — ele rosnou, a voz saindo entre dentes, gutural, quase animalesca.
Sua mão livre agarrou o queixo dela com uma força brutal, os dedos pressionando a pele, forçando-a a erguer o rosto machucado e encará-lo.
— Sabe o que vou fazer com você? Não vou te matar rápido. Não merece isso. — Ele soltou o queixo dela de repente, deixando a cabeça dela cair para o lado. — Primeiro vou arrancar essas unhas. Uma por uma. Depois vou quebrar seus dedos. Só para ver quanto tempo leva até você implorar.
O rosto dela permaneceu imóvel. Os olhos, fixos nele, brilhavam com algo que não era medo. Era promessa. Era um lembrete silencioso de que, se ela sobrevivesse àquela noite, seria ele quem imploraria.
O punho de Shiro se ergueu novamente, as juntas brancas de tensão, vibrando com a promessa de um impacto que provavelmente terminaria de por quebra o rosto de Youko.
Fale com o autor