Gelo e Cinzas
24 Fica Comigo
Saíram do mausoléu em silêncio. A neve continuava a cair com a mesma indiferença de antes, alheia aos corpos presos no gelo sob o solo. Youko andava à frente desnorteada, presa nos cenários que sua mente criava onde o avô jamais tinha saído de Yukigakure. Onde jamais o Segundo tinha atacado o clã.
Itachi a seguia logo atrás, observando os passos dela à espera do momento em que tropeçasse e voltasse a debulhar em lágrimas.
De repente ela parou.
— Eu não deveria estar viva — sua voz soou arrastada, os braços pendendo ao lado do corpo como se pesasse muito. — Era pra eu estar lá com eles.
— Você? — A voz do Uchiha soou alta contra o vento. Ele arqueou as sobrancelhas, se aproximando devagar do lado dela. — Há uma diferença de duas gerações entre você e eles.
— E daí? — Ela se virou, abrindo os braços em gesto de indignação. Os olhos vermelhos e inchados, mas secos. — Sou a última porque todos os outros estão mortos. Eles tinham rostos, Itachi! A criança junto da mulher... Ela não tinha mais que cinco anos. — Encarou os olhos ônix de Itachi. — E Tomoe tinha a minha idade…
— Você não viveu aquilo…
— Não, mas estou viva por causa disso! — Respondeu ríspida. — Meu avô fugiu e sobreviveu. Fui criada em Konoha sem saber um terço do que houve aqui. — Então levou a mão ao braço direito, onde as veias azuis começavam a ficar esmaecidas, onde a fome que um dia a tomou tinha dormido. — E olha só como isso terminou.
— O que aconteceu aqui não é culpa sua.
— Não disse que era. — Retrucou.
— Mas falar como se fosse.
Youko abriu a boca para responder, mas fechou em seguida. Baixou o braço e virou o rosto para o lado, para as árvores cobertas de neve, longe dos olhos de Itachi.
— Eles tinham vidas — murmurou. — Antes de Tomoe decidir por eles, tinham vidas. Aquela criança devia correr. Devia ter fome de coisas boas. Devia rir de coisas sem graça.
Itachi suspirou pesadamente, mexendo os ombros.
— E isso não tem nada a ver com você.
Ainda olhando para as arvores, para neve que acmulava em seus galhos e folhas, perguntou:
— Você acha que o que veio depois do que Tomoe fez foi melhor?
— Não — disse, após um instante em silêncio. — Mas ela não sabia disso.
Não. Youko também concordava. Nada de bom veio da decisão de Tomoe e isso a deixou convicta de que, sim, tinha que terminar o que ela não concluiu.
Instintivamente levou a mão ao pescoço. Os dedos encontraram pele e a roupa emprestada, e não o colar dado por Shisui. O estômago caiu antes que pudesse conter a reação, os dedos tateando o peito como se o colar pudesse ter escorregado para algum lugar.
— Está comigo — disse Itachi, afastando o manto e mexendo no bolso da calça. — Eu guardei.
Youko parou de tatear. Os ombros desceram devagar, aliviada.
— Como você...
— Estava no bolso da sua calça. — Uma pausa curta. — Guardei depois de tirar suas roupas molhadas.
Os olhos dela se ergueram para ele num reflexo imediato, surpresa atravessando seu rosto cansado. Itachi havia tirado suas roupas. A ideia deveria constrangê-la ou irritá-la. Mas havia acordado viva, aquecida e livre das correntes. Então apenas deu de ombros, cansada demais para se importar.
**
O retorno para a casa de Tanaka foi silencioso. A empolgação de Haru ao receber Youko de volta não trouxe alegria a ela, e seu semblante distante foi percebido pelo garoto.
— A senhorita… não gostou de ver o santuário? — Haru perguntou, sua voz perdendo o tom animado e soando de forma preocupada.
A kunoichi parou. O rosto gentil que Haru virá mais cedo se transformará em outro; pesado, tenso, sombrio. Não era mais a descendente de Tomoe, mas uma shinobi fria.
— Não chame aquele lugar de santuário novamente — ela ordenou com uma autoridade que fez o menino dar um passo atrás, os olhos arregalados. — Nunca mais.
Quando a noite veio, Youko comeu rapidamente a comida preparada por Tanaka. A sala estava em silêncio, o clima pesado, os olhos da kunoichi sombreados. De supetão, pôs-se de pé, levou as tigelas até a pia e ficou ali por um momento com as mãos na borda, olhando pela janela a neve que caia.
— Amanhã saímos — decretou, de costas a eles.
Kisame, que brincava com a ponta de um palito de dente enquanto observava o fogo, parou o movimento.
— Amanhã? — Kisame soltou uma risada baixa, desprovida de qualquer humor. — Você mal consegue ficar de pé sem se apoiar nas paredes.
— Eu não pedi permissão, Kisame. Eu avisei. — Virou-se para eles. — Yamato está em algum lugar entre aqui e a capital. Precisamos encontrá-lo antes de chegar ao Conclave.
Kisame apoiou o queixo na mão.
— E depois?
Os olhos que encaravam Kisame eram pesados e opacos, sem resquício algum de esperança apenas a certeza de quem já fez as pazes com o próprio fim
— Vou acabar com todos eles.
— Todos eles — repetiu Kisame, devagar. — Incluindo você?
Youko não respondeu, mas seu silêncio falou mais do qualquer outra palavra poderia ter dito.
— Descansem — disse ela, por fim,virando nos calcanhares. — Amanhã sairemos cedo.
**
O quarto estava frio quando ela subiu. Sentou na beirada da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos fixos no chão de madeira. Levou a mão ao pescoço e fechou os dedos ao redor do colar. Shisui. Logo nos encontraremos.
O som da porta sendo aberta não surpreendeu Youko, que manteve os olhos baixos.
— Seu quarto é o do lado, caso o frio tenha apagado sua memória. — Disse ela.
— Você sabe o que o sua kekkei genkai cobra — Itachi disse sem cerimônias.
Youko ergueu a cabeça, olhando para os olhos ônix no rosto impassível de Itachi.
— Sei.
— E você já decidiu pagar. Por conta própria. — O silêncio dela o incomodou. — Youko.
— Você me trouxe de volta. — Disse. — Me ajudou inúmeras vezes. Eu serei eternamente grata por tudo, mas — pôs-se de pé. — Já fez demais.
— Não acho.
— Eu sou a última Yukiryuu e o Conclave precisa acabar. Todo o Conclave. De uma vez. — Respirou fundo. — Você sabe que eu sou a única que pode fazer isso.
— Sei. — Ele não recuou. — E sei que há uma diferença entre usar seu jutsu e não se importar de voltar.
O silêncio entre os dois foi longo. Youko desviou os olhos primeiro.
— Talvez eu esteja cansada demais para me importar.
— Mentira.
Youko cruzou os braços,
— Por quê?
— Você se importa com Yamato. Até com Kisame. Com Konoha. — Seus olhos encontraram os dela. — E se importa comigo.
O peito dela apertou.
— Isso não muda nada.
— Muda tudo.
Youko soltou uma risada amarga.
— Você viu o que tinha lá embaixo. Então sabe que isso precisa acabar.
— E desde que saímos daquele mausoléu você fala como alguém que já morreu. — Ela abriu a boca para responder, mas não encontrou nada. — Você acha que deve alguma coisa àqueles mortos.
Youko enfiou as unhas nos braços e virou o rosto, sem coragem de encarar Itachi.
— Vai transformar a própria vida em uma oferenda para pessoas que jamais pediram isso de você? — Continuou. — Tomoe fez uma escolha. E agora você está prestes a cometer o mesmo erro.
— Você não entende. — Murmurou Youko.
— Entendo mais do que gostaria. — Respondeu Itachi, e havia algo em sua voz que a fez olhar para ele.
O semblante impassível deu lugar a um semblante sentido, de sobrancelhas franzidas, de olhos brilhando com algo que ela nunca vira antes. Não era de raiva ou de pena. Era dor.
Era a dor de quem carregava o peso de um irmão que não podia salvar, de um clã que não podia proteger, de um mundo que não podia consertar.
— Youko... — A voz de Itachi saiu suave. — Eu não quero perder você.
Foi contra sua vontade que seus olhos marejaram. A confissão a pegou de surpresa e no fundo compartilhava o mesmo sentimento. Ela queria poder dizer o mesmo. Queria poder abrir a boca e dizer "eu também não quero perder você, Itachi. Eu também quero viver. Eu também quero acordar amanhã e todos os dias depois disso." Mas se abrisse a boca, choraria copiosamente todo o choro que guardava.
Ela não queria perder mais ninguém. Não queria ficar sozinha. Nunca mais estar sozinha.
Então separou a distância dos dois com duas passadas rápidas e o beijou. Um beijo impulsivo, desajeitado. Os dedos dela agarraram a frente da roupa dele enquanto seus lábios encontravam os dele numa tentativa muda de fazê-lo parar de falar.
Por um momento, Itachi ficou imóvel, como se o beijo o tivesse pego desprevenido, como se o corpo não soubesse o que fazer enquanto a mente ainda processava.
A imagem dela tomando banho na cabana voltou à sua mente como um relâmpago: a pele desnuda, a água escorrendo, as costas marcadas por cicatrizes que imaginara seguir com a língua. Mas não devia e não daquele jeito. Não quando ela falava como quem já se despediu da vida.
Delicadamente, Itachi a afastou. As mãos fecharam-se nos braços dela, pondo distância o suficiente para que ele pudesse olhar nos olhos embriagados de desejo e nos lábios vermelhos.
— Youko… — havia hesitação em sua voz e agradeceu por estar usando o manto. O tecido escondia o que seu corpo traía.
Ela se aproximou novamente, indiferente a hesitação dele e beijou sua mandíbula. Itachi fechou os olhos ao sentir os lábios dela em sua pele. A respiração de Youko era quente contra seu pescoço, contrastando com o frio que parecia sempre acompanhá-la.
— Fica comigo hoje — pediu ela, a voz baixa.
O pedido atravessou todas as defesas dele com uma facilidade cruel. Não era desejo apenas, Itachi percebeu isso imediatamente. Havia medo ali. A necessidade desesperada de não terminar aquela noite sozinha com os próprios pensamentos.
As mãos dele ainda seguravam os braços dela, mas a firmeza inicial vacilou.
— Youko… — repetiu, mais baixo dessa vez.
— Eu só… — a voz falhou por um instante. — Só não quero ficar sozinha hoje.
O peito dele apertou. Ele também não queria ficar sozinho. Nos últimos anos, ele estivera mais só do que jamais imaginara. As missões, a Akatsuki, o peso do que fizera conspirava para isolá-lo, para convencê-lo de que o afeto era uma fraqueza que não podia mais permitir. Sua única companhia era a tosse que não cessava e os pensamentos que não calavam.
Ela voltou a beijá-lo. Os lábios deslizaram por sua mandíbula até encontrarem os lábios dele novament. Itachi cedeu antes mesmo de perceber.
O movimento foi mais brusco do que pretendia. As mãos dele encontraram a cintura dela, puxando-a contra seu corpo. Sentiu sua forma, o calor que escapava pelas camadas de roupa. O beijo mudou imediatamente, mais profundo, mais faminto, carregado de tudo o que ele tentará conter desde a cabana de Arisa, desde os dias ao lado da cama dela, desde o instante em que acreditou tê-la perdido na neve.
Youko arfou contra sua boca ao senti-lo finalmente responder. Os dedos dela subiram até seus cabelos, desfazendo alguns fios negros enquanto o puxava ainda mais para si.
Os corpos dos dois gritavam por toque, por calor. Gritavam por alguém que os visse não como shinobis, não como ferramentas descartáveis e armas mortais, mas como humanos sensíveis. Como alguém que merecia ser tocado com cuidado, com carinho, com desejo.
O corpo de Youko ardia. Cada lugar onde ele tocava era um foco de calor, uma pequena explosão que se espalhava pela pele, descendo pela espinha, concentrando-se no baixo ventre. Fazia tanto tempo que tocara alguém assim.
— Itachi — sussurrou ela, os dedos descendo para a borda do manto. — Tira. Por favor.
Ele hesitou apenas um segundo, mas obedeceu. O manto preto com nuvens vermelhas caiu no chão com um som pesado, e a camisa escura que ele usava por baixo ficou aberta sobre o peito. Youko viu a pele pálida, as cicatrizes, as linhas dos músculos. Seus dedos percorreram o peito dele, descendo devagar, sentindo cada marca, cada curva, cada lugar onde a pele era mais fina.
— Você é bonito — disse ela, e a palavra pareceu pequena demais para o que ela sentia. Os dedos dela desceram para a cintura dele, tateando a borda da calça. — Quero você.
— Youko...
— Por favor.
Ele não resistiu. A camisa caiu no chão, e ele ficou nu da cintura para cima. Youko tocou cada centímetro com os olhos primeiro, depois com os dedos. O peito. Os ombros. Os braços. As cicatrizes.
— Sua vez — disse ele, a voz rouca.
Ela não hesitou. O manto caiu no chão. Depois a camisa e a calça. E então ela estava nua diante dele, sob a luz da lamparina, com os hematomas de Shiro ainda escuros em seu rosto, as marcas de agulhas nos braços, as marcas do Shimon Kechigan no braço direito e as queimaduras nos pulsos e nos tornozelos.
Itachi prendeu a respiração. Ela era linda. Ele observou tudo: o peito pequeno, os mamilos escuros, a curva da cintura, o triângulo escuro entre as pernas e sentiu a boca secar.
— Você é linda — disse ele.
— Eu sei… — Deu um sorriso de canto.
Itachi a beijou novamente, mais fundo, a língua encontrando a dela num ritmo que oscilava entre a fome e a delicadeza. As mãos dele percorreram o corpo dela. Ele sentiu a pele dela arrepiar sob seus dedos, sentiu os mamilos endurecerem quando suas mãos passaram por ele, sentiu o gemido que ela abafou contra sua boca.
As mãos dela também exploravam. Desceram pelo peito dele, pelos músculos do abdômen, e pararam na borda da calça. Os dedos dela brincaram com o cós, tateando, provocando.
— Tira — sussurrou ela contra os lábios dele.
Ele tirou. A calça caiu no chão ao lado do manto, e ele ficou nu diante dela. O membro dele estava ereto, duro, apontando para ela. Youko olhou e não desviou os olhos. Viu o tamanho, a forma, a maneira como ele tremia ligeiramente e também sentiu a boca secar.
— Deita — pediu ele.
— Me deita você.
Ele obedeceu, tomando-a no colo. A cama rangeu sob o peso dos dois quando ele a deitou suavemente, o corpo dele pairando sobre o dela. O cabelo escuro de Youko se espalhou sobre o travesseiro como um leque, e seus olhos estavam fixos nele.
Inclinou-se e beijou o ombro dela, onde uma cicatriz antiga marcava a pele. Depois o pescoço, onde a marca da forca ficará cravada. Depois os peitos, os lábios encontrando o mamilo, sugando suavemente, sentindo-o endurecer sob a língua.
Youko arqueou as costas, os dedos se enroscando em seus cabelos, puxando-o para mais perto.
Ele desceu. Beijou o estômago dela, a pele macia sob o umbigo, a linha fina de pelos que descia. Ela tremeu quando a língua dele encontrou os ossos do quadril, quando os dentes roçaram a pele sensível.
— Itachi... — ela gemeu, o nome dele saindo como um suspiro.
Ele chegou ao destino. A boca dele encontrou o centro do prazer dela, e ela gritou um som abafado, surpreso, que ele engoliu com os lábios. A língua explorou, lambeu, sugou, encontrou o ponto que a fazia se contorcer sob ele.
— O que você está... — ela não conseguiu terminar. As palavras se perderam em um gemido quando ele fez algo com a língua que a fez ver estrelas.
O corpo dela arqueava sob ele, as mãos apertando seus cabelos, as pernas se abrindo para dar-lhe mais acesso. Fazia tanto tempo. Tanto tempo desde que alguém a tocara assim. Tanto tempo desde que ela se permitira sentir tanto.
Quando ela chegou ao limite, seu corpo tremeu. Ela chamou o nome dele e ele sentiu o gosto dela em sua língua, quente e doce.
Ele subiu de volta ao longo do corpo dela, beijando cada centímetro de pele pelo caminho. Quando chegou ao rosto, ela estava ofegante, os olhos brilhando, as bochechas coradas.
Ela o puxou para um beijo, sentindo o próprio gosto na boca dele.
— Quero você — pediu, contra os lábios dele. — Quero sentir você dentro de mim.
Ele se posicionou sobre ela, os braços apoiados ao lado da cabeça dela, os olhos fixos nos olhos dela. O membro dele roçou a entrada, molhado, pronto. E entrou. O corpo dela o recebeu como se sempre soubesse, como se estivesse esperando. Fazia tanto
tempo para os dois que o simples ato de se conectarem parecia um milagre.
Youko arqueou as costas, os dedos se cravando nos ombros dele, a respiração saindo em espasmos irregulares. Ele sentiu o aperto, o calor, a forma como ela se ajustava a ele.
Ele esperou quando ela pediu, moveu-se quando ela implorou. O ritmo começou lento, quase preguiçoso, e foi aumentando aos poucos, conforme os corpos se lembravam do que fazer, conforme os gemidos ficavam mais altos, conforme o prazer subia como maré alta.
Quando ela chegou ao limite novamente, o corpo dela se apertou ao redor dele, as pernas tremendo, os dedos se cravando em suas costas. Ele sentiu o orgasmo dela como uma onda, sentiu o próprio corpo responder, sentiu o aperto que o puxava para o abismo.
Ele se enterrou fundo, o rosto enterrado no pescoço dela, os dentes roçando a pele, e se deixou ir. O prazer veio como uma explosão. Ele gemeu um som rouco, gutural, que parecia vir de algum lugar fundo, de um lugar que ele não sabia que existia.
Ficaram assim por um longo momento, os corpos ainda conectados, as respirações lentamente voltando ao normal. Itachi rolou para o lado, puxando-a contra seu peito.
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