Gelo e Cinzas

23 O Que Restou


Naquele ano parecia que o inverno que sobreveio em Konoha não era normal. O mais rigoroso em décadas, diriam os mais velhos. O preço de muitos produtos essenciais havia aumentado, as crianças não eram mais vistas nas ruas brincando. A academia de Konoha também havia suspendido suas aulas para os estudantes e genins em locais abertos. A neve acumulou no chão de tal forma que cobria os calcanhares.

Os shinobis que não fossem designados para missões, ajudavam na limpeza da rua junto aos civis. Nas telhas das casas, na distribuição de lenha e nos cuidados dos idosos que moravam sozinhos.

Entretanto, mesmo com o frio cortante que doía os ossos, a vila oculta se preparou para o festival de inverno. Bandeirinhas foram penduradas na rua mesmo que em minutos ficassem cobertas de neve. Lanternas de papéis também resistiam com muito esforço ao frio. As barracas foram montadas e desta vez as máscaras e badulaques não seriam as mais vendidas, mas sim comida e bebidas quentes.

Itachi observava o chão fofo enquanto andava pelas fileiras de barracas. Nada ainda chamará sua atenção. Pretendia levar um presente a Sasukes que, pequeno demais, a mãe não o deixará participar da festividade. Shisui andava ao seu lado. O Uchiha carismático era cumprimentado por todos.

— Uma pena não vender sakê por aqui — Shisui disse olhando para cada barraca, curioso com o que estava à venda. — Não faria mal uma garrafa aquecida e alguns bolinhos.

— Deixou de gostar de chá? — Itachi o olhou de viés com um sorriso brincando nos lábios. — Soube que está indo muito na casa de um certo idoso só para tomar chá.

Shisui olhou de esguelha, esbanjando um sorriso cúmplice. Suas bochechas estavam levemente coradas, mas Itachi não saberia dizer se era do frio ou da insinuação.

Seu amigo estava apaixonado. Isso a Itachi sabia há muito tempo, embora Shisui tivesse demorado para contar. O descanso das missões, a queda brusca de temperatura e o festival de inverno coincidiu com o dia que Shisui finalmente iria apresentar a dona de seus sonhos.

— Ela vai gostar de você — disse Shisui de repente, a voz suave, quase sonhadora. — Tenho certeza.

Itachi ergueu as sobrancelhas.

— Como pode ter tanta certeza?

— Você verá.

Itachi balançou a cabeça, mas o sorriso não desapareceu de seus lábios. Shisui parou de andar, e Itachi fez o mesmo, seguindo o olhar do amigo.

Então a viu.

Perto de uma barraca de doces, o rosto iluminado pelas lanternas de papel que balançavam ao vento. Usava um Kimono rosa, cachecol e luvas de pelo. Os cabelos pretos estavam presos com delicados ornamentos de flores, e suas bochechas estavam rosadas.

Shisui a observava como se ela fosse a luz de um farol.

— É ela — disse, a voz soando diferente. — A Youko.

Itachi olhou para o amigo e viu o sorriso que se abria em seu rosto, a forma como seus olhos brilhavam. Era o mesmo brilho que via quando Shisui falava dela. Mas agora era mais vivo. Real.

Isso é amor? Pensou.

— Vamos — disse Shisui, já andando em direção a ela. — Quero te apresentar.

Itachi o seguiu, os passos deixando pegadas na neve. Enquanto andava não pode deixar de olhá-la mais uma vez. O Kimono claro, os pelinhos do cachecol de cor bege, as luvas delicadas que seguravam o palito de dango entregue pelo vendedor.

Parece uma boneca de neve, pensou Itachi, e o pensamento veio com uma estranha ternura.

O rosto de Youko se iluminou de um jeito que fez algo apertar no peito do Uchiha. A dor da compreensão que o sorriso não era para ele. Que pertencia a alguém. Que pertencia a seu melhor amigo.

— Shisui!! — Ela chamou com a voz animada.

— Dormiu em pé?

Itachi despertou de seus devaneios ao vê-la à sua frente agora com roupas mais confortáveis e de seu tamanho. Não era um kimono claro, sequer usava cachecol e luvas, mas o rosto machucado com um band -aid sobre o corte na bochecha. Os lábios tinham alguns cortes, mas estavam mais rosados e bonitos e o que fez pensar o mesmo de anos atrás: Parece uma boneca de neve.

— Itachi? — Chamou ela novamente. — Está bem?

Sua costumeira expressão voltou ao rosto.

— Não é nada — garantiu o Uchiha e passou a andar. — Vamos. Quanto mais cedo formos, mais cedo voltaremos.

Youko o acompanhou jogando o capuz de seu manto sobre a cabeça, embora não houvesse necessidade do uso dentro da casa.

— E para onde vamos? — perguntou. —O certo era nos organizarmos para atacar de vez o Conclave. E procura Yamato,

Itachi a olhou por sobre o ombro, e Youko entendeu o que o olhar dele quis dizer.

— Estou melhor! — Protestou. — Melhor mesmo! Sabemos onde eles estão, então podemos atacar.

Itachi não respondeu. Ajudou Youko a descer as escadarias que, apesar de afirmar categoricamente que estava bem, não conseguiu esconder a dor ao pisar no primeiro degrau.

A casa era grande para os padrões de uma vila de Yukigakure. Modesta de móveis, as madeiras da casa eram bonitas, tais como as divisórias de shoji. Tanaka estava na sala, sentado sobre uma almofada, na companhia de Kisame. Era um homem idoso, de cabelos e barbas grisalhas.

— Espera! — Alarmou Kisame assim que os viu no batente, se desfazendo de sua pose preguiçosa. — Ela não precisa descansar?

Tanaka deixou o copo de chá sobre a bandeja e olhou o Youko de cima a baixo com o ar crítico.

— Concordo com seu amigo. — Ele levantou-se com esforço. — Deve cuidar dos seus ferimentos primeiro.

Youko deu um breve sorriso e se curvou em agradecimento.

— Obrigada, senhor Tanaka. Desculpa causar tanto incômodo.

Ele fez um gesto com a mão.

— Que incomodo? Seus amigos me ajudaram quando fui atacado. Pena que não trouxeram meus cavalos de volta… — Voltou a se sentar com um suspiro. — Levará um bom tempo até conseguir novos…

Youko olhou para Itachi por debaixo do capuz. Os cavalos atrelados à carroça fugiram do frio que ela produzirá na hora. Com sorte, estariam vivos. Na pior e mais comum das hipóteses, estariam mortos pelo frio.

— Pelo menos sente e coma alguma coisa. — Ofereceu o anfitrião.

— Seu neto levou comida pra mim.

— Ah, ele não é meu neto! Mas é um bom garoto. Gostou dele? Se quiser, ele pode ser seu servo.

Youko franziu a sobrancelha.

— Esqueça isso! — reclamou Kisame. — Ela é boazinha demais.

— Boazinha? — Youko arqueou uma sobrancelha, lançando-lhe um olhar enviesado. Estava pronta para retrucar algo pior, mas a presença de Tanaka a conteve. Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios. — Pelos menos não cheiro a peixe podre.

Houve um silêncio, com Tanaka olhando de um para o outro; Então, Kisame riu.

— Bom te ter de volta.

Youko deu de ombros e voltou a atenção ao anfitrião da casa.

— Agradeço novamente, senhor Tanaka. Com licença.

Youko virou nos calcanhares, seguindo Itachi para fora da casa. Antes que pudessem chegar ao vestíbulo, Haru veio correndo em direção a eles.

— Você vai levar ela lá? — Perguntou, com os olhos brilhando de expectativa para o Uchiha. — Posso ir junto com o senhor?

— Não. — A resposta de Itachi foi seca.

A kunoichi olhou de um a outro, sem compreender.

— Que lugar é esse?

— O santuário de Tomoe! — Haru respondeu em um grito empolgado. — Eu queria levar a senhorita primeiro lá. Assim… assim… você poderia me abençoar…

Duas informações estranhas fizeram Youko arquear as sobrancelhas. Primeiro: santuário. Shiro havia mencionado algum relacionado a santuário, mas não imaginava a ligação dele a Tomoe. Os devotos ergueram para ela…, pensou. Patético.

Segundo: abençoar?

— Eu… hã… Não abençoou ninguém. Mas… — voltou-se para Itachi. — Há problema se ele for?

— Sim. — Abriu o Shoji que dava para o pátio de entrada e saiu.

Youko deu um sorriso amarelo. Embora os olhos do menino ainda brilhassem, Youko sabia que ele foi magoado. Levou a mão ao rosto dele.

— Não vamos demorar… Quando voltar, pode me falar um pouco sobre você?

Ele aquiesceu, boquiaberto, incapaz de emitir um som. Quando Youko tirou a mão de seu rosto pequeno, Haru levou os dedos onde os dela tocaram. Aquela parte do seu rosto ficou fria, como se tivesse acabado de deitar na neve. Os dedos dela são gelados. Seus olhos marejam vendo-a fechar o shoji. Ela me abençoou!

*

Do lado de fora, o sol estava alto o suficiente e escondido por detrás das nuvens para dourar a neve sem aquecê-la. Youko ajustou o capuz e caminhou ao lado de Itachi em silêncio. O Uchiha falará pouco desde que deixaram a casa, perguntando apenas se Youko se sentia bem ou se algo doía. Sua resposta era que estava bem, embora os tornozelos reclamassem.

— O cientista do Conclave — começou Youko puxando assunto. — falou sobre um santuário. Será que está conectado com o da aqui?

Itachi olhou Youko por sobre o ombro e permaneceu um tempo em silêncio.

— Talvez.

Youko estranhava o silêncio do Uchiha. Parecia distante, perdido em pensamentos que ele não compartilharia e ela respeitou. Havia um alívio quieto em simplesmente estar viva ao lado dele. E havia algo no modo como ele havia ficado dois dias sem dormir ao lado de sua cama que dispensava qualquer confirmação do que ele sentia.

O som da vila foram deixados para trás quanto mais adentravam na floresta. Embora o vento ali fosse forte e balançava os galhos das árvores, o silêncio reinava ali.

Quando por fim chegaram ao local, Youko ficou decepcionada pelo o suposto santuário ser um buraco no chão com duas pedras o ladeando.

— Isso não é um santuário! — Protestou.

Itachi esboçou um leve sorriso de lado.

— Foi o que falei na primeira vez. Mas… de certa forma, é.

Youko observou a escada que levava para baixo e o gelo que a contornava. O frio ambiente nunca a havia incomodado, só o causado pelo seu próprio chakra, mas o que vinha daquele buracão lhe causou arrepios.

— Isso não é normal — murmurou, se agachando e estendendo os dedos para o gelo. Afastou a mão com brusquidão ao sentir não só o membro físico gelar, mas a alma também. — Que horror.

Itachi, de pé ao lado, observava sua reação em silêncio.

— Lá embaixo está congelado também. — Disse, com a voz baixa, agourenta. — Aquele garoto, o Haru, disse que quem entra não aguenta a temperatura.

— É bizarro — pôs-se de pé, estendendo a mão para que Itachi a puxasse. — É tão frio! Isso não é gelo formado por décadas de neve e ar gelado. O que é isso, Itachi?

Os olhos ônix encararam o abismo com pesar.

— Agora um mausoléu. — Respondeu, após um instante de silêncio. — Antes o esconderijo mais seguro de Tomoe.

Youko piscou desorientada. Tomoe? Esconderijo?

— O que?

— Há corpos lá embaixo.

— Corpos? — Franziu o cenho. Sua mente ficou presa na palavra, tentando encaixá-la no lugar, mas ela escorregava. — Corpos de quem? .

— Homens. Mulheres — continuou ele. — Crianças. Shinobis. E… — Seus olhos encontraram o de Youko — Tomoe.

A kunoichi não pode deixar de se espantar enquanto Itachi lhe contava o que havia debaixo daquele buraco. Mas a última — Tomoe — a fez ficar como se não pertencesse ao mundo. Como se ouvisse um zumbido em seu ouvido. Um vidro embaçado em seus olhos. Um aperto em seu coração.

— Espera — disse, e a voz saiu menor do que pretendia. — Você entrou?

Ele aquiesceu.

— Por quê?!

— Precisava ver o que tinha dentro. Isso também tem a ver com a história de Konoha.

Youko mexeu no cabelo. Respirou fundo. Andou dois passos para um lado, dois para o outro, como se o movimento pudesse organizar o que estava sentindo.

— Você acha… — Seu peito doía. — que é ela? Que é Tomoe de verdade?

— Acredito que seja.

Youko ficou em silêncio. Mordeu os lábios. Então o fantasma que perseguia desde que porá os pés naquele país finalmente teria um corpo. Um rosto. Um lugar no mundo que não era lenda nem devoção.

— Eu quero ver — murmurou, após um instante. — Quero ver com os meus próprios olhos.

Itachi aquiesceu. Desceram com cautela, ele na frente, os degraus cobertos por uma crosta cristalina que rangia sob o peso de cada passo. O frio ali embaixo era de outra natureza. Era algo parado, comprimido, como se o ar tivesse sido congelado junto com tudo mais e nunca mais tivesse circulado. Youko apertou o manto contra si.

Se ela, que era imune ao frio, sentia aquilo na alma, Itachi sentia duplamente.

— Itachi — chamou ela e notou a fumaça que saía de sua boca ao falar. — Se quiser, volte. Eu consigo ir sozinha.

Ele não virou. Apenas disse não e seguiu em frente.

Entraram no primeiro cômodo. Mesmo com a pouca luz, Youko viu. Havia um amontoado próximo à parede que brilhava levemente como cristal, e emitia um frio que ela sentiu antes de chegar perto. Quando se aproximou, o que pensava ser pedra ou entulho tomou forma.

Uma mulher. Agarrada a uma criança pequena. Congeladas no último instante. A mulher com o corpo dobrado sobre a criança, os braços fechados ao redor dela num gesto que sobreviveu ao tempo e ao gelo. A criança com o rosto escondido no peito da mãe. Dois rostos que Youko não conseguia ver completamente. E ficou grata por isso.

Itachi passou por eles em silêncio e indicou uma porta ao fundo. Ao cruzá-la, entraram numa câmara onde o gelo tomava tudo com uma perfeição sobrenatural. Corpos de civis e ninjas de Konoha estavam presos no tempo, seus rostos congelados em expressões de desespero e combate.

Caídos no chão com as mãos abertas, os dedos ainda agarrando armas que não haviam chegado a usar. Dois homens congelados no meio de um movimento de fuga, os corpos inclinados para frente como se ainda tentassem correr. Uma mulher de joelhos, o rosto erguido para o teto, a expressão de quem gritou uma última vez e não foi ouvida. A expressão de um homem que havia olhado para trás no último segundo. Os dedos de uma mulher ainda fechados ao redor de uma lâmina que não chegou a desembainhar.

— Você acha que foi ela? — perguntou, sem desviar os olhos do menino. — Tomoe.

— É possível. — Itachi parou diante de um ninja de Konoha. — Pelas roupas, são do tempo da Primeira Guerra Ninja.

Youko não respondeu, mas o olhar que dirigiu ao shinobi de Konoha era cruel. Eles haviam vindo até aqui. Até este lugar escondido, no fim de uma trilha que ninguém usava, atrás de pessoas que só queriam sobreviver.

— Achei que tivesse sido em Hyoomura — Murmurou. — Não aqui, tão longe de tudo.

— Provavelmente ela deve ter fugido com alguns membros pra cá, enquanto outros ficaram por lá. Era uma boa estratégia.

Era, Youko pensou.

Itachi entrou na câmara seguinte na frente e, por alguns instantes, permaneceu bloqueando a passagem. Youko esperou, sem entender, até que ele se afastou lentamente e lhe deixou passar.

Então ela viu.

Ali, cercada por pessoas de mãos dadas, estava uma mulher de longos cabelos prateados, sentada no chão e de olhos fechados. Sua expressão era tão serena que parecia dormir.

Olhar aquilo fez os olhos de Youko marejarem e ela não soube por quê. Não havia razão lógica para chorar diante de uma mulher morta há décadas que ela nunca conhecera. E ainda assim o peito apertou de um jeito que doeu.

— Tomoe — sussurrou Youko, a voz embargada. — Ela congelou todos eles...

A kunoichi se aproximou devagar, os olhos arregalados, as mãos trêmulas. Ela caiu de joelhos. Ela era linda. E jovem. Mais jovem do que Youko havia imaginado.

Não havia semelhança nenhuma entre as duas, nenhuma linha familiar óbvia, mas Youko não esperava isso. Estavam separadas por gerações. E, ainda assim, um vínculo inexplicável as unia. Um chamado silencioso no sangue. A fome que consumiu Tomoe e a fome que a Youko despertou.

Desviou o olhar para os outros rostos ao redor. Um por um. Cada pessoa sentada naquela roda, cada figura de mãos dadas, congelada no ato final. Eram homens e mulheres com feições suaves, olhos fechados como se ainda esperasse algo. Crianças abraçadas aos joelhos dos pais. Anciãos com expressões serenas, aceitando o destino dado por uma mulher mais jovem.

E todos usavam o mesmo símbolo. O dragão mordendo a cauda, gravado em pingentes, mantos, bandanas. O brasão do clã Yukiryuu.

— Todos... — murmurou, num fio de voz. — Todos são do meu clã...

Ela olhou em volta, como se esperasse que alguém abrisse os olhos. Que um deles se movesse, que dissesse: “Você chegou. Estamos aqui.” Mas nada. Só o som do próprio coração batendo cada vez mais alto em seus ouvidos.

— Por que eu? — sussurrou. — Eu nem os conheci. Eu não vivi com eles. Eu cresci em Konoha... — As palavras saíam trêmulas, mas não de frio. — E agora vocês me deixam isso? — Ela virou-se para Tomoe, o rosto contorcido em dor.

Ela curvou o corpo sobre os joelhos, a testa encostando no chão gelado. E ali, no centro daquele santuário de almas silenciosas, Youko chorou. Chorou pelo que havia sido perdido antes que nascesse. Pelo avô que sobreviveu carregando um silêncio enorme e nunca explicou o tamanho dele. Pelo clã que existiu e foi parar num buraco no chão de uma floresta esquecida. E chorou por aquela mulher jovem e serena que havia decidido que morrer era um preço justo pelo que havia feito.

Youko permaneceu curvada por longos minutos, o peito arfando em silêncio. Itachi se aproximou , pondo a mão sobre o ombro dela, com solidariedade. Ela não se virou. Não havia força pra isso. Mas também não recuou.

— Você não precisa fazer isso sozinha — disse Itachi, por fim. A voz baixa, quase um sussurro, como se não quisesse profanar aquele santuário de silêncio com palavras demais. — Sei como é olhar para rostos que não respondem…

Youko ergueu os olhos devagar, o rosto ainda molhado. Ela encarou o homem à sua frente. Não o Uchiha e nem o nukenin. Só ele.

— Quando você olha pra eles — disse, a voz falha — ...você também se pergunta se teria sido melhor morrer com eles?

Itachi não respondeu imediatamente. Seus olhos brilharam à luz pálida do gelo. E então, com um gesto lento, ajoelhou-se ao lado dela.

— Todo dia.

Itachi estendeu a mão com lentidão e, com dois dedos, afastou os fios de cabelo que caiam sobre o rosto de Youko. Ela não se afastou. Encostou a testa no ombro dele, os olhos fechados, permitindo-se, por uma vez, ser só uma garota em luto. E Itachi a envolveu, deitando sua cabeça sobre a dela.

Naquela câmara de gelo, entre mortos que nada mais podiam dizer, dois vivos dividiam o mesmo peso.